Frei Pedro Sinzig O.F.M. (Linz am Rhein, 29 de janeiro de 1876 – Düsseldorf, 9 de dezembro de 1952) foi um frade franciscano, nascido na Alemanha e radicado no Brasil, onde viveu por quase seis décadas. Atuou extensamente na imprensa católica e nas áreas de música e literatura.thumb|FONTE: Ordem Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. https://franciscanos.org.br/quemsomos/personagens/frei-pedro-sinzig/ Frei Pedro Sinzig com o terço nas mãos, provavelmente no começo da década de 1950

Biografia

Frei Pedro Sinzig [Pater Petrus Sinzig] nasceu na pequena Linz alemã, às margens do Rio Reno. Uma cidade histórica, "mencionada pela primeira vez em um documento do ano 874", segundo o arquivo da cidade de Linz am Rhein [Stadtarchiv Linz am Rhein].https://www.stadtarchiv.linz.de/geschichte Ainda hoje a cidade preserva inúmeras construções antigas, como seus portais e alfândega, além da Igreja de St. Martin, frequentada por Frei Pedro e por sua família, cuja construção foi "iniciada e consagrada entre 1206 e 1214".https://www.stadtarchiv.linz.de/zeitleiste-der-stadtgeschichte

Filho de Johann Sinzig (1845-1929) e Johanna Helene Meffert (1847-1903), a casa onde nasceram Franz Stephan (que posteriormente receberia o nome de ordenação, Petrus) e sua única irmã, Gertrud (1877-1950), permanece habitada à Neustraße. Em homenagem a Frei Pedro, "em 1976, o seu nome foi dado a uma rua de sua cidade natal", Petrus-Sinzig-Straße, como relata sua sobrinha-neta, Gerda Becker, em um texto sobre a família.

Tendo vivido o período da Kulturkampf, na Alemanha, que incluiu a perseguição de religiosos e o controle de suas atividades, Frei Pedro ingressou no noviciado de Harreveld, na Holanda. Neste período chega o pedido de envio de novos frades à Ordem Franciscana Brasileira, que procurava se reestruturar após as ações antirreligiosas que atingiram seu auge no Século Dezenove, fazendo com que a Província da Imaculada Conceição do Brasil "se reduzisse [...] a um único frade", como relata Frei Fidêncio Vanboemmel.

Frei Pedro Sinzig responde ao chamado e chega ao Brasil, junto a outros confrades, em 1893, em Salvador. É ordenado em 1898, o mesmo ano em que é naturalizado brasileiro, e que se destina ao sul do Brasil, onde permanece até 1907. Após um período no convento de Petrópolis, é transferido para o Rio de Janeiro, vivendo no Convento Santo Antonio a maior parte de sua vida. esquerda|miniaturadaimagem|446x446px|Cidade de Linz am Rhein, às margens do Rio Reno, na Alemanha Em 1952, já gravemente enfermo, busca tratamento na Alemanha, vindo a falecer em 9 de dezembro, no Marienhospital, em Düsseldorf. Seus restos mortais retornam ao Brasil e permanecem no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

Segundo a nota biográfica apresentada pela Província, "Frei Pedro amava o seu burel franciscano com todas as forças de sua grande alma, não hesitando jamais em colocar o ideal franciscano acima de qualquer outro ideal ou aspiração terrestre", e ainda: "Nunca seus brilhantes talentos ou o extraordinário prestígio [...] eram capazes de alterar sua humildade".

Frei Pedro Sinzig realizou extensa atividade na imprensa católica, fundou e dirigiu diversos jornais. Contribuiu com registros sobre a história da Ordem Franciscana no Brasil, combateu publicamente o nazismo e atuou nas áreas de arte, música e literatura.

Imprensa Católica A atividade Frei Pedro Sinzig na imprensa católica brasileira se estendeu por mais de cinco décadas e se tornou uma das mais prolíficas em toda a sua biografia.

