Vaixnavismo gaudia (IAST: Gauḍīya Vaiṣṇavasampradāyaḥ), também conhecido como vaixnavismo de Chaitania, é um movimento religioso hindu vaixnava inspirado por Chaitanya Mahaprabhu (1486–1534) na Índia. Especificamente, faz parte do crixenaísmo―tradições vaixnavitas centradas em Krishna.
Sua base teológica é principalmente a do Bhagavad Gita e do Bhagavata Purana (conhecido na tradição como Srimad Bhagavatam), conforme interpretado pelos primeiros seguidores de Chaitanya, os Seis Goswamis de Vrindavan, como Sanatana Goswami, Rupa Goswami, Jiva Goswami, Gopala Bhatta Goswami e outros.
O foco do vaixnavismo gaudia é a adoração devocional (conhecida como bhakti yoga) de Radha e Krishna, e suas muitas encarnações divinas como as formas supremas de Deus, Svayam Bhagavan. Mais popularmente, essa adoração assume a forma de cantar os nomes sagrados de Radha e Krishna, como "Hare", "Krishna" e "Rama", mais comumente na forma do mantra Hare Krishna, também conhecido como kirtan, e dançar junto com ele. Distingue-se por suas doutrinas e práticas desenvolvidas pelos seus primeiros expoentes, como a do raganuga, a devoção erótica que tem centralidade em suas escrituras.
Ao final do século XIX e início do século XX, Bengala tornou-se centro de um avivamento religioso hindu e o vaixnavismo gaudia influenciou ou serviu de base para alguns de seus novos movimentos religiosos, como o Gaudiya Math, do qual se derivaram algumas instituições com projeção internacional, como a Missão Gaudiya e a conhecida Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, mais frequentemente chamada de "Movimento Hare Krishna". É estimado que há cerca de 30 a 50 milhões de adeptos do vaixnavismo gaudia, concentrando-se em maioria nas regiões de Orissa, Manipur, Bengala Ocidental e Bangladesh.
Etimologia Gauḍīyā é um termo derivado êmico que indica tudo o que é relativo à região de Gauda ou aos gaudas.Ver registro da resposta de Bábú Rájendralála Mitra a Essays on the nature and origin of the Inflexional post-positions in Hindi declension and their equivalents in other Gaurian languages e a On the term Gaurian as a name for the Sanskritic Vernaculars of North India por A. F. R. Hoernle. Asiatic Society of Bengal (1872). Proceedings of the Asiatic Society of Bengal (em inglês). Calcutá: C. B. Lewis, Baptist Mission Press. pp. 99; 181-182 A região originalmente chamada Gaudadexa se estendia ao sul da cordilheira do Himalaia e ao norte dos Montes Víndias, abrangendo as subdivisões de Sarasvata, Kanyakubja, Madia-Gauda, Mitila, Utkala, o que inclui atuais partes de Bengala, Orissa, Bihar, Madia Pradexe, Utar Pradexe, Panjabe e Caxemira. A capital daquela região era localizada no distrito de Malda (Bengala Ocidental), até ser transferida a Navadvipa (atual Maiapura), então chamada Gaudapura. O fundador Chaitania viveu os períodos iniciais de sua vida naquela localidade e lá pregou, então a nomenclatura celebra a origem dessa forma de vaixnavismo.
Alguns estudiosos tiveram a opinião de que, por se referir a uma área geográfica específica, essa nomenclatura seria muito limitada. Propuseram então chamá-lo de vaixnavismo chaitaniaíta ou de Chaitania. Outros também se referem como vaixnavismo de Bengala. Porém, a tradição dos vaixnavas considera uma outra etimologia mais ampla à palavra gauḍīyā, como derivado de guḍā, "melado" ou "doçura", que também é raiz do nome da região. Alguns conferem, assim, uma dimensão espiritual ao termo, como se referindo a um ambiente sagrado que vai além da região material delimitada de Bengala e infundido de uma sensibilidade própria. Os próprios expoentes enfatizam o aspecto de "doçura" de sua doutrina como distinguindo-a da longa história de tradições vaixnavas e como representando sua culminância. Eles afirmam que ela deriva da doce devoção de Rada a Krishna, considerando este amor dela (madhu-sneha) o néctar essencial dos devotos gaudias que fora relevado apenas por Chaitania. Focam em madhurya, o doce amor de Deus, ao invés de no aspecto mais duro de aisvarya ("majestade"). Rabindranath Tagore e outros apontaram que uma característica de Bengala é sua abundância de cana-de-açúcar, permeando também o imaginário poético daquela cultura. Alguns de seus mestres consideram-se acima de tudo devotos de Rada, a partir da qual a devoção a Krishna é gerada.
