miniaturadaimagem|290x290px| Forty Part Motet de Janet Cardiff (2001) no ARoS Aarhus Kunstmuseum na Dinamarca. A arte sonora é uma atividade artística na qual o som é utilizado como meio ou material primário. Como muitos gêneros de arte contemporânea, a arte sonora pode ser interdisciplinar por natureza ou ser usada em formas híbridas. De acordo com o teórico Brandon LaBelle, a arte sonora como prática "aproveita, descreve, analisa, executa e interroga a condição do som e o processo pelo qual ele opera".
Na arte ocidental, os primeiros exemplos incluem os entoadores de ruído Intonarumori (1913) do futurista Luigi Russolo e experimentos subsequentes de dadaístas, surrealistas, da Internacional Situacionista e eventos Fluxus e outros acontecimentos. Devido à diversidade da arte sonora, muitas vezes há debate sobre se a arte sonora se enquadra nos domínios da arte visual ou da música experimental, ou ambos. Outras linhagens artísticas das quais a arte sonora emerge são a arte conceitual, o minimalismo, a arte site-specific, a poesia sonora, a música eletroacústica, a palavra falada, a poesia de vanguarda, a cenografia sonora ,e o teatro experimental.
Origem do Termo De acordo com a pesquisa de Bernhard Gál, o primeiro uso publicado do termo foi encontrado na Something Else Press na capa de seu anuário de 1974. O primeiro uso como título de uma exposição em um grande museu foi Sound Art, de 1979, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), com Maggi Payne, Connie Beckley e Julia Heyward.
A curadora, Barbara London, definiu a arte sonora como "mais intimamente ligada à arte do que à música, e geralmente é apresentada em museus, galerias ou espaços alternativos". Comentando sobre uma exposição chamada Som/Arte no SculptureCenter na cidade de Nova Iorque em 1984, o historiador de arte Don Goddard observou: "Pode ser que a arte sonora siga a percepção do curador Hellermann de que 'ouvir é outra forma de ver', que o som tem significado apenas quando sua conexão com uma imagem é compreendida. A conjunção de som e imagem insiste no envolvimento do observador, forçando a participação no espaço real e no pensamento concreto e responsivo, em vez de espaço e pensamento ilusórios".
Música Concreta e Experimentalismo O desenvolvimento da arte sonora moderna deve muito à redefinição estética do som promovida em meados do século XX. O compositor francês Pierre Schaeffer, ao criar a "música concreta" em 1948, inovou ao utilizar ruídos captados do mundo real como material bruto e primário para as suas composições. Schaeffer formulou o conceito de "objeto sonoro" e incentivou a "escuta reduzida" – uma abordagem perceptiva facilitada pela situação acusmática (em que a fonte que emite o som não é vista, como na difusão por alto-falantes), na qual o ouvinte foca estritamente nas qualidades intrínsecas e morfológicas do som.
Paralelamente, o experimentalismo estadunidense encabeçado por compositores como John Cage revolucionou as artes ao inserir o ruído cotidiano e o silêncio como instâncias plenas da arte musical. Cage dissolveu a fronteira rígida entre som musical e não musical, consolidando a ideia de que a escuta atenta dos acontecimentos acústicos do acaso constitui, por si só, uma experiência estética.
A Paisagem Sonora (Soundscape) O entendimento do ambiente sonoro como material artístico foi profundamente influenciado pelo conceito de paisagem sonora (soundscape). O termo foi consolidado pelo compositor e educador canadense Raymond Murray Schafer, especialmente em seu marco bibliográfico A Afinação do Mundo (The Tuning of the World, 1977), no qual trata o mundo como uma "composição musical macrocósmica".
Na ecologia acústica de Schafer, a paisagem sonora é analisada através de sons fundamentais (keynote sounds, as "tonalidades" do ambiente), sinais (para os quais a atenção é dirigida conscientemente) e marcas sonoras (soundmarks, sons singulares estimados por uma comunidade).⁵ Schafer também divide as paisagens em hi-fi (alta fidelidade), comuns em campos e naturezas com alta clareza de perspectiva acústica, e lo-fi (baixa fidelidade), fruto do congestionamento de ruídos na era pós-Revolução Industrial.
