Frederico Chimiti Neto (Colatina, 12 de março de 1949), mais conhecido como Dico, é um ex-futebolista brasileiro que jogava como goleiro. Foi eleito pela imprensa esportiva do Pará, em 2000, como o maior de sua posição no futebol paraense no século XX, onde notabilizou-se pelas temporadas servindo o Remo.DA COSTA, Ferreira (2014). Dico - Pequeno grande goleiro. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 115-116

Como remista, Dico chegou a ser o goleiro mais bem avaliado pela revista Placar no Brasileirão de 1972. Contudo, embora terminasse a competição com a média mais alta de notas, perdeu a Bola de Prata para Emerson Leão, por ter disputado uma partida a menos em relação ao mínimo então exigido pela premiação.

Carreira de jogador Início

Nascido no interior do Estado do Espírito Santo, Dico começou a jogar no futebol do Distrito Federal, inicialmente no Colombo, em 1964. Destacou-se rapidamente, a ponto de naquele mesmo ano integrar partidas também da seleção brasiliense. Com o Colombo, foi vice-campeão de 1965 no campeonato distrital.

Seu clube seguinte foi o Rabello, com o qual viria a obter títulos distritais. Também com o Rabello, Dico esteve em 1967 em recordada vitória de 4–1 sobre o Goiás, pela Taça Brasil daquele ano, e em excursão ao Pará. Embora sua estatura de 1,75m fosse considerada baixa para um goleiro, chamou a atenção em duelos contra a dupla Remo e Paysandu.

Dico ainda permaneceu mais uma temporada no Rabello, participando da Taça Brasil de 1968, precisamente a última participação deste clube (potência local na década de 1960, mas eventualmente extinto pela própria construtora homônima que o financiava) no Brasileirão, e ainda jogou um período no Uberaba. Em 1970, chegou ao Pará indicado ao Paysandu, mas a falta de interesse do clube acabou se desdobrando na contratação de Dico pelo Sport Belém. Com Dico no gol, o Sport veio a ser o único time a vencer em 1970 o campeão estadual daquele ano (encerrado apenas em 1971), a Tuna Luso, derrotada no estádio Francisco Vasques por 2–1 pela 10ª rodada.DA COSTA, Ferreira (2013). 1970 - Time "prata-da-casa" deu à Tuna mais um campeonato, após 12 anos. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 160-162

O destaque com o Sport reaproximou Dico do Paysandu, com quem chegou a se apalavrar em 1971, em negociação conduzida pelo dirigente alviceleste Raúl Aguilera. Contudo, a necessidade de uma viagem de Aguilera à Argentina, seu país natal, não permitiu a conclusão da transferência. O Remo, por intermédio do dirigente Fernando Pinto, aproveitou a oportunidade e contratou o goleiro para 1971.

Os títulos do Norte e Norte-Nordeste

Dico não obteve titularidade imediata; nos primeiros cinco clássicos com o Paysandu ocorridos em 1971, entre abril e setembro, os goleiros remistas foram alternados entre Jorge e François. Dico disputou em 3 de outubro seu primeiro Re-Pa, válido pelo jogo-extra que decidiu o segundo turno do estadual de 1971. A vitória azulina por 2–1 assegurou o título do turno ao "Leão" e forçou uma série de melhor-de-três para definir o título estadual.DA COSTA, Ferreira (2015). 1971. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 115-118 Dico atuou em todos os três jogos da série, ao longo do mesmo mês: os dois primeiros terminaram em 0–0 e, no terceiro, o rival comemorou vitória de virada por 3–2, marcante por ser a única vez na história dos Re-Pas em que a equipe que começou perdendo de 2–0 terminou vitoriosa.DA COSTA, Ferreira (2013). 1971 - Papão perdia de 2 a 0, virou o placar e festejou ruidosamente o título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 163-166 Àquela altura, o Paysandu possuía 25 títulos estaduais, contra 21 do Remo.

