miniaturadaimagem|Kitagawa Utamaro, "Cliente lubrificando uma prostituta" (enquanto outro espreita), gravura do final do século XVIII, Coleção F.M. Bertholet Datados de tempos antigos, há registros de homens que fazem sexo com homens no Japão que estudiosos ocidentais identificam como evidência de homossexualidade no Japão. Embora essas relações tenham existido no Japão por milênios, elas se tornaram mais aparentes para os estudiosos durante o período Tokugawa (ou Edo). Práticas históricas identificadas por estudiosos como homossexuais incluem , e .
O termo japonês é a leitura japonesa dos caracteres chineses, que significam literalmente "cores masculinas". O caractere ( ) tem o significado adicional de "luxúria", tanto na China quanto no Japão. Este termo era amplamente utilizado para se referir ao sexo entre homens na era pré-moderna do Japão. O termo também é empregado, especialmente em obras mais antigas.
Durante o período Meiji, o nanshoku começou a ser desencorajado devido ao surgimento da sexologia no Japão e ao processo de ocidentalização. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, os chineses zombaram e insultaram o imperador Puyi e os japoneses como homossexuais e apresentaram isso como prova de sua perversão e de serem incivilizados. A única vez que a sodomia homossexual foi proibida no país foi por um período de 1872 a 1880, devido à influência ocidental.
Termos modernos para homossexuais incluem , , , ou , , / e .
Japão pré-Meiji Historicamente, a religião xintoísta "não tinha um código moral especial e parece ter considerado o sexo como um fenômeno natural a ser apreciado com poucas inibições". Embora as crenças xintoístas sejam diversas, o xintoísmo japonês, ao longo da história, não condenou a homossexualidade, ao contrário da zoofilia e do incesto. Inclusive, existe uma variedade de referências literárias ao amor entre pessoas do mesmo sexo existem em fontes antigas, como a mitologia japonesa, mas muitas dessas relações são tão sutis que não podem ser ditas como evidências da homossexualidade. Além disso, elas podem ser confundidas com declarações profusas de afeto por amigos do mesmo sexo, que eram comuns.
Durante o período Heian, por volta do século XI, surgiram mais referências de traços que evidenciam a homossexualidade no Japão. Por exemplo, em , escrito no início do século XI, os homens são frequentemente movidos pela beleza de homens mais jovens. Em uma passagem, o herói rejeita uma dama e, então, dorme com o irmão mais novo dela: "Genji puxou o garoto para perto dele... Genji, por sua vez, ou assim se sabe, achou o garoto mais atraente do que sua irmã fria". Genji Monogatari é um romance, mas existem também vários diários da era Heian que contêm referências a atos e práticas homossexuais. Alguns deles contêm referências a imperadores envolvidos em relacionamentos homossexuais com "garotos bonitos retidos para fins sexuais".
Contudo, devido à influência chinesa do confucionismo e do budismo, a homossexualidade era socialmente desencorajada.
Homossexualidade monástica Os relacionamentos Nanshoku dentro dos mosteiros budistas eram tipicamente pederásticos, isto é, um relacionamento que o parceiro mais jovem não é considerado um adulto. O parceiro mais velho, ou , seria um monge ou um padre, enquanto o parceiro mais jovem era considerado um , que seria um menino na fase antes da puberdade ou na adolescência. O relacionamento era físico e psicológico, exaltando o prazer de diversas formas, não se preocupava com ações certas ou erradas. O relacionamento seria dissolvido quando o menino atingisse a idade adulta ou deixasse o mosteiro. Ambas as partes eram encorajadas a tratar o relacionamento com seriedade e conduzir o caso com honra, e o nenja poderia ser obrigado a escrever um voto formal de fidelidade. Fora dos mosteiros, os monges eram considerados como tendo uma preferência por prostitutos masculinos, o que era objeto de humor obsceno pela sociedade.Pflugfelder, Gregory M. (1997). Cartographies of desire: male–male sexuality in Japanese discourse, 1600–1950. University of California Press. p. 26, 39–42, 75, 70-71, 252.
Não há evidências de oposição religiosa à homossexualidade no Japão em tradições não budistas.The Greenwood encyclopedia of LGBT issues worldwide, Volume 1, Chuck Stewart, p.430. Os comentaristas Tokugawa se sentiam livres para ilustrar kami praticando sexo anal uns com os outros. Durante o período Tokugawa, alguns dos deuses xintoístas, especialmente Hachiman, Myoshin, Shinmei e Tenjin, "passaram a ser vistos como divindades guardiãs do nanshoku, do amor entre homens". O escritor da era Tokugawa, Ihara Saikaku, insinuou que, como não há mulheres nas três primeiras gerações na genealogia dos deuses encontrada no Nihon Shoki, os deuses devem ter desfrutado de relacionamentos homossexuais - o que Saikaku argumentou ser a verdadeira origem do nanshoku. No entanto, durante o período Edo, os relacionamentos entre homens e mulheres eram altamente valorizados, pois garantiam a propagação da prole e o status social.
Shudô Samurai Em contraste com as normas das esferas religiosas, na classe dos guerreiros samurais, era costume que um garoto na idade do wakashū a iniciar os treinos em artes marciais por um adulto mais experiente. De acordo com Furukawa, a relação era baseada no modelo de um nenja mais velho com um chigo, normalmente mais jovem. O homem mais velho era permitido, se o menino concordasse, a tomar o chigo como seu amante, até que atingisse a maioridade. Essa relação, geralmente formalizada em um "contrato", era exclusiva, os dois homens não poderiam ter outros amantes masculinos.
