A Economia Política Internacional (EPI) é a área que estuda a inter-relação entre a política e a economia global. O foco principal da EPI está no poder que os diferentes atores internacionais - como os Estados-nação, as organizações internacionais e as corporações multinacionais - têm para moldar o sistema econômico internacional e as consequências distributivas da atividade econômica internacional. Uma das definições da EPI é de ser o estudo da “batalha política entre os ganhadores e perdedores das trocas econômicas globais”.
Um pressuposto central da teoria da EPI é que os fenômenos econômicos internacionais não existem de forma significativa se separados dos atores que os regulam e controlam. Ao lado das teorias econômicas formais nos campos das finanças, comércio e economia internacionais, as quais são amplamente utilizadas dentro da disciplina, a EPI também dá destaque ao estudo das instituições, políticas e relações de poder na compreensão da economia global.
As áreas temáticas fundamentais da EPI são geralmente divididas entre as quatro esferas de conteúdo mais abrangentes, sendo Comércio Internacional, O Sistema Monetário e Financeiro Internacional, Corporações Multinacionais, e Desenvolvimento Econômico e Desigualdade. Entre os principais atores estudados estão as Organizações Internacionais, as Corporações Multinacionais e os Estados Soberanos.
A Economia Política Internacional é uma importante subdisciplina do campo das Relações Internacionais, do qual emergiu nas décadas de 1960 e 1970, impulsionada pelo crescimento de instituições econômicas internacionais, tais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), ao lado de turbulências econômicas, como a Queda do Padrão Ouro, a Crise do Petróleo de 1973 e a Recessão dos Anos 1970. A EPI é também um importante campo de estudo dentro da História, em especial da História Econômica, na qual os acadêmicos estudam as dinâmicas históricas da economia política internacional.
História e Emergência A Economia Política Internacional tem suas raízes históricas na disciplina de Economia Política, o estudo da economia nacional e suas interações com governança e política. A publicação de Adam Smith “A Riqueza das Nações” influenciou profundamente o desenvolvimento do campo da Economia Política.
À medida que a então recém fundada disciplina de Economia - que estuda os fenômenos econômicos, ausentes de considerações políticas e sociais - começou a divergir dos estudos da Economia Política no final do século 19, a Economia Política continuou sendo uma tradição acadêmica nos departamentos de Ciência Política, assim como no campo da Economia Moderna, como uma abordagem pluralista.Mark Robbins (2016) "Why we need political economy," Policy Options, Enquanto os notáveis trabalhos “Teoria Geral” de John Maynard Keynes e “Grande Transformação” de Karl Polanyi, publicados no início do século 20, continuam marcados na tradição da Economia Política, a Economia, em sua forma mais restrita, foi dominando os departamentos econômicos dos anos 1920 em diante.
A emergência da Economia Política Internacional pode ser identificada entre o final da década de 1960 e início da década de 1970, quando o aprofundamento da interdependência econômica, impulsionada pelo crescimento das instituições econômicas do pós-guerra, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e Acordo Geral de Tarifas e Comércio, atraiu uma atenção crescente nos estudos das Relações Internacionais para a temática dessas instituições e, de forma mais abrangente, para o estudo da governança da economia mundial. A necessidade para um entendimento mais abrangente da governança econômica global dentro dos círculos da Ciência Política se tornou cada vez mais aparente durante a Crise dos Anos 1970; com o final do Padrão Ouro, da Crise do Petróleo de 1973, a Recessão de 1973 a 1975 e os pedidos para aumento da proteção comercial. Os acadêmicos das Relações Internacionais, Robert Keohane, Joseph Nye e Robert Gilpin nos Estados Unidos, assim como Susan Strange no Reino Unido, foram figuras importantes na emergência da disciplina. Desde então, a EPI tem se tornado um pilar fundamental nos departamentos de Ciência Política, além de uma importante subdisciplina das Relações Internacionais, junto dos estudos tradicionais das RI, centrados na segurança material.
Tópicos de Averiguação
Finanças Internacionais A área de Finanças Internacionais e Relações Monetárias é um dos principais campos de análise da Economia Política Internacional. Nos estudos da EPI, a inter-relação entre os interesses políticos e econômicos nas finanças internacionais supõe ser impossível de separar de forma significativa o sistema financeiro da política internacional. A EPI das Finanças Internacionais é caracterizada por efeitos de rede políticos e externalidades internacionais, tais como práticas de enfraquecimento econômico de outros países (Beggar-Thy-Neighbor) e contágios.
Um conceito-chave na literatura da EPI sobre as finanças internacionais é o da Trindade Impossível, derivada do Modelo Mundell-Fleming, que defende ser impossível a busca simultânea de todas as três seguintes políticas econômicas:
Uma taxa de câmbio fixa Livre circulação de capitais; Ausência de controle de capitais Uma política monetária independente
Outro importante dilema da política monetária é o fato de que os governos precisam equilibrar as taxas de inflação (preço do dinheiro dentro do país) e as taxas de câmbio (preço do dinheiro fora do mercado nacional).
Não existe consenso na literatura econômica sobre qual seria a política de taxas de câmbio considerada ótima. Na realidade, os regimes cambiais nacionais refletem considerações políticas. As taxas de câmbio nacionais podem ser: 1. Fixadas, flutuantes, ou um híbrido das duas opções; e 2. Implicar uma moeda forte ou fraca. Diferentes grupos se beneficiam de forma desproporcional dependendo da política de taxas de câmbio que é escolhida.
