miniaturadaimagem|Mergulhadores avaliando a saúde de corais em St. Thomas.|alt=Mergulhadores avaliando a saúde de corais em St. Thomas. A saúde dos ecossistemas, ou saúde ecossistêmica, é um conceito que se refere à uma forma de descrever a condição, como de saúde, dos ecossistemas.Rapport, David (1998). "Defining ecosystem health." Pages 18-33 in Rapport, D.J. (ed.) (1998). Ecosystem Health. Blackwell Scientific. O estado dos ecossistemas pode variar por diversos motivos, como incêndios, inundações, secas, extinções, espécies invasoras, mudanças climáticas, mineração, pesca, agricultura, extração de madeira, derramamento de produtos químicos, entre outros.

Não há um parâmetro de referência universalmente aceito para definir o que é um ecossistema saudável; ao contrário, a percepção da saúde de um ecossistema depende dos critérios adotados para avaliá-lo e dos objetivos sociais que fundamentam essa avaliação. Defensores da metáfora da "saúde dos ecossistemas" destacam sua utilidade como ferramenta de comunicação, justamente por sua simplicidade."Os formuladores de políticas e o público precisam de conceitos simples e compreensíveis, como saúde."“Alguns críticos temem que o conceito de saúde dos ecossistemas, sendo uma ‘construção carregada de valores’, possa ser apresentado como ciência a tomadores de decisão e ao público desavisado.” Ainda assim, o termo é amplamente utilizado para descrever o estado dos ecossistemas, tanto no contexto da conservação quanto na gestão ambiental. Por exemplo, periódicos científicos e organizações como a ONU recorrem frequentemente aos termos “saúde planetária” e “saúde dos ecossistemas”, como ilustrado pela revista The Lancet Planetary Health.

História do conceito A metáfora da saúde aplicada aos ecossistemas tem sido utilizada desde o início do século XIXAnon (1839). "On the culture of potatoes". Framer's Magazine, 2(5):337-338. e o conservacionista americano Aldo Leopold (1887-1948) falou metaforicamente da saúde da terra, da doença da terra, da mutilação e da violência ao descrever as práticas de uso da terra.Leopold, Aldo (1946). "The land health concept and conservation." Pages 218-226 in Callicott, J. Baird, and Eric T.Freyfogle. (1999) For the Health of the Land. Washington DC: Island Press. O termo “gestão do ecossistema” tem sido utilizado pelo menos desde a década de 1950.Lutz, H.J. (1957). "Applications of ecology in forest management." Ecology 38:46-64. Posteriormente, o termo “saúde do ecossistema” generalizou-se na literatura ecológica, como uma metáfora geral que significa algo bom e como um objetivo de qualidade ambiental em avaliações no terreno de rios, lagos, maresHELCOM (2010). Ecosystem health of the Baltic Sea 2003–2007 HELCOM Initial Holistic Assessment.Balt. Sea Environ. Proc. No. 122. e florestas.

Significado O termo “saúde ecossistêmica” tem sido utilizado para abranger um conjunto de objetivos ambientais considerados desejáveis. No artigo “What is ecosystem management?”, Edward Grumbine analisou a literatura sobre gestão e saúde ecossistêmica, reunindo os objetivos mais frequentemente mencionados nessas abordagens:

Conservar populações viáveis de espécies nativas;

Conservar a diversidade do ecossistema;

Manter os processos evolutivos e ecológicos;

Gerenciar ecossistemas por longos períodos de tempo para manter o potencial evolutivo;

Acomodar o uso e a ocupação humana dentro dessas restrições.

