Igi Lọ́lá Ayedun (1990, São Paulo - Brasil) é uma artista multimídia, jornalista, curadora e empreendedora cultural brasileira.
Fundou a HOA, primeira galeria de arte contemporânea black-owned do Brasil, a HOA Cultural Society , organização cultural sem fins lucrativos, e o Mjournal, publicação digital independente com foco em dispositivos móveis dedicada às indústrias criativas.
Para além de ser uma figura de vanguarda no campo da abstração e da manifestação cultural, Ayedun tem sido igualmente reconhecida pela sua contribuição na promoção da diversidade e da inclusão . Hoje, com vinte anos de carreira, é uma das mulheres que comandam o mercado da arte no Brasil .
Ayedun é apontada como uma das figuras que contribuíram para abrir caminhos para uma nova geração de artistas brasileiros, sobretudo por sua atuação nas artes visuais, na moda e na criação de plataformas independentes ao longo da década de 2010 e 2020.
Formação e Percurso Ayedun nasceu e foi criada em São Paulo. Iniciou o seu percurso no mercado editorial, aos 14 anos, numa grande editora brasileira, a Abril (Revista Capricho), uma experiência fundamental que lhe deu a conhecer o mundo da arte e da moda. Em 2009, fez um curso de arte contemporânea apesar de, na época, lhe parecer inviável. Em 2011, trabalhando no mercado editorial há 7 anos , foi considerada um prodígio da moda brasileira em sua geração. Com a necessidade de ajudar financeiramente a sua mãe, Ayedun não pôde dedicar-se de imediato à sua carreira artística, optando por passar quase uma década em Paris, a trabalhar na área da moda e na indústria do luxo. Entre São Paulo e Paris, acumulou colaborações e trabalhos para várias marcas de renome, tais como a Yves Saint Laurent, entre outras. Foi colunista do Jornal O Estado de S. Paulo, correspondente internacional da Elle Brasil, project manager e editora da L’Officiel Brasil, fashion director e co-owner da U+MAG , além de contribuir para diversas publicações como Vogue Brasil, Glamour Brasil, Marie Claire Brasil e a publicação inglesa i-D magazine.
Durante o tempo em que viveu na Europa, Ayedun construiu uma valiosa rede de contatos e ganhou significativa experiência em comunicação. Ambas viriam a revelar-se essenciais para o seu futuro.
A sua carreira artística começaria a tomar forma após o seu regresso ao Brasil, em 2017.
Nos anos seguintes, Ayedun passou a desenvolver uma prática multidisciplinar entre pintura, fotografia, vídeo e novas tecnologias, paralelamente à criação de iniciativas voltadas à arte contemporânea.
A partir da década de 2020, sua produção passou a circular em exposições no Brasil e no exterior.
Em março de 2024, durante a primeira visita oficial do presidente francês Emmanuel Macron ao Brasil, Ayedun esteve entre os vinte convidados para um jantar reservado em São Paulo, reunindo personalidades com relações relevantes com a França.
Atualmente, é responsável pelas relações institucionais e projetos especiais da 90antiope, publicação e plataforma francesa de arte contemporânea.
Obra O seu trabalho multidisciplinar - que inclui pintura, fotografia, vídeo, escultura digital 3D e som - enfatiza o potencial da cor enquanto testemunho de transações sociais históricas. Ayedun dedica-se, em particular, ao azul e a uma investigação genealógica afro-diaspórica. A artista têm-se concentrado em explorar as rotas globais do índigo (ou anil), o legado histórico do lápis-lazúli e a conexão profunda entre esta tonalidade e a ancestralidade africana. De acordo com Arantxa Ciafrino: «O mergulho de Ayedun nessa cor decorre da sua compreensão das técnicas de pintura não-ocidentais e da história que antecede a Europa como protagonista e narradora. Ela reivindica a importância desses tons como uma memória visual transcendental ao longo do tempo e das culturas, que antecede a colonização eurocêntrica do sul global».
