Amarílio Ferreira Junior (Campo Grande, 11 de fevereiro de 1954 – Campo Grande, 3 de abril de 2024), foi um historiador, professor e pesquisador brasileiro. da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Universidade Federal de São Carlos. Também foi ativista político do PCB e do PT.
Juventude e militância política Como muitas crianças de sua geração, Amarílio Ferreira Jr. descendia de uma família do meio rural, e era o filho mais velho de Amarílio Ferreira e Moralina Medeiros Ferreira. Precisando morar com parentes durante a infância, aprendeu a exercer trabalhos domésticos e a se “virar sozinho”, ser independente, um aprendizado que praticaria por toda a vida. Aos onze anos de idade, aluno interno do Seminário no Colégio Salesiano de Araçatuba, foi expulso por ter praticado um ato infantil de rebeldia contra os padres. Deixou o Seminário aos prantos, pois amava a vida em coletividade. Mas a pedagogia da época não soube compreender a sua condição de criança, tal como já fora registrado em obras clássicas da literatura brasileira.
Amarílio concluiu o ensino secundário no Colégio Dom Bosco, em Campo Grande. Precisando trabalhar, foi contratado como funcionário do Banco Itaú onde sua função era levar malotes de cheques para compensação. Nessa condição foi alvo de um assalto à mão armada e, no tiroteio entre a polícia e criminosos, escapou da morte por um triz. Durante esses anos, estudou por conta própria, lendo tudo o que lhe “caía nas mãos”, e foi pelo jornal O Estado de S. Paulo que acompanhou os acontecimentos mundiais e brasileiros da primeira metade da década de 1970, tomando consciência da Guerra Fria e da ditadura militar brasileira. Apaixonado pelo cineclubismo, passou a admirar o Cinema Novo e a obra de Gláuber Rocha.
Em 1975, ingressou no Curso de História das Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT) onde logo se destacou pelos seus conhecimentos e postura contrária à ditadura, condição que o fez aderir ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) que estava se reorganizando no sul de Mato Grosso, e, desde então, a política passou a ser intrínseca à sua vida. Em 1976, foi eleito Presidente do Diretório Acadêmico Félix Zavattaro (DAFEZ) época em que os diretórios acadêmicos e sindicatos operários eram vanguardas na luta pela democracia no Brasil. Juntamente com colegas da FUCMT e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, criou o Trote Cultural; o Cine-Clube e organizou a caravana que partiu, de ônibus, de Campo Grande rumo a Salvador para a reconstrução da UNE em 1979.
miniaturadaimagem|Amarílio discursando no XXI Congresso da Confederação dos Professores do Brasil, em Brasília, no ano de 1988.
Após concluir a Graduação, Amarílio prestou concurso para a rede estadual de Mato Grosso do Sul (1981) passando a lecionar na escola da Vila dos Ferroviários, em Campo Grande. Ao mesmo tempo, cursou uma segunda Graduação, dessa vez em Pedagogia, na UFMS. Como professor da escola pública, Amarílio integrou o movimento nacional que começava a se organizar em sindicatos por melhores condições de trabalho e por democracia na educação. Em 1981, foi eleito Presidente da Associação Campo-Grandense de Professores (ACP) e, durante o governo de Pedro Pedrossian, liderou a primeira greve por reajuste salarial e por liberdade de expressão nas escolas públicas, um marco nas lutas democráticas em Mato Grosso do Sul. Nessa fase de sua vida, destacou-se também como ativista e orador nos Congressos da Confederação de Professores do Brasil (CPB) defendendo a unidade da categoria docente.
Em 1981, Amarílio e Marisa Bittar, que viria a ser sua esposa, foram presos em Campo Grande durante uma ação política contra a ditadura, o que lhes causou demissão nas escolas em que lecionavam. O Movimento Matogrossense pela Anistia e Direitos Humanos lançou um Manifesto à Nação denunciando a repressão, que foi registrada nos documentos secretos do Serviço Nacional de Informações (SNI), conforme apurou o próprio Amarílio, em agosto de 2023, no Arquivo Nacional.MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2022.
