A Formação Barreiras é uma formação geológica datada do Cenozoico composta por rochas sedimentares que compõem as falésias do litoral brasileiro, do norte do estado do Rio de Janeiro ao sul do Amapá.
A denominação "Barreiras" foi utilizada para designar os segmentos cenozoicos esculpidos, frequentemente sob a forma de falésias abruptas, que se configuram como autênticas barreiras tanto para quem queira adentrar o interior quanto para quem deseja acessar o Oceano Atlântico. Essa nomenclatura, aplicada a diversos setores do diversificado litoral brasileiro, firmou-se no meio científico com o passar do tempo e do uso.
Sua ampla distribuição espacial levanta várias questões ainda não resolvidas sobre sua gênese, estratigrafia e nomenclatura. Tais questões, identificadas em diferentes momentos da historiografia científica, são consideradas verdadeiras lacunas. Essas lacunas tornam-se especialmente evidentes ao revisar a trajetória dos estudos sobre a Formação Barreiras, que começaram em 1902. Mesmo após mais de um século de pesquisas, ainda não há respostas substanciais e abrangentes sobre a origem e o posicionamento estratigráfico dessa Formação. Assim, permanecem em aberto questões fundamentais que poderiam esclarecer como essa formação geológica se originou, evoluiu e se diversificou ao longo do tempo.
Estudos pioneiros
Devido ao fato de se localizar na região costeira do país, a Formação Barreiras foi a primeira unidade estratigráfica a ser documentada no Brasil através da carta de Pero Vaz de Caminha: “Traz ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas e delas brancas, e a terra, por cima, toda chã e muito cheia de grandes arvoredos” (Caminha, 1500).Pesquisas sobre o Barreiras ainda são poucas no âmbito nacional, o que dificulta a compreensão a respeito da sua origem e evolução. Tal situação se deve, em parte, ao fato de que essas formações geológicas se localizam na região costeira do Brasil, em áreas densamente ocupadas, sendo estas, em sua maioria, turísticas, o que complica os estudos devido à grande especulação imobiliária próxima à formação. Além disso, esta situação pode ser atribuída, em parte, ao acentuado intemperismo, à natureza descontínua, e à carência de informações paleontológicas. Porém, o reduzido interesse econômico destes depósitos tem sido o fator determinante do baixo volume de estudos sistemáticos que possibilitem o detalhamento sedimentológico e estratigráfico necessário à reconstituição dos eventos miocênicos no Brasil. miniaturadaimagem|Mapa de distribuição geográfica da Formação Barreiras Recentemente, esses sedimentos costeiros vêm sendo chamados como Grupo Barreiras, esse termo foi discutido e utilizado de formas distintas por diversos cientistas ao longo do tempo. Assim, o termo "Formação" foi o mais utilizado, que, por definição, é um corpo de rochas identificado pelas suas características líticas e sua posição estratigráfica. No entanto, o termo "Série" também foi empregado por alguns estudiosos, sendo definido como unidade cronoestratigráfica representativa de uma Época.
Em 1902, a Formação Barreiras começou a ser estudada por BrannerBranner, J. C. (1902). Geology along the Pernambuco coast south of Recife. Boletim de Geologia da Sociedade Americana. Washington, 13: 58 – 92., que mencionou o nome “Barreiras” pela primeira vez em suas descrições realizadas na cidade de Paratibe, em Pernambuco. A partir desse momento, houve discussões entre os cientistas sobre qual termo utilizar para denominar esses sedimentos costeiros.miniaturadaimagem|Monumento natural das falésias de Beberibe, em Morro Branco, Beberibe, Ceará|esquerdaAssim, em 1928, MoraesMoraes, L. J. (1928) Estudos geológicos no Estado de Pernambuco. B. Ser. Geologia Mineral Brasileira. Rio de janeiro, n. 32. denominou pela primeira vez os sedimentos costeiros como Formação Barreiras. Posteriormente, em 1930, foi chamada de Série Barreiras. Esse termo também foi usado por Oliveira e Leonardos em 1943Oliveira A.I.de, Leonardos O.H. 1943. Geologia do Brasil. Serviço de Informação Agrícola, Ministério da Agricultura. Rio de Janeiro. Serie didática 2. 813p., e em 1955, Andrade se referiu à Formação como Terciário Superior IndivisoSAADI, A. e TORQUATO, J. R. (1992). Contribuição à Neotectônica do Estado do Ceará. Revista de Geologia 5, 5-38..
