O Messias, K. 572, é a versão em língua alemã do célebre oratório Messiah (1741), de George Frideric Handel, realizada por Wolfgang Amadeus Mozart em 1789. A adaptação foi feita por iniciativa de Gottfried van Swieten, figura influente na vida musical vienense, visando apresentar a obra ao público da capital austríaca.
O libreto da versão de Mozart baseia-se majoritariamente na tradução da Bíblia feita por Martinho Lutero. Musicalmente, Mozart reorquestrou cerca de três quintos da composição original de Handel, com ênfase na ampliação das partes dedicadas aos instrumentos de sopro, conhecidos na época sob o termo Harmonie. De modo geral, passados cerca de cinquenta anos desde a criação do oratório, Mozart transpôs uma obra concebida em inglês, para orquestra barroca e espaços públicos, adaptando-a aos limites das apresentações privadas e aos gostos musicais vigentes em Viena no final do século XVIII.
A versão de Mozart foi publicada pela primeira vez em 1803 e desempenhou papel fundamental na consagração do Messiah como o oratório mais amplamente reconhecido de Handel. Ainda assim, a adaptação encontrou poucos entusiastas entre os estudiosos tanto de Mozart quanto de Handel.
História Mozart teve seu primeiro contato com o Messiah de Handel em Londres, por volta de 1764 ou 1765, e voltou a ouvi-lo em Mannheim, em 1777. A primeira apresentação da obra em território alemão, ainda em inglês, ocorreu em 1772, na cidade de Hamburgo. Foi Carl Philipp Emanuel Bach quem, em 1775, promoveu a estreia da peça em língua alemã, também em Hamburgo, utilizando um libreto traduzido por Friedrich Gottlieb Klopstock e Christoph Daniel Ebeling. Carl Philipp voltaria a reger a obra na cidade em 1777 e 1778, consolidando seu papel na difusão do oratório na cultura musical germânica.
Em 1785, uma grandiosa execução da obra ocorreu em Berlim, na qual a adaptação de Johann Adam Hiller foi interpretada por um conjunto de 302 cantores e instrumentistas — sinal evidente do crescente prestígio do Messiah no espaço de língua alemã.
A partitura original do Messiah foi publicada pela primeira vez em Londres, em 1767. Já em 1789, sob a orientação de Gottfried van Swieten — que havia fundado a Gesellschaft der Associierten Cavaliers (Sociedade dos Cavaleiros Associados), dedicada ao patrocínio de concertos de música sacra e erudita —, Mozart foi convidado a criar uma nova versão da obra, adequada ao gosto vienense e às convenções dos concertos privados promovidos pela nobreza. Assim como fizera com Acis and Galatea em 1788, e como faria com Ode for St. Cecilia’s Day (Cäcilienode) e Alexander’s Feast (Alexander-Fest) em 1790, Mozart adaptou o Messiah às exigências estilísticas e instrumentais de seu tempo.
A estreia da versão mozartiana, intitulada Der Messias, ocorreu em 6 de março de 1789, no palácio do Conde Johann Esterházy, seguida por uma reapresentação. A obra foi também executada na residência de Johann Wenzel Paar e, por fim, teve duas interpretações adicionais por ocasião do Natal daquele ano, no palácio de inverno do Duque de Schwarzenberg. A adaptação de Mozart foi concebida exclusivamente para essas ocasiões privadas e, originalmente, não havia qualquer intenção de publicá-la. A partitura só seria editada postumamente.
Texto Handel compôs sua música sobre um libreto reunido por Charles Jennens, a partir da tradução da Bíblia feita sob os auspícios do Rei Jaime I — em especial, com passagens extraídas do Antigo Testamento. O próprio Charles Jennens comentou, a respeito de sua escolha temática: "O assunto sobrepuja os demais. O assunto é o Messias...". Diferentemente de outros oratórios de Handel, o Messiah não apresenta uma narrativa contínua; em vez disso, oferece uma meditação fragmentada sobre diversos aspectos da figura do Messias cristão.
A estrutura do libreto segue o calendário litúrgico cristão: a Parte I corresponde ao Advento, ao Natal e à vida de Jesus; a Parte II contempla a Quaresma, a Páscoa, a Ascensão e o Pentecostes; e a Parte III, por fim, aborda o encerramento do ano eclesiástico, com reflexões escatológicas sobre o fim dos tempos. O nascimento e a morte de Jesus são narrados sobretudo por meio das palavras do profeta Isaías, que figura como a fonte predominante do texto. A única cena dramatizada propriamente dita é a Anunciação aos pastores, retirada do Evangelho de Lucas. Imagens simbólicas do pastor e do cordeiro aparecem com frequência ao longo dos movimentos, conferindo coesão simbólica à obra.
