As Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC; em francês: Forces armées de la république démocratique du Congo) constituem as forças armadas nacionais da República Democrática do Congo. São a estrutura do Estado que tem como missão fundamental garantir a defesa militar do país. As FARDC foram reconstruídas de forma fragmentada como parte do processo de paz que se seguiu ao fim da Segunda Guerra do Congo, em julho de 2003.
A maioria dos membros das FARDC são forças terrestres, mas também têm uma pequena força aérea e uma marinha ainda menor. Em 2010-2011, os três serviços contavam com efetivos de cerca de 150.000 soldados. Além disso, existe uma força presidencial chamada Guarda Republicana, mas esta e a Polícia Nacional (PN) não fazem parte das Forças Armadas.
O governo da capital Quinxassa, a Organização das Nações Unidas, a União Europeia e os parceiros bilaterais que incluem Angola, África do Sul e Bélgica tentaram criar uma força viável com capacidade para fornecer estabilidade e segurança à República Democrática do Congo. No entanto, este processo foi dificultado pela corrupção, coordenação inadequada dos doadores e competição entre doadores. As várias unidades militares agora agrupadas sob a bandeira das FARDC são algumas das mais instáveis da África, após anos de guerra e subfinanciamento.
As FARDC são uma conversão das Forças Armadas Congolesas, que aglomerou as antigas Forças Armadas Zairenses, os grupos rebeldes integrados após a Segunda Guerra do Congo e de outras milícias integradas posteriormente. Desde 2014, estão organizadas sob três comandos geográficos de combate, conhecidos como zonas de defesa, cada um abrangendo o oeste/norte, o centro-sul e o leste quinxassa-congolês.
Para auxiliar os governos do pós-guerra, as Nações Unidas mantiveram a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) que, até 2023, tinha uma força de mais de 16.000 soldados de manutenção da paz no país. Suas principais tarefas eram fornecer segurança em áreas-chave, como o Quivu do Sul e o Quivu do Norte no leste, e ajudar o governo na reconstrução. Grupos rebeldes estrangeiros também estão no Congo, como têm estado durante a maior parte do último meio século. O mais importante são as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), contra as quais as tropas de Laurent Nkunda estavam lutando, mas outros grupos menores, como o anti-ugandense Exército de Resistência do Senhor, também estão presentes.
O estatuto jurídico das FARDC foi estabelecido na Constituição de Transição, artigos 118 e 188. Este foi então substituído por disposições da Constituição de 2006, artigos 187 a 192. A Lei 04/023 de 12 de novembro de 2004 estabeleceu a Organização Geral da Defesa e das Forças Armadas. Em meados de 2010, o Parlamento quinxassa-congolês estava a debater uma nova lei de defesa, provisoriamente designada Lei Orgânica 130.
História miniatura|esquerda|200px|Membros da Força Pública em desfile militar, final da década de 1940 Formação da Força Pública As primeiras tropas quinxassa-congolesas organizadas, conhecidas como Força Pública (em francês: Force Publique), foram criadas em 1888 quando o Rei Leopoldo II da Bélgica, que detinha o Estado Livre do Congo como sua propriedade privada, ordenou ao seu Secretário do Interior que criasse forças militares e policiais para o estado. Em 1908, sob pressão internacional, Leopoldo cedeu a administração da colônia ao governo da Bélgica como Congo Belga. Permaneceu sob o comando de um corpo de oficiais belgas até a independência da colônia em 1960. Ao longo de 1916 e 1917, a Força Pública esteve em combate nos Camarões e invadiu e conquistou com sucesso áreas da África Oriental Alemã, notavelmente a atual Ruanda, durante a Primeira Guerra Mundial. Elementos da Força Pública também foram usados para formar unidades coloniais belgas que lutaram na Campanha da África Oriental durante a Segunda Guerra Mundial.
Independência nacional e conversão no Exército Nacional Congolês Na independência, em 30 de junho de 1960, as forças armadas sofreram com um défice dramático de militares treinados, particularmente no corpo de oficiais. Isso ocorreu porque a Força Pública sempre foi comandada apenas por belgas ou outros brancos expatriados. O governo belga não fez nenhum esforço para treinar oficiais comissionados quinxassa-congoleses até o final do período colonial e, em 1958, apenas 23 cadetes africanos haviam sido admitidos, mesmo na escola secundária militar. A patente mais alta disponível para os quinxassa-congoleses era suboficial ajudante, que apenas quatro soldados alcançaram antes da independência. Embora 14 cadetes quinxassa-congoleses estivessem matriculados na Academia Militar Real de Bruxelas em maio, eles não estariam preparados para se formar como segundos-tenentes até 1963. Ações de provocação de oficiais belgas levaram a uma rebelião de alistados em 5 de julho de 1960, o que ajudou a desencadear a Crise do Congo. O tenente-general Émile Janssens, comandante da Força Pública, afirmou durante uma reunião de soldados que "antes da independência [seria igual a] depois da independência", enfurecendo os soldados que enxergavam tal contradição (o país estava independente, mas as forças militares continuavam com a tutela belga) como uma continuação do colonialismo.
