O envenenamento da família dos Anjos foi o envenenamento, com arsênio, de membros da família de Zeli Teresinha da Silva dos Anjos, dos quais quatro morreram, três em dezembro de 2024 e uma pessoa poucos meses antes. A nora de Zeli, Deise de Moura dos Anjos, foi depois responsabilizada pelos crimes, mas morreu na prisão por suicídio antes de ser julgada, dando-se por extinto o processo.

O caso, que aconteceu no Rio Grande do Sul, ganhou repercussão nacional e Deise foi considerada uma assassina em série pela polícia.

Contexto Zeli era casada com Paulo Luiz e o casal morava em Canoas, próximo a Porto Alegre, mas após as grandes enchentes que atingiram a região em maio de 2024 eles haviam se mudado para Arroio do Sal, uma praia próxima a Torres. Em 3 de setembro de 2024, Paulo morreu aparentemente por intoxicação alimentar. Zeli também chegou a passar mal e ficar internada, mas foi liberada dias depois. Eles haviam consumido bananas e leite em pó em 2 de setembro, produtos levados por Deise até a casa do casal.

Meses depois, em dezembro, como fazia todos os anos, Zeli preparou um bolo natalino para compartilhar com as amigas e a família e foi isso que ela fez no dia 23 em sua casa em Arroio do Sal. À tarde ela se dirigiu até Torres, onde a família preparou um café e consumiu o doce após um grupo de amigas desistir do encontro. Estavam presentes no café da tarde, além de Zeli, outras seis pessoas. Um dos cunhados de Zeli, marido de Neuza, foi a única pessoa a não comer o bolo. As pessoas que haviam comido o bolo começaram a passar mal em seguida e foram levadas até o hospital, tendo em princípio se suspeitado de intoxicação alimentar. No entanto, a morte de duas das vítimas no mesmo dia e uma das vítimas no dia seguinte, fez com que a equipe de saúde desconfiasse e o posterior resultado das amostras de sangue e urina, no dia 27, deu resultado positivo para a presença de arsênio. Vítimas Fatais: Maida Berenice Flores da Silva (58 anos; irmã de Zeli), Neuza Denize Silva dos Anjos (65 anos; irmã de Zeli), Tatiana Denize Silva dos Anjos (43 anos; filha de Neuza e sobrinha de Zeli) e Paulo dos Anjos (morto meses antes).

Liberadas: Zeli (liberada em 10/01/25); menino de 10 anos (filho de Tatiana, liberado em 03/01/25), Jefferson (marido de Maida e cunhado de Zeli, liberado em 24/12/24)

Perfil da criminosa Deise foi considerada uma pessoa fria, manipuladora e dissimulada pelos delegados que lideraram as investigações. "Ela é tão dissimulada que, mesmo não tendo durante muito tempo uma relação boa com a família do seu esposo, logo após adquirir esse arsênio, ela passou a ter conversas com a sogra, dizendo que estava com saudade, que queria ver ela, que precisava ver ela", disse a delegada Sabrina Deffente.

Motivação Segundo a investigação policial, Deise nutria ressentimentos contra a família: a sogra havia lhe cobrado uma dívida de 600 reais e uma prima do marido havia se casado antes numa igreja na qual a própria criminosa queria se casar.

Investigações As investigações – que ganharam o nome de operação Água Tofana – foram conduzidas pelo delegado Marcos Vinícius Veloso, que pediu a exumação dos corpos das três vítimas fatais, quando a presença de arsênio foi novamente comprovada. Enquanto isto, começaram a surgir dúvidas sobre a verdadeira causa da morte do marido de Zeli em setembro de 2024.

Deise chegou a visitar a sogra no hospital em 26 de dezembro e levou água, suco e chocolate. A acompanhante de Zeli disse que os lacres das bebidas estavam rompidos e que por isto as descartou e depois levou à delegacia para serem analisadas. Posteriormente o resultado foi negativo para veneno. O marido de Neuza, chamado João, não comeu o bolo.

Inicialmente havia suspeitas de que Zeli pudesse ter envenenado os familiares com o bolo, mas no dia 5 de janeiro, um domingo, Deise Moura dos Anjos, nora de Zeli, foi presa temporariamente na praia de Torres. Deise era casada com um filho de Zeli, Diego dos Anjos, e o casal morava em Nova Santa Rita, perto de Canoas e Porto Alegre.

No dia 06, tanto o delegado quanto a diretora-geral do Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul, Marguet Mittmann, falaram sobre o caso, apontando "provas robustas" de que se tratava de envenenamento proposital e que Deise estava envolvida no crime, pois ela havia feito buscas na internet, através de seu celular, sobre formas de matar pessoas com veneno, incluindo os termos "arsênio", "veneno para humanos" e "veneno para o coração".

Além disto, a polícia também revelou que havia testado 89 possíveis fontes do veneno coletados na casa de Zeli e que num pacote de farinha de trigo, que teria sido usada para fazer o bolo, havia 2.700 vezes mais arsênio que seria o normal através do ambiente [um pouco de arsênio pode estar naturalmente no ambiente]. Tatiana, uma das vítimas mortas, tinha 11 mil vezes a quantidade em seu organismo do que seria a normal em caso de contaminação acidental.

As investigações também apontaram que Deise havia levado alimentos, inclusive a farinha envenenada, até a casa de Zeli. Ou seja, Deise havia envenenado com arsênio a farinha que Zeli usou para fazer o bolo. Dias depois, a polícia também revelou que Deise havia levado bananas e leite em pó até a casa de Zeli quando Paulo Luiz faleceu.

O corpo de Paulo foi exumado em 8 de janeiro e no dia 10 a polícia revelou que a exumação apontou a presença de arsênio em seus restos mortais e que Deise teria comprado arsênio quatro vezes, sempre antes das mortes. "Posso dizer com certeza: ela pesquisou, comprou, recebeu e usou veneno para matar as vítimas", afirmou o delegado Cléber dos Santos Lima, chefe do Departamento de Polícia do Interior (DPI) da Polícia Civil em 10 de janeiro durante uma coletiva de imprensa. Testemunhas também relataram que Deise teria dito que um dia ainda queria "ver toda a família num caixão".

Prisão O juiz de plantão de Torres em 5 de janeiro, Jefferson Torelly Riegel, decretou a prisão temporária de Deise, que ficou reclusa no Presídio Estadual Feminino de Torres. "A decisão do magistrado, que determina a segregação da suspeita por 30 dias, levou em conta depoimentos de familiares, relatório preliminar de dados extraídos do telefone da mulher e análises toxicológicas dando conta de que as vítimas foram contaminadas com arsênio", diz o texto divulgado no portal do TJ - RS.

"Se eu morrer, cuide do meu filho e reze bastante por mim, pois é bem provável que eu não vá para o paraíso", dizia uma mensagem enviada pela criminosa a uma pessoa conhecida.

Morte e extinção da pena No dia 6 de fevereiro, ela havia sido transferida para a Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba, onde foi encontrada morta por "asfixia mecânica autoinfligida" (suicídio por enforcamento) na manhã de 13 de fevereiro.

Antes de morrer, Deise deixou alguns textos escritos na cela. Nos textos, ela disse que estava sofrendo depressão e por isso fez "coisas impensadas". Disse também "pagar pelo erro dos outros". Um dia antes de Deise cometer suicídio, o marido dela havia pedido o divórcio.

Ver também Envenenamento da família Silva no Piauí

Ligações externas Lista de notícias sobre o caso no portal G1 Lista de notícias sobre o caso no portal CNN Brasil Assista ao vídeo da coletiva de imprensa no portal G1-RS.

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