direita|miniaturadaimagem|396x396px|Imperador carolíngio Luís, o Piedoso representado como um soldado romano segurando uma cruz cristã, com um poema sobreposto, de Rábano Mauro, século IX A continuação, sucessão e reestabelecimento do Império Romano é um tema frequente na história da Europa e da Bacia do Mediterrâneo. Reflete as últimas memórias de poder, prestígio e unidade associadas com o Império Romano.
Vários políticos reclamaram a continuidade imediata do Império Romano, usando seu nome ou uma variação dele assim como uma auto-descrição própria ou não. Com o passar dos séculos e mais rupturas políticas ocorridas, a ideia de continuidade institucional tornou-se cada vez mais discutida. Os reividicadores da sucessão do Império Romano mais duradouros foram, no Oriente, o Império Otomano e o Império Russo, que reividicariam a sucessão do Império Bizantino após 1453; e no Ocidente, o Império Carolíngio (século IX) e o Sacro Império Romano-Germânico de 800 a 1806.
Muitas destas reivindicações eram monarquistas por natureza, sem levar em conta a etnia ou a nacionalidade dos antigos romanos da plebe (camponeses pobres e trabalhadores urbanos) desses impérios (exceto no Império Bizantino), a ideia de sucessão estava restrita a grupos como intelectuais e membros da elite. Assim, quando esses impérios foram sucedidos pelos seus estados sucessores, que são repúblicas (como a República da Turquia, a República Federal da Alemanha e a União Soviética e, depois dela, a Federação da Rússia), essas reivindicações foram abandonadas.
Em relação a etnia e a identidade nacional, os italianos de Roma continuam a identificar-se com o gentílico de "romano" nos dias atuais. A grande maioria dos povos românicos ocidentais (portugueses, espanhóis, franceses, seus descendentes coloniais, entre outros) divergiram em grupos que não se identificavam mais como romanos. Proeminentemente, os romenos chamam a si mesmos de români e a sua nação de România. E o moderno povo grego ainda usa algumas vezes Romioi para se referirem a si mesmos, assim como o termo "Romaic" ("romano") para se referiram a língua grega moderna (mas os termos Éllines e Hellēnikḗis são muito mais populares entre os gregos para se referirem a si mesmos e a sua língua); ; .
Separadamente dessas reivindicações, a visão de que o império havia acabado levou a várias tentativas de revivê-lo ou apropriar-se de seu legado, notavelmente no caso da Rússia Ortodoxa. O termo "Terceira Roma", a "Primeira Roma" sendo Roma, na Itália e a "Segunda Roma" sendo Constantinopla, no Império Bizantino, foi usado para justificar essas afirmações de sucessão legítima.
Historiografia e nomenclatura Na Europa Ocidental, a visão de que a deposição de Rômulo Augusto em 476 era um divisor de águas, marcando a Queda do Império Romano do Ocidente e assim começando a Idade Média, foi introduzida por Leonardo Bruni no início do século XV, fortalecida por Christoph Cellarius no final do século XVII e terminada por Edward Gibbon no final do século XVIII. Na prática, isso é mais do que uma convenção historiográfica, já que a ideia imperial do Império Romano Ocidental sobreviveu na maior parte da Europa Ocidental e atingiu territórios que nunca estiveram sob domínio romano durante a Antiguidade Clássica.