O emprego do termo “Formação Barreiras” continuou sendo discutido. Essa discussão foi retomada em 1964 por Bigarella e Andrade, ao afirmarem que a utilização de Série não seria adequada, já que a geocronologia da sua sedimentação seria incerta, e nem tampouco “Formação” seria correto, uma vez que esses sedimentos são bastante heterogêneos. Assim, a “Série Barreiras” e a “Formação Barreiras” foram denominadas como “Grupo Barreiras”, no qual Grupo se refere a duas ou mais formações, não sendo necessário que essas sejam as mesmas durante sua área de ocorrência.
Após discussões sobre quais termos seriam utilizados, iniciaram-se debates a respeito da estratigrafia dos sedimentos. Considerando a unidade como um Grupo, Bigarella e Andrade (1964b) constataram duas formações principais: a Formação Guarapes e a Formação Riacho Morno, que seriam separadas por uma superfície erosiva. Posteriormente, Mabesoone, Campos & Silva e Beurlen subdividiram o Barreiras nas formações Serra dos Martins, Guararapes e Macaíba. Segundo os autores, essa proposta seria válida para os estados de Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Tais discussões sobre o nome dessa formação geológica ocorreram de forma análoga à estratigrafia, sendo ratificadas e refutadas ao longo dos anos. Mais recentemente, depois dos anos 80, a utilização do termo “Grupo” começou a ser questionada, sendo retirado tal status por Moreira e Gatto em 1981Moreira, M.M.M.A.; Gatto, L.C.S. (1981). Geomorfologia. In: BRASIL, DNPM, Projeto RADAMBRASIL, Folha SA - 24 - Fortaleza, Volume 21: 23 – 112, Rio de Janeiro. 1981. Nascimento, D.A. et al. Geologia. In: BRASIL, DNPM, Projeto RADAMBRASIL, Folha SA - 24 - Fortaleza, Volume 21: 23 - 112, Rio de Janeiro.. Um ano depois, Bossi et al. agruparam as formações Guarapes e Riacho Morno sob a denominação de Formação Guarapes, distinguindo-as como fácies Guarapes (fluvial), Riacho Morno (fluvial) e Forte Orange (litorânea), sobrepostas à Formação Macaíba por uma discordância.
Na década de 90, em 1993, Maia utilizou o termo Formação em seus estudos no Ceará, na presença de um conjunto de fácies de leques aluviais, recobertas por um sistema fluvial anastomosado. Nesse século, em 2001, Vilas-Boas et al. descreveram três tipos de sedimentos abrangendo as fácies, optando pela denominação Grupo Barreiras.
Há ainda hoje diversos questionamentos a respeito da estratigrafia e nomenclatura litoestratigráfica a ser utilizada para essa formação geológica costeira, o que pode ser mitigado através da verticalização de estudos da zona costeira brasileira. Embora a utilização de "Série Barreiras" esteja descartada, não há consenso entre o uso das denominações "Formação" ou "Grupo".
Contexto geotectônico Segundo diversos autores, a deposição da Formação Barreiras foi altamente condicionada por processos tectônicos, dentre os quais se destacam episódios de soerguimentos epirogenéticos e/ou flexura continental, que afetam a plataforma sul-americana desde o Mioceno Médio, marcando o início da ação neotectônica no Brasil.
