A Campanha dos Cuamatos, em 1907, foi uma ação militar portuguesa de que resultou a extensão do domínio português ao território entre o Rio Cunene e o Cubango no sul de Angola, após uma bem-sucedida campanha em território dos cuamatos, povos de etnia ovambo.
Contexto Em 1839 foi fundado o Forte da Ponta Negra e uma feitoria na Baía de Moçâmedes, tendo o porto de Benguela sido também aberto ao comércio internacional, desenvolvendo-se as indústrias de tecidos na região, das pescas e indústrias associadas, estendendo-se a colonização para o interior, contando esta com inúmeras famílias provenientes do Brasil e também alguns alemães.Regalado, 2004, pp. 12-15. Várias famílias portuguesas estabeleceram-se no planalto de Huíla, o que no entanto, suscitou a resistência do sobado de Huíla e foi fundada na região uma fortaleza com guarnição permanente para garantir a segurança dos recém-estabelecidos. Esta fortaleza foi sitiada por 8000 guerreiros do Nano em 1857 mas eles foram rechaçados ao fim de quatro dias de combates pelos soldados e pelos civis, comandados pelo capitão Godinho de Melo. Em 1859 foi levantado um posto fortificado no Humbe. Em 1860 a fortaleza de Huíla foi novamente sitiada e toda a região do Humpata e Jau saqueada.
Mediante ação negociada pelo cônsul-geral de Portugal na Cidade do Cabo, numerosas famílias bóeres foram estabelecidas no planalto de Huíla, facilitando em muito o desenvolvimento da região e a abertura de comunicações com o interior, elemento fundamental nas operações militares futuras.
Após 15 anos de conflitos constantes, o Humbe foi pacificado em 1895 pelo coronel Artur de Paiva. Ainda assim, só após a derrota de um esquadrão de dragões comandado pelo conde de Almoster em 1898, é que o governo português decidiu ocupar a região entre o rio Cunene e o Cubango mas a expedição de 1800 homens enviada a cumprir esse objectivo foi duramente vencida a 25 de Setembro de 1904 na Batalha do Vau do Pembe.
Após o "Desastre de Pembe", os ovambos, em particular os cuamatos, começaram a atacar tribos sob a protecção de Portugal com maior confiança, chegando até a ameaçar fazendas na margem norte do Cunene e criando um clima de insegurança. A onda de consternação que se gerou entre a opinião pública portuguesa na metrópole levou o governo português a procurar intervir na região com determinação e eficácia.
Acções preliminares Mediante requerimento do governo português, o major Eduardo Costa, experiente em questões militares ultramarinas entregou um plano de operações baseado em informações recolhidas junto de sertanejos, missionários e militares, que contemplava todos os pormenores da campanha, desde a o estabelecimento das linhas de etapas, serviços de saúde, víveres, remontas, consumo de munições e propunha o uso de infantaria montada.Jaime Ferreira Regalado: Cuamatos 1907: Os Bravos do Mufilo no Sul de Angola, Tribuna da História, 2004, pp. 16-24.miniaturadaimagem|Carta de Angola em 1885.Ao mesmo tempo, o capitão do Estado Maior Eduardo Marques deslocou-se ao sul de Angola em reconhecimento, negociado apoios, carregadores e auscultando o posicionamento de sobas em caso de hostilidades. Em reunião com o governador-geral António Duarte Ramada Curto ficou decidido levar a cabo acções preliminares para consolidar o domínio da margem direita do Cunene enquanto se preparava uma campanha de maior envergadura. Entre os objectivos contava-se a conquista do Mulondo, cujo soba revelara tirânico para com os seus súbditos, levando muitos ao êxodo e barrava a passagem de europeus pelo seu território; a deposição do soba de Gambos, que usurpara o poder; escaramuçar com os cuamatos para averiguar o seu estado de preparação para a guerra.