A queda de Constantinopla em 1453 e historicamentente e amplamente aceita como o final do Império Romano Oriental/Bizantino e o final da Idade Média. Entretanto, duas reividicações notáveis da sucessão do Império Romano Oriental nos séculos depois da queda de Constantinopla existiram: o Império Otomano e o Império Russo; notavelmente, Maomé II, o sultão otomano que conquistou Constantinopla, justificou a sua ascenção com o título de Imperador dos Romanos (Kayser-i Rum) pelo direito de conquista, o que estava de acordo com a ideologia imperial bizantina que acreditava que o controle de Constantinopla era o fator-chave para legitimizar um imperador. Essa ideia era apoiada por Jorge de Trebizonda. A reividicação de Maomé II também foi reconhecida por Genádio II de Constantinopla depois de Maomé II nomeá-lo Patriarca Ecumênico de Constantinopla em 1454, um ano após a queda de Constantinopla A reividicação de Maomé II, porém, não foi aceita pela Igreja Católica ou os estados cristãos da Europa daquela época, e fez com que Maomé II pensasse em conquistar a Itália para que eles reconhecessem a sua reividicação, mas a sua morte em 1481 foi a última vez que o Império Otomano viu alguém querer conquistar a Itália ou a cidade de Roma; os imperadores depois dele lutaram contra os reividicadores rivais do título romano (o Sacro Império Romano-Germânico e o Império Russo). Como o Império Otomano se distanciou com o legado greco-romano para fortalecer sua legitimidade islâmica, as reividicações otomanas do Império Romano acabaram, e o último uso oficial do título de Kayser-i Rum foi no século XVIII.
Nomes direita|miniaturadaimagem|De Byzantinæ historiæ scriptoribus, página com o brasão de Luís XIV O império que a historiografia moderna chama de "Império Bizantino" nunca usou essa expressão, e continuou a chamar-se de Império Romano, Império dos Romanos ou Romania até a Queda de Constantinopla. [<span title="This claim needs references to reliable sources. (April 2023)">citation needed</span>] Depois do estabelecimento do Sacro Império Romano-Germânico em 800, os cristãos ocidentais europeus eram relutantes em aplicar o epíteto "romano" para o Império Oriental, chamando-o normalmente de "Império dos Gregos" ou "Império Grego", embora eles também usassem Romania – que mais tarde foi usado para o Império Latino no século XIII. [<span title="This claim needs references to reliable sources. (April 2023)">citation needed</span>] Em contraste, os muçulmanos do Levante e os orientais referiam-se ao povo do Império Oriental como "romanos" (Rum), e os europeus ocidentais, incluindo os do Sacro Império Romano-Germânico como "francos" (Farang).
O nome Bizâncio refere-se à antiga cidade do Bósforo, agora chamada Istambul e que Constantino renomeou para Constantinopla em 330. Não foi usado depois disso, exceto em raros contextos históricos e poéticos, até que tomou o seu significado atual em 1557, quando o estudioso alemão Hieronymus Wolf publicou o seu Corpus Historiæ Byzantinæ, uma coleção com fontes históricas sobre o Império Oriental. Depois de 1648, Philippe Labbe e depois os jesuítas franceses publicaram os 24 volumes de Byzantinæ historiæ scriptoribus, e em 1680 Du Cange publicou sua própria Historia Byzantina. Essas obras promoveram o uso do termo "bizantino" entre os autores franceses, incluindo Montesquieu no século XVIII. Fora da França no mundo ocidental, o uso de "bizantino" só se tornou padrão em meados do século XIX, depois que Barthold Georg Niebuhr e seus sucessores publicaram os 50 volumes de Corpus Scriptorum Historiæ Byzantinæ.
Do mesmo modo, o que os historiadores chamam de "Império Carolíngio" e "Sacro Império Romano-Germânico" era o Império Romano, Império dos Romanos ou simplesmente Império para seus súditos e governantes, com "Franco" ou "dos Francos" sendo adicionados dependendo do contexto. Somente em 1157 após as reviravoltas da Controvérsia das Investiduras levaram a prática de chamar o Império, mas não o imperador, de "sacro" (sacrum).Peter Moraw, Heiliges Reich, in: Lexikon des Mittelalters, Munich & Zurich: Artemis 1977–1999, vol. 4, colunas 2025–2028. A referência a "Germânico" (Heiliges Römisches Reich Deutscher Nation, Sacrum Imperium Romanum Nationis Germanicæ), que apareceu no século XV, nunca foi usado em documentos imperiais oficiais,Peter H. Wilson, "Bolstering the Prestige of the Habsburgs: The End of the Holy Roman Empire in 1806", in The International History Review, Vol. 28, No. 4 (dezembro de 2006), p. 719. e mesmo quando se tornou obsoleto com o domínio do Império na Itália o termo não desapareceu completamente. Outras designações coloquiais do início da Era Moderna incluíam "Império Germânico" (Deutsches Reich) ou "Império Romano-Germânico" (Römisch-Deutsches Reich).
