Wilhelm Heinrich Friedrich Stein (Osnabrück, – Resende, ) foi um engenheiro teuto-brasileiro, com grande contribuição para a indústria aeronáutica brasileira. Participou do grupo de pioneiros que fundou a Embraer. Em 1938, foi responsável pelo primeiro bimotor produzido em série no Brasil, o FW-58, e pela fabricação dos Fairchild e do NA-T6, o avião que criou a Esquadrilha da Fumaça da FAB. Indicou e intermediou a vinda do engenheiro aeronáutico Henrich Focke e sua equipe de especialistas, para o PAR, do Centro Técnico Aeroespacial (DCTA), que, segundo o Brigadeiro Casimiro Montenegro, constituiu o embrião da Embraer. Fascinado pelas invenções de Santos Dumont, fez parte da primeira geração da engenharia aeronáutica mundial, quando a aviação ainda dava seus primeiros passos. Seu início na aviação foi na Alemanha, como engenheiro da Focke-Wulf Flugzeugbau AG.
Condecorado pelo Presidente da República, Humberto Castelo Branco, em 23 de outubro de 1964, com o grau de Cavaleiro, no Corpo de Graduados Especiais da Ordem do Mérito Aeronáutico, pelos relevantes serviços prestados à indústria aeronáutica brasileira.
Biografia
Nasceu em Osnabrück, na Alemanha, em 7 de junho de 1899, filho do alfaiate Wilhelm Stein e da dona de casa Friederike Stein. Anos depois adquiriu também a cidadania brasileira. De origem humilde, em 1915 formou-se torneiro mecânico pela Escola Técnica de Osnabrück, trabalhando como torneiro mecânico na Luftschiffbau-Zeppelin GmbH e em estaleiros navais, financiou seus estudos para se formar como engenheiro mecânico, em 1925, pela Technische Hochschule (Bau-und Ingenieurschule) de Bremen. Em 1934, iniciou como engenheiro de fabricação na Focke-Wulf Flugzeugbau AG, fundada em 1924, por Henrich Focke e George Wulf em Bremen, lá conheceu o professor Focke.
A Focke-Wulf e a Fábrica de Aviões do Galeão
miniaturadaimagem|Depois dos FW-44, a Fabrica de Aviões do Galeão entrega os primeiros FW-58. |261x261px A Focke-Wulf, passou a ser a mais robusta e eficiente fabricante de aeronaves da Alemanha e fez história na aviação mundial com o famoso caça FW-190, considerado um dos melhores caças da II Grande Guerra e o revolucionário avião de passageiros, o quadrimotor F-200 “Condor”.
esquerda|miniaturadaimagem|O FW-58 Weihe, tem seu trem de pouso retrátil examinado pelo eng Stein, enquanto o piloto de provas, o piloto naval Jorge de Azevedo aguarda o avião ser abastecido para realizar o primeiro teste do avião
Henrich Focke em 1936 desliga-se de sua empresa e funda a Focke-Achgelis voltada para pesquisas de helicópteros. Em 1937 recebe destaque mundial ao conseguir realizar o primeiro voo de um helicóptero completamente controlável, o Focke-Wulf Fw 61 também denominado como Focke-Achgelis Fa-61, sendo considerado pelos relatórios técnicos da NASA, como o inventor do helicóptero.
Em 1937, o engenheiro Wilhelm Stein da equipe de fabricação da Focke-Wulf, foi enviado para chefiar a fabricação dos aviões da empresa no Brasil, resultado do contrato do governo de Getúlio Vargas com o governo alemão, intermediado por Henrique Lage, procurador da Focke-Wulf no Brasil. Stein descobriu, então, que iria fabricar aviões na terra de Santos Dumont, o inventor do avião e seu ídolo.
