O Kronan, também chamado de Stora Kronan, foi um navio de linha operado pela Marinha Sueca e uma das maiores embarcações do mundo na época. Sua construção começou em 1665 e foi atrasada por dificuldades de financiamento e conflitos entre o construtor Francis Sheldon e o almirantado sueco. O navio afundou em mares bravios depois de apenas quatro anos de serviço em 1º de junho de 1676 na Batalha de Öland, travada durante a Guerra da Escânia, emborcando enquanto fazia uma virada com muita vela e tendo sua proa destruída por uma explosão em um dos depósitos de munição. Ele afundou rapidamente com oitocentos mortos, mais vários itens valiosos como canhões e moedas.

A perda do Kronan foi um golpe terrível contra a Suécia na Guerra da Escânia. Além de ser o maior e mais poderoso navio da Marinha Sueca, também tinha uma importância como um dos símbolos da monarquia do então jovem rei Carlos XI. Os suecos também perderam uma proporção considerável de seus melhores marinheiros, o comandante supremo interino Lorentz Creutz, vários oficiais graduados da frota e o chefe do estado-maior médico da marinha. Uma comissão foi imediatamente estabelecida por ordens do rei com o objetivo de investigar se algum indivíduo poderia ser responsabilizado pela derrota na Batalha de Öland e por outras grandes derrotas na guerra, mas ninguém nunca foi penalizado.

A maioria dos canhões que naufragaram com o Kronan foram recuperados na década de 1680, mas os destroços acabaram caindo na obscuridade. Sua posição exata foi redescoberta em 1980 pelo pesquisador amador Anders Franzén. Várias operações de mergulho foram realizadas desde então a fim de pesquisar e escavar o local dos destroços e recuperar artefatos, com o Kronan tendo se tornado um dos naufrágios mais conhecidos no Mar Báltico depois do . Mais de trinta mil artefatos já foram recuperados e muitos foram conservados e colocados em exibição permanente no Museu Regional de Kalmar. Este também é o responsável pelas operações de arqueologia nos destroços.

Antecedentes

thumb|esquerda|230px|Ganhos e perdas territoriais do Império Sueco de 1560 a 1815; o país estava no seu auge na época do Kronan O Império Sueco estava no seu auge como grande potência europeia em meados da década de 1660. Tinha derrotado a Dinamarca, uma de suas principais adversárias regionais pela hegemonia no Mar Báltico, na Guerra de Torstenson entre 1643 e 1645 e na Guerra Dano-Sueca de 1657 a 1658. O Tratado de Brömsebro de 1645 e o Tratado de Roskilde de 1658 forçaram a Dinamarca a ceder as ilhas da Gotlândia e Ösel, todos os seus territórios orientais na Península Escandinava e partes da Noruega. O rei Carlos X Gustavo tentou acabar definitivamente com a Dinamarca em uma terceira guerra travada de 1658 a 1660. Isto era uma ambição ousada em uma sociedade já altamente militarizada voltada para a guerra como um estado fiscal militar. Desfazer os exércitos forçaria o pagamento de salários atrasados, assim havia um outro incentivo para manter as hostilidades e deixar os soldados viverem de saques e das terras inimigas. Este novo ataque contra a Dinamarca ameaçava os interesses comerciais das potências marítimas da Inglaterra e Países Baixos, atrapalhando o equilíbrio de poder no Báltico. Os neerlandeses interviram em 1658 ao enviarem uma frota para ajudar os dinamarqueses. Os ingleses também enviaram uma frota em novembro para ajudar os suecos a manterem o controle do Öresund. A expedição inglesa falhou devido ao clima do inverno e pelo tumulto político que encerrou o Protetorado, frustrando os planos de Carlos Gustavo.

O rei morreu em fevereiro de 1660 e o Tratado de Copenhague encerrou a guerra três meses depois. Carlos XI, filho e sucessor de Carlos Gustavo, tinha apenas cinco anos na época e assim um conselho de regência liderado por sua mãe, a rainha Edviges Leonor, foi estabelecido para exercer o poder até que ele chegasse na maioridade. A Suécia tinha chegado perto de controlar o comércio no Báltico, mas a guerra revelou a necessidade de impedir a formação de uma poderosa aliança antisueca que incluísse a Dinamarca. Houve alguns sucessos na política externa, mais notavelmente a antifrancesa Tríplice Aliança junto com a Inglaterra e Países Baixos. A relação da Suécia com a França melhorou suficientemente até 1672 para que os dois formassem uma aliança. Neste mesmo ano, o rei Luís XIV atacou os Países Baixos e os suecos foram pressionados dois anos depois para entrarem na guerra ao atacarem os aliados germânicos dos neerlandeses. A França prometeu pagar pelos subsídios de guerra que a Suécia desesperadamente necessitava sob a condição de que invadissem Brandemburgo. Um exército sueco de 22 mil soldados sob o comando do marechal de campo Carl Gustaf Wrangel avançou contra Brandemburgo em dezembro de 1674 e sofreu uma pequena derrota tática em junho de 1675 na Batalha de Fehrbellin. Apesar desta não ter sido militarmente significativa, ela manchou a reputação de quase invencibilidade que o Exército Sueco gozava desde a Guerra dos Trinta Anos. Isto encorajou os inimigos suecos, com a Dinamarca, Países Baixos e Sacro Império Romano-Germânico entrando em guerra contra Suécia e França até setembro de 1675.