Grumbine descreve cada um desses objetivos como uma "declaração de valor" e enfatiza o papel dos valores humanos na definição das metas de gerenciamento de ecossistemas. A última meta mencionada no artigo — acomodar os seres humanos — é também a mais controversa.“Observamos que, quando grupos de partes interessadas se reúnem para definir... visões, isso frequentemente gera debates sobre a ênfase na saúde do ecossistema ou no bem-estar humano... O fato de a prioridade recair sobre os ecossistemas ou sobre as pessoas influencia profundamente a forma como as partes interessadas avaliam os estados ecológicos e sociais considerados desejáveis.” “Para alguns, os lobos são fundamentais para a saúde do ecossistema e uma parte essencial da natureza; para outros, representam um símbolo do excesso de intervenção do governo, visto como uma ameaça aos seus meios de subsistência e valores culturais.”A avaliação da saúde dos ecossistemas exige uma amostragem ambiental ampla e orientada por objetivos. Por exemplo, uma abordagem para a saúde do ecossistema do Lago Superior, na América do Norte, foi desenvolvida por meio de um fórum público, a partir do qual se estabeleceram metas para proteger habitats e manter as populações de cerca de 70 espécies de peixes nativos.Horns, W.H., et al. (2003). Fish-community objectives for Lake Superior. Great Lakes Fish. Commission Special Publication. 03-01. 78 pages.

Alguns autores tentaram propor definições mais amplas da saúde dos ecossistemas, como a avaliação seu estado histórico “antes do início do estresse antropogênico”. No entanto, uma das dificuldades reside no fato de que a composição original de muitos ecossistemas alterados pelos humanos é desconhecida — ou mesmo impossível de ser conhecida. Além disso, registros fósseis e de pólen indicam que as espécies presentes em um ecossistema tendem a se reorganizar ao longo do tempo, o que torna difícil definir um momento específico como ideal ou “saudável”. ligação=https://en.wikipedia.org/wiki/File:USFWS_Ecosystem_Restoration_(26442711921).jpg|alt=Foto de uma área florestal, onde há um pequeno incêndio acontecendo na vegetação.|miniaturadaimagem|350x350px|O fogo pode desempenhar um papel fundamental na restauração de ecossistemas. Uma definição ampla, frequentemente citada, propõe que um ecossistema saudável apresenta três atributos principais:

produtividade; resiliência; e “organização” — esta última incluindo a biodiversidade.

Embora isso capture propriedades significativas do ecossistema, uma generalização é ilusória, pois essas propriedades não necessariamente variam juntas na natureza. Por exemplo, não há necessariamente uma relação clara ou consistente entre produtividade e riqueza de espécies. Da mesma forma, a relação entre resiliência e diversidade é complexa, e a estabilidade do ecossistema pode depender de uma ou algumas espécies, em vez da diversidade geral. Ademais, alguns ecossistemas indesejáveis são altamente produtivos. "Se a riqueza de espécies é nossa principal meta normativa, então deveríamos converter a floresta amazônica ainda mais rapidamente em pasto." "A resiliência, por si só, não é necessariamente desejável. Ecossistemas altamente resilientes podem manter estados indesejáveis do ponto de vista humano — como recifes de coral dominados por algas. A resiliência ecológica é uma “capacidade” que depende das características do ecossistema analisado, dos tipos de perturbações considerados e da forma como essas perturbações são quantificadas. As abordagens para sua avaliação enfrentam grandes incertezas e ainda exigem amplas pesquisas empíricas e teóricas."Outros autores buscaram desenvolver índices numéricos para medir a saúde dos ecossistemas, com o objetivo de permitir comparações quantitativas entre diferentes ecossistemas ou entre estados de um mesmo ecossistema ao longo do tempo. Um desses modelos utiliza uma fórmula baseada nas três propriedades citadas anteriormente: saúde = vigor do sistema × organização do sistema × resiliência do sistema.Costanza, R. 1992. "Toward an operational definition of ecosystem health." Pp 239-256 in Costanza, R., B. Norton, and B. Haskell. Ecosystem health. New Goals for Environmental Management. Washington DC: Island Press. No entanto, o ecólogo Glenn Suter critica esses índices, argumentando que eles utilizam “unidades sem significado”, carecem de clareza conceitual e não são previsíveis — o que os torna pouco úteis para aplicações regulatórias. Além disso, Suter ressalta que esses índices não têm poder de diagnóstico: os efeitos de um componente podem ser ofuscados pelas respostas de outros, e a razão de um valor alto ou baixo do índice frequentemente permanece desconhecida.