Na versão de Mozart, o texto foi adaptado para o alemão utilizando a tradução que Klopstock e Ebeling haviam elaborado anteriormente para a versão apresentada por Carl Philipp Emanuel Bach em Hamburgo. Essa tradução permanece fiel, em sua maior parte, à linguagem e ao espírito da Bíblia de Lutero.
Música Musicalmente, Handel recorreu aos mesmos recursos empregados em suas óperas e demais oratórios: alternância entre partes corais e árias solistas. As seções solistas costumam combinar recitativos e árias, conforme a tradição barroca. Sua orquestra é modesta, composta por oboés, cordas e um contínuo formado por cravo, violoncelo, violone e fagote. Trompetes e tímpanos são utilizados de modo pontual, destacando-se em movimentos específicos como o célebre coro Hallelujah. Handel emprega quatro naipes vocais — soprano, contralto, tenor e baixo — tanto nas partes solistas quanto nos trechos corais. Alterna entre texturas polifônicas e homofônicas para ilustrar o conteúdo textual. Frequentemente, valoriza certas palavras por meio de passagens coloraturas longas e ornamentadas, especialmente em movimentos que parodiam obras anteriores compostas sobre textos italianos. Utiliza também o cantus firmus — geralmente em notas longas e repetidas — como símbolo da majestade divina ao representar a voz de Deus. Mesmo os movimentos mais polifônicos tendem a culminar numa pausa dramática e prolongada, que prepara uma conclusão ampla e homofônica.
Na adaptação mozartiana, a instrumentação foi ampliada para contemplar a orquestra sinfônica de seu tempo, com destaque para os sopros (a chamada Harmonie), que frequentemente são utilizados para conferir colorações específicas a cada movimento. Tal como fizera na Grande Missa em dó menor, Mozart designou dois sopranos solistas em vez da tradicional combinação de soprano e contralto; ocasionalmente, transferiu seções corais aos solistas e ajustou a tessitura de certos recitativos e árias. Reduziu a duração da obra eliminando alguns números e condensando determinados movimentos — por exemplo, utilizando apenas a seção inicial de uma ária em forma da capo. A pedido de Gottfried van Swieten, compôs ainda um recitativo inteiramente novo.
Mozart introduziu o clarinete e utilizou os instrumentos de sopro com o intuito de estabelecer climas específicos. Nos trechos corais, costumava atribuir um instrumento de sopro à linha do soprano, enquanto reforçava as vozes de contralto, tenor e baixo com um trio de trombones. O trompete, que em Handel simbolizava autoridade — seja ela divina ou secular —, foi incorporado ao conjunto de modo mais discreto, perdendo esse valor simbólico, possivelmente devido à decadência da técnica trompetista no final do século XVIII. Na ária "Sie schallt, die Posaun’" ("A trombeta soará"), originalmente concebida para trompete, Mozart optou por empregar a trompa. Manteve, contudo, o uso do cravo como instrumento de contínuo.
Estrutura Mozart empregou a terminologia italiana em sua partitura, seguindo a convenção de sua época. Intitulou a abertura como Overtura e utilizou o termo Recitativo para os recitativos secco, isto é, acompanhados exclusivamente pelo baixo contínuo. Para os recitativos acompanhados seguidos de ária — concebidos como uma única unidade musical e padrão para os movimentos solistas —, adotou a designação recitativo accompagnato ed aria. Já os movimentos corais receberam o título Coro. Apenas em uma ocasião o coro é subdividido em dois grupos — coro superior e coro inferior; nas demais, a escrita permanece a quatro vozes. +Lenda para a mesa coluna contente 1 # número do movimento, segundo a edição crítica do Bärenreiter de 1989 2 Título Nome do movimento na adaptação de Mozart 3 V partes vocais: soprano Solistas I/II ( s1 / s2 ), tenor ( t ) e baixo ( b ); Quarteto de solistas ( q ); Partes de coro SATB . 4 T tipo: Recitativo (R), secco (s) ou acompanhante (a); Ária (A); Dueto (D); Coro (C); Orquestral (Or) 5 F numeração de movimentos por Robert Franz (1884) 6 Inglês Título em inglês do movimento 7 Bíblia Origem bíblica do texto