Frank Straus Meyer ( ; 9 de maio de 1909 - 1 de abril de 1972 ) foi um filósofo e ativista político estadunidense mais conhecido por sua teoria do fusionismo, uma filosofia política que funde elementos do libertarianismo e do tradicionalismo numa síntese filosófica que é colocada como a definição do conservadorismo americano moderno. A filosofia de Meyer foi apresentada em dois livros: o principal é In Defense of Freedom: A Conservative Credo (1962), e o outro é The Conservative Mainstream (1969), uma coleção de ensaios. O fusionismo foi resumido por EJ Dionne Jr. como "usar meios libertários numa sociedade conservadora para fins tradicionalistas".E. J. Dionne, Jr., Why Americans Hate Politics, New York: Simon & Schuster, 1991, p. 161.
Trajetória pessoal Meyer nasceu numa família empresarial de ascendência judaica alemã em Newark, Nova Jersey. Seus pais eram Helene (Straus) e Jack F. Meyer. Frequentou a Universidade de Princeton por um ano e depois se transferiu para o Balliol College na Universidade de Oxford. Lá obteve seu bacharelado em 1932 e seu mestrado em 1934. Mais tarde, foi par a London School of Economics e se tornou presidente do sindicato estudantil. Em 1933, porém, foi expulso e deportado por seu ativismo comunista.William C. Dennis "Foreword" in Frank S. Meyer, In Defense of Freedom and Other Essays, Indianapolis, Liberty Fund, 1996
Tal como vários editores seniores que fundaram a revista National Review, Meyer foi um apparatchik do Partido Comunista dos EUA antes de se converter ao conservadorismo político. Suas experiências como comunista são relatadas em seu livro The Moulding of Communists: The Training of the Communist Cadre em 1961. Enquanto servia no Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, leu O Caminho da Servidão, de Hayek, e começou uma "reavaliação excruciante de suas crenças comunistas". Em 1945, fez uma ruptura completa, após 14 anos de serviço de liderança ativa ao Partido Comunista.Dennis, pp. xii–xiii Após a guerra, ele contribuiu com artigos para o precoce periódico defensor do livre mercado The Freeman e, mais tarde, em 1955, juntou-se à equipe original da National Review.
Uma vez completa a guinada para a direita, Meyer se tornou um conselheiro e confidente de William F. Buckley, Jr., o fundador e editor da National Review. Na introdução do livro Did You Ever See a Dream Walking: American Conservative Thought in the 20th Century (1970), Buckley deu a Meyer o crédito por sintetizar de maneira adequada as tendências tradicionalistas e libertárias do conservadorismo, começando pela própria revista.p. xxxiii
Meyer escrevia uma coluna chamada "Princípios e Heresias", que aparecia em todas as edições da revista. Foi o editor de resenhas de livros; e atuou como um importante porta-voz de seus princípios.
Meyer se casou com a Elsie Bown e teve dois filhos: o advogado John Cornford Meyer e Eugene Bown Meyer, que se tornou presidente da Sociedade Federalista . Ambos têm títulos internacionais em xadrez. John é um Mestre FIDE, e Eugene possui o posto de Mestre Internacional, logo abaixo de Grão-Mestre.
Meyer se converteu ao catolicismo pouco antes de morrer de câncer de pulmão em 1972.
Meyer era conhecido nos círculos conservadores e libertários por seu estilo de vida noturno. Buckley e outros relembraram em Miles Gone By: A Literary Autobiography que Meyer dormia durante o dia e ficava ao telefone à noite em nome de seu jornalismo e ativismo.