A Campanha do Mulondo
A 23 de Setembro, partiu do Lubango uma expedição composta por 23 oficiais, 563 praças, 90 animais de carga, 10 carroças bóeres, 1 carroça de duas rodas e 168 bois de tracção, 2 peças de artilharia de montanha BEM m/82. Foi engrossada a meio do caminho por cerca de 1000 auxiliares africanos e alguns bóeres e a 25 de Outubro tinham conquistado a embala fortificada do soba do Mulondo. No decorrer da campanha foi morto o soba do Mulongo, Haugalo.
a 3 de Novembro de 1905 foi inaugurado o Forte do Mulondo, perto do vau de Handjabero. Após a inauguração do forte de Mulondo, a tropa regular e os auxiliares bóeres e portugueses escaramuçaram com os cuamatos de Cuamato Grande, para dissuadir ataques a tribos aliadas, averiguar o seu estado de preparação e obrigá-los a gastar munições.
A fundação do Forte Roçadas miniaturadaimagem|Tenente-coronel José Alves Roçadas. Segundo as directivas do governo em Lisboa, a ocupação do Ovampo exigia a construção de um forte a sul do Cunene para vigiar os vaus do rio e assim impedir a passagem dos ovambos para norte. Para apoiar a projectada fortificação foi construído um pequeno forte entre o Humbe e o vau de Mucongo, que serviria igualmente para controlar o vau do Cunene.
Em finais de Outubro partiu de Humbe uma expedição comandada por Alves Roçadas e composta por 5 oficiais, 717 praças europeias, 490 praças africanas e mais de 1000 auxiliares, armada com seis canhões e três metralhadoras. Em finais de Outubro estava concluído um forte no Alto Encombe, já em território Cuamato, que se deu o nome do comandante da expedição por unanimidade. Foi também construída uma ponte de madeira com 140 metros de comprimento sobre o Cunene.
Partida a coluna de regresso, uma companhia europeia foi deixada a defender o forte, que os cuamatos atacaram pouco depois por duas vezes mas sem sucesso. Durante o caminho, a coluna portuguesa passou na região dos Gambos para punir o soba rebelde de Pocolo, que dava guarida ao soba rebelde de Gambos, perseguido desde a campanha de Mulondo. Foram também efectuados combates em Mucuma, Jau e Batabata contra os cuamatos.
Esforços diplomáticos e recolha de informações À medida que prosseguiam as acções preliminares no terro e a preparação da grande campanha dos cuamatos, o capitão João de Almeida procurou evitar a constituição de uma possível aliança ovamba entre os povos cuamatos, cuanhamas e evales. O soba Nanda do Cuanhama reiterou os laços de vassalagem a Portugal, permitiu a construção de um forte no seu território, próximo da fronteira do território alemão, bem como o estabelecimento de uma linha telegráfica e foi devidamente recompensado. O soba Cavenguela de Evale, sempre evasivo, não permitiu a construção de um forte no seu território e apenas ofereceu vagas garantias de neutralidade. miniaturadaimagem|Angola em 1890. Em Julho de 1907, em Cafú, o capitão Eduardo Marques entrou em contacto com Caripaluli, nobre cuamato que fora forçado ao exílio pelo soba Chaula por questões de sucessão e que se revelou uma importante fonte de informações. As informações veiculadas por Caripaluli e por outros africanos, como Chefene, Vatififa e Amtota revelaram que os cuamatos já se preparavam para a guerra, reunindo armas e munições, e evacuando gado e abandonando aldeias.
Os portugueses previam que aos povos do Cuamato Grande e do Cuamato Pequeno se aliassem os cuambis, ganguelas, cualudes, barantos, e cuanhamas da fronteira com os cuamatos, totalizando cerca de 15,000 a 20,000 guerreiros, dos quais 7,000 com espingardas.
A Campanha dos Cuamatos De entre os povos ovambos, os cuamatos eram os que se revelavam mais hostis aos portugueses e que os africanos consideravam invencíveis.Regalado, 2004, pp. 24-62. Ficou decidido ocupar as embalas do Cuamato Grande e Cuamato Pequeno pois na guerra do tipo da campanha dos Cuamatos, o tomada e destruição da embala do soba constituía o ponto determinante da vitória. Como objectivo secundário ficou também decidida a fundação de um forte avançado, cerca de 30 km além do Forte Roçadas. miniaturadaimagem|Lancha de Fiscalização "Cunene" Para permitir a deslocação de tropas de Moçâmedes para o Forte Roçadas, onde se concentrariam antes de partirem, foram fundados postos principais de etapas em Quihita, Gambos, Cahano, Tchipelongo e Humbe, a não mais de 3 dias de marcha entre si, intercalados por postos de etapa afastados a não mais de um dia de marcha entre si. A concentração final far-se-ia num descampado 800 metros adiante do Forte Roçadas.
