O Museu de História Júlio de Castilhos (MHJC) é um museu do estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Está instalado em dois antigos casarões da capital Porto Alegre, localizados na rua Duque de Caxias nos 1205 e 1231, no centro histórico da cidade. É o mais antigo museu do estado ainda em atividade, e um dos mais visitados. Sua sede é patrimônio tombado pelo estado e parte da sua coleção é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
História Antecedentes
Fundado em 1903, o Museu de História Júlio de Castilhos é o mais antigo museu ainda em funcionamento do estado do Rio Grande do Sul. Sua fundação foi a culminação bem sucedida de diversas tentativas anteriores de se criar museus no estado, que nunca saíram do papel ou duraram pouco, todos mal documentados. Em 1857 um cronista do jornal O Guayba, que se identifica como "O Freguês", lançou a ideia de criar-se uma galeria de pinturas em Porto Alegre, mas não é registrada sua existência efetiva. Diversos pequenos museus privados e públicos foram idealizados a partir desta época, um período em que o interesse político e acadêmico por essas instituições se expandia no Brasil. Alguns nasceram como equipamentos educativos auxiliares nas escolas mais importantes, combinando características de gabinetes de curiosidades e laboratórios científicos, como o museu de História Natural do Liceu Dom Afonso, a primeira escola secundária da Província, idealizado para educação dos alunos, citado a partir de 1846 mas só instalado em torno de 1870 já na Escola Normal. Outros surgiram por iniciativa de associações civis, como foi o caso do museu fundado em 1862 pelo Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro, que aparentemente nunca funcionou, pois o Instituto foi extinto no ano seguinte. Ou o museu organizado pelo Partenon Literário, citado a partir de 1876, que parece não ter sido nunca definitivamente instalado, embora tivesse reunido uma coleção de 4 mil itens de Mineralogia, Arqueologia, Numismática, Etnologia, Zoologia e Botânica. thumb|esquerda|Sino missioneiro
A primeira notícia sobre o tema de um museu estatal é de 1850, quando o presidente da Província José Antônio Pimenta Bueno lamentou que a Repartição de Estatística ainda não funcionava bem, e esperava mais dela se fosse dotada de um diretor com conhecimentos de História Natural, que poderia "sem despesas ir adquirindo, e formando coleções, que no futuro servissem para compor um Museu Provincial". Nada resultou da ideia, e em 1855 o presidente Visconde de Sinimbu disse que ainda não existia na Província "um só edifício destinado para recreio e instrução da população, como Jardim Botânico, Museu e Biblioteca". Sinimbu tentou remediar isso nomeando uma diretoria para o museu, mas depois não há mais notícia sobre ele. Em 1878 a 4ª seção da Secretaria de Governo tinha entre as suas repartições um museu, mas nada se fala sobre suas atividades e dele não há qualquer outro registro. Um decreto de 17 de dezembro de 1885 previu a criação de um museu provincial, o que da mesma forma não ocorreu.Frantz, Ricardo André. "Subsídios para a memória da Museologia no Rio Grande do Sul - século XIX". Academia.edu, 2020Nedel, Letícia Borges. "Breviário de um museu mutante". In: Horizontes Antropológicos, 2005; 11 (23): 87-112 thumb|Alegoria Farroupilha, guache do século XIX
O interesse pela museologia crescia, mas ainda era limitado à elite intelectual e alguns políticos progressistas, que inspirados pelas inovações da ciência estavam convencidos da utilidade pública de instituições deste tipo acessíveis à população em geral, consideradas locais de aprendizados sobre arte, história e cultura, e também sobre progresso, trabalho, civismo, moral e costumes. Conforme Rita Possamai, "o cientificismo não apenas nutriu o caldo de representações sobre o progresso do país, como inspirou as práticas de criação de instituições científicas e educacionais, responsáveis pela formação de novos profissionais exigidos pelas mudanças econômicas, advindas da transição de uma sociedade agro-exportadora a uma nova ordem urbano-industrial, e pela propagação de ideias higienistas, sanitaristas e racistas que, por sua vez, justificaram práticas de controle social, seja nas escolas, seja nos contextos urbanos modificados pelas reformas urbanas preconizadas pelo emergente urbanismo".Possamai, Zita Rosane. "Colecionar e educar: o Museu Julio de Castilhos e seus públicos (1903-1925)". In: Varia Historia, 2014; 30 (53) Seja como for, por todo o século XIX o contexto local não permitiu o florescimento de um sistema museológico organizado e estável. Essa organização, de fato, deverá muito à consolidação do Museu Júlio como a principal referência em museologia no estado na primeira metade do século XX.
Fundação thumb|esquerda|Cerâmica dos povos guaranis
Em 1897 iniciava finalmente o processo que levaria à criação do Museu Júlio. Em 1897 o presidente do Rio Grande, Júlio de Castilhos, lembrou à Assembleia dos Representantes a "conveniência de ser instituído um Museu do Estado, abstendo-me de justificar esta iniciativa, visto que me parece escusado encarecer a sua evidente utilidade". A Lei do Orçamento nº 29 de 14 de novembro de 1899 mostra que o assunto ainda estava sendo desenvolvido. O governo ficava autorizado a gastar até 50 contos de reis "com a criação de um Museu do Estado e possível auxilio à Biblioteca Pública da capital", e já se pensava em uma política de aquisições. Entre março e abril de 1900 o governo divulgou a intenção de efetivá-lo e solicitou às Intendências a coleta e remessa de artefatos indígenas, amostras mineralógicas, espécimes zoológicos e botânicos e outros materiais de potencial interesse educativo ou recreativo. Oficiais do governo também percorreriam coleções privadas a fim de identificar itens desejáveis.
