miniaturadaimagem|250x250px|O cenário para a cerimónia de investidura de 1969 no Castelo de Caernarfon A investidura de Carlos, Príncipe de Gales (mais tarde, Rei Carlos III), ocorreu no Castelo de Caernarfon, norte do País de Gales, a 1 de julho de 1969. A cerimónia investiu formalmente Carlos, com 20 anos, filho mais velho da Rainha Isabel II, com o título de Príncipe de Gales. Foi o 21º herdeiro do trono inglês ou britânico a deter o título. Para a investidura, foi recuperada uma cerimónia usada pela primeira vez para o anterior Príncipe de Gales, Eduardo (tio-avô de Carlos), em 1911.

Em 1969, o evento foi acompanhado por 500 milhões de pessoas em todo o mundo na televisão, mas recebeu alguma oposição, nomeadamente por parte de organizações nacionalistas galesas.

Contexto O título de "Príncipe de Gales" é tradicionalmente concedido ao herdeiro aparente do monarca inglês ou britânico, tendo Eduardo I dado, pela primeira vez, o título a seu filho Eduardo de Caernarfon, em 1284. A sua concessão, contudo, não é automática nem hereditária. Eduardo nasceu no Castelo de Caernarfon em 1284, possivelmente uma mensagem deliberada de seu pai ao País de Gales, recentemente por ele conquistado. O título de Príncipe de Gales inclui as terras reais no País de Gales, assim como o título de Conde de Chester. O Príncipe de Gales viveu cinco semanas em Caernarfon em 1301, mas nunca mais voltou.

Após uma revolta contra os ingleses, o galês nativo Owain Glyndwr autoproclamou-se Príncipe de Gales em 1400, mas, uma vez derrotado, em 1409, o título voltou a ser cerimonial, dado aos herdeiros do trono inglês.

A Rainha Isabel II fez de seu filho mais velho, Carlos, Príncipe de Gales e conde de Chester por cartas-patente a 26 de julho de 1958, quando este tinha apenas nove anos. Foi o 21º a receber o título. O tio de Isabel, Eduardo, o futuro Rei Eduardo VIII, e anterior príncipe de Gales, foi investido no título no Castelo de Caernarfon em 1911, antes de se tornar Rei em 1936. A cerimónia de 1911 foi uma novidade, embora contivesse simbolismo medieval, e repetir-se-ia na investidura de Carlos, em 1969.

A investidura foi precedida por uma campanha promocional que durou um ano, de nome "Croeso '69" ( Bem-vindo '69 ), projetada para elevar o perfil do País de Gales e promover o turismo. O governo trabalhista do Reino Unido pretendia modernizar a Grã-Bretanha, incluindo o País de Gales, onde antigas indústrias eram substituídas por novos negócios e tecnologias.

Desaparecida a coroa de ouro de 1911, foi necessária a sua substituição em 1969, tendo sido escolhida uma com um design moderno. Após a morte do Duque de Windsor – ex-rei Eduardo VIII –, em 1972, a antiga coroa foi encontrada entre os seus pertences.

Dez dias antes da investidura, foi exibido um documentário coproduzido pela BBC e pela ITV, intitulado Royal Family, o qual mostrava o quotidiano da realeza. Isto valeu à Família Real um aumento do interesse do público. miniaturadaimagem|Desfile pelas ruas de Caernarfon Carlos foi formalmente investido com o título de Príncipe de Gales numa cerimónia no Castelo de Caernarfon a 1 de julho de 1969. O evento foi organizado por um Comitê de Investidura, especialmente criado para tal, liderado pelo conde marechal, Bernard Fitzalan-Howard, 16º Duque de Norfolk. Com um crescente sentimento nacionalista no País de Gales na época, a investidura responderia, celebrando o orgulho do País de Gales, juntamente com a atual monarquia britânica. Retrieved 24 September 2022.

O tio de Carlos, Lorde Snowdon, sendo um fotógrafo profissional, organizou a cerimónia para que fosse transmitida na televisão. A investidura ocorreu num estrado circular de ardósia protegido por um grande dossel moderno de acrílico que permitiu que o público e as câmaras acompanhassem os procedimentos.

Antes da investidura, Carlos passou nove semanas na Universidade de Aberystwyth para aprender a falar a língua galesa, ensinado pelo nacionalista galês Dr. Tedi Millward. Carlos pôde, assim, fazer um discurso na investidura em galês e inglês, onde prometeu "associar-se em palavras e ações com o máximo possível da vida do Principado".

Uma hora antes da chegada da Família Real, uma procissão de dignitários e convidados percorreu a cidade e entrou no castelo pelo Portão das Águas, liderada pelos arautos do rei com uma guarda de honra dos Guardas Galeses. Seguiram-se várias dezenas de adolescentes, representantes da juventude galesa. Depois vieram os membros convidados da Câmara dos Lordes, os membros e vereadores do Conselho Municipal de Caernarvon, membros do Tribunal de Gorsedd e do Tribunal Nacional de Eisteddfod, presidentes dos 13 conselhos de condados galeses, xerifes de condados e os deputados galeses. Chegaram representantes da Igreja, seguindo-se o primeiro-ministro, Harold Wilson, e a esposa, Mary; o secretário do Interior, James Callaghan; e os chefes do estado-maior das forças armadas.