Ainda em 1971, o Remo conseguiu uma primeira desforra: entre a segunda quinzena de outubro e a primeira quinzena de novembro, realizou-se um grupo estadual com Paysandu, Tuna Luso e Sport Belém pelo edição inaugural da Série B do Brasileirão; apenas o líder avançava. Inicialmente, o Remo ficou no 0–0 no clássico com a Tuna e foi derrotado por 1–0 no Re-Pa. Após esses dois primeiros jogos, o cargo de técnico deixou de ser de Dequinha para ser do goleiro François. O Remo então venceu por 4–0 e por por 1–0 o Sport Belém, empatou em 0–0 com a Tuna e venceu por 2–0 novo Re-Pa.DA COSTA, Ferreira (2018). 1971 - REMO VENCE O TORNEIO SELETIVO PARAENSE. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, pp. 125-127 Dico esteve em ambos os Re-Pas válidos pela seletiva.

Adiante, o Remo foi proclamado campeão do Norte ao vencer o líder do grupo amazonense, a Rodoviária: 1–0 em Belém e 4–1 dentro de Manaus levaram os paraenses a, por sua vez, definirem o Taça Norte–Nordeste de 1971 com o campeão nordestino daquele ano, o Itabaiana. Dico e colegas seguraram o 0–0 em Aracaju e venceram por 2–0 em Belém. Essa conquista classificou o Remo (ainda treinado pelo próprio goleiro François) à decisão da Série B com o vencedor do zonal Centro-Sul, o Villa Nova, vencedor de dois dos três jogos decisivos. No terceiro, os paraenses abriram o placar, mas Dico não pôde evitar dois gols de pênalti que resultaram na virada para 2–1 para os mineiros e o vice-campeonato.

A Bola de Prata de 1972

Em 1972, o Remo inicialmente venceu o primeiro turno do campeonato paraense daquele ano, em Re-Pa recordado especialmente pelos tumultos: na vitória azulina por 2–0 no estádio Francisco Vasques, os artilheiros de cada lado terminaram expulsos - o remista Alcino, por exibir a genitália à torcida rival após marcar o primeiro gol, e o bicolor Bené, por protestar contra suposta irregularidade no segundo gol. Dico também precisou ser retirado, por lesão que gerou paralisação de doze minutos e a necessidade do meio-campista Tito ser improvisado no lugar de Dico no gol.DA COSTA, Ferreira (2015). 1972. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 119-122 Porém, na sequência do torneio o rival venceu o segundo turno e, nas finalíssimas, tornou-se novamente campeão, em outro clássico polêmico, em que refletores do Baenão foram desligados e as redes, retiradas antes de serem religados, sujeitando-se à busca das redes da Curuzu para o jogo prosseguir.DA COSTA, Ferreira (2013). 1972 - Apagaram as luzes do Baenão, surrupiaram a rede, mas o Papão garantiu o bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 167-170

Apesar do Paysandu ter sido o campeão paraense tanto em 1971 como em 1972, o Remo foi o primeiro clube do Pará contemplado com convite da Confederação Brasileira de Desportos para disputar o formato moderno do Brasileirão, para a Série A de 1972. O clube fez campanha elogiada, derrotado somente cinco vezes em vinte partidas, nas quais sofreu vinte gols.DA COSTA, Ferreira (2018). 1972 - EXCELENTE CAMPANHA NO CAMPEONATO BRASILEIRO DA PRIMEIRA DIVISÃO. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, pp. 127-129 O setor defensivo destacou-se em especial, rendendo a Bola de Prata ao lateral-direito Aranha e revelando também o reserva deste, Nelinho. Outros membros da retaguarda azulina, os zagueiros Dutra e Mendes também foram listados em dezembro entre os dez melhores de suas posições naquele Brasileirão pela Placar, em júri que incluía o então jornalista Hélio Gueiros, ao passo que o lateral-esquerdo Cuca figurava entre os dez principais de sua posição em novembro. Dutra, inclusive, ficaria em terceiro para o posto de quarto zagueiro.