Sobre a sua participação na luta pela democracia, a Vereadora Luiza Ribeiro homenageou Amarílio na Câmara de Vereadores de Campo Grande -MS, no dia 11 de fevereiro de 2025, propondo o seu nome para designar uma Escola de Educação Infantil (EMEI) na capital. Segundo ela, “Amarílio se tornou referência de sua geração, um dos mais influentes ativistas contra a ditadura militar (1964-1985), e deixou uma contribuição inestimável para a educação e para a história política de Mato Grosso do Sul e do Brasil.BRASIL. Serviço Nacional de Informações (SNI). Informação NQ 031/116/ACG/80. Por ocasião do aniversário de 159 anos da cidade de São Carlos - SP, Amarílio disse ao Portal G1: É incrível como é possível, pelos nomes das ruas, nós associarmos a própria fundação da cidade com a história do Brasil a partir do século XIXNos dois partidos de esquerda em que atuou e dos quais foi dirigente - o PCB (1976 – 1988) e o Partido dos Trabalhadores (1988 – 2024), Amarílio adotou sempre a mesma conduta, conforme definiu Fausto Matto Grosso, “o estilo de pensar e agir do PCB, uma cultura composta por três elementos: pensar a realidade brasileira, defender a democracia e acreditar na política como forma de luta”.MATTO GROSSO, Fausto. Histórias que ninguém iria contar. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2022.
miniaturadaimagem|Amarílio discursando na cidade de São Carlos, no ano de 2018, por ocasião da Reforma da Previdência.
No PT de São Carlos (SP), Amarílio se engajou em todas as eleições da cidade além de ter sido membro da Direção Municipal. Ficou conhecido por sua combatividade, proposição de políticas amplas e discursos públicos.
No Instituto de Ciências Sociais de Moscou Em 1984, de acordo com a política de formação de quadros do PCB, Amarílio Ferreira Jr, seguiu em missão de estudos para o Instituto de Ciências Sociais de Moscou onde realizou cursos de Filosofia e Teoria Política. Como aluno de professores especializados, muitos dos quais falantes da língua portuguesa, dedicou-se inteiramente ao estudo do pensamento de Marx e de Engels. Contudo, não voltou da União Soviética convencido do modelo bolchevique de revolução, conforme escreveu mais tarde: “Entendi melhor os limites históricos da concepção de revolução socialista defendida pelo marxismo-leninismo” FERREIRA Jr., Amarilio. In: Beatriz T. Daudt Fischer. (Org.). Tempos de escola. Memórias. 1ed.São Leopoldo e Brasília: Líber Livros; Oikos, 2012, v. 3.
Quando, em 1991, a União Soviética foi abruptamente desintegrada, Amarílio formou uma comissão com os professores Fausto Matto Grosso e Marisa Bittar a fim de propor à UFMS a vinda do Professor Oleg Tsukânov de quem havia sido aluno de Economia Política no Instituto de Ciências Sociais de Moscou. A iniciativa foi levada adiante pelo então Reitor Fauze Scaff Gattass, que obteve do Ministério da Educação, em 1992, a contratação de Oleg Tsukânov para o Brasil, país que ele amava. Conviver com seu ex-professor no Brasil, conforme dizia Amarílio, foi a chance de ouro para que ele aprofundasse a sua compreensão sobre a revolução bolchevique. Foi uma rara amizade e uma rica relação intelectual.BITTAR, Marisa. Viver é melhor que sonhar. ResearchGate, 2024 (Memórias). Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/379664739_Viver_e_melhor_que_sonhar
Vida acadêmica Antes de se tornar professor universitário, Amarílio Ferreira Jr. exerceu a profissão no Curso Anglo- MACE (Campo Grande – MS) e na rede pública estadual de Mato Grosso do Sul. Em 1987, prestou concurso em História Antiga na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, onde, no Centro Universitário de Aquidauana, atuou na formação de professores. Em 1993, após sua esposa Marisa Bittar ter sido aprovada em concurso público na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Amarílio passou a ser docente nessa instituição na condição de “acompanhamento de cônjuge”. Deixou a UFMS em 1998 após ter sido aprovado em concurso público na UFSCar não tendo se valido, portanto, de transferência. Durante os seus 31 anos de docência na UFSCar, Amarílio foi obsessivo na defesa da escola pública brasileira, provocando os alunos no primeiro dia de aula com a sua clássica pergunta: “Quantos anos vocês pretendem se dedicar à escola pública brasileira por estudarem em uma instituição federal?” FERREIRA Jr., Amarilio. In: Beatriz T. Daudt Fischer. (Org.). Tempos de escola. Memórias. São Leopoldo e Brasília: Líber Livros; Oikos, 2012, v. 3. Reunindo condições legais para se aposentar desde 2014, Amarílio continuou na UFSCar exercendo a profissão que amava pois não concebia estar fora da sala de aula; e assim permaneceu até à data de seu falecimento.
