miniaturadaimagem|Trabalhadores nas obras de um trapiche num dos rios da colônia em 1925 A colônia penal de Clevelândia operou de 1924 a 1926 no extremo norte do Brasil, fronteiriço à Guiana Francesa, atualmente no distrito de Clevelândia do Norte, Amapá. Ela foi instalada no "Núcleo Colonial Cleveland", colônia agrícola fundada em 1922, e recebeu de 946 a 1 630 prisioneiros, tanto inimigos do governo Artur Bernardes (revoltosos tenentistas, militantes operários e anarquistas) quanto presos comuns (criminosos da "escória da sociedade" e indigentes, capoeiras e menores de idade apanhados nas ruas). Eles vieram do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas e Pará. Além destes, a população compunha-se de guardas do Exército, funcionários, comerciantes e colonos, os três últimos somando 204 habitantes ao final de 1926. No início do ano seguinte, o governo de Washington Luís liberou o retorno dos presos.
A colônia agrícola original já estava perdendo habitantes para a vizinha Martinica (atual Oiapoque) em 1924, quando o governo Bernardes precisou de um presídio remoto e isolado. Em resposta às revoltas militares tenentistas, o governo havia imposto o estado de sítio e lotado as prisões. Miguel Calmon, ministro da Agricultura, ofereceu o local, pois era a colônia agrícola mais logínqua do país. Ela tem precedentes na deportação de prisioneiros à Amazônia no governo Floriano Peixoto e no período após a Revolta da Vacina, assim como em outras colônias penais no mundo. O primeiro navio com prisioneiros chegou à foz do rio Oiapoque em 26 de dezembro de 1924.
A expansão repentina da população sobrecarregou a infraestrutura do centro agrícola. Depoimentos de prisioneiros registram alojamentos precários e um trabalho normalmente não remunerado em condições quentes, úmidas e insalubres, sob pena de violências dos guardas e de alguns criminosos comuns. A mão de obra prisional carregava toras de madeira à serraria, capinava as roças, construía as instalações públicas e trabalhava nas usinas de pau-rosa. Militares que juraram leadade ao governo desempenhavaram funções técnicas e burocráticas. Em junho de 1925, militares da Força Pública de São Paulo derrotados na batalha de Catanduvas, na Campanha do Paraná, trouxeram uma epidemia de disenteria bacilar, que matou centenas de prisioneiros juntamente com outras doenças como a malária e a tuberculose. Conforme o relatório oficial "Viagem ao Núcleo Colonial Cleveland", de 946 prisioneiros, 491 morreram e 262 escaparam.
A censura à imprensa suprimiu o assunto até os primeiros meses de 1927, quando os prisioneiros retornaram e a colônia penal ocupou as primeiras páginas dos jornais. Oposicionistas descreviam Clevelândia como um "inferno verde", e governistas como uma "comuníssima colônia agrícola". Clevelândia foi permanentemente associada a Artur Bernardes. Ela foi lembrada pelos anarquistas e esquecida pela historiografia, sendo objeto do primeiro estudo de grande porte apenas em 1991. Historiadores caracterizam a colônia penal como um campo de trabalho forçado ou mesmo como um campo de concentração.
Criação A colônia agrícola miniaturadaimagem|esquerda|Jogo de futebol em frente à casa da administração As memórias dos prisioneiros frequentemente confundem Clevelândia com a região onde estava inserida, o Oiapoque, à época pertencente ao estado do Pará e atualmente ao Amapá. O Oiapoque situa-se na fronteira com a Guiana Francesa e foi uma zona de disputas territoriais com a França até sua incorporação definitiva ao território brasileiro em 1900. A região era considerada um espaço vazio, e sua ocupação era estudada pelas autoridades brasileiras desde a década de 1890. Em 1919 o Congresso aprovou a proposta do senador Justo Chermont de fundar patronatos e colônias nacionais ao longo do rio Oiapoque. O senador alertava para os contrabandistas que se aproveitavam da ausência de policiamento, fiscalização e defesa militar naquela área. A colonização eliminaria as influências francesas da região e asseguraria a soberania brasileira.