Em maio de 1900 o governo encarregou a Secretaria de Obras Públicas e os chefes das comissões de terras das colônias de coletar pedras, objetos raros, artefatos indígenas e tudo quanto lhes parecesse aproveitável para o museu. Em junho de 1900 já estava preparada uma sala no edifício da Assembleia dos Representantes para sua instalação provisória, e pouco depois o governo adquiriu uma coleção de 714 ovos de pássaros. Ao longo do ano outras aquisições ocorreram, e em março de 1901, na grande Exposição Agropecuária e Industrial, o museu apresentou uma coleção "extraordinária e grande". Em 20 de setembro o presidente do estado Borges de Medeiros declarou que a instituição já havia sido aberta, expondo a coleção de ovos e artefatos indígenas, mas estava instalada de maneira muito precária em dois pavilhões de madeira construídos para sediar a Exposição de 1901, cujos itens exibidos, após seu encerramento, acabaram sendo incorporados ao acervo. Esse conjunto heteróclito de objetos incluía também artesanatos coloniais, produtos industrializados, máquinas, utilitários, objetos litúrgicos e laborais, peças decorativas e artísticas, e outros.Silveira, Andrea Reis da. O museu Julio de Castilhos no período 1960-1980: acervos, discursos, representações e práticas através de uma exposição museológica. Universidade Federal de Santa Maria, 2011, p. 20-24 thumb|Detalhe de leque que pertenceu a Isaura Dias de Bittencourt
Por fim, pelo Decreto nº 589 de 30 de janeiro de 1903, era oficializada a sua fundação, com o nome de Museu do Estado, constituído de quatro seções: Zoologia e Botânica; Mineralogia, Geologia e Paleontologia; Antropologia e Etnografia; e a seção de Ciências, Artes e Documentos Históricos. Seu objetivo declarado era "receber, classificar e guardar todos os produtos naturais do Rio Grande do Sul e de outras quaisquer proveniências. Colecionar todos os artefatos indígenas que tenham qualquer valor etnológico. Reunir todos os elementos que possam ser úteis ao estudo antropológico dos habitantes primitivos não só do Rio Grande do Sul como do Brasil em geral. Reunir e classificar todos os vestígios paleontológicos que se acharem no Estado ou fora dele. Colecionar os produtos de ciências, indústrias e artes modernas. Colecionar documentos históricos de qualquer gênero. Estabelecer coleções filatélicas e numismáticas". Seguia, portanto, o modelo dos museus enciclopédicos, característicos da museologia internacional no século XIX.
Primeiros anos: um museu de História Natural
Seu primeiro diretor foi Francisco Rodolfo Simch, dirigindo até 1925, com um intervalo entre 1919 e 1922, quando assumiu interinamente Hugo Debiasi. Até 1904 o museu recebia uma visitação limitada e permanecia a maior parte do tempo com suas portas fechadas ao público, recebendo somente pesquisadores, fornecendo pareceres técnicos, principalmente à Diretoria Central da Secretaria de Obras Públicas do Estado, ao qual foi vinculado desde o começo. No entanto, desenvolvia intensa atividade interna. Sintonizado com a orientação positivista do governo na época, que dava grande ênfase à questão documental, ao progresso técnico e à investigação científica, Simch tinha grande interesse pelas ciências e se preocupou em ampliar a coleção, recebendo doações, fazendo aquisições e excursões para coleta direta de material científico, contando com verbas regulares do governo. Também procurou incentivar a pesquisa, fomentando a produção de diversos trabalhos sobre Geologia, Hidrografia, Climatologia, fauna e flora do estado, e tentou lançar um periódico para que eles tivessem circulação e utilidade para a economia, as ciências, a educação e a sociedade. Montou laboratórios para análises biológicas, químicas e físicas, estabeleceu intercâmbios com outras instituições, e de modo geral sua direção se caracterizou pelo entendimento do museu como uma valiosa ferramenta de progresso e de produção de conhecimento aproveitável na prática. São exemplos dessa abordagem as pesquisas realizadas sobre prospecção de minérios com vistas a exploração comercial, estudos procurando curas para pragas agrícolas, e outros para testar cientificamente os conhecimentos indígenas sobre o uso de plantas medicinais. Sob essa orientação, todos os outros campos em que o museu deveria atuar, por força de seus estatutos, ficaram esquecidos, como a etnologia, a arte e a história. thumb|esquerda|Retrato de Júlio de Castilhos na sala memorial
A coleção crescia rápido, logo colocou-se o problema do espaço físico limitado, e isso se somava às más condições dos pavilhões de madeira onde funcionava o museu. Era preciso achar uma sede nova. Foi iniciada a construção de uma, que chegou a ficar quase pronta, mas o projeto foi abandonado em favor da ideia de aquisição de um edifício já acabado. Assim, em 1905 o governo do estado comprou por oitenta contos de réis o palacete onde havia vivido Júlio de Castilhos, e para lá foi transferido o museu. Em 1897 havia sido aberta uma subscrição entre os membros do Partido Republicano Rio-Grandense para adquirir o palacete para morada de seu presidente, Júlio de Castilhos, que passou a ocupá-lo, com sua esposa Honorina e seus seis filhos, a partir de 25 de janeiro de 1898 até sua morte em 1903. Após o falecimento da viúva, em 15 de agosto de 1905 o governo comprou o imóvel. A mudança ocorreu em poucos dias e em 19 de agosto o museu já estava nele instalado.Crestan, Letíssia et alii. "A sala Julio de Castilhos e a construção do mito do Patriarca". In: Possamai, Zita & Muratore, Eliane (eds.). Imagens & Artefatos: estudos sobre o acervo do Museu Julio de Castilhos. Editora da UFRGS, 2010