Durante seu período no sul do Brasil, Sinzig funda o Jornal Cruzeiro do Sul, na cidade de Lages. Este se torna um veículo de difusão do ideal cristão, mas não sem criar oposição à política local e à maçonaria, levando à extinção do jornal por decisão da própria Ordem Franciscana (Amâncio, 2014).Amâncio, Talita Deniz. Um burel a plenos pulmões: atuação de Frei Pedro Sinzig na educação franciscana e imprensa católica (1900-1920). 2014. Dissertação de Mestrado em Educação. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014. No entanto, ao invés do fechamento do Cruzeiro do Sul significar um afastamento de Frei Pedro da atividade na imprensa, ele aumenta em muito sua atuação. Ao ser transferido para Petrópolis, em 1908, ele se torna redator da Revista Vozes de Petropolis, até 1920. miniaturadaimagem|300x300px|Cabeçalho da Revista Vozes de Petropolis, durante o período de atuação de Frei Pedro Sinzig A revista que tinha sido fundada no ano anterior, por Frei Inácio Hinte, cresce de forma intensa. Concebida como um periódico de conteúdo geral, de orientação católica, inclui seções sobre ciência, política, arte, literatura, etc. Nas Vozes de Petropolis,VOZES DE PETRÓPOLIS. Petrópolis: Vozes, 1907-1956. Frei Pedro inicia também um suplemento musical que publicava partituras de obras sacras e profanas, e que viria a servir de modelo a periódicos futuros, especialmente à Revista Música Sacra (Castello Branco, 2024, p. 2).Castello Branco, Marta. O Acervo musical de Frei Pedro Sinzig no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Anais do XXXIV Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Salvador, 2024.

É também na cidade de Petrópolis, e certamente influenciado pelo sucesso da revista, que é criado o Centro da Boa Imprensa (Almeida, 2016, p. 337-342).Almeida, Claudio Aguiar. Em Plena Guerra: imprensa, catolicismo e política nas duas primeiras décadas do Século XX. rev. hist., São Paulo, n. 174, 2016, p. 327-359. A experiência com publicações periódicas passa a incluir áreas e públicos específicos, como é o caso das revistas do Centro fundadas por Frei Pedro: Beija-Flor. Revista Infantil e A Tela. Revista Cinematográfica, dentre várias outras. Além de fundar e redigir diversos jornais, Sinzig manteve ao longo das décadas contribuições a importantes jornais brasileiros, como o Jornal do Brasil e a revista Cultura Política, por exemplo.

Sua atividade jornalística se relaciona também à escrita da história da Ordem Franciscana no Brasil. Durante o período petropolitano, Frei Pedro é escolhido redator dos Anuários da Província Franciscana [Jahrbücher der Franziskanerprovinz],Sinzig, Frei Pedro (im auft. prov. hrgs). Jahrbuch der Südbrasilianischen Franziskanerprovinz von der Unbefleckten Empfängnis 1910-1921. Petrópolis: Vozes, 1910- 1921. Sinzig, Frei Pedro (im auft. prov. hrgs). Nach 30 Jahren: Vierte Chronik (1915-1921) der Südbrasilianischen Franziskanerprovinz von der Unbefleckten Empfängnis. Curityba: Franziskanerprovinzialats, 1921. redigidos especialmente para o público alemão, frequentemente contribuidores da ordem. Neles são narradas as atividades dos franciscanos em conventos, igrejas, escolas, hospitais e também na imprensa. As publicações na Revista Vozes de Petropolis e em outros veículos católicos eram tema frequente nos anuários, que chegavam a incluir traduções de artigos desta. E a recíproca é verdadeira: também as Vozes apresentavam inúmeras traduções de artigos alemães. Assim, seu estudo provê material interessante à investigação da relação entre Brasil e Alemanha no começo do Século Vinte.