Sua vinda ao Brasil deveria acontecer pelo Zeppelin LZ 129 Hindenburg, que mantinha uma linha de Friedrichshafen ao Rio de Janeiro. Com o fim das operações em razão do incêndio do dirigível em 1937 em New Jersey, a vinda do engenheiro Stein e esposa Hildegard Stein aconteceu por mar, de navio, pelo General Artigas, saindo do porto de Hamburgo em 16/7/1937. Em 1936, foi lançada a pedra fundamental das Oficinas Gerais de Aviação Naval–OGAvN, conhecida como Fábrica de Aviões do Galeão, na Ilha do Governador, tendo como seu diretor o Capitão de Fragata Raymundo Vasconcellos de Aboim:
esquerda|miniaturadaimagem|Sala de projetos da Fabrica de Aviões do Galeão:os desenhos eram todos feitos a mão, ainda não existia o CAD/CAM miniaturadaimagem|O engenheiro Stein, Chefe de Fabricação e a esquerda o Capitão de Fragata Raymundo de Aboim, Diretor da Fabrica de Aviões do Galeão,. Ao fundo operários abastecem o FW 58
“Entre 1937 e 1939 foram entregues 40 aparelhos FW 44 da primeira fase do contrato com a Focke-Wulf, um avião de treinamento, com nome de um pássaro, Stieglitz, que aqui foi traduzido por Pintassilgo. Em seguida, como parte do contrato, entre 1938 e 1942, foram entregues 25 Bombardeiros bimotor FW-58 Weihe..." O FW-58 Weihe possuía também uma versão para transporte de passageiros VIP, o FW-58 KL 2. Na Alemanha foi utilizado pela Lufthansa, no Brasil dois FW-58 para versão civil, foram utilizados para transporte de passageiros, pelo Sindicato Condor. O FW-58, foi utilizado também pelo Correio Aéreo Nacional-CAN. Foi a primeira vez que no país foram fabricados aviões bimotores em série. O que iria acontecer novamente no Brasil, somente em 1972, com a fabricação em série do bimotor turbohélice Bandeirante.
miniaturadaimagem|220x220px|Os primeiro FW-58 são entregues em cerimônia com a presença do Presidente Getúlio VargasO segundo bloco dos aviões FW 58 foi fabricado com alto índice de nacionalização nas estruturas das asas, pneus, hélices, tela e contra placada, projetadas e fabricadas pelos profissionais brasileiros da Fábrica do Galeão, com orientação da equipe da Focke Wulf, chefiada por Stein. Os dois aviões, o FW-44 e o FW-58, estão em exposição no Museu Aeroespacial do Campos dos Afonsos, no Rio de Janeiro.
Transferência de tecnologia e criação de mão de obra especializada miniaturadaimagem|233x233px|Operários brasileiros na Fábrica do Galeão, em 1942, na linha de montagem do Fw-58. Arquivo Nacional.|esquerda
O grande interesse do presidente Getúlio Vargas no contrato com o governo alemão era a transferência de tecnologia e formação de mão de obra especializada, para a criação de uma futura indústria aeronáutica brasileira, como demonstra a reportagem do “Diário Carioca”, de 12/6/1939 sobre a visita do presidente Getúlio Vargas a Fábrica do Galeão:
O Brasil, neste período era um país basicamente agrário, com uma indústria extremamente incipiente, que iria dar seus primeiros passos rumo a industrialização justamente a partir das políticas de Getúlio Vargas.
Farchild e a Fábrica de Aviões do Galeão Com a definição do governo Vargas, se posicionando ao lado dos aliados, e a entrada do Brasil na II Guerra contra a Alemanha, em 22/08/1942, o contrato com a Focke-Wulf foi interrompido e a fabricação dos aviões foi descontinuada, sem realizar o passo seguinte, que seria a fabricação do quadrimotor FW-200 “Condor”, considerado o mais avançado e confortável avião de transporte de passageiros do mundo, e o único, em sua época, capaz de atravessar o Atlântico Norte sem escalas. Mas formou-se uma mão de obra especializada, que depois participou, ativamente da montagem de 232 Fairchild PT-19 sob licença da Farchild Engine Corporation, que contou com Wilhelm Stein como diretor de fabricação, que não retorna a Alemanha e resolve ficar com a família no Brasil.
Com o fim de seu contrato com a Fairchild, e sem emprego, devido à guerra, Stein passou a trabalhar como engenheiro civil para o Cassino da Urca e na construção do Hotel Quitandinha, em Petrópolis, do empresário Joaquim Rolla.
