A perseguição ao Goeben e Breslau foi uma ação naval ocorrida no início da Primeira Guerra Mundial entre forças do Reino Unido sob o comando do almirante sir Berkeley Milne contra aquelas da Alemanha sob o comando do vice-almirante Wilhelm Souchon. Ela ocorreu entre os dias 4 e 10 de agosto de 1914 no Mar Mediterrâneo e Mar Egeu quando elementos da Frota do Mediterrâneo britânica tentaram interceptar as duas embarcações da Divisão do Mediterrâneo alemã.
O cruzador de batalha SMS Goeben e o cruzador rápido SMS Breslau da Marinha Imperial Alemã ficaram presos no Mediterrâneo com o início da guerra e assim foram instruídos a navegar para Constantinopla, no Império Otomano. Forças britânicas foram enviadas atrás deles, mas inicialmente não atacaram porque na época o Reino Unido e a Alemanha ainda não estavam em guerra. Os alemães reabasteceram na Itália e escaparam por uma mistura de ordens contraditórias, cautela e recusa por parte de Milne de acreditar que eles estavam realmente seguindo para Constantinopla.
O Goeben e Breslau foram transferidos para a Marinha Otomana ao chegarem e renomeados para Yavuz Sultan Selim e Midilli, respectivamente, mas mantiveram suas tripulações. Alguns meses depois foram usados para bombardear portos russos no Mar Negro, forçando a entrada da Rússia na guerra. Do lado britânico, Milne e seu subordinado, o contra-almirante Ernest Troubridge, tiveram suas carreiras praticamente encerradas pelo fracasso em pegar os alemães.
Antecedentes Alemanha
A Primeira Guerra Balcânica começou em outubro de 1912 e no mês seguinte o Estado-Maior alemão determinou que uma presença naval no Mar Mediterrâneo era necessária para que a Alemanha projetasse poder na região. Enquanto isso, o Império Otomano solicitou ajuda dos signatários do Tratado de Berlim por uma frota internacional contra o risco do Exército Búlgaro que avançava em direção da capital Constantinopla. Nove países enviariam navios a fim de protegerem seus interesses. O almirante Alfred von Tirpitz sugeriu o envio das embarcações mais novas: o cruzador de batalha SMS Goeben, que estava em testes marítimos, e o cruzador rápido SMS Breslau, que tinha recentemente terminado seus testes. O imperador Guilherme II concordou e assim o Breslau deixou Kiel em 5 de novembro, com o Goeben deixando Wilhelmshaven no dia seguinte. Chegaram em Constantinopla no dia 15. As forças búlgaras tinham avançado até Çatalca, mas o Exército Otomano conseguiu proteger a capital. A frota internacional permaneceu na cidade até a virada do ano.
Na época, a Marinha Imperial Alemã operava principalmente em suas águas territoriais, com a exceção de uma frota que protegia suas colônias no Extremo Oriente e alguns cruzadores rápidos que partiam em viagens diplomáticas pelo mundo. O fato da Alemanha colocar uma pequena força naval no Mediterrâneo não incomodou Reino Unido e França, pois suas principais preocupações navais na região eram contra a Itália e Áustria-Hungria. Britânicos e franceses firmaram um acordo em 10 de fevereiro de 1913 que estabelecia que, em caso de guerra contra a Alemanha, a responsabilidade por proteger o Mediterrâneo ficaria principalmente com a Marinha Nacional Francesa, enquanto a Marinha Real Britânica protegeria o Canal da Mancha e o litoral francês do Oceano Atlântico. Navios britânicos no Mediterrâneo ficariam sob comando francês se necessário. Além disso, ambos poderiam usar as bases navais do outro.