O governador-geral Paiva Couceiro percorreu em oito dias a distância de Luanda ao Forte Roçadas e a 20 de Agosto passou revista, encorajou as tropas já formadas em dispositivo de marcha e proferiu um discurso.
O combate de Mufilo
A coluna portuguesa, composta por 2299 homens, entre soldados europeus e africanos, auxiliares portugueses bóeres e africanos, a pé ou a cavalo, e carroças boéres, partiu do Forte Roçadas a 26 de Agosto, guiada por Caripalula, por volta do meio dia acampou na clareira de Tchahafenda e no final da tarde daquele dia os auxiliares denunciaram a aproximação de cuamatos.Henriques, Miguel: "As campanhas de pacificação em Angola - A CAMPANHA DO CUAMATO" in A Voz de Ermesinde, Edição de 30-04-2020. Aquela noite, sem luar, foi passada com vigilância redobrada e os africanos denunciaram a sua presença na escuridão com arengas e insultos.
thumb|Fotografia tirada durante a campanha dos cuamatos. Mostra a fumarada provocada pela pólvora negra dos cartuchos das Kropatschek. A coluna prosseguiu a marcha às cinco horas da manhã, à medida que os sapadores abriam caminho por entre as matas que mediavam as clareiras. A coluna acampou na clareira de Chilombe e, ali, Alves Roçadas foi avisado pelos auxiliares que haviam partido em reconhecimento que os cuamatos se concentravam na clareira de Mufilo. Aberto pelos sapadores um caminho pela mata que separava a clareira de Chilombe da clareira de Mufilo, pouco depois das 9:15 da manhã a coluna portuguesa havia avançado cerca de 800 metros pela clareira e ali foi começado um quadrado mas antes de estar concluído, por volta das 10 horas da manhã os guerreiros cuamatos, ocultados pela mata, iniciaram um intenso tiroteio sobre a rectaguarda esquerda do quadrado, generalizando-se depois a todo o dispositivo, que só às 9:30 foi fechado. Só pelas cinco horas da tarde terminou o combate do Mufilo, entre a força portuguesa em campo descoberto sob fogo inimigo e o sol ardente, e os cuamatos ocultados pela mata circundante.
Ao anoitecer foi grande a azáfama na ambulância, onde eram substituídas ligaduras e tratados os feridos mais graves. A luz da ambulância atraía ainda alguns tiros que não eram respondidos e, de resto, a noite foi passada sem incidentes.
Fundação do Forte de Aucongo miniaturadaimagem|"Uma travessia no rio Cunene. Carros bóeres conduzindo víveres para a coluna do general Pereira d'Eça." Às 8:45 da manhã do dia seguinte ao combate do Mufilo, os portugueses recomeçaram a marcha em direcção a Aucongo para iniciar a construção de um forte, que era o objectivo da véspera, guiados por Caripaluli. Terminados os trabalhos de entrincheiramento em Aucongo, procedeu-se à procura de água para abastecer a coluna e dar de beber aos animais de carga mas nestes trabalhos estalaram novos tiroteios com os cuamatos. Não obstante, a 29 foi dado inicio à construção do forte e travados novos confrontos com os cuamatos pelos destacamentos que partiram em reconhecimento do caminho a seguir, sucedendo-se mais algumas baixas.
Por escassear a água, crescerem as baixas e demorar a construção do forte de Aucongo, a 30 foi enviado um destacamento ao Forte Roçadas para evacuar os feridos graves, enviar um telegrama a Portugal com notícias da vitória em Mufilo e trazer de volta mantimentos e munições. O destacamento e os feridos foram recebidos efusivamente no Forte Roçadas, carregaram-se 27 grandes carroças bóeres e regressaram a 31, tendo-se dado novos combates com os cuamatos entretanto. A 2 de Setembro deram-se novos tiroteios e pelas 20:00 os cuamatos tentaram atacar o quadrado à arma branca mas foram mantidos à distância.
De Aucongo, o tenente Alfredo Lima relatava a um amigo:“Meu caro Álvaro: