O assassinato de Billy Jack Gaither ocorreu no estado do Alabama, nos Estados Unidos, em 19 de fevereiro de 1999. Dois conhecidos, Steven Eric Mullins e Charles Monroe Butler, espancaram Gaither até a morte, cortaram sua garganta e queimaram seu corpo. Ambos confessaram que o crime foi motivado pela orientação sexual de Gaither, que, aos 39 anos, era um homem gay.
Mullins, que aceitou um acordo judicial para evitar a pena de morte, alegou que ele e Butler foram igualmente responsáveis pelo assassinato. Já Butler, durante o julgamento, argumentou que Mullins foi o principal agressor. Ambos foram condenados por homicídio e receberam penas de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
O assassinato de Gaither ganhou ampla cobertura na mídia estadual e nacional, especialmente por sua proximidade temporal com os assassinatos de alto perfil de Matthew Shepard e James Byrd Jr., ambos considerados crimes de ódio motivados por preconceito contra minorias sexuais e raciais, respectivamente. Em 2000, o caso foi abordado em um especial do programa PBS Frontline, intitulado "Assault on Gay America: The Life and Death of Billy Jack Gaither". O crime também gerou apelos por mudanças na legislação de crimes de ódio do Alabama, que, aprovada em 1994, não incluía crimes motivados por orientação sexual ou identidade de gênero.
Contexto
Billy Jack Gaither Gaither era uma pessoa religiosa, proveniente de uma família cristã, e participava do coral de sua igreja batista. Um amigo de Gaither afirmou que ele mantinha sua homossexualidade em segredo dos pais devido às convicções religiosas da família. O irmão de Billy revelou que sabia da orientação sexual de Billy desde cedo e afirmou: "Você não queria aceitar, mas [Billy] era quem ele era." O pai de Gaither, segundo relatos, teve dificuldade em aceitar a homossexualidade do filho e mencionou à imprensa, após o assassinato, que Billy quase se casou com uma mulher enquanto morava em Birmingham, Alabama. Os pais de Billy destacaram que ele era protetor e cuidava do pai, que passou por treze cirurgias. Billy tinha duas irmãs.
Gaither abandonou o ensino médio no 11º ano em Sylacauga High School e obteve seu . Posteriormente, ingressou nos Marines e serviu por um ano, sendo dispensado com honra devido a problemas de hipertensão. Ao retornar para Sylacauga, Gaither frequentava bares gays em Birmingham e Montgomery, Alabama, e teve breves relacionamentos com pelo menos dois homens. Ele também era frequentador assíduo de um bar não voltado para o público gay, chamado The Tavern, onde a dona, Marion Hammond, relatou que Gaither ajudava a decorar o local para as festas de fim de ano. Ela afirmou que Gaither "não tinha vergonha de quem era" e que, embora não exibisse sua homossexualidade, respondia afirmativamente se questionado sobre ser gay. O irmão de Gaither também mencionou que ele frequentava bares gays em Atlanta.
Na época de sua morte, Gaither trabalhava como operador de terminal de computador em uma unidade da Russell Athletic em Alexander City, Alabama, uma pequena cidade próxima a Sylacauga. Ele também atuava como cuidador de seus pais, que tinham deficiências, e morava com eles em Sylacauga. Gaither frequentava feiras de antiguidades e colecionava memorabilia e objetos relacionados ao filme E o Vento Levou, incluindo pôsteres e bonecas de Scarlett O'Hara. Moradores locais descreviam Gaither como uma pessoa gentil e reservada.
Perpetradores
Steven Eric Mullins Antes do assassinato, Steven Eric Mullins identificava-se como skinhead. Moradores de Sylacauga relataram que Mullins frequentemente usava camisetas com símbolos da Ku Klux Klan, exibia bandeiras confederadas e fazia comentários e provocações racistas contra pessoas negras, embora não fosse conhecido anteriormente como uma ameaça à comunidade LGBT. Mullins também era frequentador regular do bar The Tavern. Em uma ocasião, enquanto usava uma camiseta da KKK, Mullins posicionou-se de costas contra a vitrine de um restaurante onde havia pessoas negras, forçando-as a ver os símbolos e mensagens racistas em sua roupa. Em outro momento, no The Tavern, Mullins insultou clientes negros com epítetos raciais.
