miniaturadaimagem|349x349px|Marcha de las Putas na Costa Rica, 14 de agosto de 2011 A Marcha das Vadias na América Latina (em espanhol: Marcha de las Putas) é um movimento social realizado em diversos países do continente latino-americano que reuniu milhares de pessoas nas ruas para protestarem contra a cultura do estupro e da culpabilização da vítima em casos de abuso sexual. No Brasil, o termo em língua portuguesa foi intitulado como "Marcha das Vadias", enquanto que na maioria dos países que falam espanhol, a nomenclatura utilizada é "Marcha de las Putas". Na Colômbia e no Peru, o termo PUTAS é considerado um acrônimo "Por Una Transformación Auténtica y Social (Por Uma Transformação Autêntica e Social)". Países como Argentina, Brasil, e Colômbia notabilizaram-se por organizarem a Marchas das Vadias simultâneas em diferentes cidades. As manifestações repetiram-se anualmente em boa parte dos países, embora nem sempre nas mesmas cidades. Alguns organizadores escolheram as melhores datas para coincidir com eventos significativos, como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres e a Jornada Mundial da Juventude.
Na América Latina, houve interações por parte dos organizadores em diversos países. Na Argentina, por exemplo, ocorreu esse diálogo com o pessoal do México e da Venezuela através de redes sociais, e a artista Adriana Minolitti participou das Marchas das Vadias Mexicanas antes de se tornar organizadora em Buenos Aires. Eles foram, por sua vez, contatados por organizadores na Bolívia e no Uruguai para obter assistência. Além disso, o organizador da Marcha das Vadias nacional na Colômbia teve alguma interação anterior com organizadores no Peru, e a ativista argentina Leonor Silvestri viajou ao Chile para ajudar a organizar La Marcha de las Maracas em Santiago. Na maioria dos países, a comunidade LGBT participou ativamente, e muitos protestos foram assistidos por profissionais do sexo, com outros expressando seus solidariedade. Houve também um canto regional comum: "!Alerta, alerta, alerta que camina la Marcha de las Putas por América Latina!" (Alerta! Alerta! Alerta, as vadias estão protestando por toda a América Latina!).
Os protestos na América Latina, embora tiveram o mesmo objetivo principal dos demais países, alguns direcionaram as críticas diretamente às autoridades estatais locais e aos membros da Igreja Católica, cujos comentários públicos consideraram como um reforço dos estereótipos de gênero e de uma cultura de violência contra as mulheres. Houve manifestantes que usaram trajes católicos em vários países, enquanto muitos protestos exigiam o Estado laico e culpavam a Igreja Católica por restringir os direitos das mulheres. Em contrapartida, exceções ocorreram na Colômbia, onde os católicos aderiram aos protestos. A Marcha das Vadias contra os gastos públicos para a visita do Papa Francisco no bairro do Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil, contou com grupos católicos dissidentes marchando entre os manifestantes também.
Alguns protestos evoluíram tiveram organizações permanentes, continuaram a trabalhar ao longo do ano para combater a violência contra as mulheres, e participaram ou organizaram eventos diferentes das típicas Marchas das Vadias para aumentar a conscientização sobre a agressão sexual.
Argentina miniaturadaimagem|291x291px|Marcha de las Putas em Buenos Aires, 22 de novembro de 2014 No dia 12 de agosto de 2011, ocorreu simultaneamente a primeira Marcha das Vadias em Buenos Aires, Rosário e Mar del Plata, com a nomenclatura em espanhol Marcha de las Putas. Os organizadores, a maioria deles pertencentes a organizações de mulheres e de direitos humanos, descreveram a marcha como "não uma estratégia de luta, mas uma união de mulheres e homens para exigir o respeito pelas liberdades individuais das mulheres". Os participantes mencionaram as taxas alarmantes de mulheres assassinadas e o tráfico de seres humanos para exploração sexual na Argentina como motivos para aderir à Marcha das Vadias. A deputada feminista María José Lubertino, que participou do protesto, disse: "Mesmo que tenha começado em um país estrangeiro, esta marcha nos ajuda a construir uma cidadania melhor e é isso que impulsiona as políticas públicas". Em 25 de novembro de 2011, A Marcha de las Putas protestou na cidade de Mendoza. O dia foi escolhido por ser o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um documento emitido pelos organizadores afirma: "vamos marchar para exigir o fim de todas as formas de violência contra a mulher, a figura do feminicídio como agravante incorporada no Código Penal, orçamento para a implementação da Lei de Violência Doméstica e o processamento e aprovação da lei de interrupção voluntária da gravidez.
