O Livro do Senhor Shang (chinês tradicional: 商君書; chinês simplificado: 商君书; pinyin: Shāng jūn shū) é um antigo texto chinês do século III a.C., considerado uma obra fundamental do legalismo chinês. É o mais antigo dos textos preservados da tradição legalista — anterior ao Han FeiziPines, Yuri, "Legalism in Chinese Philosophy", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), 1.1 Major Legalist Texts, http://plato.stanford.edu/archives/win2014/entries/chinese-legalism/ — e é atribuído a Shang Yang, destacado reformador do reino de Qin. Shang Yang atuou como ministro do duque Xiao de Qin entre 359 a.C. e sua morte, em 338 a.C., sendo amplamente reconhecido como o fundador do legalismo naquele reino.
O Shang Jun Shu reúne ordenanças, ensaios e petições cortesãs atribuídas a Shang Yang, bem como discursos proferidos na corte de Qin. A obra concentra-se principalmente na preservação da ordem social por meio de um sistema de leis imparciais, que aplica rigorosamente recompensas e punições conforme as ações dos cidadãos. Os primeiros capítulos recomendam a promoção da agricultura e a supressão de atividades consideradas secundárias, bem como o estímulo às virtudes marciais, com o objetivo de formar e manter um exército estatal voltado para guerras de conquista.
Datação da obra página=16|miniaturadaimagem|320x320px| Páginas de uma edição impressa de "O Livro do Senhor Shang". O sinólogo e tradutor Yuri Pines atribui aos capítulos da obra uma datação que varia de 300 a.C. a 230 a.C., situando-a, portanto, próximo ao período da unificação da China pelo reino de Qin. A obra apresenta um amadurecimento filosófico nos capítulos 6 (Cálculo da Terra) e 7 (Desbloquear o obstruído), adquire um tom mais administrativo e acomodatício no capítulo 14 (Cultivo da autoridade), e alcança seu estágio mais sofisticado nos capítulos finais, especialmente nos capítulos 24 (Interdição e estímulo) e 25 (Atenção à lei). O capítulo 26 (Ajuste das divisões) teria, segundo Pines, “refletido realidades administrativas da véspera da unificação imperial”.
Embora parte da obra tenha se originado ainda durante a vida de Shang Yang ou logo após sua morte, é provável que sua redação tenha se estendido por mais de um século. Mesmo na China imperial, Huang Zhen, da dinastia Song do Sul, não acreditava que o texto tivesse sido escrito pelo próprio Shang Yang, considerando-o um “funcionário da lei mais talentoso” — ao menos em comparação com os Registros do Historiador. Pines 2024 p.26 fa tradition, Pines 2017, 31,37-39. Abridged Book of Lord Shang Conforme observado nos primeiros estudos de J.J.L. Duyvendak, além das inconsistências estilísticas da obra, seria improvável que a maior parte do texto tivesse sido escrita por Shang Yang. Como afirma Sima Qian, Shang foi morto quase imediatamente após renunciar ao cargo.
Apesar disso, Pines argumenta que os capítulos militares, como os de número 10, 11 e 19 — que não mencionam o uso de cavalaria — provavelmente datam do século IV a.C., o que, segundo ele, corrobora a hipótese de que a obra como um todo pertence a esse mesmo período.Pines 2017, 31,37-39. Abridged Book of Lord Shang
Tradição textual Com capítulos escritos décadas ou mesmo mais de um século após a morte de Shang Yang, nenhum estudioso crítico considera que a totalidade do texto tenha sido de sua autoria. Yuri Pines, no entanto, sustenta que "alguns capítulos foram provavelmente escritos pelo próprio Shang Yang; outros podem ter sido redigidos por seus discípulos e seguidores imediatos". Embora composto de forma heterogênea, o texto apresenta uma “visão ideológica relativamente coerente”, refletindo, provavelmente, a evolução do que Zheng Liangshu, em seu livro Shang Yang ji qi xuepai de 1989, denominou de “corrente intelectual” de Shang Yang (xuepai 學派). Creel, 1970 What Is Taoism?, 101 Pines, Yuri, "Legalism in Chinese Philosophy", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2023 Edition), Edward N. Zalta & Uri Nodelman (ads.), https://plato.stanford.edu/archives/sum2023/entries/chinese-legalism/ O primeiro capítulo de Shang Jun Shu é particularmente associado a Shang por Pines, por apresentar supostos debates judiciais nos quais ele teria participado.Pines 2024 p24. fa tradition
Assim como o posterior Han Feizi, o Shang Jun Shu critica a adoção de políticas oriundas de um passado remoto, propondo soluções baseadas em experiências históricas mais recentes. Embora considere essas divergências como "digressões de menor importância", Yuri Pines observa na Stanford Encyclopedia of Philosophy que o Shang Jun Shu “abre a possibilidade de que a necessidade de uma dependência excessiva da coerção venha a desaparecer, dando lugar a uma estrutura política mais branda e orientada pela moralidade” — algo que, segundo ele, não se verifica no Han Feizi. Embora não impliquem uma relação direta, Michael Puett e Mark Edward Lewis comparam os Ritos de Zhou à tradição legalista associada a Shang Yang.Benjamin Elman, Martin Kern 2010 p.17,41. Statecraft and Classical Learning: The Rituals of Zhou in East Asian History. https://books.google.com/books?id=SjSwCQAAQBAJ&pg=PA17 Dingxin Zhao 2015 p.72. The Confucian-Legalist State. https://books.google.com/books?id=wPmJCgAAQBAJ&pg=PA72
Visão geral Yuri Pines considera o Shang Jun Shu provavelmente o primeiro texto a tratar da posição do governante — e não apenas de sua figura pessoal — como central para o bem-estar do Estado. No entanto, a obra concentra-se amplamente na relação entre o Estado e a sociedade, mais do que no fortalecimento do "poder monárquico" em si.Pines 2009 p44 Envision Eternal Empire
O Shang Jun Shu ensina que: “A lei é uma expressão de amor pelo povo... O sábio, se for capaz de fortalecer o Estado por meio dela, não se prende à Antiguidade; e, se for capaz de beneficiar o povo por meio dela, não se apega aos ritos estabelecidos.”Nesse sentido, a filosofia defendida é explicitamente anti-confucionista:
Traduções
(em inglês) Duyvendak, JJL (1928). The Book of Lord Shang. London: Arthur Probsthain. Reimpresso em 1963, Chicago: University of Chicago Press. Shimizu, Kiyoshi 清水潔 (1970). Shōshi 商子[Shangzi]. Tokyo: Meitoku shuppansha. Levi, Jean (1981). Le Livre du prince Shang. Paris: Flamarion. (em inglês) Pines, Yuri (2017). The Book of Lord Shang - Apologetics of State Power in Early China (Translations from the Asian Classics). New York: Columbia University Press. Vogelsang, Kai (2017) Shangjun shu – Schriften des Fürsten von Shang. Estugarda, Alfred Kröner Verlag, ISBN 978-3-520-16801-6
Referências
Bibliografia
Ligações externas
The Book of Lord Shang: Texto bilíngue chinês e inglês. Chinese Text Project. Text of The Book of Lord Shang: Texto em inglês traduzido por JJ-L. Duyvendak em 1928. Shangzi por Lord Shang: Texto em chines. Projeto Gutenberg Categoria:Confucionismo Categoria:China Antiga Categoria:Tradições