Mullins já havia cumprido pena de prisão antes do assassinato de Gaither, por condenações por roubo e falsificação. Ele não mantinha uma relação próxima com o pai, que, segundo ele, encontrou apenas algumas vezes, uma delas quando ambos estavam cumprindo penas de prisão ao mesmo tempo, por acusações diferentes.
Durante seu julgamento, testemunhas afirmaram que Mullins tinha experiência com atos homossexuais. Mullins negou tais experiências e insistiu que era heterossexual. Mullins alternava entre trabalhos na construção civil e períodos de desemprego.
Na época do assassinato, Mullins tinha 25 anos.
Charles Monroe Butler Charles Butler também trabalhava na construção civil em Sylacauga. Sua madrasta afirmou que nunca o ouviu expressar sentimentos homofóbicos, declarando: "Não era algo importante aqui, mas pode ter sido quando ele estava com os amigos."
Na época do assassinato, Butler tinha 21 anos.
Relação entre os perpetradores Mullins e Butler se conheciam há vários anos, pois Mullins morava com dois meio-irmãos de Butler. Na época do assassinato de Gaither, Butler vinha atuando como uma espécie de "acompanhante" de Mullins por cerca de um mês.
Atitudes locais em relação à comunidade LGBT Moradores LGBT de Sylacauga afirmaram que, na época, era raro alguém ser abertamente gay na cidade e que, embora incidentes violentos como o assassinato de Gaither fossem incomuns, havia pouca aceitação local da comunidade LGBT. David W. White, coordenador da Aliança Gay e Lésbica do Alabama em Birmingham, declarou após o assassinato que "seria difícil viver em qualquer lugar do Alabama fora de Birmingham" e que, "mesmo em Birmingham, eu nunca seguraria a mão do meu parceiro em público. Seria praticamente um desejo de morte no estado do Alabama."
Um amigo de Gaither relatou um incidente anterior ao assassinato, quando um grupo de comerciantes no centro de Sylacauga decidiu pendurar bandeiras para "embelezar" a área. Uma das bandeiras continha um "símbolo de arco-íris [que] às vezes era usado por grupos gays", o que levou uma igreja local a fazer campanha pela remoção da bandeira, alegando que sua presença "promovia um estilo de vida gay em Sylacauga". A bandeira acabou sendo retirada.
Assassinato Steven Mullins afirmou em sua confissão às autoridades de Sylacauga que Gaither o havia abordado sexualmente por telefone duas semanas antes do assassinato, o que, segundo ele, "quebrou a linha de respeito" que Mullins acreditava existir entre eles. Amigos de Gaither contestaram essa alegação, insistindo que ele era cauteloso demais para fazer tal abordagem. Mesmo assim, Mullins afirmou que a suposta proposta o levou a decidir assassinar Gaither, declarando: "Eu não achava que ele merecia viver mais."
Mullins relatou às autoridades que ele e Gaither conversaram por telefone várias vezes após sua decisão de cometer o assassinato e que Gaither concordou em buscá-lo no trailer onde Mullins estava hospedado para irem juntos a um bar. Os dois passaram várias horas frequentando bares antes de chegarem a um onde Charles Butler estava jogando sinuca. Gaither permaneceu no carro, enquanto Mullins entrou no bar. Mullins afirmou que contou a Butler sobre seus planos de assassinar Gaither porque "achava que podia confiar [em Butler]" e "sabia que [Butler] também não gostava de gays." Após terminar sua partida de sinuca, Butler e Mullins convenceram Gaither a acompanhá-los até uma rampa de barcos em uma rodovia rural.