O T-6 da North American e a Fábrica de Lagoa Santa, MG miniaturadaimagem|Brigadeiro Eduardo Gomes entre autoridades civis, a direita, marcados com tarja em vermelho, W. Stein e o Brigadeiro Montenegro, na entrega do último NA T¨6 fabricado em Lagoa Santa, No final da década de 40, o engenheiro Stein foi convidado para assumir a fabricação do avião norte-americano NA T-6, em Lagoa Santa, Minas Gerais, pelo então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Armando Figueira Trompowsky, seu conhecido da Fábrica do Galeão, que o reencontrou, por acaso, ao se hospedar no Hotel Quitandinha.
Depois de diversas gestões fracassadas, a Aeronáutica havia assumido a fábrica de Baby Pignatari, o playboy empreendedor brasileiro que tinha a licença para fabricação dos T-6 da North American Aviation, Inc Com Stein como Chefe de Fabricação, foram produzidos 81 aviões NA, que a Força Aérea Brasileira operou até 1977, os lendários T-6, conhecidos nos EUA como pilot makers (fazedores de piloto), responsáveis pelo sucesso da Esquadrilha da Fumaça Brasileira de 1952 até 1977, quando foram substituídos pelo Universal da Neiva e depois pelo Tucanos da EMBRAER.
CTA, ITA, PAR e Henrich Focke miniaturadaimagem|O NA T-6, fabricado em Lagoa Santa, MG. o famoso "Pilot Maker" Com a entrega dos aviões contratados em 1950, a Fábrica de Lagoa Santa foi desativada, tornando-se um centro de manutenção de aviões da FAB. Wilhelm Stein foi convidado então pelo idealizador e fundador do CTA e do ITA, o Brigadeiro Casimiro Montenegro, para participar de outro sonho seu, o PAR: o núcleo de pesquisa de construção de aeronaves do CTA.
Na oportunidade, Stein comentou com o Brigadeiro Casimiro Montenegro, que seu amigo, professor Henrich Focke, devido as limitações do pós guerra, estava incapacitado de desenvolver suas pesquisas na Alemanha, e tentava desenvolver um projeto inovador na Holanda, mas com poucas perspectivas de sucesso, o que despertou o imediato interesse do fundador e diretor geral do CTA em convidar o cientista e sua equipe de pesquisadores da antiga Focke-Achgelis para desenvolverem o projeto no PAR.
Wilhelm Stein, depois do primeiro contato com Focke, a pedido do Brigadeiro Montenegro, quando terminou a cerimônia da entrega dos NA T6, seguiu ao Ministério da Aeronáutica no Rio de Janeiro para acertar detalhes de sua viagem para a Alemanha, para convencer seu colega, professor Focke, e sua equipe de engenheiros da Focke-Achgelis espalhados pela Europa, devido a proibição da Alemanha em fabricar aviões, a participarem do IPD-PAR, em um país, que apesar de distante, era a terra natal de Santos Dumont, o inventor do avião, argumento que convenceu tanto o inventor do helicóptero como sua equipe.
"Em 1953 Casimiro Montenegro convida o engenheiro aeroespacial e fundador da Focke-Wulf em Bremen, o alemão Henrich Focke e seus engenheiros, para que atuassem no CTA. Isto ocorre após Montenegro tomar conhecimento dos projetos inovadores que esses engenheiros vinham realizando na Alemanha, desenvolvendo desde 1939, helicópteros como o Focke-Wulf Fw 61 e aeronaves como Focke-Wulf Fw 190 e Focke-Wulf Fw 2000."
Por falar fluentemente o alemão, o Cel. Av. Aldo Weber Vieira da Rosa foi indicado pelo Brigadeiro Casimiro Montenegro para dar prosseguimento aos contatos do engenheiro Stein e formalizar o convite e o contrato.
“ Embarquei (...) meu colega, o engenheiro Stein e o Coronel Weber-Vieira da Rosa, que eu havia conhecido em Amsterdam, me receberam no aeroporto da Ilha do Governador. Do aeroporto, sem uma pausa, seguimos direto para encontramos o Brigadeiro Montenegro, chefe do Centro Técnico Aeronáutico, que após uma breve conversa preliminar, levou-me ao ministro, que conversou animadamente comigo durante mais de meia hora (...)”.
A nata da engenharia aeronáutica mundial chega ao PAR, no CTA