miniaturadaimagem|O USS Enterprise (CV-6), alvejado por kamikaze em 21 de maio de 1945 Operação Kikusui (, Kikusui sakusen, Okinawa, 6 de abril de 1945 — 22 de junho de 1945) foi o nome dado a uma série de 10 ataques aéreos suicidas kamikaze realizados pelas forças aérea e terrestre da Marinha Imperial Japonesa durante a Batalha de Okinawa, visando paralisar a frota das Forças Aliadas nas águas próximas à província de Okinawa, durante a Segunda Guerra Mundial.
Os kamikaze, que veneravam o lendário guerreiro Kusunoki Masashige () por acreditarem ser possuidor das virtudes que eles próprios deveriam ter – lealdade, coragem e devoção, e por saberem que morreriam pelo Imperador assim como ele, transformaram o brasão da família do samurai — o crisântemo (, kiku) — em seu próprio emblema icônico para representar a campanha kamikaze, cujo nome, kikusui, traduz-se para crisântemo na água.
Antecedentes Após a perda das Ilhas Marianas para as forças americanas, o Japão viu sua moral declinar abruptamente e sua posição estratégica se deteriorar. A captura de Saipã e Tiniã em 1944 resultou na destruição de bases importantes e na redução das capacidades de defesa do Império Japonês, que se viu enfrentando um cerco crescente, em que as forças americanas empregaram bases localizadas nestas ilhas para lançar ataques aéreos e navais.
Depois da invasão de Okinawa, em abril de 1945, a situação se agravou, com o local se tornando um ponto estratégico crucial para o rápido avanço dos aliados em direção ao Japão Continental. As forças japonesas restantes resistiam em fortificações subterrâneas, e lutavam empregando a doutrina de defesa em profundidade, em uma vã tentativa de compensar suas desvantagens numérica e de poder de fogo.
As defesas japonesas, embora fortificadas, eram insuficientes diante do poderio militar dos EUA, que contava com um impressionante arsenal de artilharia e aeronaves. O 32º Exército, encarregado da defesa de Okinawa, enfrentava severas limitações em termos de recursos e efetivos, com muitas de suas unidades já dizimadas. Além disso, a moral das tropas estava em completo declínio, exacerbada pelas pesadas perdas sofridas em batalhas anteriores.
Neste contexto, a Operação Kikusui emergiu como uma resposta desesperada. Os líderes militares japoneses já não alimentavam ilusões quanto à capacidade da Marinha Imperial Japonesa e do Exército Imperial Japonês de conterem os avanços aliados, e acreditavam que, ao lançar ataques kamikaze, poderiam causar danos significativos à frota americana — fazendo com que perdessem entre um terço e metade de suas embarcações — e, potencialmente, influenciar o curso da batalha e também forçar negociações políticas para provocar o final da guerra, ou ganhar tempo.
A deflagração da operação também foi uma forma de manter a moral entre as tropas e a população japonesa, simbolizando a determinação de lutar até o fim. Assim, a Operação Kikusui não era apenas uma estratégia militar, mas também uma manifestação da ideologia de sacrifício e resistência que permeava o pensamento japonês na época.
Batalhas
Operação Kikusui 1 A Operação Kikusui I, iniciada em 6 de abril de 1945, foi a maior ofensiva kamikaze da Segunda Guerra Mundial, envolvendo quase 700 aeronaves, sendo 355 destas kamikazes, ao longo de dois dias. Embora em seu planejamento original estivesse previsto o uso de mais força, a operação foi adiada, e executada com apenas metade da força original, devido à perda de aeronaves em ataques anteriores realizados pela Força-Tarefa Aliada 38. O principal objetivo desta primeira operação foi infligir o máximo de danos à frota americana, causando não apenas perdas materiais, mas também desmoralizando seu efetivo.
Durante os dois dias de combate, os ataques resultaram em significativos danos a vinte e seis navios da frota americana, com três deles afundando, os contratorpedeiros Colhoun (DD 801) e Bush (DD 529), e também o navio de apoio às operações anfíbias LST 447. O contratorpedeiro Newcomb (DD 586) foi um dos navios mais severamente afetados, enfrentando uma série de ataques kamikaze que resultaram em grandes explosões e incêndios devastadores a bordo. Apesar da presença de caças e um sistema de patrulha aérea que conseguiu derrubar muitos dos aviões atacantes, a magnitude do ataque foi tão grande que muitos kamikazes conseguiram infiltrar as defesas e atingir seus alvos.