De acordo com Andrade & Lins (1963)ANDRADE, G. O. de, LINS, R. C. Introdução à morfoclimatologia do Nordeste do Brasil. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, 18, 1963, Recife. Anais... Recife: Sociedade Brasileira de Geologia, 1963. p.14., os sedimentos da Formação Barreiras teriam sido depositados em uma bacia longa e estreita, paralela à linha da costa. Os autores descrevem um suave arqueamento crustal, o qual teria desencadeado uma ampla flexura que acompanha o litoral, propiciando a acomodação dos sedimentos. O fato de a Formação Barreiras ocupar grande parte da faixa litorânea do território brasileiro, é, provavelmente, um testemunho de eventos geológicos de escala continental, tal como a abertura do Oceano Atlântico Sul, tectonismo hidro e litoisostático e orogênese andina.
A tectônica rúptil neogênica afeta a Formação Barreiras ao longo da costa brasileira, sendo relatada em trabalhos que descrevem evidências de deformação tectônica afetando os depósitos desta unidade, considerada uma unidade estratigráfica ainda pouco conhecidaLIMA, Carlos César Uchôa de. EVIDÊNCIAS DA AÇÃO TECTÔNICA NOS SEDIMENTOS DA FORMAÇÃO BARREIRAS PRESENTES DO LITORAL DE SERGIPE E AO NORTE DA BAHIA. Revista de Geografia, [S. l.], v. 27, n. 1, p. 140–151, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/revistageografia/article/view/228851. Acesso em: 28 maio. 2024..
Torquato, Torquato e Moraes (1997), em trabalho feito no litoral cearense, ressaltam o papel de eventos tectônicos no modelamento da Formação Barreiras na paisagem. No referido trabalho, observa-se perfeitamente estruturas do tipo graben que afetam a capa superficial dos sedimentos, a formação adjacente e o embasamento. As deformações rúpteis locais são do tipo “falha de crescimento”, visto que a espessura das litologias da Formação Barreiras aumentam exponencialmente na região afetada, o que indica que a falha estava ativa concomitantemente a deposição dos sedimentos.
Lima (2002)LIMA, C. C. U. de. Caracterização sedimentológica e aspectos do Grupo Barreiras no litoral sul do estado da Bahia. 141 f. 2002. Tese (Doutorado) - Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador., observou, em pesquisa realizada no litoral sul da Bahia, que nos baixos estruturais havia maior espessura do Barreiras, ratificando que falhas estavam ativas durante a deposição dos sedimentos. Além disso, segundo os autores, a reativação de falhas das rochas seria provocaria o aumento e mudança de gradiente da superfície recém formada, fazendo com que o padrão de drenagem fosse afetado e mudasse sua direção preferencial.
Hasui (1990)LIMA, C.C.U. 2000. O Neotectonismo na costa do Sudeste e do Nordeste brasileiro. Revista de Ciência & Tecnologia.UNIMEP, 15: 91-101. postula que os eventos neotectônicos que afetaram o Barreiras durante e após sua deposição são relacionados a eventos de reativação de planos de fraqueza previamente existentes. Tais porções de menor resistência têm sua origem atrelada ao fim do Arqueano e início do Proterozoico. Com isso, pode-se dizer que correspondem a um fenômeno de tectônica ressurgente, ou seja, representam uma herança estrutural das rochas que compõem o embasamento.
O arcabouço estrutural do Nordeste brasileiro é caracterizado por vários episódios de reativação de falhas, ocorrendo desde o período Plioceno. As feições morfoestruturais de gênese tectônica podem ser observadas ao longo da da faixa litorânea, onde o suporte estrutural é representado pela alternância entre o grabens e horstsSAADI, A. et al. Neotectônica da plataforma brasileira. In: QUATERNÁRIO no Brasil. Ribeirão Preto: Holos, 2005. p. 211-230.. De acordo com Fortunato (2004)FORTUNATO, F. F. Sistemas pedológicos nos Tabuleiros Costeiros do litoral norte do estado da Bahia: uma evolução controlada por duricrostas preexistentes, neotectônica e mudanças paleoclimáticas do Quaternário. 266. f. 2004. Tese (Doutorado) - Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador. , o neotectonismo atuou na fase deposicional e pós-deposicional da Formação Barreiras, através de pulsos epirogenéticos, falhamentos, fraturamentos e movimentação de blocos.