A colônia foi implantada na margem direita do rio Oiapoque, a 15 quilômetros do posto militar de Santo Antônio, a alguns quilômetros rio acima da vila de Martinica. Ambas faziam parte do município de Amapá no distrito de Demonti, cuja população total era de mais de 1 150 no censo de 1920. A vila de Saint Georges ficava do lado oposto (francês) do rio. Os primeiros colonos, retirantes da seca no Nordeste, chegaram em maio de 1921. Segundo Rocque Pennafort, a população era de dois grupos distintos, um que acompanhou o coronel Chico Pennafort e outro de famílias cearenses trazidas de Belém pelo governo. Acreditava-se que a região fosse um "Eldorado" de terras férteis, apresentadas na propaganda do governo por fotografias de uma mandioca e uma cana-de-açúcar gigantes. A salubridade da região era atestada por um relatório assinado em 1922 pelo diretor do Serviço de Profilaxia Rural do Pará. Em 5 de maio de 1922 inaugurou-se o "Centro Agrícola Cleveland", homenagem a Grover Cleveland, presidente dos Estados Unidos que serviu de árbitro na questão de Palmas.
miniaturadaimagem|Gado no Boulevard Rio Branco O engenheiro-chefe, administrador e fundador da vila era Gentil Norberto. Clevelândia deveria ser a "área-modelo para um projeto civilizacional". A área urbana do núcleo era planejada, fato inédito para os povoados da região. Até 1924 construíram-se um prédio de dois andares para a administração, uma escola com duas salas de aula, um hospital, enfermaria, hospedaria de imigrantes, posto telegráfico, serraria, igreja, várias residências e 28 quilômetros de caminhos vicinais. Mas o entusiasmo inicial foi perdido e os colonos que não tiveram sucesso com a agricultura migraram para Martinica, onde encontraram trabalho nas usinas de pau-rosa. Em 31 de dezembro de 1926 a população, excluindo os prisioneiros e guardas, era de 204 pessoas: 127 colonos e 77 funcionários e comerciantes.
Transformação em colônia penal
miniaturadaimagem|Localização de Clevelândia num mapa do rio Oiapoque de 1933|esquerda O governo federal de Artur Bernardes (1922–1926) transformou Clevelândia no destino mais numeroso de seus prisioneiros políticos, num contexto de um estado de sítio duradouro, cadeias superlotadas, detenções em massa e desterro. Militares tenentistas derrotados nas suas revoltas armadas contra o governo, militantes operários (incluindo anarquistas), criminosos comuns e "indesejáveis" retirados das ruas do Rio de Janeiro tiveram Clevelândia como presídio a partir de 1924. Pelo artigo 80 das Disposições Gerais da Constituição de 1891, o presidente poderia, durante o estado de sítio, recorrer ao desterro para manter a ordem e a lei. Em julho de 1922, após a decretação do estado de sítio pelo seu antecessor Epitácio Pessoa, Bernardes sugeriu "agarrar os desordeiros e ociosos que infestam o Rio e Niterói, e deportá-los para bem longe, para o Acre, por exemplo, ou para a colônia de Três Rios [sic], quando menos".
No caso de Clevelândia, uma justificativa adicional seria um dispositivo constitucional que atribuía à União o domínio da faixa de fronteira necessária à defesa nacional. Segundo Bernardes, a ideia de deportar os prisioneiros a Clevelândia não era dele, mas de seu ministro da Agricultura, Miguel Calmon, ou de Gentil Norberto. Conforme o ex-ministro Calmon, "o governo só deportou para Cleveland em último caso e forçado pelos pedidos de habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal, que não permitiam a conservação dos presos aqui" [em navios-prisão e ilhas da baía de Guanabara], e "os deportados para Cleveland foram presos que tinham os piores antecedentes e sem nenhum título especial que os recomendassem".
Miguel Calmon apresentou ao presidente estabelecimentos do Ministério da Agricultura com espaço para receber os prisioneiros: a Ilha das Flores, os núcleos coloniais do Paraná e de Santa Catarina e os centros agrícolas da Paraíba, Piauí, Pará (ou seja, Clevelândia) e Amazonas. Segundo ele, a Ilha das Flores e Clevelândia seriam os únicos viáveis, pois os demais estavam em territórios com perigo de revoltas ou os governadores de seus estados não queriam hospedar prisioneiros políticos.
