Monsenhor Aloísio Catão Torquato (Campina Grande, 4 de maio de 1931 – João Pessoa, 12 de julho de 2021) foi um sacerdote católico brasileiro. Ordenado presbítero em 1956, exerceu seu ministério por mais de seis décadas em diversas paróquias da Paraíba e de Goiás, tendo também atuado como capelão militar da Força Aérea Brasileira, onde alcançou a patente de tenente-coronel. Reconhecido por seu apego à doutrina católica e pela ênfase na vida sacramental, especialmente na Eucaristia, destacou-se pela atuação pastoral voltada à juventude, à formação espiritual e à direção de iniciativas eclesiais. Nos últimos anos de sua vida, esteve ligado à Casa de Evangelização Monsenhor Aloísio Catão, instituição na qual colaborou até sua morte.

Infância e Início da Vocação Aloísio Catão Torquato nasceu em 4 de maio de 1931, em Campina Grande, Paraíba, filho de Antônio Araújo Torquato, sapateiro, e de Antônia Catão Torquato. Cresceu em uma família numerosa, em meio a um cenário de dificuldades econômicas agravadas pela crise do algodão. Teve sete irmãos: Genivaldo, Aurélio, Maria Ivone, Alcides, Maria das Neves, Abel e Marcus.

Durante a infância, demonstrava grandes traços de devoção e afeição pelas práticas da Igreja Católica, realizando celebrações simbólicas em suas brincadeiras de criança e participando das atividades paroquiais locais. Foi batizado na Igreja Matriz de Campina Grande, tendo como padrinho o então padre José de Medeiros Delgado, que mais tarde seria nomeado bispo. Recebeu a Primeira Comunhão aos cinco anos de idade.

Em fevereiro de 1939, aos sete anos, passou a atuar como coroinha e, ainda criança, decidiu seguir a vida sacerdotal. No mesmo ano, mudou-se com a família para João Pessoa, onde concluiu o curso primário no Grupo Escolar Epitácio Pessoa. Aos 13 anos, ingressou no Seminário Menor da Arquidiocese da Paraíba, iniciando sua formação eclesiástica formal.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139. Do Seminário à Ordenação (1939–1956) esquerda|miniaturadaimagem|296x296px|Ordenação presbiteral na Catedral Basílica de Nossa Senhora das NevesEm 1939, a família Torquato transferiu-se de Campina Grande para João Pessoa, motivada pela busca de melhores condições educacionais e de vida. Aloísio concluiu o curso primário no Grupo Escolar Epitácio Pessoa e, em 1944, aos 13 anos, ingressou no Seminário Menor da Arquidiocese da Paraíba. Os primeiros anos de formação foram marcados pela adaptação ao ambiente disciplinado e pelo impacto emocional da morte de seu irmão Aurélio, em decorrência de febre reumática.

Durante o período no seminário, destacou-se por sua dedicação aos estudos, à oração e à vida comunitária. Recebeu especial acompanhamento do diretor espiritual Monsenhor Antônio Afonso, cuja orientação contribuiu significativamente para sua maturação religiosa. Concluiu o Seminário Menor em 1947 e, no mesmo ano, iniciou a formação filosófica no Seminário Maior, cursando Filosofia entre 1950 e 1952. Em 1953, realizou uma extensão em Bioestatística na Universidade Federal da Paraíba e, no ano seguinte, concluiu o curso de Teologia.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.

Ao longo da formação, enfrentou desafios e reflexões sobre sua vocação, incluindo o desejo de interromper os estudos para auxiliar o pai no ofício de sapateiro — proposta que foi desencorajada pelo próprio pai, que o incentivou a continuar o caminho rumo ao sacerdócio.

Aloísio Catão Torquato foi ordenado presbítero em 2 de dezembro de 1956, na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa, pelas mãos de Dom Manuel Pereira da Costa. QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.

