miniaturadaimagem| São Paulo na Casa de Priscila e Áquila (século XVII): Paulo está à esquerda, escrevendo uma carta; Prisca está à direita, girando, e seu marido Áquila está ao fundo; ambos eram fazedores de tendas. A relação entre o Apóstolo Paulo e as mulheres é um elemento importante no debate teológico sobre o cristianismo e as mulheres porque Paulo foi o primeiro escritor a dar diretrizes eclesiásticas sobre o papel das mulheres. Há argumentos de que alguns destes escritos são interpolações pós-paulinas, e intensos debates se seguem entre acadêmicos sobre esses e outros trechos aparentemente contraditórios.Odell-Scott, D.W. "Editorial dilemma: the interpolation of 1 Cor 14:34–35 in the western manuscripts of D, G and 88." Web: 23 Mar 2018. Um exemplo de passagem que é uma das principais fontes de controvérsia e diversas interpretações nesse questão é a de 1 Timóteo 2:12.

Contextualização geral No campo dos estudos bíblicos atuais, o livro de Elisabeth Schüssler Fiorenza In Memory of Her: A Feminist Theological Reconstruction of Christian Origins (1983), foi pioneiro às discussões que se seguiram sobre os pronunciamentos paulinos em questões de gênero e sobre as mulheres.

Acadêmicos de estudos da Bíblia frequentemente presumem que a teologia paulina sobre gênero corresponde às visões de gênero presentes no pensamento filosófico grego clássico e nas práticas greco-romanas. Porém, isso não é garantido, havendo estudiosos que afirmam que a visão cristã e a de Paulo sobre as mulheres é original e contrária àquela predominante no contexto de sua época. Paulo de Tarso em diversas passagens critica a cultura dominante. Deve-se, além do mais, atentar às distinções entre o pensamento teológico de Paulo e as suas adaptações missionárias para veicular ensinamentos a diferentes culturas e contextos de gênero.

Cynthia Long Westfall é uma das estudiosas que questiona as leituras tradicionais das passagens paulinas sobre gênero como implausíveis e não consistentes hermeneuticamente, e as critica como subservientes a objetivos de poder e controle. Segundo ela, no contexto da cultura greco-romana do século I, que repudiava cultos em que as mulheres apresentavam comportamentos selvagens (tais como os dionisíacos), Paulo tentava, para que sua missão tivesse sucesso, incentivar que o comportamento das mulheres cristãs se mantivesse ético e estivesse adequado a papéis ideais de gênero esperados pela sociedade da época. Estereótipos femininos e masculinos greco-romanos eram utilizados pelas autoridades para o descrédito ou repressão de cultos e seitas considerados perigosos. Deve-se considerar, porém, que as preconcepções de gênero da sociedade moderna ocidental atual são diferentes às daquela cultura antiga.

Além de o corpus paulino ter sido historicamente interpretado como reforçando positivamente a mesma estrutura de poder, hierarquia e autoridade do homem sobre a mulher que existia no Império Romano, é também visto anacronicamente com um olhar que projeta as expectativas modernas de gênero. Mas isso é considerado por estudiosos recentes, como os da crítica bíblica pós-colonial, como sendo uma interpretação incorreta, controlada até recentemente por aqueles que detêm poder e motivada pela ignorância sobre o diferente contexto de marginalização que existia no século I. Não se deve assumir que os membros da comunidade cristã a que Paulo se dirigia detinham as mesmas posições de autoridade que as elites da época. Além do mais, quando Paulo afirma aos recipientes para serem submissos aos seus pais e mestres, naquela cultura poderiam também estar incluídas mulheres em papéis de autoridade e patrocínio: diferente de muitos contextos patriarcais atuais, a autoridade do lar era feminina, e não masculina, e as mulheres poderiam agir também como materfamilias, patronas ou senhoras de escravos. Porém, essa conformidade à estrutura hierárquica pública era subvertida no ambiente interno da igreja cristã, em que irmãos e irmãs eram vistos como iguais e as distinções de posição eram removidas, e seus líderes eram descritos por Paulo com termos de posições baixas: "servos", "escravos" e "pastores". Beverly Roberts Gaventa afirma: "Paulo se apresenta como a autoridade que não se conforma às normas padrões de autoridade".

Segundo Westfall, a visão tradicional da filosofia grega clássica de que as mulheres seriam ontologicamente inferiores aos homens teria sido imposta sobre os escritos paulinos pelos comentaristas posteriores no início da história da Igreja. Westfall aponta que a visão de Paulo sobre as mulheres tinha muito em comum com a visão dos filósofos estoicos, que também defendiam a autoridade feminina no lar e a mutualidade no casamento. A visão que ele tinha dos papéis de gênero era derivada principalmente do relato bíblico de Criação. Em diversas passagens Paulo alterava os estereótipos da visão de mundo helenística. Assim, ele empregava tanto a homens quanto a mulheres metáforas masculinas, tal como a de ser guerreiro e atleta: Evódia e Síntique foram assim consideradas em Filipenses 4:2-3. Por outro lado, ele empregava a si mesmo e aos homens metáforas femininas, como quando compara seu cuidado pastoral a funções de maternidade, em Gálatas 4:19, 1 Tessalonicenses 2:6-7 e 1 Coríntios 3:1-2. A comunidade da igreja de Corinto é identificada com uma noiva virgem em 2 Coríntios 11:1-3, o que também contrariava percepções de masculinidade.