Marinha Sueca A Marinha Sueca era em 1675 numericamente superior à Marinha Dinamarquesa, possuindo em sua frota dezoito navios de linha contra dezesseis e 21 fragatas contra onze, porém os navios suecos eram de forma geral mais velhos e de qualidade inferior aos dinamarqueses, que tinham substituído boa parte de suas embarcações com unidades mais modernas. Os suecos também tinham problemas com manutenção de rotina, com seus aparelhos estando em condições ruins. As tripulações careciam do mesmo nível de profissionalismo encontrado nos marinheiros dinamarqueses e noruegueses, que frequentemente tinham experiência de serviço junto da marinha mercante neerlandesa, com a Marinha Sueca também carecendo de oficiais profissionais, enquanto a Marinha Dinamarquesa tinha veteranos experientes como Cort Adeler e Niels Juel. Os dinamarqueses tinham o reforço de unidades neerlandesas sob o comando de Philips van Almonde e Cornelis Tromp, este último um oficial que tinha servido sob Michiel de Ruyter.

thumb|center|600px|Gravura de Estocolmo por Erik Dahlbergh e Willem Swidde publicada em 1693 na Suecia Antiqua et Hodierna, mostrando o centro da cidade como um porto movimentado

Projeto A linha de batalha foi desenvolvida durante a Primeira Guerra Anglo-Holandesa, travada entre 1652 e 1654, uma tática em que navios formavam uma linha contínua para disparar lateralmente contra o inimigo. Táticas navais anteriores favoreciam poderio de fogo de curta distância e abordagens com a intenção de tomar prisioneiros, tanto pessoas quanto navios. Aprimoramentos na artilharia naval em meados do século XVII fizeram as táticas mudarem para confrontos a curta distância a fim de incapacitar ou afundar oponentes por meio de artilharia superior a longa distância. Isto também causou mudanças de doutrina, construção naval e profissionalismo nas várias marinhas europeias a partir da década de 1650. A linha de batalha favorecia navios maiores que eram mais bem armados e robustos o suficiente para permanecerem em posição durante um confronto. A centralização e concentração de fogo cada vez maiores nas nações estado durante a segunda metade do século XVII permitiu uma maior expansão das marinhas e exércitos, com novos estaleiros estatais começando a construir embarcações muito maiores. A Suécia iniciou um custoso programa de construção naval no final da década de 1660.

O Kronan era um dos navios mais bem armados do mundo quando foi lançado em 1672, tendo três conveses com 110 canhões. Tinha três conveses com canhões da proa à popa. Ao todo haviam sete níveis separados divididos em seis conveses. O porão ficava na parte mais profunda do navio, acima da quilha, enquanto imediatamente acima ficava o bailéu, mas ainda abaixo da linha de flutuação; ambos eram usados para armazenamento. Acima do bailéu estavam os três conveses de canhões, dois cobertos e o mais superior metade coberto e metade aberto aos elementos à meia-nau. A proa tinha um convés que formava o castelo de proa, enquanto a popa tinha dois conveses.

thumb|center|500px|Diagrama dos conveses do Kronan

Navios suecos, durante a primeira metade do século XVII, eram construídos da maneira neerlandesa, com um fundo reto e retangular de calado pequeno. Este estilo era rápido de construir e adequado principalmente para os navios menores que navegavam pelos litorais rasos dos Países Baixos, mas não eram muito robustos, inadequados como navios de guerra e um tanto instáveis em mares bravios. A abordagem inglesa de construção tinha prevalecido na Suécia na época do Kronan, tendo um fundo mais redondo e calado mais profundo, além de uma armação mais resistente e maior estabilidade. Entretanto, a popa era mais reta abaixo da linha de flutuação, o que reduzia a resistência.

As dimensões do Kronan foram registradas por listas navais contemporâneas. Seu comprimento de proa à popa era de 53 metros, mas isto era consideravelmente mais curto do que o comprimento caso o gurupé e o bico fossem incluídos. A largura era de 12,9 metros e foi definida como o ponto mais largo entre armações, excluindo o forro de madeira. O calado variava dependendo do carregamento, mas totalmente carregado de suprimentos, munições e armamentos ele ficava em aproximadamente 6,2 a 6,8 metros. A altura da quilha até o ponto mais alto do mastro do grande nunca foi registrada, mas estimativas modernas indicam que era de pelo menos sessenta metros.

Não se sabe precisamente o deslocamento, pois os registros das dimensões não são exatos. Documentos contemporâneos descrevem apenas medidas aproximadas e baseado nestas o deslocamento foi estimado em por volta de 2,3 mil toneladas. Seu deslocamento em relação ao número e peso dos canhões fazia do Kronan um navio excessivamente armado, mas isto não era incomum para a época. Construtores navais europeus não construíam navios de três conveses grandes antes da década de 1650 e na década de 1660 os projetos ainda eram experimentais. Registros contemporâneos mostraram que embarcações inglesas e francesas semelhantes tinham a tendência de serem instáveis porque eram muito altas, estreitas e com muita artilharia. Alguns navios ingleses precisaram ser reforçados com "cintas", forros de madeira na linha de flutuação, para terem um desempenho satisfatório. Mares bravios podiam forçar essas embarcações a fecharem suas aberturas de canhões mais baixas, privando-os de sua artilharia mais pesada e eficaz. A construção do Kronan não foi inerentemente falha, com o navio tendo lidado com condições climáticas severas em 1675 e novamente apenas uma semana antes de afundar, mas poderia ser perigoso caso não fosse manejado direito. Navios de mesmo peso de canhões no século XVIII tinham mais tonelagem para apoiar estas armas, geralmente entre três e 3,5 mil toneladas, o que os deixava mais estáveis. O Kronan era o terceiro ou quarto maior navio do mundo quando foi construído, mas quando afundou era o sétimo.

Armamento thumb|170px|Canhões de vários tipos recuperados do Kronan no Musou Regional de Kalmar