O Goeben e Breslau visitaram vários portos a partir de abril de 1913, com a Divisão do Mediterrâneo sendo reforçada nessa época pelos cruzadores rápidos e . A Segunda Guerra Balcânica começou em junho e os navios permaneceram na região. O Strassburg e Dresden voltaram para casa ao final deste conflito, enquanto o vice-almirante Wilhelm Souchon assumiu o comando da formação em 23 de outubro. A partir de então Souchon começou a avaliar como causar o máximo de impacto na região em caso de guerra, coletando informações sobre diversos assuntos como canais, correntes marítimas e áreas de ancoragem. O Goeben e Breslau continuaram suas atividades e visitaram aproximadamente oitenta portos no Mediterrâneo. A Alemanha demonstrava seu poder durante essas visitas ao mesmo tempo que coletava inteligência em preparação para uma guerra. Os esforços de Souchon levaram os Estados-Maior alemão e austro-húngaro a prepararem sinais, códigos, símbolos de reconhecimento e planos táticos em comum. A Divisão do Mediterrâneo fez uma visita de rotina a Constantinopla em 22 de maio e 150 marinheiros voluntariamente ajudaram a combater um incêndio que começou em um edifício do porto. Três morreram e outros quatro ficaram feridos, com os funerais dos mortos atraindo grande público.
Souchon enviou uma mensagem a Tirpitz em maio de 1914 mencionando problemas nas caldeiras do Goeben e afirmando que o navio ficaria impróprio para navegar em dois meses. A Marinha Imperial pretendia substituir o Goeben por seu irmão em outubro, porém isto se tornou impossível depois do assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria em 28 de junho e o subsequente aumento das tensões entre as grandes potências. Souchon avaliou imediatamente depois do assassinato que a guerra era iminente. O Goeben e o Breslau eram as únicas forças navais alemãs no Mediterrâneo. A missão da divisão em caso de conflito seria interceptar navios de transporte de tropas franceses vindos da Argélia. Consequentemente, Souchon ordenou que seus navios fossem para Pola, na Áustria-Hungria, a fim de passarem por reparos. Engenheiros foram enviados da Alemanha para trabalharem nas embarcações. Os reparos foram concluídos rapidamente em meados de julho, com tubos de caldeiras do Goeben tendo sido substituídos, dentre outros consertos. Os navios então foram para Trieste, em seguida navegaram para os portos argelinos de Bône e Philippeville.
Império Otomano O governo otomano começou em 1909 a fazer planos sérios para comprar navios de guerra de estaleiros estrangeiros com o objetivo de fortalecer a Marinha Otomana e fazer frente à cada vez mais poderosa Marinha Real Helênica, especialmente diante do recém adquirido cruzador blindado . Como solução temporária, os otomanos compraram em 1910 da Alemanha dois couraçados pré-dreadnought obsoletos da Classe Brandenburg, que se tornaram o Barbaros Hayreddin e Turgut Reis.
thumb|240px|Sultan Osman-ı Evvel nos estágios finais de equipagem; sua tomada junto com a do Reşadiye muito enfureceu o governo e público otomanos O governo otomano entrou em negociações com o estaleiro britânico Vickers em 1911 para a construção de dois douraçados. Douglas Gamble, que tinha anteriormente atuado como consultor naval para os otomanos, preparou dois projetos. O primeiro foi encomendado em 8 de junho originalmente com o nome de Mehmed Reşad V e depois alterado para Reşadiye durante a construção. Em resposta, a Marinha Real Helênica encomendou no ano seguinte o couraçado de um estaleiro alemão. Os otomanos, por sua vez, retomaram um esforço para comprar o couraçado Rio de Janeiro da Marinha do Brasil, então ainda em construção. Um acordo de compra foi fechado em janeiro de 1914 e o navio foi renomeado para Sultan Osman-ı Evvel. Enquanto isso, durante a Guerra Ítalo-Turca de 1912, o Reino Unido forçou o Egito, até então um afiliado do Império Otomano, a se neutralizar, com os otomanos enfrentando problemas sérios de transporte de tropas por terra e mar. A Itália também capturou as ilhas do Dodecaneso. O início da Primeira Guerra Balcânica forçou os otomanos a assinarem um acordo de paz com os italianos em 18 de outubro de 1912, perdendo a Líbia.