Conceitos filosóficos
Seres vivos De acordo com a filosofia vaixnava gaudia, a consciência não é um produto da matéria, mas sim uma manifestação da alma. Todos os seres vivos (jivas), incluindo animais e árvores, têm uma alma. Essa alma é distinta do seu corpo físico atual―a natureza da alma é eterna, imutável e indestrutível, sem qualquer nascimento ou morte em particular. A alma não morre quando o corpo morre, mas é transmigrada para outro novo corpo e renasce em um novo corpo. Almas que são cativadas pela natureza ilusória do mundo (Maiá) renascem repetidamente entre 8,4 milhões de espécies de vida neste planeta e em outros mundos, de acordo com as leis do carma e do desejo individual. Isto é consistente com o conceito de samsara encontrado nas crenças hindus, siques e budistas.
Acredita-se que a libertação do processo de samsara (conhecido como moksha) pode ser alcançada por meio de uma variedade de práticas espirituais e, em geral, é o objetivo final da vida. Entretanto, dentro do vaixnavismo gaudia, é bhakti em seu estado mais puro (ou "amor puro a Deus") que é dado como o objetivo final, em vez da libertação do ciclo de renascimentos. Alguns dos primeiros expoentes da tradição vaixnava gaudia afirmaram que no atual iuga, que é Kali Yuga, cantar e entoar os vários nomes sagrados de Deus (Krishna) seria o melhor caminho para a libertação espiritual, pois isso desenvolve o amor ao Deus.
Pessoa Suprema (Deus) Um dos aspectos definidores do vaixnavismo gaudia é que Krishna é adorado especificamente como a fonte de todas as encarnações avatáricas de Deus. Os teólogos referem-se ao versículo 1.3.28 do Bhagavata Purana, "krsnastu bhagavan svayam", literalmente "Krishna é o próprio Deus" para apontar para Krishna como o Ser Supremo. Jiva Gosvami chama esta frase de "paribhasha-sutra" (regra definitiva) da teologia da escola vaixnava gaudia e de mahavakya (proposição governante).
Segundo o pesquisador Krishna Sharma, o bhakti do vaixnavismo gaudia é personalista e teísta, diferente de outras correntes não duais. Isso impactou nos estudos acadêmicos iniciais de bhakti, levando a definições limitadas, pois os pesquisadores tiveram contato primeiro em grande medida com o bhakti vaixnava gaudia. Assim, Sharma afirmou que "é a tradição bhakti de Chaitanya e sua escola Gauḍīya de vaixnavismo que mais se conforma com a atual definição acadêmica de bhakti".
Unidade e diferença inconcebíveis Uma parte particularmente distinta da filosofia Gaudiya Vaishnava defendida por Chaitanya Mahaprabhu é o conceito de Achintya Bheda Abheda, que se traduz em "unidade e diferença inconcebíveis" no contexto do relacionamento da alma com Krishna, e também o relacionamento de Krishna com suas outras energias (ou seja, o mundo material),
Em qualidade, a alma (jiva) é descrita como sendo idêntica a Deus, mas em termos de quantidade, os jivas individuais são considerados infinitesimais em comparação ao Ser Supremo ilimitado.
Esta filosofia busca superar a divisão existente entre o monismo puro (Deus e a alma como uma entidade) e o dualismo puro (Deus e a alma como absolutamente separados), escolas opostas na filosofia hindu. Ela integra e incorpora conceitos do não dualismo qualificado praticados pela antiga escola védica Vishishtadvaita, do Dvaita Vedanta de Madhvacharya, do Dvaita Advaita Vada (dualismo monístico) de Nimbarka e do Shuddhadvaita (não dualismo puro) de Vishnuswami.