Seu corpo de trabalho também incorpora imagens criadas com recurso a inteligência artificial , algoritmos e ondas cerebrais (electroencefalogramas), como forma de superar os limites ópticos da fotografia e do sistema ocular humano.
Neste momento, a sua prática artística centra-se sobretudo na fusão entre a tecnologia e técnicas ancestrais, nomeadamente práticas têxteis, materiais orgânicos - algodão, cera, argila, milho, água - e pigmentos naturais. A aprendizagem de técnicas como o Bògòlanfini (Mali), o Adire (Nigéria) e outras práticas, como os curtumes Berberes (Marrocos), foi para si essencial. O seu trabalho não se limita à estética. Ayedun desenvolveu uma linguagem visual única, que abrange elementos culturais e históricos, temas como a identidade, a herança cultural, a memória e a diáspora, as suas raízes afro-brasileiras, questões sociais e políticas. Ayedun acredita que a justaposição de métodos antigos e contemporâneos permite preservar o ancestralismo africano e reivindicar séculos de escravidão e apagamento cultural.
Segundo o crítico e curador-assistente do MASP, Leandro Muniz, a produção de Ayedun investiga a história dos materiais, sua circulação econômica e seus usos sociais. Em suas obras, a artista emprega pigmentos como o índigo e o lápis-lazúli, associados a rotas econômicas africanas anteriores à colonização, além da seda, que Muniz também situa nesse contexto de circulação material, em uma prática marcada pela “abertura à indeterminação”. Suas pinturas sobre seda são preparadas por meio de técnicas ancestrais, utilizando pasta de milho para estruturar o tecido. Para o autor, essa investigação articula a historicidade dos materiais às suas propriedades físicas e simbólicas, sem restringi-los às narrativas do passado.
HOA Quando Ayedun volta à sua cidade de origem, em 2017, distancia-se da moda e dedica-se em pleno ao seu trabalho como artista. Nesta altura, opta por alugar o seu estúdio a amigos para exposições e residências artísticas. Todavia, só em 2020, durante a pandemia de COVID-19, é que se apercebe o quanto o seu espaço era fundamental para a comunidade e para a sua própria identidade criativa. Nesse ano, Ayedun funda a HOA, com o objetivo de propor «a disrupção do mercado e das instituições de arte contemporânea por meio de um programa contínuo de ação-articulação intervencionista que confronta o núcleo da indústria cultural a partir de uma perspectiva decolonial latino-americana afro-diaspórica».
A HOA nasce assim como uma plataforma online destinada a apoiar os colegas de Ayedun que enfrentavam dificuldades devido ao impacto deste surto global no mercado da arte. Apenas dois meses depois, a galeria artist-led participaria na primeira Viewing Room da São Paulo's International Art Fair (SP-ARTE), histórica edição virtual deste renomado evento. A partir de 2022, integraria anualmente a SP-Arte Rotas Brasileiras, cujo foco se centra em estreitar laços entre os agentes das cinco regiões do país, valorizando a diversidade e a pluralidade da produção artística deste território.
O projeto procurou oferecer aos artistas condições vantajosas ao nível das comissões de venda e dos royalties de revenda. Na HOA, a galerista também atua como mentora, oferecendo suporte e ferramentas de autogestão e empoderamento. Esta possuía, ainda, um departamento de curadoria interno, oferecendo apoio psicológico e fomentando a produção coletiva através de reuniões de partilha semanais.
A HOA possuía três locais físicos na cidade de São Paulo, a HOA Residência, a HOA Galeria e a HOA-HORIZONTE. O primeiro, um espaço de estúdios autofinanciado, possuia uma extensão online que corresponde ao projeto HOA Escola de Arte Livre e outros programas curatoriais. Em 2021, Ayedun inaugurou um pólo temporário da HOA em Londres.
Em pouco tempo, a HOA tornou-se uma presença significativa no mercado latino-americano e internacional. Desde 2020, contou com participações em algumas das maiores feiras de arte do mundo, como a 1-54 CONTEMPORARY AFRICAN ART FAIR, ARCO Madrid, MIART, SZONAMACO, FRIEZE e a ARTISSIMA. Durante esse período, a HOA acumulou diversas menções especiais e prêmios, tais quais: LCA for Emergent Prize 2023, IDENTITY Fund for New Entries 2023 e IX Premio Opening by Allianz 2023.