Como resultado de suas pesquisas e produção intelectual, Amarílio passou a ser, desde 2009, Pesquisador Produtividade em Pesquisa do CNPq. Sentia-se honrado por essa condição devido à sua origem de classe e por não ter se graduado em uma universidade do sistema público federal ou estadual. Era grato por sua Graduação nas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT) e orgulhoso por sua inserção como professor e pesquisador do sistema federal. Comparando a sua situação com a de colegas de outros países, enaltecia o papel do CNPq para a pesquisa brasileira.
Na condição de orientador formou 24 doutores e 21 mestres, além de ter orientado dezenas de pesquisas em Iniciação Científica e em cursos de Especialização. Sua primeira pesquisa de fôlego foi a do seu Mestrado, realizado na UFMS (1989 – 1992), depois publicada no livro Sindicalismo de professores em Mato Grosso do Sul, tema de sua especialidade teórica e vivência prática. Em 2009, o Jornal Folha de Campo Grande, noticiou o lançamento do livro referindo-se ao autor como “o grande e fabuloso Amarílio”.Baú da Folha. Folha de Campo Grande, 20 a 26 de setembro de 2009, p. 8 Ele também atuou pela organização acadêmica dos professores, tendo sido, no Rio de Janeiro, em 1999, co-fundador da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), ocasião em que defendeu o nome de Dermeval Saviani para primeiro presidente da entidade.
Três foram os temas de pesquisa realizados por Amarílio Ferreira Jr. durante mais de trinta anos: a educação no Brasil Colonial; a educação durante a ditadura militar; e a educação soviética. Para enfrentar os obstáculos que esse último tema oferece a pesquisadores que não sejam da língua russa ou inglesa, Amarílio valeu-se da experiência de ter vivido na União Soviética onde havia tido a oportunidade de conhecer por si próprio o socialismo real. Com Marisa Bittar, no Instituto de Educação da Universidade de Londres (UCL), entre 2011 e 2019, desenvolveu pesquisas que resultaram em dois livros: A educação soviética (EdUFSCar, 2021) e A escola da Revolução Russa, os primeiros sobre o tema no mundo da língua portuguesa. Além desses dois livros que resultaram das pesquisas no Instituto de Educação na University College London (UCL), Amarílio Ferreira Jr., que se declarava defensor do feminismo, estudou nos arquivos desse Instituto, de 2011 a 2019, a luta das professoras britânicas pela igualdade salarial. Em 2020, publicou o artigo "A luta do National Union of Women Teachers pela igualdade de gênero" na Revista Educação & Sociedade.FERREIRA Jr., Amarilio. A LUTA DO NATIONAL UNION OF WOMEN TEACHERS PELA IGUALDADE DE GÊNERO. EDUCAÇÃO & SOCIEDADE, v. 41, p. e231015-e231015, 2020.