Sat Sandarbhas Jiva Goswami escreveu Sat Sandarbhas como uma análise do Bhagvata Purana para elaborar a filosofia de Chaitanya Mahaprabhu. Os seis tratados são:
Tattva: define a realidade absoluta, lidando com epistemologia e ontologia. Estabelece o Bhagavata Purana como o pramana supremo Bhagavat: elabora a natureza de Bhagavan, a manifestação completa entre os três aspectos da realidade absoluta mencionados no Bhagavata Purana 1.2.11. Brahman, Paramatma e Bhagavan são três aspectos da Realidade Absoluta, conforme percebidos por diferentes tipos de aspirantes espirituais. Paramatma: descreve Paramatma como uma manifestação parcial de Bhagavan Krishna: argumenta que Krishna é supremo Bhakti: descreve o processo de atingir o amor por Krishna, bhakti ou devoção. Descreve dois tipos de bhakti: misto e puro. Priti: argumenta que priti (amor) por Bhagavan é o objetivo mais elevado (prayojana) da vida
Atividades devocionais
Bactiioga O processo prático de realizar atos devocionais na vida de alguém é descrito como bhakti ou bhakti-yoga, e é apoiado por atividades de nove tipos diferentes. As duas divisões distintas de sadhana-bhakti são vaidhi-bhakti e raganuga-bhakti. Rupa Goswami define vaidhi-bhakti como aquele bhakti que é adotada não por gosto natural, mas pela consideração de injunções escriturais. Raganuga-bhakti, por outro lado, segue ragatmika-bhakti, o bhakti presente nos associados eternos de Krishna, que é conduzido por raga, uma absorção natural no objeto de serviço. Ele descreve as duas categorias do bhakti mais elevado como bhava-bhakti (devoção por meio de sentimentos de emoção intensa) e prema-bhakti (devoção de amor). As duas são intensidades essencialmente diferentes da mesma participação na devoção por meio da expressão emocional. A conclusão de Jiva Goswami em Bhakti Sandarbha é que raganuga-bhakti é o único abhidheya, processo viável, recomendado pelo Bhagavatam. O objetivo de raganuga-bhakti é que o jiva perceba sua verdadeira natureza essencial.
Em suas orações Siksastaka, Chaitanya compara o processo de bhakti-yoga ao de limpar um lugar sujo de poeira, onde nossa consciência é o objeto que precisa de purificação. Essa purificação ocorre em grande parte por meio do canto e da entoação dos nomes de Radha e Krishna. Especificamente, o Hare Krishna (mantra) é entoado e cantado pelos praticantes diariamente, às vezes por muitas horas por dia. Famosamente dentro da tradição, um dos associados próximos de Chaitanya Mahaprabhu, Haridasa Thakur, teria cantado 300.000 nomes sagrados de Deus todos os dias.Caitanya Caritamrita 1.10.43, 3.3.100, 3.3.176, 3.4.101, 3.7.48
Dieta e estilo de vida Os vaixnavas gaudias seguem uma dieta vegetariana, abstendo-se de todos os tipos de carne animal, peixe e ovos. Cebola e alho também são evitados, pois acredita-se que eles promovem uma forma tamásica e rajásica de consciência no comedor. Alguns vaixnavas gaudias, principalmente da ISKCON e Gaudiya Matha, também evitam a ingestão de cafeína, pois acreditam que ela é viciante e intoxicante.
Atitude em relação às escrituras As tradições vaixnavas chaitaniaítas referem-se aos escritos de acharyas anteriores em sua respectiva linhagem ou sampradya como interpretações autorizadas das escrituras. Enquanto muitas escolas como o esmartismo e advaitismo encorajam a interpretação das escrituras filosófica e metaforicamente e não muito literalmente, o vaixnavismo de Chaitania enfatiza o significado literal () como primário e o significado indireto () como secundário: ―"As instruções do devem ser aceitas literalmente, sem interpretações fantasiosas ou alegóricas."Jiva Goswami, Sandarbha 29.26-27
Sampradaya e parampara