Jecinaldo Barbosa Cabral, nascido Ga’p Wasay, em 1979, é indígena da etnia Sateré-mawé, e representa a comunidade habitante das Terras Indígenas Andirá-Marau e Coatá-Laranjal, situadas no médio Rio Amazonas. Vários integrantes da etnia dominam o português e vivem em municípios como Barreirinha, Parintins, Maués, Nova Olinda do Norte e Manaus. Seu nome de nascimento na língua sateré-mawé, do tronco linguístico tupi, está associado à vespa, e segundo Jecinaldo “Se mexer comigo e com os meus, eu ferro mesmo”. Desde 2023, coordena o órgão dos Direitos Sociais Indígenas do Departamento de Promoção da Política Indigenista, ligado à Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas.Sateré que jogou água em Bolsonaro é nomeado no governo Lula. Disponível em: <https://bncamazonas.com.br/poder/satere-que-jogou-agua-em-bolsonaro-e-nomeado-no-governo-lula/>. Acesso em: 23 nov. 2024d.

Biografia Em 1997, aos dezoito anos, inicia na carreira docente na sua aldeia. Paralelamente em 1989, fundava-se o Conselho Geral da Tribo Sateré Mawé (CGTSM), organizado pelos próprios amazonenses na liderança do Tuxaua Zuzu, movimento de expressão política e gestão comunitário integrado à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), com o qual o professor viria a se solidarizar.

No ano de 2002, Barbosa integrou o Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena do Amazonas (CEEI-AM) e assumiu a coordenação geral da Coiab, permanecendo até 2006. Atuou como como coordenador da Organização dos Professores Indígenas Sateré-Mawé (OPISM), proposta pela união de indígenas das terras Andirá e Marau , publicou livros de educação escolar ilustrados com a linguagem tradicional do local.

Em 2009, obteve título na Secretaria de Estado para os Povos Indígenas do Amazonas (Seind) do Amazonas. De 2009 até 2012, participou de uma lista tríplice para dirigir a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). Em 2013, foi eleito prefeito no município de Barreirinha, escolhido "conselheiro suplente" e "líder" dos Sateré Mawé, antes de ter sido recomendado para o cargo político no Ministério dos Povos Indígenas.ALBUQUERQUE, Renan e JUNQUEIRA, Carmen. Brincando de onça e de cutias entre os Sateré-Mawé. Editora da Universidade Federal do Amazonas (EDUA/AM), 232 p, 2017.

Como ativista, esteve ligado a nomes políticos tais quais Sonia Guajajara, ministra dos povos indígenas no Brasil, da qual conserva uma recente amizade. Manteve colaborações no histórico de lutas pró-povos tradicionais com Joênia Carvalho, ex-deputada federal e advogada , que carrega Brasil adentro o nome do povo Wapichana.

Allém disso, repartiu palco em trabalhos com Ana Netto, da Recode/Conexão Povos da Floresta, Dimas Galvão, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Osvaldo Gajardoi, da World Wide Fund for Nature (WWF), Fernando Bittencourt, da The Nature Conservancy (TNC), e Leia Wapichana, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Em 2024, escolhido para simbolizar os Sateré-Mawé (Mahués, Magnés, Mauris), filia-se ao partido Rede Sustentabilidade, juntamente com outro representante indígena, Marcos Apurinã, com quem divide ideais comuns na luta dos povos indígenas e proteção da Amazônia. Para Jecinaldo, a meta até 2026 seria a inclusão de representantes dos sessenta dois municípios do Amazonas, sejam eles indígenas, sejam povos originários.

Formação Em 2002, conciliava sua carreira de docente com o curso de Pedagogia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e os cargos de liderança indígena. Por razão das múltiplas tarefas, trancou o curso universitário para focar nos postos de liderança consagrados.

À época, o Ministério da Educação (MEC) demonstrou interesse na construção de um Centro de Estudos Superiores Indígenas (Cesi), e um projeto de formação dos professores também indígenas, sendo uma unidade à parte da Universidade Estadual do Amazonas. Há tempos o líder e seus companheiros reivindicavam uma medida nesse viés, aclamando sempre por uma educação maior para os indígenas. Contudo, à "vespa" mawé, não interessava só a realização de uma educação indígena por outrem como também acreditava que os indígenas deveriam gerir o processo de ensino e órgãos de deliberação, tal como o Conselho Nacional de Educação. Assim, Jecinaldo procurou promover empregos para os professores indígenas, com meta de 800 professores capacitados pelo Programa de Formação de Professores Indígenas, fundos para aqueles que escreviam os livros didáticos da OPISM, em suma, a inserção do seu povo diretamente nos cargos a serem criados pelo MEC.AS EXPERIÊNCIAS DOS CONSELHOS ESTADUAIS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/vol4b.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2024e.

Ademais, o seu projeto de educação envolvia a defesa da cultura original dos povos amazônicos. Embora não seja contra o ensino de português nas escolas e universidades indígenas, acredita na mesma necessidade de aprendizagem ao idioma nativo (Sataré-mawé), no intuito de preservar a cultura local, instituindo escolas bilíngues. Jecinaldo explicita que não quer uma comunidade isolada, mas que favoreça o diálogo com outros idiomas, embora tema a perda da cultura, da fala, das lendas. Logo, no sistema educacional defendido pelo mesmo, surge uma oportunidade para desfazer uma "imposição de modelos"—nas suas palavras— e recriar a História no ponto de vista Sataré, valorizando os conhecimentos tradicionais tanto quanto os estrangeiros.

