A língua yawanawá (AFI: [ja.ˌwa.na.'wa]) pertence à família pano. Ela é utilizada pelo povo yawanawá, que reside na Terra Indígena Rio Gregório, no Acre, Brasil. Não há uma classificação definitiva dos ramos da família pano; o yawanawá foi considerado parte do sub-grupo juruá-purus do pano central, e mais recentemente classificada como pano das cabeceiras pertencente ao ramo pano-purus.

O yawanawá é uma língua ameaçada, já que ela possui aproximadamente 160 falantes, o que representa menos de um terço do povo yawanawá. Os yawanawás que não falam a língua são monolíngues em português. Esse declínio se deve ao amplo contato do povo com missionários, que promoviam um processo de aculturação por meio da conversão ao cristianismo.

Até a década de 1980, quase todos os registros da língua eram feitos pelos missionários. Após o povo Yawanawá expulsá-los de suas aldeias, foi iniciado um processo de resgate cultural e linguístico que segue acontecendo por meio das iniciativas do PRODOCLIN (Projeto de Documentação de Línguas Indígenas) e dos eventos organizados pelo povo, como os festivais Yawa e Mariri Yawanawá.

A representação ortográfica da língua é feita por meio do alfabeto latino. A escrita foi inicialmente desenvolvida pelos missionários e depois foi apropriada pelas escolas yawanawás. A prosódia do yawanawá segue o padrão de acentuação iâmbico. A língua é ergativa-absolutiva com ordem de sentença sujeito-objeto-verbo (SOV).

Etimologia thumb|211x211px|Grupo de queixadas|esquerdaO nome yawanawá significa 'povo queixada' (yawa 'queixada', nawa 'povo'). A escolha desse animal se deve a sua tendência a andar em bandos, o que reflete os ideais dos yawanawás. Além do nome, a queixada é um símbolo frequente na cultura yawanawá.

Distribuição O povo yawanawá possui cerca 500 pessoas, mas apenas cerca de 160 são falantes da língua yawanawá. O povo se encontra na Terra Indígena Rio Gregório, a primeira Terra Indígena a ser demarcada no Acre. A maioria da população yawanawá vive em sete dessa região: Matrinxã, Amparo, Sete Estrelas, Tibúrcio, Escondido, Mutum e Nova Esperança. Esta última aldeia é o lar de metade da população da Terra Indígena. Também há algumas famílias yawanawás que moram nos municípios perto da Terra Indígena, como Tarauacá, Feijó, Sena Madureira, Cruzeiro do Sul e Rio Branco.

A língua também carece de documentação, e ainda não há um estudo aprofundado das relações do yawanawá com outras línguas indígenas ou seus dialetos.

História

Relação entre o povo Yawanawá e a sociedade não-indígena O primeiro contato documentado dos yawanawás com homens brancos foi em 1905, por intermédio do seringalista Ângelo Ferreira. Relatos dizem que o primeiro contato foi pacífico: um jovem yawanawá chamado Iva Stiho ofereceu carne de veado a Ferreira e seus companheiros, e o homem retribuiu com um saco de farinha ou um terçado (relatos divergem). De qualquer maneira, ambas as coisas eram até então desconhecidos para o povo yawanawá. Após o primeiro contato com os seringalistas, Iva Stiho, depois batizado Antônio Luis, continuou a mediar as relações entre seu povo e os estrangeiros até sua morte.