Clevelândia era a colônia agrícola mais remota de todo o país, garantindo o isolamento dos presos e a impossibilidade de defesa jurídica. Os prisioneiros seriam punidos pelos seus crimes ao mesmo tempo que contribuiriam à ocupação da fronteira. A medida tem antecedentes no Brasil republicano, também na selva equatorial, quando centenas ou até milhares de indivíduos foram deportados para Tabatinga, Xingu, o alto Rio Branco e o Acre no governo de Floriano Peixoto e no pós-Revolta da Vacina. Esse tipo de punição em regiões inóspitas pode ser comparada à Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, ao domicilio coatto (confinamento em ilhas do Mediterrâneo) italiano, à prisão argentina em Ushuaia e ao gulag russo. O isolamento era tamanho que não havia ligação telegráfica direta a Belém; até a construção de uma estação radiotelegráfica em setembro de 1926, a comunicação passava pela Guiana Francesa a Paris e dali a Recife e Belém.
Pontos de vista miniaturadaimagem|Edição de A Plebe em 12 de fevereiro de 1927, apresentando os "grandes crimes da burguesia" ocorridos no Oiapoque Os acontecimentos em Clevelândia não chegavam à imprensa como um todo, que estava sob censura durante o estado de sítio declarado pelo governo Bernardes. A opinião pública só tinha noção superficial. Deputados oposicionistas na Câmara denunciaram muitos abusos ocorridos durante o estado de sítio, mas não mencionaram Clevelândia. Os recém-chegados não sabiam o que os esperava. As notícias só começaram a sair do local em setembro de 1925, quando uma carta do militante Domingos Braz foi publicada no jornal A Batalha, de Lisboa. Em dezembro de 1925 outra carta foi publicada pelos jornais La Antorcha, de Buenos Aires, e O Syndicalista, da Federação Operária do Rio Grande do Sul. O governo negou a acusação.
Somente ao final do mandato e do estado de sítio a história repercutiu na opinião pública e a grande e pequena imprensa trouxeram depoimentos dos sobreviventes. Jornais governistas e oposicionistas debateram quais seriam as reais condições do local no início de 1927, quando os presidiários já haviam sido anistiados. A oposição pode ser exemplificada pelos jornais O Combate e A Nação, que representavam interesses do Partido Democrático de São Paulo, tenentistas e Bloco Operário e Camponês, e A Plebe, representante dos anarquistas. A defesa do ex-presidente Bernardes e de seu governo pode ser encontrada no jornal carioca O Paiz. O jornal de Justo Chermont fez reportagens sobre a beleza e bom clima de Clevelândia, e Gentil Norberto viria a público defender o local.
A peça de teatro Clevelândia (1927), de Euclides de Andrade, fez uma crítica à República Oligárquica em tom humorístico, do ponto de vista de um caipira preso em São Paulo por saudar os revolucionários em 1924. A peça teve boa recepção no público paulista. Em Mr. Slang e o Brasil (1927), o escritor Monteiro Lobato interpretou Clevelândia como o possível destino das cabeças pensantes do país. A respeito do médico Belisário Penna, escreveu: "Tem feito tamanho bem à sua terra e o fará ainda tanto que - escreva o que vou dizer: acabará na Clevelândia".
miniaturadaimagem|Fotografia da propaganda oficial exibindo um colono e a raiz de mandioca colhida no seu lote|esquerda A oposição denunciou os "horrores" e a "hecatombe de Clevelândia", "o extermínio de presidiários" e "os crimes do governo Bernardes". A imprensa contemporânea e a historiografia associam Clevelândia ao desterro, degredo e vazio demográfico. Expressões como "inferno verde", "Sibéria brasileira, "jardim dos suplícios", "desterro da peste e da morte", "selvas pestilentas" e "lugar inóspito" eram comuns nos jornais. O local entrou para a memória anarquista como um símbolo de opressão, a "Bastilha brasileira".