Enrico Alberto d'Albertis (Voltri, 23 de março de 1846 — Génova, 3 de março de 1932) foi um navegador, explorador e etnólogo, que se distinguiu como escritor e filântropo.Enciclopédia Açoriana: «D'Albertis, Enrico Alberto». O seu espírito aventureiro levou-o a ligar a sua vida ao mar e às viagens e a fazer dele um modelo de cultura científica, desenvolvida especialmente com base nas suas viagens transoceânicas a rotas muito pouco conhecidas na altura em que viveu.Béguinot A. 1932, «L'opera scientifica e marinara del Capitano Enrico A. d'Albertis», in: Atti della Società Ligustica di Scienze e Lettere di Genova, vol. XII, fasc. 1-2. Foi um dos fundadores do primeiro Yacht Club em Itália (em 1879) e a bordo do Violante e do Corsaro, os seus dois iates cutter, percorreu o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, tendo numa das suas viagens seguido a rota percorrida, quatrocentos anos antes, por Cristóvão Colombo. O seu nome está ligado ao Castello d'Albertis, que legou para usufruto público e alberga atualmente o Museu das Culturas do Mundo (Museo delle Culture del Mondo).Castello D'Albertis Museo delle Culture del Mondo. O seu primo Luigi Maria d'Albertis, membro da Expedição dos Mil (Spedizione garibaldina dei Mille), foi também um explorador, botânico e naturalista.Le alghe di Achille Forti : Tra storia e scienza - I personaggi dell'Algario : Enrico Alberto D'Albertis.«D'Albertis, Enrico Alberto» di Francesco Surdich in Dizionario Biografico degli Italiani - Volume 31 (1985). Foi um dos paladinos da teoria da origem genovesa de Cristóvão Colombo.Treccani: D'Albèrtis, Enrico Alberto.Nati a Genova: Enrico Alberto D'Albertis.
Biografia Enrico d'Albertis nasceu na povoação portuária de Voltri, então nos arredores de Génova (cidade de que atualmente é parte), em 1846, o último dos três filhos de Violantina Giusti e de Filippo d'Albertis, rico proprietário de uma fábrica de têxteis. Foi irmão de Bartolomeo d'Albertis e do conde Domenico d'Albertis.Giulia Pastorino, Il capitano d'Albertis e le sue entusiasmanti imprese. Cremona : Tapirulan : Matti da rilegare , 2019.
Depois de frequentar o colégio interno Carlo Alberto, em Moncalieri (província de Turim), matriculou-se no Colégio Naval de Génova (Collegio di Marina di Genova), iniciando-se na vida do mar em 1862, a bordo da corveta Euridice, numa viagem ao Mar do Norte e ao Mar Báltico. No ano seguinte, 1863, participou numa viagem de instrução que o levou ao Egito e às ilhas Canárias. Terminou o curso do Colégio Naval em 1866, como guarda-marinha, depois de ter participado numa viagem de instrução para os alunos dessa escola no navio da Regia Marina Principe Umberto, comandado por Guglielmo Acton, a bordo do qual deu a volta ao mundo. No mesmo ano de 1866 participou na Batalha de Lissa contra a Marinha Austro-Húngara. Nos anos de 1867 a 1869 embarcou nos couraçados Ancona e Formidabile da Marinha Real Italiana.Formidabile class ironclads (1861). Em 19 de novembro de 1869, a bordo do Formidabile, assistiu à inauguração do Canal do Suez.
Em 1870, com 23 anos de idade, abandonou definitivamente a Marinha Real (a Regia Marina), tendo atingido o posto de guarda-marinha de primeira classe, para ingressar na marinha mercante. Em 1870 foi contratado como imediato do Emma D, a bordo do qual realizou várias viagens no Mediterrâneo Oriental e no Mar Negro. Com esse mesmo navio navegou para Inglaterra em 1871. De regresso a Génova, obteve o comando de um veleiro equipado com um motor auxiliar, o Emilia, que a caminho das Índias, liderou o primeiro comboio italiano através do Canal do Suez.
