A Encyclopedia Africana foi um projeto enciclopédico concebido a partir do início do século XX para documentar a história, a cultura e as contribuições dos africanos e sua diáspora. Idealizada por W.E.B. Du Bois em 1909, a enciclopédia surgiu em um contexto de crescente interesse pelo pan-africanismo e pela reafirmação intelectual da história negra. Paralelamente, o bibliotecário Daniel Alexander Payne Murray desenvolveu um projeto semelhante, influenciado pela Jewish Encyclopedia.

Ao longo de décadas, Du Bois retomou a iniciativa em diferentes fases, desde a colaboração com o Phelps Stokes Fund até sua versão final, patrocinada pelo governo de Gana nos anos 1960. Apesar dos esforços, nenhuma das versões foi concluída, mas o projeto deixou um legado importante, influenciando obras posteriores como o Dictionary of African Biography (Gana, anos 1970) e a Encarta Africana (1999), de Henry Louis Gates Jr. e Kwame Anthony Appiah.

História Antecedentes Em abril de 1909, em uma correspondência com o liberiano Edward Wilmot Blyden (um dos pioneiros pensadores do pan-africanismo), W. E. B. Du Bois citaria pela primeira vez sua ideia em criar uma "Encyclopedia Africana, cobrindo os principais pontos sobre a história e as condições da raça Negra". Du Bois, que neste período trabalhava no Departamento de Sociologia da Universidade de Atlanta, propunha para Blyden que o projeto de enciclopédia deveria ser guiado por um conselho editorial composto por intelectuais tanto da África quanto da Diáspora.

No entanto, a ideia de uma enciclopédia dedicada à história e cultura da diáspora africana já circulava antes de sua proposta de 1909, uma vez que o bibliotecário e historiador autodidata Daniel Alexander Payne Murray havia concebido um projeto semelhante anos antes.

Daniel Murray e a Jewish Encyclopedia miniaturadaimagem|Carta de W.E.B. Du Bois para Isidore Singer, datada de 29 de novembro de 1907, onde a ideia de uma "enciclopédia da raça negra" é citada pela primeira vez. Ao longo da primeira década do século XX, Daniel Murray desenvolveu a Historical and Biographical Encyclopedia of the Colored Race throughout the World (cujo prospecto foi publicado em 1912), planejada para conter seis volumes e incluir biografias, eventos históricos e contribuições culturais de africanos e seus descendentes. Foi neste período, a partir de seu trabalho organizando bibliografias de autores negros e exposições sobre o tema, que Murray passou a buscar uma editora para publicar suas pesquisas sobre a história e a literatura de descendentes de africanos nos EUA. Em 1908, tendo tido contato com a The Jewish Encyclopedia, de Isidore Singer, Murray passou a considerar em transformar sua publicação em uma enciclopédia nos mesmos moldes da obra de Singer, uma obra de caráter nacionalista, exaltando os feitos da "raça" negra nas artes e nas ciências. Sob esta nova perspectiva, Murray oferece sua proposta de enciclopédia para a própria editora de Singer, tendo em algum momento entre junho de 1908 e dezembro de 1909 sido iniciados os trabalhos para a sua edição, sob o título Encyclopedia of the Negro.

Há um debate sobre a possível influência da obra de Murray e da própria Jewish Encyclopedia no projeto da Encyclopedia Africana de Du Bois. Autores como Henry Louis Gates e Clarence Contee afirmam que Du Bois teria se inspirado pela Jewish Encyclopedia. No entanto, em uma carta de 29 de novembro de 1907 para Isidore Singer, Du Bois aponta diversos empecilhos para que um projeto de uma "enciclopédia da raça negra" tenha sucesso, necessitando consultar uma quantidade enorme de intelectuais para poder ser ampla e detalhada o suficiente para ser bem aceita pelo público das "pessoas de cor" nos EUA. Du Bois ainda teria uma reunião com Murray poucas semanas depois de sua correspondência com Singer, na Biblioteca do Congresso dos EUA, durante uma viagem de pesquisa. Apesar de os temas discutidos na reunião não serem conhecidos, especula-se que a ideia de uma enciclopédia voltada para temas da diáspora africana nos EUA possa ter sido discutida, uma vez que, pouco mais de quatro meses depois, Du Bois estaria iniciando os contatos para a construção de sua Encyclopedia Africana. miniaturadaimagem|Capa da Murray's Historical and Biographical Encyclopedia of the Colored Race Throughout the World Seja qual for a relação entre os projetos de Murray e Du Bois, fato é que em 1909 ambos estavam sendo desenvolvidos de forma paralela. Enquanto o projeto de Du Bois eventualmente traria resultados, como se verá abaixo, Murray não conseguiu publicar a sua obra.