Os ataques também danificaram consideravelmente as embarcações Leutze (DD 481), Morris (DD 417), Mullany (DD 528),Witter (DE 636), Rodman (DMS 21), Defense (AM 317), Bennett (DD 473), além do porta-aviões San Jacinto, mas a única perda adicional, de fato, acabou sendo o navio de munições Hobbs Victory. O contratorpedeiro Emmons (DMS 22) afundou depois de ser atingido por múltiplos impactos, resultando em pesadas baixas entre sua tripulação, com 64 mortos e 71 feridos. Outros navios, como o USS Maryland (BB-46) e o porta-aviões Hancock, também sofreram grandes quantidades de danos.
Operação Kikusui 2 A Operação Kikusui 2 começou em 12 de abril de 1945. Ao longo de dois dias, 185 kamikazes, dos quais dois terços eram provenientes da Marinha Imperial Japonesa, realizaram ataques. Os japoneses utilizaram diversos tipos de aeronaves, incluindo bombas Ohka. A maioria dos ataques concentrou-se nas estações de radar, com o contratorpedeiro Mannert L. Abele sendo o único navio afundado por um ataque com Ohka.
Os kamikazes causaram danos significativos a embarcações, afetando os contratorpedeiros Cassin Young e Purdy, e afundando o navio anfíbio LCS(L)-33. O contratorpedeiro foi atingido por um Ohka, que atravessou o navio e explodiu do outro lado. O contratorpedeiro Rall e o lança-minas Lindsey também foram atacados, sofrendo danos e baixas. Além de atacarem estações de radar, os kamikazes também atingiram a praia de Hagushi e o grupo de bombardeio, danificando o contratorpedeiro Zellars e o couraçado Tennessee, entre outras embarcações. O navio anfíbio LCS(L) 57 também sofreu danos e teve que retornar a Okinawa.
Operação Kikusui 3 A Operação Kikusui 3 começou em 16 de abril de 1945, envolveu 165 aeronaves e seguiu um padrão semelhante à Kikusui 2, com foco nas estações de radar. Durante a operação, 11 navios foram atingidos. O contratorpedeiro Wilson (DD 408) enfrentou um ataque, resultando em cinco mortos e três feridos, mas com danos mínimos. A LCI(G) 407 também sofreu um ataque de uma aeronave, que causou danos leves. O Bowers (APD 40), que estava em patrulha, foi atingido por duas aeronaves, resultando em 48 mortos e 56 feridos, incluindo seu comandante.
O Harding DMS 28 conseguiu derrubar uma das aeronaves, mas ainda assim sofreu danos. O Taluga (AO 62) escapou de uma explosão devastadora quando um kamikaze atingiu seu convés, ferindo doze homens. Os porta-aviões USS Intrepid (CV-11) e USS Missouri (BB-63) também sofreram ataques, resultando em dez mortos e 87 feridos, além de danos significativos a 40 aeronaves.
A estação de piquete de radar 1 sofreu um dos ataques mais intensos do dia, com os navios Laffey (DD 724), LCS(L) 51 e LCS(L) 116 sendo atingidos, resultando em 43 mortos e 84 feridos. O Laffey teve que ser rebocado após sofrer severos danos. O Pringle DD 477 foi afundado em um ataque, resultando em 65 mortos e 110 feridos. No total, a operação foi extremamente custosa, com 171 mortos e 299 feridos entre as forças americanas.
Operação Kikusui 4 A Operação Kikusui 4 ocorreu em 27 e 28 de abril de 1945, envolvendo 115 kamikazes e suas aeronaves de apoio atacando os navios americanos em Okinawa. Embora com um número de vítimas significativamente meno do que as operações anteriores, ela obteve relativo sucesso, ao afundar o navio de munições Canada Victory, o que resultou na morte de três homens e em danos significativos. O Rathburne (APD 25) também foi atacado mas, apesar de ter sofrido danos, conseguiu retornar para reparos. O Ralph Talbot (DD 390) foi atingido por dois kamikazes, resultando em cinco mortos e nove feridos.