A figura do capitão d'Albertis é certamente a de uma pessoa original, movida pelo gosto dos desafios, da descoberta e da exploração. Em 1872, com apenas vinte e seis anos de idade, percorreu a distância entre a sua cidade, Génova, e Turim utilizando um velocípede de madeira com rodas metálicas. Na mesma altura, percorreu a pé, em tempo recorde, a distância entre a capital da Ligúria e Nice.Enrico Alberto d’Albertis: un genovese di marca “rinascimentale”.
Impulsionado pela sua natureza aventureira, vende as suas ações na empresa familiar e, de 1874 até 1880, d'Albertis dedicou-se quase ininterruptamente ao prazer de navegar no Mar Mediterrâneo a bordo do seu iate Violante. Foi também durante este período que se realizou a primeira das suas três viagens à volta do mundo.Andrea de Pascale, «A Ponente... intorno alla figura del Capitano Enrico Alberto D’Albertis». In Ligures, 4 (2006), Istituto Internazionale di Studi Liguri, Bordighera 2007, pp. 189-200.
Em 1879, Enrico d'Albertis, em conjunto com Augusto Vittorio Vecchi (mais conhecido por Jack la Bolina), Coriolano Ponza di San Martino (o conde Ponza di San Martino), Giacomo Doria (o marquês Doria), Guglielmo Imperiali di Francavilla (o marquês Imperiale), e alguns outros, foi um dos fundadores do Regio Yacht Club Italiano. O estandarte do Violante, uma estrela branca num campo azul, foi durante anos o emblema do clube.
A partir de 1882 dedicou-se a cruzeiros mais exigentes, para os quais utilizou um navio maior, o Corsário, que o levou até à ilha de San Salvador (Watling Island). Para a travessia, utilizou cópias, reconstruídas por ele próprio, dos instrumentos de navegação em uso no século XV: o quadrante, o astrolábio náutico e a balestilha. Após o sucesso da façanha, que lhe valeu a nomeação como capitão-tenente da reserva, efetuou a sua segunda viagem à volta do mundo entre 1895 e 1896. Nos anos seguintes, visitou os portos de Itália e outras partes da Europa.
O capitão d'Albertis completou três vezes a circum-navegação da Terra e uma vez a circum-navegação de África, utilizando os mais variados meios de transporte, do navio ao cavalo, do comboio ao camelo, do veleiro ao hidroavião. Nas suas viagens, construiu cento e três relógios de sol meridianos em todo o mundo, tirou milhares de fotografias e colecionou canhões, alabardas e outras armas.
Em 1886, adquiriu as ruínas do baluarte medieval de Montegalletto (ou Monte Galletto), uma das principais colinas de Génova, e mandou construir o seu próprio castelo em estilo medieval, incorporando os restos do baluarte de modo a preservar as estruturas remanescentes. O castelo, inicialmente conhecido como Castelo de Monte Galletto, atualmente Castello d'Albertis, acabou por se revelar uma curiosa e evocativa mistura de vários estilos arquitetónicos, de um encanto invulgar. Doado, após a sua morte, ao Município de Génova, é hoje sede do Museu da Cultura do Mundo de Génova (Museo delle Culture del Mondo).
Para além das viagens no Mar Mediterrâneo e ao longo das costas de toda a Europa, a sua primeira viagem à volta do mundo, que daria início a uma série de viagens de circum-navegações memoráveis, foi efetuada em 1877.
No verão de 1882 realizou um cruzeiro que o levou a várias localidades costeiras de Espanha, como Málaga e Cádis, antes de se dirigir para a ilha de Alboràn. Depois de atravessar o estreito de Gibraltar, visitou a ilha da Madeira, as ilhas Selvagens e as ilhas Canárias. Durante a expedição, o capitão D'Albertis recolheu várias espécies de algas marinhas, algumas delas raras ou ainda desconhecidas, principalmente em três locais das ilhas Canárias (ilha de Tenerife, Lanzarote e La Graciosa).Alghe dalla crociera del cutter "Corsaro". As espécies recolhidas foram identificadas pelo ficólogo Antonio Piccone que as publicou em monografia.Antonio Piccone, Crociera del Corsaro alle isole Madera e Canarie del capitano Enrico D'Albertis. Alghe. Genova, Tip. de R. Istituto Sordo-muti, 1884.