"‘Que eu saiba pagar com amor’: a carta antes da ordenação" miniaturadaimagem|375x375px|Caderno com trecho da carta escrita na véspera de sua ordenação Após a morte de Aloísio Catão Torquato, foi encontrado entre seus pertences um manuscrito datado da véspera de sua ordenação sacerdotal, escrito em 1º de dezembro de 1956. O texto, redigido de próprio punho, expressa suas disposições espirituais diante da missão que iniciaria no dia seguinte. Trata-se de um documento pessoal de grande valor histórico e religioso, que ilustra o modo como o futuro sacerdote compreendia sua vocação e consagração:

“Dia 1° de dezembro de 1956, são 22 horas e 15 minutos, faltam poucas horas para o início de um grande dia, o dia da minha Ordenação Sacerdotal. Amanhã, com a graça de Deus, serei ungido Sacerdote do Altíssimo. Jesus me escolheu para ser seu padre, para que eu fosse um outro Ele.

Foi uma escolha toda de amor. Não que eu merecesse o sacerdócio, pois ninguém o merece, e sobretudo eu, que tenho um passado tão feio, cheio de ofensa e traição a Ele. E mesmo assim Ele me chama. “Escolheu os que Ele mesmo quis”. Escolha toda de amor. Com amor total ele me escolhe. É uma demonstração de um escandaloso amor que Ele tem para comigo.

E o que sinto? Tenho nestes últimos dias, principalmente hoje, esperado tanto minha ordenação, que passei quase o dia todo na capela, rezando, meditando, chorando, etc. tenho, como diria, sentido tanta coisa. Eu mesmo queria dizer o que sinto, mas não sei expressar. Sinto uma alegria que me dá vontade de chorar, sinto um grande abatimento por me ver tão pobre e Jesus por  amor me chama.

Sinto vontade de gritar, de falar e ao mesmo tempo de calar, de silenciar, de nada dizer.

Quero pedir a meu Jesus nesta véspera de um sacerdócio, que eu saiba pagar com amor o que Ele me vai dar por amor.

Que eu saiba corresponder às graças recebidas. Que Ele me perdoe as ofensas passadas e me dê a grande graça da perseverança, que eu cada vez mais me convença de que sou PADRE. Que a Virgem Santíssima que é a minha guia a quem eu confio o meu sacerdócio que começa amanhã, me guie até o fim e que o Divino Paráclito, o “Deus Desconhecido”, que tanto me iluminou nestes últimos tempos, continue a me iluminar cada vez mais e me faça um padre do Espírito Santo.”

Em 1 - 12 - 1956

Diácono Aloísio Catão Torquato

Ordenação presbiteral e primeiros anos de ministério miniaturadaimagem|305x305px|Primeira missa celebrada em 1956 na cidade natal de Campina Grande - PB. Aloísio Catão Torquato foi ordenado presbítero em 2 de dezembro de 1956, na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa, pelas mãos de Dom Manuel Pereira da Costa, então arcebispo da Paraíba. Escolheu como lema sacerdotal a expressão do Salmo 115: “Quid retribuam Domino, pro omnibus quae retribuit mihi?” — “Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que Ele fez em meu favor?” — indicando sua motivação espiritual de consagração e serviço.

Seu primeiro ofício foi como vigário paroquial da própria Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, onde iniciou o ministério com dedicação pastoral, atenção às demandas sociais e compromisso com a liturgia. Era conhecido por manter uma rotina disciplinada e por sua sobriedade no estilo de vida. Atuava com regularidade nas confissões e na pregação, sendo procurado por fiéis de diferentes realidades.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.

Em seguida, foi designado pároco em diversas localidades do interior da Arquidiocese da Paraíba. Em Alagoa Grande, destacou-se por iniciativas voltadas à formação de vocações, promoção da vida litúrgica e assistência social. Realizou reformas na igreja matriz, criou espaços de catequese e instituiu a prática regular da adoração ao Santíssimo Sacramento.

