A descolonização de dados é o processo de desapego de modelos coloniais e hegemônicos e estruturas epistemológicas que orientam a coleta, o uso e a disseminação de dados relacionados a povos e nações indígenas, priorizando e centralizando paradigmas, estruturas, valores e práticas de dados indígenas. A descolonização de dados é guiada pela crença de que os dados pertencentes aos povos indígenas devem ser propriedade e controlados pelos povos indígenas, um conceito que está intimamente ligado à soberania dos dados, bem como à descolonização do conhecimento.
A descolonização de dados está ligada ao movimento de descolonização que surgiu em meados do século XX.
História O colonialismo foi a principal fonte de riquezas para os colonizadores durante séculos, com repercussões ainda muito presentes nas populações mais afetadas como povos africanos, asiáticos e indígenas. Com o surgimento da internet, motores de pesquisa, redes sociais, etc., os dados se tornaram as maiores fontes de riqueza, poder e influência na sociedade
As empresas big techs são a base das relações sociais do presente momento histórico. As diferentes redes sociais estão presentes em diversos aspectos do dia a dia da população. Diferentemente do colonialismo original, as big techs não, necessariamente, buscam terras para se apropriar, mas sim explorar os territórios virtuais da vida da população: os hábitos de compra, interações sociais, hobbies, entretenimento, discussões políticas, registros de saúde, etc. Em um nível macro, todos esses dados coletados e catalogados são usados para tomar decisões que impactam um grande grupo de pessoas.
A descolonização de dados é o ato de restabelecer os dados coletados, o que inclui a desconstrução de estruturas de opressão e reclamar outras formas de conhecimento tradicionais, que se opõem ao meio ocidental.
A descolonização de dados é essencial em diversos aspectos sociais, um deles sendo as questões de gênero. A influência e os vieses do pensamento ocidental permeiam toda essa rede de captação e processamento de dados, que reproduz entendimentos e exacerba percepções genderizadas. Por exemplo, quando é feita uma pesquisa sobre mulheres indígenas, as imagens que aprarecem evidencia a forma que essas mulheres são representadas no imaginário coletivo e não como de fato vivem seu dia a dia, elas são representadas semi-nuas ou topless.
São perspectivas como essas que fazem a descolonização de dados algo tão necessário. As mulheres indígenas, africanas, asiáticas são muito mais do que as representações estereotipadas dos seus povos. A descolonização de dados é mais do que rejeição e resistência é, também, reconhecer os problemas que existem na captação e armazenagem de dados e renovar as práticas já estabelecidas.
Os sistemas de dconhecimento indígenas foram substituídos por valores e sistemas ocidentais, desvalorizando as formas indígenas de saber no processo. As práticas de dados indígenas tendem a ser mais holísticas, valorizam opiniões diversas e pessoais e centram-se na comunidade de pessoas para seu próprio benefício, em vez das práticas ocidentais que estão intimamente ligadas à categorização de pessoas como produtos, replicando estruturas coloniais. Tradições como a história oral, a utilização do conhecimento tradicional e outras práticas consideradas “não científicas” foram desvalorizadas e substituídas por formas ocidentais de conhecimento apresentadas como universais e objetivas. Ferramentas como o censo foram usadas para controlar narrativas sobre os povos indígenas, contando os povos indígenas como eles eram vistos pelo governo canadense, em vez de como eles se viam.
A descolonização de dados procura contrariar as narrativas negativas que são reforçadas pelas práticas coloniais de dados que persistem numa era pós-colonial.
Princípios Autoidentificação Os povos indígenas valorizam o direito de se autoidentificarem e de definirem as suas próprias identidades na recolha de dados. Os povos indígenas valorizam a diversidade nas suas comunidades e desejam ver essa diversidade contabilizada nos dados.
Autodeterminação Os povos indígenas valorizam o direito de tomar decisões sobre seus dados. Eles valorizam o direito de controlar como os dados são recolhidos sobre eles, como os seus dados são armazenados, quem fica com a propriedade dos dados e como os dados são utilizados.