Logo após a morte de Antônio Luis em 1974, seu primogênito Raimundo Luis Tuĩ Kuru assumiu a liderança do povo yawanawá. Diferente de seu pai, Tuĩ Kuru recebeu os missionários evangélicos do grupo Novas Tribos Brasil e concordou com suas condições. Foram abertas escolas onde a língua yawanawá era abordada, mas o objetivo final era o aprendizado da língua portuguesa e a conversão ao cristianismo. Isso foi um dos maiores fatores na diminuição do uso do yawanawá fora do contexto escolar. No entanto, também foram essas escolas que criaram o primeiro registro ortográfico da língua. Os padres enviaram alguns jovens yawanawás alfabetizados em português para escolas como o Instituto Rio Branco como uma tentativa de trazer a cultura branca para o povo yawanawá, mas o efeito acabou sendo o contrário, já que muitos dos jovens se juntaram a movimentos sociais indígenas e começaram a se organizar contra a dominação que era imposta a eles. Isso desencadeou uma série de mudanças, como a expulsão da madeireira Panacre, que explorava a madeira dos antigos seringais, na década de 1980 e depois os próprios missionários evangélicos na década de 1990. esquerda|miniaturadaimagem|249x249px|9º Festival Yawa Entre estes jovens estava Biraci Brasil Nixiwaka, um dos maiores ativistas yawanawás. Além de ser um dos líderes das reinvindicações pela demarcação da Terra Indígena Rio Gregório, Biraci fundou a UNI-AC (União Nacional dos Índios do Acre) e trabalhou com a UNI (União Nacional dos Índios) e a FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) para garantir a independência do povo yawanawá depois de passarem décadas oprimidos pelos seringalistas. Sob a liderança de Biraci, o povo viu a capacitação de professores e profissionais de saúde yawanawás (ambas profissões que costumavam ser exercidas somente pelos missionários) e a negociação comercial direta, como com a empresa norte-americana AVEDA para a venda de urucum e a fundação da aldeia Nova Esperança. A criação da OAEYRG (Organização dos Agricultores Extrativistas Yawanawá) em 1993, também fundada por Biraci, foi um grande marco dos avanços políticos dos yawanawás por ter sido a primeira organização representante do povo.

A virada do milênio viu o florescimento de vários projetos de resgate cultural yawanawá, como o festival anual Yawa e o projeto Yawanahãu Xinã ('Memória do Povo Yawanawá'). O festival aconteceu pela primeira vez em 2002 na aldeia Nova Esperança, onde ele ainda é sediado. O evento começou como uma forma dos yawanawás celebrarem sua cultura e apresentarem as antigas tradições às novas gerações. Ao longo dos anos, o que era uma festa local tomou proporções maiores, e atualmente recebe turistas, políticos e representantes de outros povos indígenas. Outro festival é o Mariri Yawanawá, que acontece paralelamente na aldeia Mutum. Já o Yawanahãu Xinã é um subprojeto do PRODOCLIN (Projeto de Documentação de Línguas Indígenas) e foi criado pela professora Maria Júlia Kenemeni Yawanawá, filha de Tuĩ Kuru. O projeto visa a registrar o conhecimento ancestral e a ampliar do alcance da tradição oral tirando proveito do pontencial da tecnologia.

A língua e sua documentação miniaturadaimagem|305x305px|Lançamento do livro Vakehu Shenipahu Como grande parte das línguas indígenas do Brasil, o yawanawá possuía uma tradição puramente oral, não deixando registros. A língua começou a ser documentada pelos missionários que a usavam para pregar a religião cristã nas escolas das aldeias yawanawás. Foram nessas escolas que o sistema ortográfico do yawanawá foi desenvolvido. Após a expulsão dos missionários, na década de 1980, essas escolas foram assumidas por professores yawanawás e participam dos projetos de registro e resgate cultural iniciandos nos anos 2000. Mesmo o início do processo de documentação sendo recente, o PRODOCLIN (Projeto de Documentação de Línguas Indígenas) possibilitou a realização pesquisas, produções literárias e materiais didáticos, todos feitos em associação com as escolas indígenas.

Atualmente, menos de um terço do povo yawanawá fala o próprio idioma. Isso se deve à depreciação da cultura yawanawá em relação à cultura branca e principalmente à falta de conteúdo escrito em yawanawá. Por essa razão, muitos jovens yawanawás abandonaram sua língua e se tornaram monolígues em português. Os projetos de revitalização estão lentamente mudando esse cenário, com um foco especial na escola e nas crianças por meio de obras como o livro Vakehu Shenipahu, que conta histórias infantis yawanawá em ambas as línguas.

Fonologia Consoantes

O yawanawá possui 16 consoantes. Os fonemas estão representados no AFI (Alfabeto Fonético Internacional) na tabela abaixo:

+Quadro consonantal do YawanawáBilabialLabiovelarAlveolarRetroflexaPalatalVelarGlotalNasalOclusivaFricativa AproximanteAfricadaVibrante simples

Vogais As vogais do yawanawá são controversas. Na primeira gramática da língua, foram listadas apenas as vogais curtas, sem as longas ou as nasais. No entanto, registros do PRODOCLIN mostram que a duração das vogais possui relevância semântica e que as primeiras regras postuladas para a nasalização estavam incorretas, o que indica a existência dessas vogais.