No pensamento grego helenista, havia grande difusão da filosofia de Aristóteles, que afirmava que a natureza da mulher era inferior à do homem e ensinava como os maridos deveriam governar as esposas. No modelo da sociedade ateniense clássica, a mulher deveria principalmente estar reclusa ao ambiente doméstico; essa afirmativa era vista e concordada até mesmo pelo judeu helenístico Fílon, contemporâneo de Paulo de Tarso. Outro modelo contemporâneo influente eram também as leis morais estritas de Otaviano, que se aplicavam pelo menos às mulheres da aristocracia, condenando o adultério, reforçando o casamento, a maternidade, códigos de vestimenta e a dominância patriarcal da família.

Era predominante a desvalorização da mulher na sociedade romana. Práticas de infanticídio e de abandono de bebês femininas eram correntes e, somando-se à alta mortalidade materna e ao costume de se ter apenas uma filha na família, houve uma crise populacional por falta de mulheres no Império Romano.

No primeiro século, quando Paulo escrevia passagens que agora aparecem no Novo Testamento, as pessoas na sociedade romana eram julgadas por dois conjuntos de critérios:

O primeiro consistia em educação, habilidade, poder, inteligência e riqueza. Estes fatores podem ser compensados pelas categorias sociais como a origem, o nascimento, a língua, a posição jurídica, a desejabilidade social, a profissão, a idade e o gênero.

Quando estas categorias colidiam, criava-se inconsistência/dissonância quando um estatuto alcançado se tornava superior ao estatuto atribuído à pessoa pela cultura e pela lei.

Há também atualmente quem considere a possibilidade de algumas das epístolas ou versículos paulinos serem pseudepígrafos. Já no século seguinte ao de Paulo, o contexto pode ter favorecido desdobramentos interpretativos em particular sobre escritos nos quais aparentemente se depreciam as mulheres: Elaine Pagels sustenta que a maioria das igrejas cristãs no segundo século acompanhou a maioria da classe média na oposição à tendência de igualdade para as mulheres. No ano 200, a maioria das comunidades cristãs endossou como canônica a Epístola a Timóteo, que ela considera como sendo um escrito pseudopaulino. Essa carta, de acordo com Pagels, enfatiza e exagera o elemento antifeminista nas opiniões de Paulo: "Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não permito que nenhuma mulher ensine ou tenha autoridade sobre os homens; ela deve ficar calada." Em sua interpretação, ela acredita que as cartas aos Colossenses e aos Efésios, que ordenam que as mulheres "estejam sujeitas em tudo aos seus maridos", não expressam o que ela diz serem as atitudes muito favoráveis de Paulo para com as mulheres, e que também seriam falsificações "pseudopaulinas".

Discípulas cristãs Os Evangelhos registram que as mulheres estavam entre os primeiros seguidores de Jesus. Discípulas judias, incluindo Maria Madalena, Joana e Susana, acompanharam Jesus durante seu ministério e o apoiaram com seus recursos privados. Embora os detalhes destas histórias evangélicas possam ser questionados, em geral refletem os papéis históricos proeminentes que as mulheres desempenharam como discípulas no ministério de Jesus. Havia mulheres discípulas ao pé da cruz. Foi relatado que as mulheres foram as primeiras testemunhas da ressurreição, sendo a principal delas Maria Madalena. Ela não foi apenas “testemunha”, mas também chamada de “mensageira” de Cristo ressuscitado. miniaturadaimagem| São Paulo Falando às Mulheres de Filipos (Estradano, 1582) Desde o início da igreja cristã primitiva, as mulheres foram membros importantes do movimento. Com o passar do tempo, grupos de cristãos se organizaram nas casas dos crentes. Aqueles que puderam oferecer sua casa para reuniões foram considerados importantes dentro do movimento e assumiram papéis de liderança.Margaret MacDonald, "Reading Real Women Through Undisputed Letters of Paul" in Women and Christian Origins, ed. by Ross Sheppard Kraemer and Mary Rose D'Angelo (Oxford: University Press, 1999), p. 204

O primeiro movimento cristão, principalmente o movimento de Paulo, era muito atraente para mulheres ricas e viúvas. Frequentemente, abriam suas casas para o culto de movimentos religiosos específicos. De acordo com Elisabeth Schüssler Fiorenza, no século I o lugar da mulher era o lar e as áreas privadas da vida. Transformar o ambiente doméstico privado num ambiente religioso público abriu oportunidades para a liderança religiosa. O cristianismo paulino não honrava seus ricos patronos; em vez disso, funcionava dentro de um “motivo de reciprocidade” oferecendo papéis de liderança, dignidade e estatuto em troca de patrocínio. Através da construção da sua própria igreja doméstica, as mulheres puderam experimentar autoridade relativa, estatuto social, poder político e dignidade renovada dentro do movimento de Paulo. Este conceito se reflete no relacionamento de Paulo com Febe, Cloé e a mãe de Rufo.

Epístola aos Efésios A Epístola aos Efésios, particularmente na passagem 5:21-25, é considerada por muitos estudiosos uma evidência de que Paulo adotava papéis de gênero da cultura greco-romana como uma norma. Mas Cynthia Westfall aponta que há um jogo de linguagem na passagem, em que o homem é reformulado como noiva de Cristo e a mulher é igualada ao corpo masculino. Além do mais, são atribuídos ao marido papéis domésticos que, à época, eram considerados femininos: como os serviços de alimentar, banhar, lavar e passar roupas da noiva em Efésios 5:26-29. Essas eram funções realizadas por mulheres e escravos, e, do ponto de vista greco-romano, os homens estariam tratando as mulheres como superiores em se realizando tais ações.