Esta prática, juntamente com a pederastia clerical, desenvolveu-se no sistema de homossexualidade estruturada por idade conhecido como . O parceiro mais velho, no papel de nenja, ensinaria ao chigo as habilidades marciais, a etiqueta de guerra e o código de honra dos samurais, enquanto seu desejo de ser um bom modelo para seu chigo o levaria a se comportar de forma mais honrosa. Dessa forma, um relacionamento shudō era considerado como tendo um "efeito que incita a nobreza de forma mútua".Pflugfelder, Gregory M. (1997). Cartographies of desire: male–male sexuality in Japanese discourse, 1600–1950. University of California Press. p. 26, 39–42, 75, 70-71, 252. Além disso, ambas as partes eram leais até a morte e se ajudavam tanto nos deveres feudais quanto nas obrigações motivadas pela honra, como duelos e vinganças. Embora se esperasse que o sexo entre o casal terminasse quando o menino atingisse a maioridade, o relacionamento, idealmente, se desenvolveria em um vínculo de amizade para toda a vida. Ao mesmo tempo, a atividade sexual com mulheres não era proibida para nenhuma das partes e, quando o menino atingia a maioridade, ambos eram livres para procurar outros amantes wakashū.
Assim como as práticas homossexuais posteriores à era Edo, o shudō samurai era estritamente definido por papéis; o nenja era visto como o parceiro ativo, desejante e penetrante, enquanto o wakashū, mais jovem e sexualmente receptivo, era considerado como alguém que se submetia às atenções do nenja por amor, lealdade e afeição, em vez de desejo sexual. Na classe samurai, os homens adultos, por definição, não tinham permissão para assumir o papel de wakashū ; apenas meninos pré-adultos (ou, mais tarde, homens de classe baixa) eram considerados alvos legítimos do desejo homossexual. Em alguns casos, relacionamentos shudō surgiam entre meninos de idades semelhantes, mas as partes ainda eram divididas em papéis de nenja e wakashū. direita|miniaturadaimagem|Homem e jovem, Miyagawa Isshō, c. 1750. Painel de uma série de dez em um rolo pintado à mão no estilo shunga (kakemono-e); sumi, cor e gofun sobre seda. Coleção particular. O jovem à esquerda veste um quimono cujo estilo e cor eram considerados apropriados para adolescentes de ambos os sexos, mas não para homens adultos, o que, juntamente com a cabeça parcialmente raspada, denota a condição de wakashū do menino, enquanto os pés descalços expostos indicam o comportamento puramente sexual.
Kabuki e prostituição masculina Prostitutos masculinos, kagema, muitas vezes se passados como aprendizes de atores de kabuki, atendiam a homens e mulheres e fizeram um comércio saudável até meados do século XIX, apesar das crescentes restrições. Muitos desses prostitutos, assim como muitos jovens atores de kabuki, eram servos contratados que foram vendidos quando crianças para o bordel ou para o teatro, normalmente com um contrato de dez anos. Relações sexuais entre comerciantes e meninos contratados eram comuns o suficiente, pelo menos no imaginário popular, para serem o assunto de histórias eróticas e piadas populares. Jovens atores de kabuki frequentemente trabalhavam como prostitutos fora do palco e eram celebrados de forma semelhante às celebridades modernas, e eram muito procurados por clientes ricos, que competiam entre si para comprar os favores dos atores de kabuki. Os atores onnagata (que interpretavam o papel feminino) e wakashū-gata (interpretavam o papel de menino adolescente), em particular, foram alvo de grande apreço por clientes, masculinos e femininos, e inspiraram gravuras nanshoku shunga e outras obras que celebravam o nanshoku.
Atores e prostitutos que atendiam clientes masculinos eram originalmente restritos à categoria de idade wakashū, visto que homens adultos não eram percebidos como parceiros sexuais desejáveis ou socialmente aceitáveis para outros homens. Durante o século XVII, esses homens ou seus empregadores buscavam manter sua aparência jovem e ocultar sua maioridade, estendendo seu status de "não adulto" para os vinte ou mesmo trinta anos. Eventualmente, isso levou a um relacionamento shudō alternativo, definido por status, que permitia aos clientes contratar "meninos" que eram, na realidade, mais velhos do que eles. Essa evolução foi acelerada pelas proibições, em meados do século XVII, da representação dos longos topetes dos wakashū, seu marcador de idade mais saliente, em peças de kabuki. pretendendo apagar o apelo sexual dos jovens atores e assim reduzir a competição violenta pelos seus favores, esta restrição acabou por ter o efeito não intencional de dissociar o desejo sexual masculina da idade real, desde que uma aparência adequadamente "jovem" pudesse ser mantida.Pflugfelder, M. Gregory. (1999) "Cartographies of Desire: Male-Male Sexuality in Japanese Discourse, 1600- 1950": 256. direita|miniaturadaimagem| . Pintura colorida à mão por Utagawa Hiroshige .
Arte do amor entre pessoas do mesmo sexo Essas atividades foram o tema de inúmeras obras literárias, a maioria das quais ainda não apresentam tradução em português. No entanto, traduções para o inglês estão disponíveis de obras de Ihara Saikaku, que criou um protagonista bissexual em The Life of An Amorous Man (1682), de Jippensha Ikku, que criou um relacionamento inicial entre homens no "Prefácio" pós-publicação de Shank's Mare (1802), e de Ueda Akinari, que teve um monge budista homossexual em Tales of Moonlight and Rain (1776). Da mesma forma, muitos dos maiores artistas do período, como Hokusai e Hiroshige, orgulhavam-se de documentar tais amores em suas gravuras, conhecidas como ukiyo-e, "imagens do mundo flutuante", e onde tinham um tom erótico, shunga, "imagens da primavera".