Esse conceito tem vasta aplicação multidisciplinar, estendendo-se aos estudos de audiovisual. O cineasta francês Robert Bresson, por exemplo, compunha magistralmente o desenho de som de seus filmes dividindo-os entre paisagens sonoras da cidade (marcadas por ruídos de trânsito e motores) e do campo (sinos, vento, pássaros). Bresson tratava os ruídos não como meros efeitos sonoros de fundo, mas explorando o seu ritmo e timbre para criar uma "música dos ruídos", demonstrando a aplicação estética da noção de paisagem no cinema
Instalação de som miniaturadaimagem|357x357px| Quarteto(s) de cordas de 43 horas de Georges Lentz na Capela Cobar Sound (2022), com alto-falantes nas quatro paredes A instalação sonora é uma forma de arte intermídia baseada no tempo. É uma expansão de uma instalação artística no sentido de que inclui o elemento sonoro e, portanto, o elemento tempo. A principal diferença com uma escultura sonora é que uma instalação sonora tem um espaço tridimensional e os eixos com os quais os diferentes objetos sonoros estão sendo organizados não são exclusivamente internos à obra, mas também externos. Uma obra de arte só é uma instalação se dialoga com o espaço envolvente. Uma instalação sonora geralmente é específica para um local, mas às vezes pode ser readaptada para outros espaços. Pode ser realizada em espaços fechados ou abertos, e o contexto é fundamental para determinar como uma instalação sonora será percebida esteticamente. A diferença entre uma instalação de arte regular e uma instalação sonora é que esta última contém um elemento temporal que dá ao público visitante a opção de permanecer mais tempo para explorar o desenvolvimento do som ao longo do tempo. Este fator temporal também dá ao público um incentivo para explorar o espaço mais profundamente e investigar a disposição dos diferentes sons no espaço.
Instalações sonoras às vezes usam tecnologia de arte interativa (computadores, sensores, dispositivos mecânicos e cinéticos, etc.), mas também podem simplesmente usar fontes sonoras colocadas em diferentes pontos do espaço (como alto-falantes) ou materiais de instrumentos acústicos, como cordas de piano tocadas por um artista ou pelo público. No contexto dos museus, esta combinação de tecnologia digital interativa e distribuição de alto-falantes multicanal é às vezes referida como cenografia sonora.
Escultura sonora A escultura sonora é uma forma de arte intermídia baseada no tempo, na qual escultura ou qualquer tipo de objeto de arte produz som, ou o inverso (no sentido de que o som é manipulado de forma a criar uma forma escultural em oposição à forma ou massa temporal). Na maioria das vezes, os artistas de escultura sonora eram principalmente artistas visuais ou compositores, não tendo começado diretamente a fazer escultura sonora.
A cimática e a arte cinética influenciaram a escultura sonora. A escultura sonora às vezes é específica do local. A pesquisa de Bill Fontana sobre escultura sonora urbana investiga o conceito de mudança de ruído ambiente em paisagens urbanas para produzir encontros auditivos distintos. Por meio dessa abordagem, ele modifica a paisagem sonora circundante, impactando a forma como os ouvintes percebem seu ambiente, ao mesmo tempo em que destaca os elementos auditivos e visuais de um espaço específico.
O artista sonoro e professor de arte na Claremont Graduate University, Michael Brewster, descreveu suas próprias obras como "esculturas acústicas" já em 1970. Grayson descreveu a escultura sonora em 1975 como "a integração da forma visual e da beleza com sons musicais mágicos por meio da experiência participativa".
A Arte Sonora no Brasil No Brasil, os estudos sobre o som consolidaram-se vigorosamente nas universidades, unindo práticas de artes visuais e música. O país apresenta vasta atividade de pesquisa nesse domínio, exemplificada pela atuação do NuSom (Núcleo de Pesquisas em Sonologia), criado na Universidade de São Paulo (USP) em 2012 e sob a coordenação do pesquisador Fernando Iazzetta.
A investigação da arte sonora brasileira tem se expandido para variadas perspectivas poéticas que conectam a criação contemporânea com a reflexão teórica.Práticas que abordam a escuta como matéria de criação incluem a invenção de métodos como os "relatos afetivos" explorados por Valéria Bonafé e Lílian Campesato, assim como a sensível captação das ambiências urbanas através de caminhadas sonoras (soundwalks), aprofundadas nos registros experimentais de Alexandre Fenerich. O Brasil abriga uma forte pesquisa interdisciplinar que entrelaça o legado da música contemporânea, a performance e a intervenção no espaço acústico, reafirmando a força da arte sonora no país.
Galeria
Ver também Obra de arte Música eletrônica Fluxus Intermídia Noise Performance (arte) Efeito sonoro Poesia fonética Paisagem sonora Música de jogos eletrônicos
Notas
Categoria:Arte digital Categoria:Arte contemporânea