Em geral, o ponto de vista liberal tem sido forte no meio acadêmico ocidental desde que foi articulado por Smith no século 18. Somente durante as décadas de 1940 até o início da década de 1970 que um sistema alternativo, o Keynesianismo, obteve amplo apoio nas universidades. Keynes preocupava-se sobretudo com a política macroeconômica doméstica. O consenso keynesiano foi desafiado por Friedrich Hayek e mais tarde por Milton Friedman e outros acadêmicos de Chicago já na década de 1950, e por volta dos anos de 1970, a influência de Keynes no discurso público e na formulação de políticas econômicas havia de certa forma enfraquecido.
Após a Segunda Guerra Mundial, foi estabelecido o Sistema de Bretton Woods, refletindo a orientação política descrita como um liberalismo incorporado. Em 1971, o então Presidente dos EUA, Richard Nixon, colocou fim à conversibilidade do ouro que havia sido estabelecida pelo FMI no sistema de Bretton Woods; o que foi seguido por acordos provisórios. No entanto, até 2008 a tendência era de uma crescente liberalização do comércio e das finanças internacionais. Desde o final de 2008, os líderes mundiais têm cada vez mais pedido por um Novo Sistema de Bretton Woods.
Tópicos como o Fundo Monetário Internacional, Crises Financeiras (veja Crise Financeira de 2007-2008, Crise Financeira Asiática de 1997), Taxas de Câmbio, Investimento Direto Estrangeiro e Corporações Multinacionais recebem bastante atenção na EPI.
Comércio Internacional Existem inúmeras abordagens sobre o comércio dentro da EPI. Essas abordagens buscam explicar as negociações internacionais entre os Estados, assim como as políticas econômicas externas que eles adotam. Em relação às explicações domésticas para as políticas econômicas externas dos Estados, as duas abordagens dominantes são o Modelo Fatorial e o Modelo Setorial, ambos baseados na Teoria de Vantagens Comparativas de David Ricardo.
O Modelo Fatorial (também chamado de Modelo HOSS) foi desenvolvido com base no Modelo Heckscher-Ohlin e no Teorema Stolper-Samuelsson. De acordo com o Modelo de Heckscher-Ohlin, a vantagem comparativa dos países no comércio provém de suas dotações de fatores comerciais particulares (terra, trabalho, capital). Isso significa que um país abundante em terras irá exportar primariamente produtos de uso intensivo da terra (como a agricultura), enquanto um país abundante em capital irá exportar produtos intensivos em capital (como manufaturas de alta tecnologia) e um país abundante em mão de obra irá exportar produtos de intensiva mão de obra (como os têxteis). Com base nesse modelo, o Teorema Stolper-Samuelsson defende que grupos que possuem tais fatores irão apoiar ou se opor ao comércio dependendo da abundância ou escassez de seus próprios fatores. Ou seja, em um país que é abundante em terra e escasso em capital, os agricultores apoiarão o livre comércio, enquanto os produtores da indústria transformadora de capital intensivo irão se opor ao livre comércio. De acordo com o Modelo de Fatores, a mão de obra trabalhadora em países desenvolvidos irá se opor a liberalização do comércio (por ser relativamente escassa), enquanto a mão de obra trabalhadora em países em desenvolvimento apoiará o livre comércio (por ser relativamente abundante).
Com base nessas ideias, uma eminente pesquisa realizada por Ronald Rogowski argumentou que as dotações de fatores podiam prever se os países eram caracterizados por conflitos de classe (capital vs. trabalho) ou por conflitos urbano-rural. De forma similar, um relevante estudo de Helen Milner e Keiko Kubota argumenta que as dotações de fatores explicam porque países em desenvolvimento liberalizam seu comércio após sua democratização (o fator abundante, a mão de obra trabalhadora, apoia a liberalização). Um estudo de 2023, de Milner e Lindsay R. Dolan, identificou que as dotações de fatores ajudam a explicar preferências de comércio na África. A pesquisa tem fundamentado as suposições do teorema de Stolper-Samuelsson, demonstrando que a abertura do comércio tende a reduzir a desigualdade em países em desenvolvimento, mas aprofundá-la em economias mais avançadas.
O Modelo Setorial do comércio, chamado de Modelo Ricardo-Viner (nomeado em referência à David Ricardo e Jacob Viner), desafia a noção de que os fatores são a chave para entender as preferências comerciais. Os fatores podem ser altamente estáticos, o que significa que os detentores de capital e de mão de obra que trabalham em um setor específico podem ter interesses similares. Como consequência, as preferências comerciais podem ser melhor entendidas ao se examinar quais setores econômicos ganham ou perdem na liberalização do comércio. Enquanto o Modelo de Fatores pressupõe que os detentores de capital em diferentes setores têm preferências comerciais similares e de que a mão de obra trabalhadora de diferentes setores tem preferências comerciais similares, o Modelo Ricardo-Viner sustenta que em setores onde os fatores são estáticos, os detentores de trabalho e capital de um setor podem ter as mesmas preferências comerciais. Como resultado, o modelo Ricardo-Viner prevê que um conflito de classes em torno do comércio é mais provável quando os fatores são altamente dinâmicos, mas que os conflitos baseados na indústria são mais prováveis quando os fatores são estáticos.