A Escola de Dacar (em francês: École de Dakar) foi um movimento de historiadores africanos sediados no Senegal, surgido entre 1960 e 1974, no contexto da independência do país. O movimento recebeu apoio do primeiro presidente senegalês, Léopold Sédar Senghor, e esteve inserido no marco do mais amplo movimento cultural da Negritude, iniciado nos anos 1930 por intelectuais francófonos africanos e caribenhos.BARRY, Boubacar. Senegâmbia: o desafio da história regional. Amsterdam: SEPHIS; Brasil: Centro de Estudos Afro-Asiáticos, Universidade Cândido Mendes, 2000.
A Escola de Dacar buscou contrapor-se à historiografia dominante dos colonizadores árabes e europeus, resgatando as tradições orais e valorizando o protagonismo dos povos africanos na construção de suas própria história. Os griôs, guardiões da tradição transmitida através da oralidade pelas dinastias locais, desempenharam papel central nesse processo de reconstrução histórica.Macedo, José Rivair. A história da África vista pelos africanos: gênese e desenvolvimento da ‘Escola de Dakar’: 1960-1990. In: Fortes, Carolina Coelho; Bastos, Mário Jorge da Mota (orgs.). Problematizando a Idade Média. Niterói: EDUFF, 2014, pp. 142–161.
Criação do movimento O movimento surgiu como uma resposta à imposição da escrita ocidental e islâmica sobre uma região cuja cultura histórica era predominantemente oral. Os historiadores ligados à Escola de Dakar estavam inseridos na dinâmica local e eram conhecedores das suas línguas e dialetos locais o que possibilitou o acesso as principais fontes da tradição oral e ao mecanismo de reconstrução dessa história colonial por meio da exploração das dinâmicas socioeconômicas e políticas da Senegâmbia. A publicação das pesquisas deste historiadores contribuiu para a valorização dessas tradições e para a sua preservação.
Esses pensadores, com base metodológica e acadêmica, representam um papel fundamental e de importância para que a população pudesse ter acesso e conhecimento sobre a história do seu continente, tendo em vista o contexto de domínio. Assim, buscando romper com a visão da história eurocêntrica que a historiografia contava naquele momento e reescrever a história africana de acordo com as experiências dos grupos étnicos narradas pelos griôs.
Sua influência trouxe uma nova visão sobre o continente, que por muitos foi considerado um “país sem história”, tendo suma importância na reafirmação das etnias de tradição oral, na reconstrução de um passado triunfal e no avivamento dessa tradição até então marginalizada.
Influências miniaturadaimagem|254x254px|Cheikh Anta Diop (década de 1940). A Escola de Dakar foi influenciada por intelectuais senegaleses como Cheikh Anta Diop, defensor da unidade cultural da cultura africana e da valorização do Egito antigo como uma civilização negra, e Abdoulaye Bathily, historiador engajado na valorização da história regional africana. Ambos contribuíram para a legitimação acadêmica do estudo da história africana a partir de fontes africanas, rompendo com a ideia de que a África seria um “continente sem história”, como sugerido por correntes eurocêntricas do passado.
Segunda geração da Escola de Dacar A partir da década de 1970, uma segunda geração de historiadores africanos ampliou os horizontes da Escola de Dakar, introduzindo novas metodologias e abordagens críticas pensando também em outras regiões de África. Esta geração passou a enfatizar a descolonização do pensamento histórico e a consolidação dos Estados africanos independentes por meio do acesso e da apropriação das tradições históricas locais.
Em 1972, os historiadores da Escola de Dakar participaram da criação da primeira associação pan-africana de historiadores, em conjunto com intelectuais de Abidjan (Costa do Marfim), Camarões e Zaire (atual República Democrática do Congo), com o objetivo de fortalecer uma historiografia africana autônoma e crítica.
Legado O legado da Escola de Dakar é significativo para os estudos africanos contemporâneos. Seu trabalho contribuiu para a valorização da memória oral, a reconstrução de passados gloriosos africanos e a formação de uma consciência histórica própria nos países do continente. Sua abordagem inspirou outras escolas e centros de pesquisa em diferentes regiões da África.
Principais pensadores do movimento da Escola de Dacar Entre os historiadores ligados ao movimento destacam-se:
Abdoulaye Bathily, com estudos sobre o Gajaaga; Boubacar Barry, com pesquisas sobre o Reino de Waalo; Mamadu Diuf, com foco no Kayor; Mbaye Guèye; Sekené Mody Cissoko, pesquisador do Xaaso; Thierno Diallo, sobre o Futa Jalom; Umar Kane, com estudos sobre o Reino de Fuuta Toro.
Referências
Categoria:Historiografia Categoria:História da África Categoria:Senegal Categoria:!Afropédia (artigos) Categoria:!Artigos do projeto Interfaces de saberes: Jacobina na Wiki