Walmir Cardoso Lebrego (Belém, 19 de setembro de 1935 – local e data exata de falecimento, ocorrido antes de 1996,LEAL, Expedito (2013). Quarentas e Quarentinhas. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp. 46-51 desconhecidos), mais conhecido como Walmir, foi um futebolista brasileiro que atuava como atacante, sendo duas vezes artilheiro do Campeonato Paraense de Futebol — nos de 1961 e de 1962, ambos pela Tuna Luso.DA COSTA, Ferreira (2018). CAMPEONATO PARAENSE DE FUTEBOL 1908-2018 Clubes Campeões - Técnicos - Artilheiros. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, pp. 303-312 Pôde ser campeão no de 1964, pelo Remo.DA COSTA, Ferreira (2013). 1964 - Remo perde para o Liberato, se recupera, e conquista o título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 139-141

Curiosamente, seu pai (Quarenta) e um dos irmãos (Quarentinha, maior artilheiro do Botafogo) haviam sido destacados atacantes do rival em comum de Tuna e Remo, o Paysandu.LEAL, Expedito (2024). Quarenta: Meu herói, meu "bandido". QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, pp. 15-18 Contudo, somente Walmir é reconhecido oficialmente como goleador máximo de alguma edição do campeonato paraense, sem ter ocorrido registros oficiais antes de 1947 e sem que o irmão Quarentinha conseguisse a artilharia no período em que esteve no Paysandu. Sabe-se que Walmir faleceu antes de completar 60 anos.

Carreira

Contexto familiar O pai Quarenta, cujo nome real era Luís Gonzaga Lebrego,DA COSTA, Ferreira (2013). Quarenta - El Tigre, o terror dos goleiros. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 238-242 casou-se em 1931 com Myrthes Lopes da Silva. Pelo Paysandu, Quarenta obteve dez títulos entre as décadas de 1920 e de 1940 no Campeonato Paraense de Futebol, o que fazia dele o jogador mais vezes campeão estadual no Brasil — atualmente, é o segundo maior.

Quarenta estava em excursão com o clube no Maranhão quando Myrthes deu em 1935 à luz a um dos filhos do casal, sabendo do nascimento pela imprensa local, que grafou a criança como "Valmiro". Contudo, todos os filhos homens tinham, por ideia da mãe, nomes iniciados em W - segundo esclarecimento dado em 1959 pelo mais famoso deles, Quarentinha (Waldir Cardoso Lebrego): "papai havia se casado duas vezes. Do primeiro matrimônio fazem parte: eu Waldir, Walter, Walmir, Walfrido e Waldemar, todos em W. A ideia do W partiu de mamãe. A madrasta já não quis seguir a linha da mesma letra". Outros filhos de Quarenta e Myrthes eram Wagner e Walquir, além de uma filha, Nadir. Quarenta veio a ter cerca de duas dezenas de filhos, entre seus dois casamentos.

A maioria dos homens filhos do primeiro casamento também tentou o futebol, tal como Quarentinha: segundo seu mesmo depoimento de 1959, Walter, o mais velho, nascido ainda em 1931, estava naquele ano no Bonsucesso e Wagner, no Paysandu, embora este não tenha figurado em nenhuma das partidas do título estadual daquele ano.DA COSTA, Ferreira (2013). 1959 - Jogo emocionante, Toni empata e dá ao Paysandu mais um título. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 118-121 Walquir teria defendido o Sport Belém. Outro dos irmãos, mais conhecido pelo sobrenome Lebrego, esteve já em 1973 no Sporting do Pará. De todos os outros filhos de Quarenta, contudo, foi Walmir o de mais destaque; à altura de 1962, ele já era o único dos irmãos de Quarentinha a seguir jogando profissionalmente o futebol.