Filosofia da história O lugar mais relevante para começar a colocar Meyer em contexto está seu artigo "Western Civilization: The Problem of Political Freedom", que fechou a edição de 1996 de In Defense of Freedom and Related Essays. Enquanto pensador daquilo que Hayek"Kinds of Rationalism", Studies in Philosophy, Politics and Economics, Chicago, University of Chicago Press, 1967 chamou de escola filosófica do “racionalismo crítico” (que é mais empírica do que o “racionalismo construtivista” do dedutivismo a priori), a compreensão de Meyer da história mundial é central para sua filosofia. O argumento essencial de Meyer baseia-se explicitamente na volumosa obra Ordem e História, de Eric Voegelin. Para este, toda a história do mundo até os tempos modernos foi composta por sociedades "cosmológicas" que unificaram toda a atividade social sob um mito controlador, subsumindo a sociedade e o Estado num entendimento comum e num monismo de poder. Meyer rotulou as sociedades como "fortemente unificadas"In Defense, 210 em seus costumes, cultura, economias, religião e governo, por meio da supressão de todos os entendimentos contraditórios.
Seguindo "Liberty in Ancient Times", de Lord Acton, Meyer encontrou apenas duas "agitações" históricas nas quais essa unidade cosmológica foi violada, ainda que temporariamente. Em Atenas, Sócrates usou sua visão da caverna para descobrir outra realidade por trás de sua realidade cosmológica, conforme interpretada por suas autoridades democráticas. Sócrates as desafiou ao ver as formas ideais como o verdadeiro repositório da verdade, além dos mitos de sua cultura. A unidade foi desafiada de maneira tão fundamental que a sociedade se voltou contra o profeta, matou-o e retornou à sua unidade anterior. Abraão também rejeitou a unidade cosmológica de Ur e reivindicou um Deus que era independente e mais poderoso do que seu mito. Moisés reforçou isto anos depois ao rejeitar a sociedade cosmológica egípcia para estabelecer uma Jerusalém cujos profetas também desafiariam o Estado e a sociedade, com Natã até mesmo forçando o monarca a admitir o mal e se arrepender. Ainda assim, os representantes do poder estatal em geral ignoravam ou restringiam seus desafiantes. De todo modo, Roma, um novo Estado cosmológico, pôs fim a ambas as agitações e estabeleceu uma unidade cosmológica ainda mais forte.
César tornou-se o “símbolo santificado do cosmos”, nos termos de Meyer,In Defense, 221 e passou a dominar o mundo conhecido. Os tempos modernos não quebraram a unidade até que uma pequena voz no interior de Roma gritou: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". A Encarnação, o "lampejo da eternidade no tempo", como Meyer a rotulou,In Defense, 219 de fato cortou a unidade pelos seus efeitos concretos e provou empiricamente ser ainda mais duradoura na Europa do que César. Contudo, não criou uma nova unidade, mas uma “tensão” In Defense, 220–221 entre o poder empírico e um poder místico proveniente de outro mundo, que no entanto energiza este mundo. Na Europa, há "dois conjuntos de tensões" de Igreja e Estado contestados e, mais tarde, outras tensões de cidades, vilas e propriedades foram adicionadas, culminando em uma Carta Magna que exigia que nenhuma força unificasse o resto, o que criou as condições para a liberdade sob a lei acordada, em vez de uma única forma cosmológica imposta pelo Estado.
A ideia de dividir o poder para permitir a liberdade dentro da tradição foi apenas parcialmente concretizada na Europa medievalIn Defense, 222 e foi mais tarde desafiada fundamentalmente pela ascensão das monarquias e parlamentos nacionais, que reivindicavam um direito e poder divino ou popular para se reconstituírem em novas formas cosmológicas ou utópicas para recuperar o sentido de ordem e unidade prometido pelo monismo. Antes que a tensão fosse domada na Inglaterra, ela foi transferida para as suas colônias na América, as quais estavam protegidas pelo isolamento, e assim foi possível que que a tensão e o equilíbrio de poder entre a liberdade e a tradição atingissem o seu pináculo na Constituição dos EUA.In Defense, 223– A tentação utópica de regressar ao casulo da unidade cosmológica ou radical, contudo, sobreviveu até mesmo nos Estados Unidos.In Defense, 215–216
Seja pelo lado doméstico, como a de Woodrow Wilson,The Study of Administration, Washington, D.C., Public Affairs Press, 1955; originally published 1887 seja por influências estrangeiras, como Rousseau, Hobbes e Maquiavel, os reformadores viam a divisão do poder, bem como a tradição que sustentava a sua tensão, como os problemas sociais centrais dos tempos modernos, assumindo a tarefa de remover os impedimentos a uma unidade restaurada. Para Meyer, a tarefa do conservadorismo era preservar a tensão da tradição ocidental para proteger a liberdade humana, que era inerentemente pluralista.