Em outubro de 1910, Murray anunciava um chamado público para que bibliófilos, jornalistas, músicos, dramatistas, professores, artistas e intelectuais no geral contribuíssem com a obra, que agora se intitularia Murray's Historical and Biographical Encyclopedia of the Colored Race throughout the World. Dois anos depois, em 1912, Murray publicou um prospecto detalhado para a obra, refinando sua proposta e definindo-a como uma empreitada abrangente que documentaria a história, as biografias e as contribuições culturais de africanos e seus descendentes em todo o mundo. O prospecto descrevia a enciclopédia como uma coleção de seis volumes, cada um com entre 600 e 800 páginas, contendo aproximadamente 25.000 esboços biográficos, uma bibliografia de 6.000 livros e panfletos escritos por autores negros, e uma lista de 5.000 composições musicais. Inicialmente concebido como um projeto focado nos negros dos Estados Unidos, o escopo da enciclopédia expandiu-se para abranger a diáspora africana em escala global, focando nas conexões transatlânticas e as contribuições de pessoas de ascendência africana em diversas partes do mundo. Para garantir a precisão e a abrangência da obra, Murray estabeleceu contatos com intelectuais, bibliotecas e instituições culturais, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior.

A decisão de Murray de adotar o termo "Colored Race" ("raça de cor", em tradução livre) em vez de "Negro" no título da enciclopédia foi influenciada por considerações pragmáticas e ideológicas. Em um contexto em que o pragmatismo filosófico, defendido por pensadores como William James, ganhava força nos Estados Unidos, Murray buscou uma abordagem que pudesse ser assimilada e validada por um público mais amplo.

Ele via a enciclopédia não apenas como um registro histórico, mas como uma ferramenta para afirmar a cidadania e a identidade dos afro-americanos e da diáspora africana em um contexto global. Para viabilizar o projeto sob esta nova perspectiva, Murray fundou a World Cyclopedia Company, uma iniciativa ambiciosa que visava distinguir sua enciclopédia de esforços anteriores, como o projeto da Encyclopedia of the Negro, que ele havia desenvolvido em parceria com a editora de Singer.

Apesar de seus esforços meticulosos e da ampla rede de colaboradores que ele conseguiu mobilizar, Murray enfrentou desafios significativos para publicar a enciclopédia. A falta de financiamento e o contexto social da época, marcado pelo racismo e pela segregação, dificultaram a concretização de sua visão. Mesmo assim, Murray continuou a trabalhar no projeto até sua morte em 1925.

Após sua morte em 1925, o manuscrito ficou sob a guarda de sua família, que tentou, sem sucesso, encontrar um editor interessado. Sua esposa, Anna Jane Evans Murray, continuou a atualizar as entradas até 1944. Durante este período, o próprio Du Bois entraria em contato com a viúva para adquirir o material referente à sua enciclopédia inacabada. O material seria composto por cerca de 700 manuscritos e 120 mil fichas com as anotações de pesquisa de Murray e os colaboradores de sua enciclopédia. Em uma carta de maio de 1936, Du Bois afirma que:A compra do material por Du Bois não seria finalizada, afirmando que o valor pedido por Anna Murray alto demais. A filha do casal, Emma Green Murray, continuou as tentativas de venda, mas não obteve êxito. Em 1966, o filho sobrevivente de Murray, Harold Baldwin Murray, doou o manuscrito à State Historical Society of Wisconsin, onde permanece até hoje.