Em 2025, a HOA é oficialmente convertida em HOA Cultural Society, uma instituição cultural sem fins lucrativos.
A HOA foi um projeto vital para o desenvolvimento e visibilidade de artistas autodidatas, BIPOC, oriundos de comunidades historicamente marginalizadas ou contextos sociais desfavorecidos. O projeto propôs um diálogo urgente sobre a importância da representatividade e da equidade no mundo da arte, desafiar a violência racial estrutural e as ideologias colonialistas e trazer atenção internacional para a arte contemporânea brasileira.
Outros Projetos Juntamente com Samuel de Saboia, Lucas Andrade, Luiz Felipe Lucas, Felipa Damasco e outros artistas, a artista paulistana estabeleceu, no ano de 2018, o colectivo AEANFDC (Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural) e a Escola Efémera de Artes Visuais + Publicação, direccionada a artistas negros e LGBTQI+, sempre com uma perspectiva decolonial como ponto de partida.
Em 2025, Ayedun desenvolveu, em colaboração com o METRO Arquitetos, o projeto arquitetônico do Island of Arts (IOA), concebido como um parque de arte flutuante para o Rio Pinheiros, em São Paulo. Segundo a publicação Design boom, o projeto propunha aproximar arte, arquitetura e ambiente natural por meio de uma experiência sensorial, incorporando sustentabilidade, tecnologia e espiritualidade e repensando o espaço expositivo como um lugar de interação entre o público e a paisagem.
Vida Pessoal Ayedun nasceu com retinoblastoma, condição que resultou na perda da visão de um dos olhos ainda na infância, tornando-a monocular. A artista já abordou publicamente como sua experiência visual influencia sua relação com a imagem e a percepção.
Ayedun é filha do produtor cultural e ativista do movimento negro Alexandre Mello, cuja atuação incluiu a formulação de políticas públicas de combate ao racismo: em 1994, participou da elaboração do documento Por uma Política Anti-Racista: Diretrizes e Propostas para o Programa de Governo do PT, dedicado a propostas de promoção da igualdade racial. Posteriormente, foi diretor de Estudos, Pesquisas e Projetos da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Culturahttps://www.gov.br/palmares/pt-br/midias/arquivos-menu-acesso-a-informacao/arquivos/relatorio-de-gestao-2000.pdf. Em 2000, também atuava como coordenador-executivo da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, promovida pela ONU e realizada em Durban, África do Sul, e representou a Fundação Palmares em debates no Congresso Nacional relacionados ao financiamento da educação de jovens e adultos e seus impactos sobre a população negra e afrodescendente. Foi ainda conselheiro e co-fundador da Interforum Global, ao lado de Dulce Pereira e, também, atuou na Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. Ele faleceu em 2006, aos 43 anos, vítima de um acidente automobilístico, quando Ayedun tinha 15 anos.
Sua mãe, Iyá Karem d'Osun (Karem Mello), foi cofundadora da Aliança Pró-Saúde da População Negra, organização da sociedade civil dedicada à defesa do SUS, à promoção da saúde da população negra e ao enfrentamento do racismo.
Por parte materna, Ayedun possui ascendência judaica, cuja cultura também integrou sua formação.
Karem faleceu em 2023.
Em 2023, Ayedun foi novamente diagnosticada com câncer. Após passar por tratamento, anunciou posteriormente sua remissão da doença.
Exposições Individuais (seleção) 2025
KAREM, MAAT Gallery, Paris, França
2024
Tudo sobre a minha mãe, DOMO DAMO, São Paulo, Brésil. EMI OFE, Festival Mix Brasil, MIS - Museu da Imagem e do Som, São Paulo, Brésil.
2023
Eclosão de um sonho, uma fantasia. HOA, São Paulo (Brasil) Anexa_CCBB: Movimentos Convexos. CCBB SP - Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo (Brasil)
2022