Na Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Bayeux, coordenou reformas estruturais, incentivou a catequese e organizou atividades voltadas à juventude e à espiritualidade popular. Também teve passagem marcante pela cidade de Serraria, onde permaneceu próximo das populações mais vulneráveis, mantendo um estilo de vida austero e pastoralmente engajado.

Paralelamente ao trabalho paroquial, desempenhou funções de direção espiritual, orientando seminaristas e clérigos. Sua atuação contribuiu para a formação e perseverança de diversas vocações ao ministério ordenado na Paraíba.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.

Atuação em Anápolis e no escotismo (1969–1978) esquerda|miniaturadaimagem|266x266px|Fotografia em preto e branco do Padre Aloísio Catão Torquato orientando um grupo de escoteiros durante atividade ao ar livre. Em 1969, a convite de Dom Epaminondas José de Araújo — então bispo da recém-criada Diocese de Anápolis e antigo professor do Seminário da Paraíba —, Padre Aloísio Catão mudou-se para o Centro-Oeste do Brasil, estabelecendo-se em Goiás.

Inicialmente, exerceu o ofício de auxiliar na Catedral do Senhor Bom Jesus e como capelão do Colégio Auxilium, dirigido pelas irmãs salesianas. Logo após, assumiu paróquias em localidades próximas, como Ouro Verde, Alexânia e Santo Antônio do Descoberto, mantendo-se sempre residente em Anápolis. Além das funções paroquiais, ocupou cargos importantes na estrutura da diocese, como chanceler do bispado (1970–1977) e diretor do Centro de Formação Eclesiástica da Diocese de Anápolis.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.

Sua atuação não se limitava ao âmbito eclesiástico. Envolveu-se profundamente com a educação, lecionando Educação Moral e Cívica e Ciências no Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, onde também atuou como assessor didático. Marcado por um estilo disciplinado e firme, conquistava o respeito de alunos e pais — inclusive figuras influentes da política local.

Ainda em 1969, encontrou um grupo de escoteiros desamparado na praça em frente à Catedral. Sensível à situação, acolheu o grupo na Casa Paroquial e passou a acompanhá-lo de perto, tornando-se rapidamente um entusiasta do escotismo. Com o tempo, formou-se oficialmente como escotista, frequentando cursos como o Insígnia de Madeira e o Curso Nacional de Adestradores. Assumiu diversas funções de liderança no movimento, como presidente do Grupo Bernardo Sayão, Comissário Distrital de Anápolis, Comissário Regional de Goiás e Assistente Religioso Nacional Católico (1971–1977).

Sua representatividade o levou a participar de eventos internacionais, como o Seminário de Adestramento no México (1976) e a XXVI Conferência Escoteira Mundial em Montreal (1977). Para Mons. Catão, o escotismo era mais do que uma atividade extracurricular: tratava-se de uma verdadeira escola de virtudes, disciplina e formação do caráter cristão da juventude. A experiência escoteira prepararia o terreno para sua posterior inserção na vida militar como capelão da Força Aérea Brasileira.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139. Capelão Militar na Força Aérea Brasileira (1978–1999) miniaturadaimagem|Capelão Aloísio Catão Torquato em traje de voo da Força Aérea BrasileiraEm 1978, após quase uma década de atuação pastoral em Goiás, Aloísio Catão Torquato foi indicado por Dom Epaminondas José de Araújo, bispo de Anápolis, para assumir a função de capelão da Base Aérea de Anápolis (BAAN), unidade da Força Aérea Brasileira responsável pela defesa aérea da região central do país, especialmente da capital federal, Brasília. Inicialmente contratado como capelão civil, foi incorporado oficialmente à Aeronáutica em 18 de julho de 1981, com a patente de primeiro-tenente capelão.QUEIROGA, Stelo. Monsenhor Aloísio Catão Torquato – 85 anos de altar. Ilhéus: Mondrongo, 2023. ISBN 9786554490139.