As novas manifestações da Marcha de las Putas foram realizadas em Buenos Aires, Córdoba, San Juan e Mar del Plata em 3 de novembro de 2012. O tema principal do protesto foram os estereótipos sexuais. A marcha começou com uma exposição de fotografias do comício anterior. Houve também oficinas e espaços de debate sobre respeito íntimo e social, educação não sexista e violência midiática, enquanto diversas bandas musicais se apresentavam no palco. A organizadora Verónica Lemi explicou: "não basta marchar. Precisamos de sensibilizar e criar espaços de reflexão e debate para que possamos levar os nossos slogans para a nossa vida quotidiana. Precisamos que a sociedade deixe de justificar, tolerar ou minimizar os abusos sexuais, e pare de culpabilização da vítima." Ela também apontou a necessidade de promover que "as vítimas de abuso sexual falem de suas experiências sem serem julgadas por isso e obtenham a ajuda de que precisam para se curar". O objetivo do protesto foi ressignificar o conceito da palavra "puta" (equivalente a "vadia", mas também a "prostituta"), retirar-lhe o poder violento para que não possa ser usada para causar danos, favorecer a construção de uma sociedade onde todos são respeitados independentemente do gênero, orientação sexual ou estilo de vida escolhido.
Em 6 de outubro de 2013 aconteceu mais uma Marcha de las Putas em Buenos Aires. Começou com um espaço aberto para que as mulheres pudessem compartilhar suas histórias de abuso sexual que sofreram, muitas das quais aconteceram ainda durante a infância ou na adolescência e foram silenciadas durante anos. "Levei doze anos para contar à minha família que fui abusada quando tinha 10 anos. Só consegui fazer isso depois que entrei nesse movimento e descobri que outras pessoas passaram por situações semelhantes", explicou Deborah, uma das organizadoras. Rita González, outra das organizadoras, explicou que a marcha se enquadra num conjunto mais amplo de "ações realizadas durante todo o ano, para dar assistência jurídica, apoio emocional e companhia a pessoas que passaram por situações difíceis, que começam a superar em encontros de cura onde eles possam verbalizar sua dor." O slogan selecionado para o protesto foi: "Desnudando la cultura de la violación (Divulgando a cultura do estupro)". Outras cidades conhecidas por sediarem Marchas das Vadias foram Posadas, La Plata e Formosa.
María José Lubertino, mais uma vez participante da marcha, disse: "no século XXI, não podemos permitir que as mulheres sejam julgadas pela forma como nos vestimos. Há algumas semanas, a nossa presidente Cristina Kirchner foi desprestigiada por usar leggings, um exemplo claro do que fazemos e vemos diariamente em diferentes esferas. É ridículo e um comportamento típico como esse contribui para que a Marcha de las Putas se aplique ativamente na construção de uma nova realidade, na qual prevalecem o respeito, o reconhecimento e a igualdade efetiva entre homens e mulheres".
Em 19 de novembro de 2013, La Marcha de las Putas participou entre várias outras organizações num protesto mais amplo para aumentar a conscientização sobre o abuso sexual infantil. Incluía atividades relacionadas com a importância da detecção e prevenção do abuso sexual infantil, processos legais e cura. O protesto defendeu melhores leis e a aplicação eficaz das leis existentes. O dia foi encerrado com palestras das organizações e atividades artísticas para os manifestantes.