Os dias de Paysandu

Terceiro filho mais velho de Quarenta, Walmir começou, tal como o irmão Quarentinha e o pai, no Paysandu. Foi em 1955, altura em que o irmão, que jogara entre 1951 e 1953 na equipe adulta do "Papão", já estava no Botafogo.DA COSTA, Ferreira (2013). Quarentinha Lebrego - O artilheiro que não vibrava. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 243-246 No começo de carreira, Walmir também recebeu o mesmo apelido do irmão, chegando a ser referido como "Quarentinha I" para ser diferenciado de outro colega com quem conviveu nas divisões de base bicolores, Paulo Benedito dos Santos Braga, por sua vez chamado inicialmente de "Quarentinha II".LEAL, Expedito (2013). Dois Ídolos / Dois Destinos. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp. 96-151 O apelido deste era também em homenagem a Quarenta, mesmo sem parentesco com os Lebrego.DA COSTA, Ferreira (2013). Quarentinha - O craque do século XX. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 247-250

Walmir e Paulo Braga integraram no Paysandu a equipe de aspirantes em 1955.NEGRÃO, Luiz (2024). Gol - a história de um campeonato. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, pp. 26-27 O colega, aproveitado no time principal já no mesmo ano de 1955,NEGRÃO, Luiz (2024). O Campeonato teve com finalistas as equipes do Paysandu e Tuna. QUARENTINHA, craque eterno!. Belém: Valmik Câmara, p. 27 viria a se tornar precisamente o maior ídolo alviceleste, ganhando por doze vezes o estadual, superando justamente o recorde de Quarenta. Assim, Walmir foi gradualmente sendo referido na mídia esportiva pelo nome próprio, conforme o apelido se consolidava cada vez mais com este outro Quarentinha.

A despeito da grande ligação familiar com o Paysandu Walmir era torcedor precisamente do arquirrival Remo, para onde viria a transferir-se. Não chegara a jogar nenhum dos Re-Pas de 1955 pela equipe principal do Paysandu.DA COSTA, Ferreira (2015). 1955. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 74-76

Primeiro ciclo no Remo

Sua transferência ao Remo, em 1956, causara desgosto no pai e mesmo castigos físicos por parte deste. Disputou naquele mesmo ano seu primeiro Re-Pa, em 18 de julho, pela primeira partida válida pela "Taça Salevy". Mesmo derrotado por 2–0, ele e o Remo terminaram campeões: sem o atacante em campo, o Remo venceu por 3–0 o segundo jogo, o que pelo regulamento ainda forçaria um terceiro - com Walmir de volta, a partida terminou em 0–0, forçando uma quarta, onde o "Leão", com Walmir, venceu por 2–1 já em 18 de outubro. Nesse período, ele marcou gol em outro clássico, um 1–1 pelo "festival azulino" em 30 de setembro. Pelo decorrer de 1956, Walmir esteve ainda em outros três Re-Pas, todos amistosos, mas sem perder: 2–0 em 7 de novembro, 1–1 em 13 de dezembro e novo 2–0 em 20 de dezembro.DA COSTA, Ferreira (2015). 1956. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 76-79

O campeonato paraense de 1956, por sua vez, adentrou para o ano de 1957, havendo já em 3 de fevereiro a decisão do segundo turno. Walmir fez o único gol do jogo,DA COSTA, Ferreira (2015). 1957. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 79-81 permitindo ao Remo a volta olímpica do turno - e forçando novos Re-Pas em série melhor-de-três, pois o rival havia vencido o primeiro turno. Contudo, o Paysandu, mesmo não sendo campeão desde 1947, venceu os dois primeiros duelos e assegurou o fim de seu pior jejum.DA COSTA, Ferreira (2002). 1956 - Campeão de Futebol Profissional. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 55-57 Curiosamente, o único gol do segundo duelo (em 3 de março) foi do outro Quarentinha.