A enciclopédia afro-americana de W.E.B. Du Bois miniaturadaimagem|Cabeçalho de um documento referente à enciclopédia de Du Bois, datado de 1909. Nele, se lê: "Encyclopedia Africana: Comemorando o Jubileu da Emancipação na América e o Tricentenário do Desembarque do Negro"Enquanto Daniel Murray começava os trabalhos de edição de sua enciclopédia, W.E.B. Du Bois emergia também com sua própria iniciativa de criar uma enciclopédia abrangente sobre a diáspora africana. Em 1909, encontram-se os primeiros registros dos esforços de Du Bois para sua enciclopédia, como a já citada correspondência para Edward Wilmot Blyden, que marcariam o início da primeira fase de um projeto ao qual Du Bois retornaria em vários momentos de sua vida.

Os esforços iniciais de Du Bois (1909-1930) Du Bois começou seu trabalho na Encyclopedia Africana estabelecendo contatos com uma ampla gama de intelectuais e acadêmicos, tanto negros quanto brancos. Em 1909, ele correspondeu-se com mais de sessenta estudiosos "negros americanos, africanos e das Índias Ocidentais", além de pelo menos quinze estudiosos brancos, buscando "cooperação e conselhos" para o projeto. Entre os colaboradores estavam figuras proeminentes como o autor e ativista afro-americano Charles Chesnutt; John Hope, presidente da Universidade de Atlanta e aliado de Du Bois no "Movimento Niagara"; o pan-africanista ganense Caseley Hayford; o cofundador da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), reverendo Archibald Grimké; o intelectual e ativista Kelly Miller; o ministro e autor Sutton Elbert Griggs; e o educador Benjamin Brawley. Do lado dos estudiosos brancos, Du Bois conseguiu o apoio de nomes como o antropólogo Franz Boas, o psicólogo e filósofo de Harvard, William James, além do explorador e administrador colonial britânico, Sir Henry Johnston.

Essa lista de colaboradores revela a ambição de Du Bois de criar uma obra verdadeiramente global, que abrangesse não apenas a experiência afro-americana, mas também as contribuições de africanos e da diáspora africana em outras partes do mundo. No entanto, apesar do apoio intelectual, Du Bois enfrentou obstáculos significativos para colocar o projeto em prática durante este período. A falta de financiamento e de recursos humanos qualificados para realizar uma empreitada de tal magnitude foram os principais desafios apontados pelo autor durante diversos momentos de sua vida.

Apesar desses desafios, Du Bois nunca abandonou completamente a ideia da Encyclopedia Africana. Após sua nomeação como "Diretor de Publicidade e Pesquisa" da NAACP em 1911, ele incluiu a enciclopédia como uma das tarefas da organização. Em memorandos, relatórios internos e panfletos da NAACP, a enciclopédia foi listada como um dos projetos do departamento de publicidade e pesquisa. Em um memorando dirigido ao Conselho de Diretores da NAACP, Du Bois mencionou a necessidade de "pesquisa organizada e contínua" para preencher as lacunas de informação disponível, sugerindo que, eventualmente, uma "Encyclopedia Africana" deveria ser publicada. Embora a data exata do documento não seja clara, o historiador Herbert Aptheker estima que ele foi redigido por volta de 1913. A persistência de Du Bois em relação ao projeto também é evidente em dois documentos de 1915. No primeiro, intitulado The Immediate Program of the American Negro, publicado em abril de 1915, Du Bois menciona a necessidade de uma "enciclopédia negra". No segundo, um relatório da NAACP sobre o Departamento de Publicações e Pesquisa, cobrindo o período de agosto de 1910 a novembro de 1915, ele faz referências específicas à Encyclopedia Africana.

A Encyclopedia of the Negro e o conflito com Carter Woodson (1930-1950) miniaturadaimagem|upright=1.3|Conselho diretor da Encyclopedia of the Negro, em 1936.