Na manhã de 8 de julho de 1960, após uma noite em que todo o controle sobre os soldados havia sido perdido, várias autoridades chegaram ao quartel-general Campo Leopold com o objetivo de acalmar a situação. Tanto o primeiro-ministro Patrice Lumumba quanto o presidente Joseph Kasa-Vubu falaram. Após os discursos, retiraram-se para o refeitório do campo para ouvir uma delegação dos soldados. O Presidente do Senado Joseph Iléo levou ao Parlamento as reivindicações, que incluíam o seguinte: que a pasta da defesa não fosse entregue ao Primeiro-Ministro; que o nome Força Pública fosse alterado para Exército Nacional Congolês (ANC; em francês: Armée Nationale Congolaise); e que o comandante-em-chefe e o chefe do estado-maior não deveriam ser necessariamente belgas. miniatura|esquerda|200px|Soldados do Exército Nacional Congolês controlando um bloqueio de estrada perto de uma torre de água, em 1960 As discussões acaloradas que se seguiram receberam posteriormente o rótulo de "conselho ministerial extraordinário". A reunião especial do conselho de ministros tomou medidas para a africanização imediata do corpo de oficiais. Os ministros debateram sobre quem seria um chefe do Estado-Maior do Exército adequado. Os dois principais candidatos ao cargo foram o Ministro da Juventude e Desportos Maurice Mpolo e Joseph-Désiré Mobutu. O primeiro mostrou-se mais capaz e tendo bastante influência sobre as tropas amotinadas, mas Kasa-Vubu e os ministros da etnia congo temiam que ele favorecesse outras etnias. Este último foi percebido como mais favorável às aspirações políticas dos congos. Kasa-Vubu favoreceu a Mobutu, que lhe parecia mais maleável. Lumumba, por sua vez, preferia a opção de manter os dois homens no comando militar, mas não foi apoiado por Kasa-Vubu. No final, Victor Lundula, que nasceu em Cassai e era burgomestre de Likasi, foi nomeado como major comandante-chefe do CNA; Joseph-Désiré Mobutu como nomeado como coronel chefe do estado-maior; e o belga, coronel Henniquiau, como conselheiro-chefe do CNA. Assim, o general Janssens foi demitido. Tanto Lundula quanto Mobutu, que eram sargentos da Força Pública, ascenderam de graduação após a nomeação. Mesmo não tendo sido nomeado para o estado-maior, Mpolo possuía muito mais influência sobre as tropas, facilmente conseguindo debelar a amotinação dos militares na província de Equador, o que enfureceu Mobutu, que ordenou seu assassinato meses mais tarde.
Em 8 e 9 de julho de 1960, os soldados foram convidados a nomear oficiais negros, e "o comando do exército passou com segurança para as mãos de ex-sargentos", já que os soldados em geral escolheram os militares do exército quinxassa-congolês com maior escolaridade e de maior patente como seus novos oficiais. A maioria dos oficiais belgas foi mantida como conselheiros da nova hierarquia quinxassa-congolesa, e a calma retornou às duas principais guarnições em Quinxassa e Mabanza-Angungu. A Força Pública foi renomeada para Exército Nacional Congolês, ou Forças Armadas Nacionais Congolesas. No entanto, em Catanga, os oficiais belgas resistiram à africanização do exército.
Houve um motim da Força Pública no Camp Massart, em Lubumbashi, em 9 de julho de 1960; cinco ou sete europeus foram mortos. A revolta do exército e os rumores resultantes causaram pânico severo em todo o país, e a Bélgica enviou tropas. As tropas belgas intervieram em Lubumbashi e Kananga (10 de julho), Matadi (11 de julho), Quinxassa (13 de julho) e em outros lugares. Houve suspeitas imediatas de que a Bélgica planejava retomar sua antiga colônia ao fazê-lo. Um grande número de colonos belgas fugiu do país. Ao mesmo tempo, em 11 de julho, Moïse Tshombe declarou a independência da Estado de Catanga, no sudeste, apoiado de perto pelos administradores e soldados belgas restantes.
Durante o período crucial de julho a agosto de 1960, Mobutu construiu "seu" exército nacional canalizando ajuda estrangeira para unidades leais a ele, exilando unidades não confiáveis para áreas remotas e absorvendo ou dispersando exércitos rivais. Ele vinculou oficiais individuais a si, controlando suas promoções e o fluxo de dinheiro para as folhas de pagamento. Mobutu passou a conspirar para concentrar recursos e poder para si, com dinheiro canalizado diretamente para o exército pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, pela Organização das Nações Unidas e pela Bélgica, que o apoiavam secretamente. Apesar disso, em setembro de 1960, após a divisão quádrupla do país, havia quatro forças armadas distintas: o próprio CNA de Mobotu, com cerca de 12.000 homens, a Polícia de Cassai do Sul, leal a Albert Kalonji (3.000 ou menos), a Gendarmaria de Catanga, que fazia parte do regime de Tshombe (totalizando cerca de 10.000 homens), e o CNA dissidente de Quissangane, leal a Antoine Gizenga (com cerca de 8.000 homens). Logo em seguida, em 1960, o CNA de Mobutu desfere o Primeiro Golpe de Mobutu.
Sob comando de Mobutu: Forças Armadas Zairenses Após cinco anos de turbulência, em 1965, Mobutu usou sua posição como Chefe do Gabinete do CNA para tomar o poder no Segundo Golpe de Mobutu, ocorrido em 1965. Com a subida ao poder de Mobutu, o país foi renomeado Zaire em 1971 e o exército foi consequentemente designado Forças Armadas Zairenses (FAZ). miniatura|esquerda|200px|Membros da Marinha do Zaire durante um desfile. Trecho da reportagem "Mobutu Sese Seko: construtor do novo Zaire", transmitida em 1985 pela Radio Télévision Belge Francophone