Tal como Aranha, Dico recebeu a nota mais alta da revista Placar dentre os jogadores da posição dele, e chegou a ser anunciado como vencedor. Porém, enquanto o lateral recebeu a premiação, o goleiro veio a, na véspera do embarque para busca-la, ser desconvidado pela revista, sob justificativa de que precisaria ter jogado pelo menos 22 partidas. Dico jogou as dezoito primeiras e as três últimas; Luís Fernando, seu reserva imediato, foi o goleiro empregado seguidamente da 19ª à 22ª rodadas. Enquanto jogou, Dico só foi substituído uma vez, dando lugar a Luís Fernando no decorrer de vitória de 4–0 sobre o Santa Cruz, no 13º compromisso dos paraenses.História do Brasileirão (agosto de 2002). Placar n. 1234. São Paulo: Editora Abril, CD-ROM.

A exigência do regulamento para que os postulantes ao prêmio estivessem em 22 partidas já constava na edição publicada em 3 de novembro de 1972 (na qual Dico ainda estava em terceiro colocado entre os goleiros, abaixo de Emerson Leão e do então líder Renato), a ponto de as notas serem acompanhadas pelo informativo "leia o regulamento e entenderá por que alguns jogadores deixaram de figurar na Bola de Prata. (...) Qualquer jogador que, a partir de determinada rodada, não mais puder completar o número mínimo de jogos exigidos para ganhar a Bola de Prata, terá seu nome eliminado da relação semanal dos melhores". A 18ª partida seguida com Dico ocorreu cinco dias depois daquela publicação, ocasião em que foi derrotado por 2–0 em Belém para o futuro campeão Palmeiras, em 8 de novembro.

Por conta de lesão, Dico deixou de jogar as quatro partidas seguintes; também há a versão de que em ao menos uma dessas partidas a ausência teria ocorrido por vontade do próprio Dico. A medida de poupa-lo de modo prolongado somada ao aparente desconhecimento do regulamento renderiam críticas na torcida sobretudo aos comandantes do clube. Na edição publicada em 15 de dezembro de 1972, Leão já liderava com média de 7,80 enquanto Dico possuía 7,77. Desempenhos ruins de Leão nos jogos finais fizeram então que sua média acabasse abaixo do concorrente, que, contudo, já não tinha como preencher o requisito de mínimo de jogos - de acordo com o esclarecimento prestado em janeiro de 1973 pela revista:

No Brasileirão de 1972, cada time jogou ao menos 25 partidas, o que foi o caso do Remo. As equipes classificadas à segunda fase de grupos completaram 28 jogos, os semifinalistas chegaram a 29 e os finalistas Palmeiras e Botafogo realizaram 30.Academia Brasil (agosto de 2002). Placar n. 1234. São Paulo: Editora Abril, p. 6 Em edições futuras da Bola de Prata, a Placar chegou a atenuar a exigência de mínimo de jogos; se para 1972 era preciso estar em 22 de pelo menos 25 partidas possíveis, houve posteriormente premiações como a do lateral-direito Pavão, do São Paulo, em 1994 - de vitória contestada por anos pelos concorrentes Cláudio e Índio, que reclamavam por ter jogado muito mais partidas: dos 27 jogos feitos pelo São Paulo naquele campeonato,Tetra no ano do tetra (agosto de 2002). Placar n. 1234. São Paulo: Editora Abril, p. 28 Pavão esteve em 16; e a do meio-campista Marcelinho Carioca em 2003, a render inclusive reportagem de título "jogou pouco, mas jogou muito", em referência a ele ter participado de somente 18 dos 46 jogos do Vasco da Gama antes de troca-lo, no decorrer do torneio, pelo futebol da Arábia Saudita. Naquele ano, a Placar exigia que cada postulante à Bola de Prata jogasse no mínimo trinta por cento das rodadas possíveis.

Apesar de Dico não ter sido contemplado com a Bola de Prata de 1972, na época a repercussão chegou a propiciar negociação com o Bahia, com o qual chegou a disputar uma partida. Contudo, sua baixa estatura causou desconfianças e terminou devolvido.

Primeiro tricampeonato