Liberdade e tradição Em seu livro mais influente, Em Defesa da Liberdade, a liberdade foi definida no que Isaiah Berlin chamaria de termos "negativos" como a minimização do uso de coerção pelo Estado em seu papel essencial de impedir que a liberdade de uma pessoa interfira na de outra. Enquanto o utopismo de esquerda era considerado a ameaça imediata à sobrevivência dessa liberdade, Meyer visava um "Novo Conservadorismo" como o principal antagonista contra a liberdade da direita em sua época. Este novo conservadorismo via a sociedade como um organismo cujo agente era o governo nacional e não os estados ou entidades privadas.In Defense, 57 Os novos conservadores eram menos estatistas do que a esquerda e até apoiavam retoricamente a liberdade, mas era uma liberdade definida como um fim e não como um meio,In Defense, 74 com Meyer a usar a definição de liberdade positiva de Clinton Rossiter, de 1955, no seu Conservadorismo na América como o seu principal contraste.In Defense, 75
Meyer argumentou que a virtude só poderia residir no indivíduo.In Defense, 78 O Estado deve proteger a liberdade, mas deixar a virtude a cargo dos indivíduos. O direito dos outros à liberdade deve ser respeitado pelo indivíduo, mesmo que o Estado não o respeite.In Defense, 83–84 O Estado tem apenas três funções legítimas: polícia, exército e sistema jurídico,In Defense, 100 todas necessárias para controlar a coerção, a qual é imoral se não for restrita. Há uma obrigação para com os outros, mas é individual, pois até o “Grande Mandamento” é expresso de forma individual: Deus, o próximo e nós mesmos somos, cada qual, individual.In Defense, 82 A virtude é crucial para a sociedade, e a liberdade deve ser equilibrada pela responsabilidade; mas ambas são inerentemente individuais na forma.In Defense, 69 Os valores impostos não podem ser virtuosos.In Defense, 121 A questão de como preservar a ordem moral é importante, mas exigiria “outro livro” In Defense, 81 que ele nunca escreveu. No entanto, mesmo quando o Estado toma medidas devidamente limitadas para proteger a liberdade, a tradição moldará necessariamente cada uma dessas decisões.In Defense, 84–86
A liberdade por si só não tem objetivo, nem fim intrínseco.In Defense, 157 A liberdade de Meyer não é abstrata nem utópica, como a dos utilitaristas, que também fazem da liberdade um fim e não um meio.In Defense, 79–80 Uma utopia de liberdade é, para ele, uma contradição em termos.In Defense, 87–88 Numa sociedade real, a ordem tradicional e a liberdade só podem coexistir em tensão.In Defense, 98 Para manter a essencialidade da liberdade e da tradição, a solução para o dilema é “agarrá-la pelos dois chifres”.In Defense, 80 A solução é uma síntese de ambas, mesmo diante daqueles que, como Leo Strauss,Leo Strauss, Natural Right and History 1953 argumentam que tal síntese não é possível ou mesmo lógica. Donald Devine argumentou que a síntese de Meyer é um primeiro princípio ou axioma tão válido quanto o primeiro princípio monista de Strauss, e relaciona isso à tradição filosófica do racionalismo crítico de Hayek e àqueles que ele identifica com ela, como Aristóteles, Cícero, Tomás de Aquino, Montesquieu, John Locke, Adam Smith e Lord Acton.Donald J. Devine. America's Way Back, Wlimington, Delaware, ISI Books, 2012, Ch. 6
Críticos tradicionalistas