Na prática Políticas
HESEIA A HESEIA é uma iniciativa de um dataset baseado na comunidade para avaliar vieses sociais reproduzidos em Large Language Models (LLMs). A presença das LLMs, que estão cada vez mais sendo usadas em várias aplicações, é uma conhecida fonte de reprodução de vieses sociais. Esses vieses podem influenciar a percepção e comportamentos de certas comunidades. Mesmo que exista iniciativas para mitigar essa reprodução de vieses, elas não são desenvolvidas junto às comunidades mais afetadas por esses vieses.
A HESEIA veio para ocupar este lugar. Ela é uma iniciativa em larga escala criada durante um curso de desenvolvimento de professores de 189 escolas latinoamericanas. Esses professores munidos de suas experiências pedagógicas, criaram e validaram exemplos de vieses sociais relevante para suas comunidades.
Sofia Chatbot Sofia é um sistema de escuta feminista apoiada por uma inteligencia artificial. É uma agente tecnológica não humana para dialogar sobre situações de violência e assédio virtual, que é muito presente na vivência de mulheres de todas as idades. Além de ser um chatbot, Sofia também é um lugar onde mulheres que sofreram violências virtuais possam buscar informações. Informações essas a respeito de assédios digitais contra mulheres de qualquer idade, auxilia no processo de denunciar o ocorrido dentro das próprias plataformas, orienta no processo de denúncia a polícia e também faz recomendações para o autocuidado digital.
Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples, UNDRIP) foi apresentada pela primeira vez à Assembleia Geral em 2007. A UNDRIP descreve os direitos abrangentes dos povos indígenas e serve como uma diretriz para países que buscam a reconciliação com suas populações indígenas. O artigo 18 descreve especialmente os direitos dos indígenas de terem poder de decisão em questões que afetam os seus direitos, e isso afeta também os seus direitos de dados. Quatro países votaram contra a UNDRIP quando foi proposta pela primeira vez: Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, embora todos os quatro tenham concordado mais tarde com a declaração.
Canadá O governo canadense começou a endossar a UNDRIP em 2010 e começou a implementá-la totalmente em 2021. Em 2015, a Comissão da Verdade e Reconciliação instou todos os níveis do governo canadiano a adoptarem a UNDRIP.
Estados Unidos Os Estados Unidos apoiam a declaração, mas não apoiam a UNDRIP. Em 2016, a Organização dos Estados Americanos ratificou a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que é semelhante à UNDRIP.
Nova Zelândia A Nova Zelândia anunciou o seu apoio à UNDRIP em 2010 e está actualmente a trabalhar com o Māori Development para conceber e implementar o seu plano de Declaração.
Assistência médica A descolonização de dados na área da saúde envolve a reforma da infraestrutura e das políticas de saúde para priorizar os povos indígenas. As atuais estruturas de dados de saúde coletam, armazenam e usam dados sobre povos indígenas sem necessariamente consultar as contribuições dos povos indígenas, recriando dinâmicas de poder que anteriormente levaram a danos aos povos indígenas. A descolonização dessas estruturas colocaria o controlo sobre os dados relacionados com os cuidados de saúde e a utilização desses dados nas mãos dos povos indígenas.
Estudiosa de saúde pública palestina, Danya Qato delineou alguns princípios para orientar a criação de sistemas de dados de saúde descolonizados.
Centralizar a comunidade: Centralizar as preocupações e opiniões dos povos indígenas em todos os níveis. Diversidade: garantir que as opiniões e a tomada de decisões sejam originadas de várias comunidades indígenas, e não de alguns poucos indivíduos. Transparência: Criar consciência completa nas comunidades indígenas sobre como seus dados são coletados e agregados. Consentimento: Priorizar o consentimento informado dos povos indígenas, informando-os de forma rápida e precisa sobre todas as ações tomadas com seus dados. Ação concreta: Concentrar-se em ações que produzem resultados reais para os povos indígenas, em vez de discursos para pesquisadores.
Categoria:Dados Categoria:Descolonização Categoria:Povos indígenas Categoria:Direitos humanos