De acordo com Barbosa Cabral, existia, no período, um impasse na aplicação do Centro de Estudos Superiores Indígenas (Cesi), pois a maioria dos professores ainda não estavam capacitados para o ensino. Em contrapartida, 600 alunos já estavam prontos para ingressar no terceiro grau. Após alguns anos, em 29 de outubro de 2004, o Ministério da Educação aprova e institui o Centro de Educação Superior (Cesi).

Carreira

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira Enquanto coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Jecinaldo manteve a mesma postura que defendia na sua profissão de docente. As principais pautas abordadas na sua gestão foram: a implantação de novos programas indígenas de saúde, a invasão de terras originais indígenas e o envolvimento das comunidades tradicionais do Amazonas com o tráfico de drogas.

Programas indígenas de saúde

Para entender o problema da implantação de programas indígenas de saúde, é preciso repensar o contexto da época. Jecinaldo Sateré tomou posse da coordenadoria em 2002, no período de transição do Governo de Fernando Henrique Cardoso para Luiz Inácio Lula da Silva.Biografia do Presidente da República. Disponível em: <https://www.gov.br/planalto/pt-br/conheca-a-presidencia/biografia-do-presidente>. Acesso em: 26 nov. 2024.Fernando Henrique Cardoso. Disponível em: <https://presidentes.an.gov.br/index.php/arquivo-nacional/60-servicos/registro-de-autoridade/100-fernando-henrique-cardoso>. Acesso em: 26 nov. 2024. Durante o governo de Henrique Cardoso, havia um sistema de saúde descentralizado para o atendimento das causas indígenas, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). Esse é um programa que perdura até os dias de hoje,Distrito Sanitário Especial Indígena. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sesai/estrutura/dsei>. Acesso em: 26 nov. 2024. porém com modificações em relação ao seu modo de atuação original. Contudo, o presidente Lula difere visão em relação ao político que o precedeu, vinculado ao partido dos trabalhadores, tentou propostas de reestatização; isto é, a volta de áreas segregadas ao poder do estado. Antes, o funcionamento da política do DSEI acontecia pela concessão de dinheiro do governo para Organizações não Governamentais, a fim de que elas, junto aos indígenas, desenvolvessem um mecanismo de atendimento específico para as necessidades Ameríndias. Até que em 2005, Lula anuncia informalmente pretensões de municipalizar a saúde indígena.

Na visão de Jecinaldo Cabral, a municipalização implica a baixa participação indígena no processo, algo que sempre foi contra desde os seus papéis como educador na tentativa de manter os saberes culturais tradicionais. Para ele, o indígena pode ser mais facilmente encaixada dentro dos DSEIs, gerida por ONGs, do que na municipalização de responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O líder indígena e coordenador geral da Coiab complementa o seu ponto contra a municipalização afirmando a persistência das descriminações de indígenas em setores estatais. Apesar de não se determinar radicalmente contra, abre discussão para o tema, pois, ao seu ver, a estatização da saúde destruiria o sistema do Distrito Sanitário Especial Indígena, e acabaria numa apatia dos indígenas por órgãos indigenistas. Além disso, o presidente deu início a uma Campanha Nacional de Vacinação dos Povos Indígenas, ainda no primeiro mandato de Luiz Inácio, afirmando uma mudança na percepção da vacina dentro das comunidades originários. Para tanto, o projeto contou com o apoio do Ministério da Saúde, por meio da FUNASA, da Marinha, Exército e Aeronáutica. Logo, no segundo mandato de Lula a ação recebeu diversas críticas de Organizações Indígenas, dentre elas, da Coiab. A "oposição" chamada SOS Javari ganhou o nome da terra indígena submissa às vacinações no ano de 2008, o Vale do Javari. De acordo com o coordenador Sateré Mawé e entidades parceiras na resistência, a FUNASA não respondeu o documento enviado pelo grupo SOS Javari denunciando o número de mortes indígenas por epidemias de doenças na região. Chegam às organizações indígenas, cada profissional permanece um curto período de tempo, e não fazem um levantamento do quadro de saúde Javari. Desse modo, Jecinaldo e as entidades parceiras cobram o Governo serviços de saúde a fim de conter epidemias e um mapeamento da incidência de doenças.

Proteção de terras indígenas

No ano de 2006, a luta pela proteção de terras indígenas calhou com a manifestação dos indígenas Tenharins, parte de um grupo maior chamado Kagwahiva, bloquearam o quilômetro cento e quarenta e cinco da Rodovia Transamazônica, localizado no sul do Amazonas. A rodovia foi inaugurada no ano de 1972, durante o Governo de Emílio Garrastazu Médici, no ufanismo da ditadura militar. Para a visão dos ministros e do presidente, a construção do projeto da rodovia indicava um novo Brasil, prestes a entrar na época de desenvolvimento econômico. Ainda serviria idealmente como uma forma de povoar-se o país nas regiões mais afastadas, solucionar o problema dos nordestinos sem terra e proporcionar um caminho acessível para o Norte do país. Todavia, quando na época da construção, o governo não sabia ou não se incomodou com a presença de uma Terra Indígena na região, a dos Tenharins. A rodovia cruza no meio da comunidade indígena, dividindo o território e os segregando do local onde mantinham o escoamento de seus produtos. Segundo Osman Brasil, administrador substituto da Funai ao período de 2006, os moradores da região finalmente perceberam o poder que detinham para fazer algo sobre a Rodovia, e o que encontraram, foi a mobilização em forma de manifestações na Rodovia Brasileira duzentos e trinta, quilômetro quarenta e cinco.