A travessia que o tornaria famoso no mundo dos navegadores foi organizada em 1891, na véspera do 400º aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo. Para essa viagem, realizada em 1893, d'Albertis mandou construir um iate, o Corsaro, especialmente para o efeito e com ele reconstituiu a rota de Colombo. Em vinte e sete dias de navegação, utilizando os mesmos instrumentos usados por aquele navegador, chegou à ilha de San Salvador (Guanahani ou Watling Island), nas Caraíbas, utilizando instrumentos náuticos que ele próprio reconstruiu, segundo o modelo dos que eram utilizados na época do grande navegador Cristóvão Colombo. Daquela ilha das Caraíbas, viajou para Nova Iorque, onde recebeu a saudação oficial das autoridades norte-americanas.C. Black (editor), Crociere del Violante e del Corsaro. Ugo Mursia & C. editore, Milano, 1973.L. A. Fornaroli, Enrico Alberto d’Albertis, 1846–1932: E un’Appendice sul Castello di Montegalletto. Bozzo & Coccarello, Genova, 1935.
A viagem de regresso à Europa não foi tão confortável para d'Albertis como a viagem de ida, apesar de ter sido efetuada a bordo de um dos quatro navios-escola da Academia Naval de Livorno, que o aguardavam ancorados em New York. De facto, o navio em que viajava o capitão foi atingido por uma tempestade que provocou ondas de cerca de dez metros de altura quando se encontrava ao largo da ilha da Terra Nova e só depois de alguns dias de navegação é que conseguiu sair da tempestade.
De regresso à sua cidade, d'Albertis começou então a frequentar o grupo de exploradores e naturalistas que se tinham reunido em torno do marquês Giacomo Doria, procurando tornar-se útil aos trabalhos de exploração e investigação oceanográfica, efetuando, durante as suas viagens, análises dos mares, dos peixes e da flora que encontrava. Explorador, mas também cientista, efetuou campanhas de escavação com Arturo Issel em algumas das muitas grutas da Ligúria e acompanhou o entomólogo Raffaello Gestro em trabalhos de campo.
O Corsaro terminou a sua atividade participando nas festividades da inauguração do Canal de Kiel em 1895, pois na viagem de regresso foi abalroado ao atravessar o Canal da Mancha.
Em 1900, iniciou o período de investigação sobre África. Viajou pela Tripolitânia, Argélia e Tunísia, depois pela Eritreia (1902), Somália (Benadir) (1905) e várias vezes para o Egito e Sudão. Foi durante este período que conheceu o egiptólogo Ernesto Schiaparelli e participou em escavações em Luxor, no Vale das Rainhas.
Em 1906, visitou a África Oriental, Harrar, Uganda e o Lago Vitória e, em 1908, circum-navegou África, visitando Joanesburgo. Dois anos mais tarde, em 1910, efetuou a sua terceira e última viagem à volta do mundo.
Com o início da Primeira Guerra Mundial, voluntariou-se para patrulhar o Mar Tirreno, tendo sido condecorado com a Cruz de Guerra (Itália) (Croce di guerra al valor militare).
A residência oficial do capitão sempre foi em Génova, no Castello di Montegalletto, mas na realidade viveu muito pouco lá. Quando não estava em viagem, ou no Egito para recuperar do reumatismo e da artrite, refugiava-se de bom grado no seu eremitério em Capo Noli (em Noli), uma construção de madeira com vista para o mar em estilo colonial semelhante a uma cabina de navio, ou ia para a torre de Campese, na ilha de Giglio.Eremo del Capitano Enrico Alberto d'Albertis.
Alguns dos compartimentos do Castello d'Albertis, antiga residência do capitão, decorados no estilo puramente náutico adotado nos navios com os quais costumava fazer as suas travessias.
Foi amigo de importantes personalidades do mundo científico e político, entre as quais Giacomo Doria, Arturo Issel, Leonardo Fea, Odoardo Beccari, Paolo Thaon di Revel, Umberto Cagni e Luigi Salvatore d'Asburgo-Lorena.