Outra abordagem para avaliar a saúde dos ecossistemas baseia-se em conceitos de sistemas complexos, como a criticalidade. De acordo com essa perspectiva, um ecossistema saudável estaria em equilíbrio dinâmico entre adaptabilidade (associada à aleatoriedade) e robustez (associada à ordem). Essa ideia é formalizada na chamada "Hipótese da Criticalidade", que propõe que sistemas que operam em um regime intermediário entre ordem e desordem atingem sua máxima capacidade computacional e alcançam um equilíbrio ideal entre estabilidade e flexibilidade. Resultados recentes em áreas como biologia celular e evolutiva, neurociência e ciência da computação têm demonstrado grande interesse por essa proposta, sugerindo seu potencial como uma lei geral para sistemas complexos adaptativos (ver e referências ali citadas).

Indicadores de saúde Os indicadores de saúde são determinados pelos objetivos das partes interessadas, que orientam a definição do ecossistema. Um ecossistema é uma abstração. “Os ecossistemas não podem ser identificados ou encontrados na natureza. Em vez disso, precisam ser delimitados por um observador. Isso pode ser feito de diversas formas para uma mesma porção da natureza, dependendo das perspectivas e interesses específicos.”

Um indicador é uma variável — como uma propriedade química ou biológica — que, ao ser medida, permite inferir tendências em outra variável ambiental (não medida) ou em um conjunto de variáveis não medidas. Por exemplo, o aumento na taxa de mortalidade de canários em minas de carvão pode ser um indicativo de elevação nos níveis de monóxido de carbono. Da mesma forma, o aumento dos níveis de clorofila-a em um lago pode ser um indicador de eutrofização.

As avaliações de ecossistemas utilizam dois tipos de indicadores: descritivos e normativos. “Os indicadores podem ser usados de forma descritiva, com fins científicos, ou de forma normativa, com fins políticos.” Quando usado de maneira descritiva, um alto nível de clorofila-a é um indicativo de eutrofização. No entanto, esse mesmo dado pode ser interpretado como um indicador de saúde do ecossistema. Nesse segundo caso, assume um caráter normativo: passa a refletir uma classificação dentro de uma escala de “saúde”, que pode variar consideravelmente dependendo das preferências sociais sobre o que é considerado desejável. Por exemplo, um alto nível de clorofila-a pode ser visto como sinal de um ecossistema saudável em uma área úmida em processo natural de sucessão, mas como sinal de degradação em uma área úmida alterada pela ação humana, mesmo utilizando o mesmo valor do indicador.

A avaliação da saúde dos ecossistemas tem sido criticada por misturar esses dois tipos de indicadores. Um indicador de saúde é, por definição, normativo e, se for confundido com um indicador descritivo, “implica que valores normativos podem ser medidos objetivamente — o que certamente não é verdade”. Assim, valores implícitos podem ser repassados ao leitor como se fossem fatos objetivos, algo que deve ser evitado.

O próprio ato de selecionar indicadores — de qualquer tipo — é influenciado pela perspectiva do observador, e a separação entre objetivos e descrições tem sido defendida como um passo essencial para garantir transparência. “A separação entre indicadores descritivos e normativos é fundamental do ponto de vista da filosofia da ciência... Metas e valores não podem ser deduzidos diretamente de descrições — um ponto repetidamente enfatizado na literatura sobre ética ambiental... Por isso, recomendamos sempre especificar claramente a definição de indicadores e propomos distinguir de forma nítida os indicadores ecológicos utilizados na ciência daqueles indicadores políticos empregados em processos de tomada de decisão.”