Na Guerra de Canudos O caráter jornalístico também se mostra em obras literárias de sua lavra. É provável que o exemplo mais icônico se leia em sua autobiografia, intitulada Reminiscências d'um Frade, publicada em 1917 (versão alemã: Mönch und Welt).Sinzig, Frei Pedro. Reminiscências d'um Frade. Petrópolis: Tipografia das Vozes de Petrópolis, 1917. O livro contém um trecho extenso sobre a estadia de Frei Pedro, junto a dois outros religiosos, na Guerra de Canudos.Além da narrativa presente na autobiografia, outro relato de Frei Pedro sobre Canudos é publicado na Vozes. Revista de Cultura, em 1975 e republicado em: Menezes, Eduardo Diatahy B.; Arruda, João. Canudos: as falas e os olhares. Fortaleza: RCV Gráfica e Editora, [ANO]. Seu relato pessoal é alternado com artigos jornalísticos, dando mostra ao leitor desta confluência entre informação 'objetiva' e experiência pessoal. Como voluntários do Comitê Patriótico da Bahia, os religiosos eram responsáveis pelo apoio espiritual aos combatentes, mas Sinzig não deixa de experienciar as atrocidades a partir de uma visão cristã, que Dimas aponta "quando o percebemos salpicado de simpatia humana pelos sertanejos, vistos de modo individualizado, mesmo sem identificação pessoal" (2008, p. 82).Dimas, Antônio. Três exemplos em espiral. In: Bernucci, Leopoldo M. (Ed.). Discurso, ciência e controvérsia em Euclides da Cunha. São Paulo: Ed. USP, 2008, p. 77-90.

Duas Grandes Guerras e oposição ao nazismo Além de Canudos, alguns outros eventos históricos são relatados por Frei Pedro de forma bastante frequente em seus artigos jornalísticos, mas a extensão de sua pesquisa histórica e o volume de informações é tamanha, que no contexto de ambas as Grandes Guerras Mundiais são publicadas não apenas análises e críticas, mas livros inteiros que discutem a situação política de forma mais ampla. O primeiro deles é Guerra. Quadro da Actualidade (1915)Sinzig, Frei Pedro. Guerra. Quadro da Actualidade. Petrópolis: Edição das Vozes de Petropolis, 1915. e o segundo é O Nazismo sem Máscara (1938),Reis, João Bauer. O Nazismo sem Máscara. Rio de Janeiro: L. A. Josephson, 1938. publicado sob o pseudônimo de João Bauer Reis. Fruto de uma observação detida do cenário político alemão, torna-se evidente a que ponto Sinzig acompanhou seu país natal, o que relatam Alms-Hammerstein e von der Dollen (2006, p. 109-125)Alms-Hammerstein, Christiane; von der Dollen, Ingrid (Hrsg.). Menschen in ihrer Zeit. Ehemalige Schüler des Linzer Gymnasiums. Bad Honnef: KAT-Verlag, 2006, p. 109-125. e Rönz (2018).Rönz, Andrea. Pater Petrus Sinzig O.F.M. – Linzer Franziskaner in Brasilien. Stadtarchiv Linz am Rhein. (2018, 30. August). https://archivlinz.hypotheses.org/1398

A oposição de Frei Pedro Sinzig ao nazismo lhe rendeu perseguições políticas que justificam o uso do pseudônimo. Ainda que esta fosse uma prática já presente em sua carreira jornalística. Além de João Bauer Reis, foram usados também o nome de João Brasil, em obras musicais, e especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, foi bastante frequente nas Vozes de Petropolis o pseudônimo, Francisco de Lins, que vem de seu nome de batismo, Franz, e de sua cidade natal, Linz am Rhein.

Ainda que tenha permanecido no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, a postura pública contra o nazismo, que se apresentou em inúmeros artigos do Jornal do Brasil, causou insatisfação por parte do Governo Vargas, mas não só por este. Também dentre os imigrantes alemães no Brasil a questão se tornou delicada a ponto de se fragmentarem as relações entre membros da Pro Arte, o que descreve Vianna Neto através de seu estudo sobre nacionalismo e política (2021).Vianna Neto, Liszt. Deutsche Gruppe: arte e nacionalismo entre o Brasil do Estado Novo e a Alemanha Nacional Socialista. Revista de História da Arte e da Cultura, v. 2, n. 1, 2021. Junto a Theodor Heuberger e Maria Amélia Rezende, Frei Pedro participou da fundação da associação, que promovia a cultura e a arte no contexto das relações entre Brasil e Alemanha.

Literatura esquerda|miniaturadaimagem|379x379px|Capa do livro "Pela Mão de uma Menina", de Frei Pedro Sinzig