+Quadro vocálico do YawanawáAnteriorCentralPosteriorcurtalonganasalcurtalonganasalcurtalonganasalFechadaAberta

Fonotática O yawanawá aprensenta o molde silábico (C)V(C). Não há restrições para qual vogal compõe o núcleo ou qual consoante compõe o ataque. Também não há restrições para a ocorrência dos diferentes padrões silábicos em uma palavra; um padrão silábico qualquer pode acompanhar qualquer outro. A posição de coda possui diversas restrições, que estão representadas na tabela abaixo: +Consoantes em coda internaCoda//////Coda////Consoante seguinte//, //, //, //, ////, //, //, ////, //, //, //Vogal anterior//, ////Nota: as aproximantes // e // também podem ser codas finais.

Prosódia O padrão de acentuação da língua yawanawá é iâmbico, ou seja, segue o padrão μ'μ. O símbolo mora (μ) é uma unidade abstrata de tempo usada para medir sílabas. Na maioria das palavras, as sílabas ímpares são átonas enquanto as pares possuem acento, sendo ele primário na última sílaba par e secundário nas outras (caso existam).

[u.'wa] 'flor' (μ'μ) [na.'ka.ʃɨ] 'cupim' (μ'μ μ) [pa.ˌʂĩ.ni.'pa] 'amarelo' (μ'μ μ'μ)

As exceções a essa regra são palavras que contém sílabas pesadas (sílabas com duas moras). Nesse caso, a sílaba pesada ocupa a posição de duas leves e recebe acento. As sílabas pesadas ocorrem quando há uma consoante aproximante como coda ou a ocorrência de uma vogal longa.

['Tiː.ka] nome próprio (μ'μ μ) [ˌnuj.na.'ma] 'inimigo' (μ'μ μ'μ)

Ortografia A ortografia da língua yawanawá é feita no alfabeto latino, mas usando apenas 17 de suas letras. O diacrítico til (~) é usado para indicar a nasalização da vogal. A convenção ortográfica abaixo foi desenvolvida pelo próprio povo Yawanawá e é ensinada em suas escolas. +Ortografia do yawanawáMaiúsculaMinúsculaPronúncia (IPA)Aproximação com o português ou inglêsAa/a/almaÃã/ã/maçãEe/ɨ/pronunciado como /i/ com os lábios arredondadosẼẽ/ɨ̃/pronunciado como /i/ nasalizado com os lábios arredondadosFf/ɸ/pronunciado como /f/ enconstando os lábiosHh/h/arrasto (em algumas variantes)Ii/i/minhocaĨĩ/ĩ/pronunciando como /i/ nasalizadoKk/k/camisetaMm/m/moquecaNn/n/náuticoPp/p/pipocaRr/ɾ/araraSs/s/sotaqueSHsh/ʂ/cháTt/t/tatoTSts/t͡s/tsuruTXtx/t͡ʃ/tchauUu/u/músicaVv/β/pronunciado como /v/ encostando os lábiosWw/w/wow (inglês)Yy/j/boia

Gramática

Pronomes

Pronomes pessoais O yawanawá possui pronomes pessoais para 3 pessoas no singular e no plural, além de fazer a distinção entre sujeito instransitivo, sujeito transitivo e objeto. +Pronomes pessoais do yawanawáSujeito intransitivoSujeito transitivoObjeto1Sẽẽea2Smĩmĩmia3Saatũa1Pnũnũnuke2Pmãmãmatu3Pahuahãũatu Essa distinção é relacionada ao fato de que o yawanawá é uma língua ergativa-absolutiva e já foi interpretada por alguns autores como uma distinção entre o caso ergativo e o absolutivo. No entanto, o comportamento da terceira pessoa não se encaixa nessa definição.

Pronomes possessivos A indicação de posse acontece por meio de sufixos. Para os pronomes pessoais, esse sufixo é o alomorfe -wẽ.

Ewẽ kuka mã kai. 'Meu tio já está indo.' Nukẽ wixi yuxĩ huspi. 'Nosso quarto está cheio de espíritos.'

Já para substantivos e pronomes demonstrativos, é usado do alomorfe -nẽ.

Tikanẽ peshe pakea. 'A casa de Tika caiu.' Yawã rua 'Chefe dos Yawanawás (literalmente: chefe dos queixadas) alt=|miniaturadaimagem|275x275px|9º festival YawaAs palavras mãe, pai e irmã/irmão são as únicas na língua yawanawá que não precisam de sufixo para serem possuídas já que são posses inalienáveis.

ewa. 'Minha mãe.' mivenanea. 'Seu irmão/sua irmã.'

Pronomes demonstrativos