Brasil miniaturadaimagem|337x337px|Marcha das Vadias em Brasília, no dia 18 de junho de 2011. A cartaz diz: "Mudando o mundo pelos feminismos". No Brasil, a primeira Marcha das Vadias aconteceu na cidade de São Paulo em 4 de junho de 2011. Cerca de 300 pessoas se reuniram, marchando em trajes diários. Apenas uma estudante de 23 anos participou de roupa íntima. As organizadoras do evento, a escritora Solange De-Ré e a publicitária Madô Lopez, explicaram: "A gente não quer carnaval. A gente quer que as pessoas se vistam normalmente, como elas gostam de se vestir". No dia 18 de junho de 2011 uma nova Marcha das Vadias reuniu mil pessoas em Brasília, capital do país. Apesar do nome, a Marcha das Vadias reuniu mulheres, homens e famílias, às vezes incluindo bebês. Os participantes entoaram slogans contra o abuso sexual. No dia 2 de julho de 2011, centenas de pessoas compareceram à Marcha das Vadias no bairro de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os participantes defenderam a melhoria dos hospitais e delegacias para mulheres vítimas de abuso sexual, o acesso ao aborto sem burocracia quando a gravidez é consequência de estupro e a implementação efetiva da Lei Maria da Penha, nos casos de mulheres agredidas no âmbito da violência doméstica. Durante o ano de 2011, novas Marchas das Vadias foram organizadas em Belo Horizonte, Florianópolis, Juiz de Fora, Recife, Fortaleza, Porto Alegre e Natal.
No dia 26 de maio de 2012, a Marcha das Vadias aconteceu simultaneamente em Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Vitória, entre outros. Durante a marcha em Brasília, um homem que participava do protesto começou a falar frases ofensivas para mulheres e homossexuais, e depois baixou as calças para mostrar o pênis. Ele foi rapidamente preso por ato obsceno e levado para uma delegacia próxima.
No dia 25 de maio de 2013, a Marcha das Vadias foi realizada em Recife e São Paulo, reunindo mais de e pessoas respectivamente. Késia Salgado, organizadora no Recife afirmou: "A marcha vem para mostrar que as mulheres não ficarão mais caladas, que a impunidade não vai acontecer; vivemos uma epidemia e a sociedade tem que se reeducar (...) A marcha das vadias não para quando termina; continuamos trabalhando para que não se esqueça que a violência acontece todo dia." Nesta cidade, o protesto incluiu diversas intervenções artísticas de grupos de apoio à causa. Perto do final da marcha na Praça da Independência, o grupo abriu espaço para depoimentos. Com megafones, as mulheres vítimas de violência sexual partilharam as suas experiências com o resto dos manifestantes.
Em São Paulo, a marcha passou pela Rua Augusta, rua conhecida por ser ponto de encontro de prostitutas, como gesto de apoio. "É na Augusta que ficam as mulheres que a sociedade gosta de chamar de vadias, estupráveis", explicou um membro do grupo. "Nossa intenção é criar visibilidade sobre a luta contra a violência à mulher. É estimular a mulher que sofre violência a romper o silencio e estimular os homens sobre os atos diários de violência que praticam". Os manifestantes também entregaram aos pedestres um "cartão de segurança" para guardar nas carteiras, contendo o número de telefone dos serviços que atendem mulheres vítimas de abuso.
Houve uma nova Marcha das Vadias organizada em Brasília no dia 22 de junho de 2013, reunindo cerca de pessoas. Os manifestantes falaram contra a intervenção do Estado nos corpos das mulheres e contra os líderes religiosos que ocupam assentos nas instituições do Estado. Foi relatado novo episódio de um homem que, em aparente estado de embriaguez, insultou os manifestantes e baixou as calças.