Em 1773, algumas décadas antes da queda do Sacro Império Romano-Germânico, Voltaire fez a sua famosa declaração sarcástica de que "não é sacro, nem romano nem um império".
Legitimidade imperial romana Nas primeiras décadas do Império Romano, a legitimidade foi definida pelas instituições herdadas da República Romana, inicialmente junto com uma forma de sucessão hereditária dentro da dinastia júlio-claudiana. Como as antigas instituições republicanas gradualmente perderam relevância, muitos imperadores conseguiam a sua legitimidade pela aclamação do exército, e na dinastia nerva-antonina, adoção por seu predecessor. O próprio Império Romano foi definido pela sua capital homônima, mas isso se tornou obsoleto após a Crise do terceiro século quando o centro administrativo foi transferido para Mediolano (Milão), e depois em várias outras localizações (por exemplo: Nicomédia, Sírmio, Augusta dos Tréveros, Serdica) antes de ser consolidada por Constantino, o Grande, em Bizâncio, renomeada e dedicada como Constantinopla em 330 — enquanto Ravena substituiu Milão como capital política ocidental em 402. Enquanto isso, o império foi cristianizado ao longo do século IV, que redefiniu a autoridade do imperador e ele tornou-se o protetor da nova religião estatal.
Assim, a autoridade imperial, e depois a questão sobre qual governo poderia reividicar o Império Romano, não se baseando em apenas um critério mas em vários fatores: poder territorial, paz e ordem; governado em Roma e/ou em Constantinopla, proteção da justiça ou da fé cristã (contra o paganismo, a heresia e, mais tarde, a heresia islâmica) assim como, mesmo que não sempre, considerações sobre sucessão dinástica ou nacionalismo étnico.
Reivindicações conflitantes A multidimensionalidade da reividicação imperial, junto com o prestígio único do título imperial, explica a recorrência de frequentes conflitos sobre quais governos e governantes poderiam assumi-lo. Esses conflitos foram ficando menos frequentes no curso do início da Idade Moderna; entretanto, a melhora nas comunicações e da alfabetização não determinavam nenhuma reivindicação da supremacia universal.
Uma carta do imperador carolíngio Luís II para o imperador bizantino Basílio I, provavelmente redigido nos círculos romanos próximos ao papado em resposta a um original perdido e que sobrevive numa cópia do século XIII mantida na Biblioteca do Vaticano, mostra como era o debate naquele tempo (c. 871).
O governo territorial de Constantinopla não era o único critério para uma reivindicação imperial válida: Sendo um império uma ideia de unidade, nunca houve uma doutrina estabelecida de que deveria haver apenas um imperador, especialmente se dois imperadores estivessem em termos amigáveis. De propósito ou não, a descrição de Luís sobre dois imperadores num império condizia com a doutrina da Tetrarquia ou com a divisão entre Impérios Oriental e Ocidental entre 395 e 476:A reividicação de Luís era antiga o bastante para ser justificada pela tradição já que era feita há várias relações: Luís defendia que l princípio carolíngio de sucessão dinástica era validado por tradição. Além disso, Luís pensava que não havia nenhum critério étnico exclusivo para a dignidade imperial. Aqui, Luís aparentemente refere-se à reividicação de Basílio que o imperador deveria der romano e não de uma etnia não-romana (gens): Num vocabulário moderno, Luís acreditava que essas populações (gens) que ele citara (hispânicos, isáurios, etc.) não eram romanos e que apenas os habitantes da cidade de Roma eram romanos, não reconhecendo que esses povos poderiam ser vistos como romanos, sendo cidadãos do império. Enquanto que, para Basílio, o povo (gens) dos francos não seriam bons imperadores pois não eram cidadãos do império.
Império e cristianismo