No dia 28, as embarcações LCS(L) 37 e 40 enfrentaram ataques, com a primeira sofrendo danos consideráveis, mas nenhuma fatalidade. A embarcação de transporte de evacuação Pinkney (APH 2) e os navios-hospital Comfort (AH 6) e Solace foram atingidos, resultando em mais de 60 fatalidades devido aos ataques aéreos. As estações de patrulha radar também enfrentaram ataques, com o Aaron Ward (DM 34).
Operação Kikusui 5 A Operação Kikusui 5 ocorreu entre os dias 3 e 4 de maio de 1945, e utilizou 125 kamikazes, sendo 75 deles da Marinha Imperial Japonesa, e 50 do Exército Imperial Japonês. Esta operação seguiu parte do padrão das operações anteriores, ao se concentrar em navios que estavam nas estações de piquete de radar. A Kikusui 5 foi a operação a provocar o maior número de baixas desde Kikusui 3, com três contratorpedeiros e três navios de assalto anfíbios afundados durante sua execução.
Durante a patrulha na estação de piquete de radar 9, o contratorpedeiro Bache e outras embarcações enfrentaram ataques aéreos. O Bache e o Macomb sofreram danos, com o Macomb contabilizando quatro mortos, três desaparecidos e quatorze feridos após ser atingido por um kamikaze. Na estação de piquete de radar 10, os navios Aaron Ward e Little foram atacados, sendo que o primeiro foi gravemente danificado por múltiplos ataques, resultando em muitos mortos e feridos. O Little acabou afundando após ser atingido por quatro kamikazes, com trinta mortos e setenta e nove feridos.
O asslto anfíbio LSM(R) 195 foi atacado e afundou, resultando em mais mortos e feridos. As embarcações anfíbias LCS(L) 25 e 83 tentaram ajudar, mas também sofreram danos. No total, o dia foi desastroso para os aliados, totalizando quarenta e cinco mortos e quarenta e nove feridos no Aaron Ward. Durante a noite de 3 para 4 de maio, o contratorpedeiro Morrison foi afundado, depois de ter sido atacado por múltiplos kamikazes. O anfíbio LSM(R) 194 também foi afundado sob ataques. Na estação de piquete de rádio 2, o Lowry (DD 770) foi atacado, resultando em duas mortes e vinte e três feridos.
Operação Kikusui 6 miniaturadaimagem|O porta-aviões HMS Formidable, em chamas após ataques kamikaze A Operação Kikusui 6 começou no dia 10 de maio de 1945, e foi até o dia seguinte. A operação contou com 70 kamikazes da Marinha e 80 do Exército. Assim como na operação anterior, esta seguiu parcialmente o padrão de se concentrar em navios nas estações de radar. miniaturadaimagem|O USS Bunker Hill, após ter sido atingido por kamikazes nas proximidades de Okinawa, em 11 de maio de 1945 Seis navios patrulha foram danificados durante a Operação Kikusui 6, incluindo o contratorpedeiro Hugh W. Hadley. Atingido por um Ohka, ele conseguiu retornar à Costa Oeste, mas, no estaleiro, acabou sendo descartado como perda total em outubro de 1945.
Os porta-aviões Bunker Hill e Enterprise foram danificados por kamikazes. O ataque ao Bunker Hill resultou no maior número de baixas de qualquer ataque kamikaze na Segunda Guerra Mundial, vitimando fatalmente 396 homens e ferindo outros 264. Os dois aviões que atacaram Bunker Hill faziam parte de um total de trinta e sete aeronaves que partiram das bases em Kanoya e Kokubu, em Quiuxu. A primeira aeronave, pilotada por Yasunori Seizo, atacou o navio, lançando sobre ele uma bomba de 250 kg (550 lb) antes do impacto, que causou mortes e ferimentos devido à explosão. A segunda aeronave, pilotada por Kiyoshi Ogawa, foi atingida antes de colidir com o navio, e sua bomba, de igual proporção, provocou a abertura de um buraco com diâmetro aproximado de 15 metros (cinquenta pés) no convés, afetando três andares abaixo do convés de voo. O porta-aviões Bunker Hill foi danificado de forma grave o suficiente para que, mesmo após o término da guerra, ainda estivesse em reparo. Já o porta-aviões Enterprise terminou seus reparos em agosto.