Em 1957, ano em que casou-se (com Maria do Carmo de Castro Picanço), Walmir ainda se alternava no Remo entre o time principal e o de aspirantes. Seus Re-Pas seguintes pelo time principal em 1957, sem gols dele, foram todos amistosos: 1–1 em 18 de abril, 3–0 em 1º de maio, derrota de 3–1 em 7 de setembro e vitória de 2–1 em 2 de outubro. No estadual de 1957, só encerrado (como na temporada anterior) no ano seguinte, Walmir figurou no primeiro jogo de nova série melhor-de-três - derrota de 2–1, já em 9 de fevereiro de 1958. Ausente dos jogos seguintes, testemunhou o título escapar no minuto final do terceiro clássico, momento em que Carlos Alberto Urubu, em lance famosos, marcou o gol de empate em 3–3 para o Paysandu.DA COSTA, Ferreira (2013). 1957 - Gol de Urubu, no apagar das luzes, garantiu o bicampeonato do Papão. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 111-113

Ao longo do ano de 1958, Walmir esteve em somente outro Re-Pa (ainda em 5 de fevereiro, um 0–0 pela "Taça Salevy") dentre o total de doze, considerando-se amistosos;DA COSTA, Ferreira (2015). 1958. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 81-84 e já não jogou o clássico em 1959.DA COSTA, Ferreira (2015). 1959. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 84-85 Nesse período, defendeu a equipe local do Belenenses. Nesse anos, os campeões foram respectivamente os rivais Tuna e Paysandu.

Artilheiro na Tuna thumb|right|300px|Walmir na Tuna Luso, junto ao pai Quarenta. Em 29 de maio de 1960, Walmir fez o primeiro dos seus 69 gols documentados pela Tuna Luso, em 1–1 com o Avante, pelo campeonato paraense daquele ano, vencido pelo Remo. Apesar do clássico Pa-Tu, sua presença na Tuna foi melhor recebida pelo pai Quarenta, havendo registro fotográfico de Walmir, como tunante, trocar observações com o pai através do alambrado.

Pelo torneio paraense de 1960, Walmir fez dezesseis gols, conseguindo três vezes hat tricks: em 3–0 e em 4–1 ambos sobre o Belenenses e no 5–1 sobre o Pinheirense, além de marcar os dois gols cruzmaltinos em 2–2 contra o Paysandu; em clássico amistoso, marcou também os dois gols da Tuna, em vitória de 2–1 em 15 de novembro. Todavia, o desfecho do estadual viu a Tuna alijada da disputa, restrita à dupla Re-Pa e ao próprio Avante, o surpreendente estreante do certame.DA COSTA, Ferreira (2013). 1960 - Remo teve de voltar ao campo para confirmar título de campeão. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 122-127

No torneio de 1961, embora só marcasse onze vezes, Walmir já pôde ser o artilheiro do campeonato, ainda que o torneio voltasse a ser centralizado na dupla principal.DA COSTA, Ferreira (2013). 1961 - "Montinho artilheiro" colaborou e Papão ficou com o Campeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 129-131 Além de outras três vezes ter conseguido marcar três vezes em uma mesma partida (6–0 no Sacramenta, 5–1 no Júlio César, 7–0 no Belenenses), também converteu em dois clássicos Re-Tu: 1–0 pelo Torneio Início e duas vezes em vitória de 3–2 pelo estadual.

O principal ídolo da história tunante, China, parara de jogar em 1961,DA COSTA, Ferreira (2013). China, o maior de todos. Memorial Cruzmaltino. Belém: ArtGráfica, pp. 252-255 mas sem ele a "Águia" pôde em 1962 voltar a disputar o título, tendo em Walmir novamente o artilheiro - ainda que com nove gols. Ao longo do ano, destacou-se em ambas as rivalidades: contra o Remo, marcou duas vezes em 5–1 pelo Torneio Início, outra em 2–1 amistoso e outra em novo 5–1, também amistoso; contra o Paysandu, marcou os dois gols de vitória por 2–1 no clássico Pa-Tu em duelo que deu o título do segundo turno de modo antecipado à Tuna.DA COSTA, Ferreira (2013). 1962 - Paysandu mantém Gentil Cardoso e chega fácil ao bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 132-135

No total de seis gols sobre o Paysandu naquele ano, Walmir também fez o gol cruzmaltino o primeiro jogo das finalíssimas, mas o "Papão" venceu por 2–1 e, uma semana depois, sagrou-se campeão ao vencer por 2–0. A segunda artilharia fez de Walmir o único, ao lado do referido China (artilheiro da competição em 1953 e em 1958), a conseguir duas vezes sagrar-se goleador do certame como jogador da Tuna.