A crescente tensão internacional após o assassinato de Francisco Fernando fez os britânicos considerarem tomar os navios otomanos. Pelos termos do contrato, o Reino Unido tinha o direito de comprar os couraçados em caso de emergência nacional, porém não era provável que os otomanos aceitassem. O governo otomano tinha pago seis milhões de libras esterlinas pelos dois navios, com parte deste dinheiro vindo de um empréstimo de bancos franceses e a outra de doações arrecadadas do público otomano e impostos. A compra dos couraçados era uma questão nacional. O Reşadiye ficou pronto no início de julho de 1914, entretanto, apesar do governo britânico afirmar que os navios seriam entregues, os estaleiros foram instruídos a não terem pressa. O Reino Unido adiou oficialmente a entrega dos dois no dia 21. Winston Churchill, o Primeiro Lorde do Almirantado, ordenou em 29 de julho que a Marinha Real Britânica impedisse os otomanos de subirem a bordo dos couraçados, com estes sendo oficialmente tomados por marinheiros britânicos dois dias depois. Estas ações foram ilegais porque o Reino Unido ainda não estava em guerra. O embaixador britânico em Constantinopla informou os otomanos da tomada do Reşadiye e Sultan Osman-ı Evvel em 3 de agosto. Churchill, na esperança de reduzir os danos na relação entre os dois países, prometeu entregar os dois navios ao final da guerra ou devolver seu valor, mais pagar mil libras por cada dia que eles fossem usados pela Marinha Real sob a condição do Império Otomano se manter neutro no conflito. Isto foi recusado. A tomada dos navios causou grande indignação no povo otomano, algo usado por İsmail Enver, Mehmed Talat e outros ministros pró-alemães para reunir apoio popular a favor das Potências Centrais.
Ação Primeiro contato O Goeben deixou Pola em 29 de julho e se encontrou em 1º de agosto com o Breslau, que estava ancorado em Brindisi, na Itália, mesmo dia que a Alemanha declarou guerra contra a Rússia. Os dois estavam com pouco carvão, mas os italianos não estavam dispostos a reabastecê-los, alegando que o mar estava muito agitado. Souchon interpretou isso como a Itália querendo deixar a Tríplice Aliança, assim foi para Messina. Ao chegarem os italianos declararam sua neutralidade e se recusaram a fornecer carvão. Os navios então reabasteceram aproximadamente duas mil toneladas de carvão de navios mercantes alemães. Souchon sabia que uma guerra contra a França estava prestes a ser declarada e assim posicionou suas embarcações perto do litoral africano para poder atacar navios de transporte entre a Argélia e Toulon. Ele planejava bombardear os portos de Bône e Philippeville assim que a guerra fosse declarada. Os alemães deixaram Messina na noite de 2 de agosto, com Goeben indo para Philippeville e o Breslau para Bône.
Três esquadras da Marinha Nacional Francesa foram encarregadas de proteger os navios de transporte. Enquanto isso, o almirante sir Berkeley Milne, o comandante da Frota do Mediterrâneo britânica, foi instruído pelo Almirantado em 30 de julho a ajudar a proteger os navios de transporte franceses e estar preparado para enfrentar embarcações alemãs. Já em 2 de agosto veio a ordem de seguir o Goeben com dois cruzadores de batalha. Milne designou o contra-almirante Ernest Troubridge para monitorar a saída do Mar Adriático com uma esquadra composta pelos cruzadores de batalha e , quatro cruzadores blindados, um cruzador rápido e oito contratorpedeiros. Entretanto, os alemães já tinham deixado o Adriático. No mesmo dia, a embaixada britânica em Tarento informou que o Goeben e Breslau tinham sido avistados, com o Almirantado interpretando que eles tentariam sair para o Atlântico e atacar navios mercantes britânicos. O Indomitable e o Indefatigable se separaram dos restantes e foram para Gibraltar. Uma mensagem foi recebida em 3 de agosto dizendo que uma guerra contra a Alemanha era iminente e que o "Goeben deve ser monitorado e acompanhado na saída do Adriático". Milne deveria proteger os transportes franceses, manter os austro-húngaros no Adriático, impedir que o Goeben e Breslau fossem para o Atlântico e capturá-los e afundá-los.