Os três dirigiram até a rampa no carro de Gaither, onde Butler desceu para urinar na frente do veículo. Mullins confessou aos investigadores de Sylacauga que, enquanto Butler urinava, ele e Gaither estavam atrás do carro quando Mullins agarrou Gaither, jogou-o no chão e cortou sua garganta com um canivete. O ferimento na garganta não foi letal, mas causou sangramento intenso. Mullins instruiu Butler a abrir o porta-malas do carro, momento em que Gaither tentou fugir. Mullins esfaqueou Gaither mais duas vezes "na região das costelas" e exigiu que ele entrasse no porta-malas. Após Gaither subir no porta-malas, Mullins e Butler fecharam a tampa e dirigiram até o trailer onde Mullins estava hospedado com os meio-irmãos de Butler, onde pegaram dois pneus, um galão de querosene, uma caixa de fósforos e um cabo de machado.
Mullins e Butler então dirigiram com Gaither até um riacho. Mullins afirmou que, ao tirar Gaither do porta-malas, Butler jogou querosene nos pneus e os incendiou. Gaither tentou escapar uma última vez, empurrando Mullins para o riacho e tentando fugir no carro, mas não tinha as chaves. Mullins arrastou Gaither para longe do veículo e o espancou com o cabo de machado, enquanto Butler limpava o sangue de Gaither do carro com uma camisa. Quando se cansou de bater, Mullins disse que arrastou Gaither até o fogo e que ele e Butler "ficaram lá por alguns minutos" observando Gaither queimar antes de deixarem o local. Ambos, Mullins e Butler, concordaram que Gaither estava morto quando foi arrastado para os pneus em chamas, embora, no julgamento, Butler tenha alegado que fugiu antes de Mullins desferir os golpes fatais com o cabo de machado, retornando apenas para ajudar a queimar o corpo de Gaither e, posteriormente, o carro de Gaither para eliminar evidências. No dia seguinte, o corpo de Gaither foi encontrado às margens de um rio perto de uma igreja local conhecida por realizar batismos.
Reações
Políticos O presidente dos EUA, Bill Clinton, e a primeira-dama, Hillary Clinton, expressaram condolências à família Gaither após o assassinato, divulgando uma declaração que classificou o crime como "hediondo e covarde" e o comparou aos recentes assassinatos por ódio de James Byrd Jr. no Texas e Matthew Shepard em Wyoming. A declaração de Clinton também afirmava: "Em momentos como este, o povo americano se une e fala com uma só voz, pois os atos de ódio que levaram à morte de homens tão inocentes são também atos de desafio contra os valores que nossa sociedade preza."
Em 11 de maio de 1999, o procurador-geral adjunto, Eric Holder, divulgou uma declaração condenando os assassinatos de Gaither, Byrd e Shepard, classificando os três como crimes de ódio e citando um jornal do Alabama que afirmou que Gaither foi assassinado "por ser quem era". Holder destacou o compromisso do governo americano em "processar e prevenir" crimes de ódio e pediu uma postura mais firme do governo federal contra esses crimes.
O governador da Califórnia, Gray Davis, declarou a uma multidão em West Hollywood, Califórnia, que o assassinato de Gaither o "profundamente entristeceu" porque "atinge o cerne do que significa ser americano". Ele também afirmou: "Se qualquer homem ou mulher não pode andar com segurança pelas nossas ruas por medo de violência simplesmente por causa de sua orientação sexual, então nenhum de nós é verdadeiramente livre."
Organizações e ativistas Semanas após o assassinato de Gaither, ativistas pelos direitos LGBT participaram de um evento na Igreja Metropolitana Comunitária Covenant, em Birmingham, para defender a inclusão de proteções contra crimes motivados por orientação sexual nas leis de crimes de ódio do Alabama. Durante o evento, membros da Igreja Batista de Westboro posicionaram-se do outro lado da rua com cartazes criticando Gaither. O líder deles, reverendo , criticou a comunidade LGBT por "explorar" o assassinato de Gaither, dizendo: "Não é mais apenas um evento para a família e amigos lamentarem."
Em 15 de março de 1999, em Nova Iorque, ativistas pelos direitos LGBT realizaram uma marcha que foi de Broadway até a Times Square. Os participantes chamaram o evento de "funeral político" em memória de Gaither e outras vítimas de crimes de ódio.
Família de Gaither