Os membros da Família Real chegaram numa frota de quatro carros, liderada pelo lorde tenente de Caernarvonshire. Finalmente, Carlos chegou numa carruagem aberta, acompanhado pelo seu escudeiro, David Checketts, e o secretário de estado do País de Gales, George Thomas, ao mesmo tempo que se ouvia God Bless the Prince of Wales (Deus Abençoeíncipe de Gales), tocado pela Banda da Guarda Galesa . miniaturadaimagem|A coroa feita para a investidura Diante do público convidado de 4.000 pessoas dentro do castelo, Carlos subiu ao palco e ajoelhou-se numa almofada escarlate. O secretário de estado do País de Gales leu as Cartas-Patente em galês enquanto a Rainha entregava a Carlos uma vara de ouro, um manto, uma espada, um cinto, a nova coroa e um anel. O príncipe então fez um juramento, anunciando: Eu, Carlos, Príncipe de Gales, torno-me vosso vassalo, de corpo e alma, de adoração terrena e levar-vos-ei fé e verdade, para viver e morrer contra todo o tipo de pessoas. O Príncipe beijou a sua mãe na bochecha antes de ser conduzido pela Rainha até à varanda do Portão da Rainha para cumprimentar a multidão que os esperava do lado de fora do castelo. Mais tarde, Carlos sentou-se num trono, entre dois outros tronos ocupados pela Rainha, de um lado, e seu pai, o Duque de Edimburgo, sentado do outro lado.

A cerimónia foi transmitida ao vivo pela BBC, a preto e branco pela BBC1 e a cores pela BBC2, a partir das 10h30até às 16h30. Foi também transmitido pela BBC Radio 3 e nas duas línguas pela BBC Radio 4 Wales. Teve uma audiência de 19 milhões no Reino Unido e 500 milhões em todo o mundo. Também foi transmitido no canal comercial ITV, que iniciou a cobertura a partir das 12h. Embora se previsse 250.000 visitantes em Caernarfon, apenas cerca de 90.000 visitaram a cidade para ver o evento pessoalmente. Acredita-se que muitos optaram por assistir à cerimónia em casa pela televisão.

Após o evento, Carlos viajou pelo País de Gales durante quatro dias, de carro, helicóptero e no iate real. Deixando o iate real em Llandudno no dia seguinte à investidura (e voltando ao iate em vários pontos da viagem), o Príncipe visitou Newtown, New Quay, St Davids, Gelli Aur, Llanelli, Swansea, Merthyr Tydfil ( Castelo Cyfarthfa ), Newport e Cardiff . Encerrou a visita com uma apresentação no City Hall de Cardiff e um concerto no New Theatre.

Oposição miniaturadaimagem|230x230px|Protesto contra a investidura de Carlos, Príncipe de Gales, no memorial de Llywelyn, o Último, Príncipe de Gales nativo em Cilmeri, perto de Builth Wells, em 1969. Um movimento que se opôs à investidura tem sido historicamente descrito como o "movimento anti-investidura" e "sentimento anti-investidura". A cerimónia ocorreu durante um período em que o sentimento nacionalista galês ganhava força, tendo alguns considerado Carlos um príncipe inglês imposto ao País de Gales.

O sentimento nacionalista crescia, especialmente desde 1957, quando um vale galês foi evacuado e inundado para fornecer água para a cidade inglesa de Liverpool.

Em Novembro de 1967, numa visita do Conde de Snowdon a Cardiff para discutir os preparativos para a investidura, uma bomba explodiu. miniaturadaimagem|225x225px|Manifestantes em oposição à investidura do Príncipe Carlos no Castelo de Caernarfon (1969) Comunidades e instituições estavam divididas sobre a questão da investidura. Estas incluíam o Urdd, Plaid Cymru (partido nacionalista galês), o Gorsedd e denominações não conformistas. Estudantes da Universidade de Gales realizaram vários protestos e greves de fome para mostrar a sua oposição à investidura. A FWA e o Mudiad Amddiffyn Cymru também aumentaram a tensão. Por tudo isto, o governo do Reino Unido convocou soldados e detetives, assim como agentes provocadores, para garantir uma cerimónia tranquila em Caernarfon. Os protestos foram liderados pela Mudiad Amddiffyn Cymru (MAC, Movimento para a Defesa do País de Gales ), e pelo Exército Livre do País de Gales – grupos radicais –, com a situação antes da investidura descrita como "algo próximo a uma guerra aberta entre a polícia do governo e os jovens do País de Gales".

O cantor galês Dafydd Iwan expressou a sua oposição e protesto contra a investidura de Carlos como Príncipe de Gales e também escreveu a canção "Carlo" zombando deste. Iwan declarou: "[É uma] canção para ser levada de ânimo leve, ... como a própria Investidura e todas as outras vaidades. A vergonha é que já houve significado e um propósito sério para [o papel de] Príncipe de Gales". A canção de Dafydd Iwan, de 25 anos, tornou-se um hino popular na época.

O festival da juventude de língua galesa, Urdd Eisteddfod, optou por não enviar representantes à investidura. Mas, como o festival de 1969 ocorreu em Aberystwyth, onde Carlos estudava, o Príncipe foi convidado a discursar no evento. Eclodiram protestos assim que Carlos iniciou o seu discurso, por parte de dois grandes grupos, que gritaram slogans como "Urdd foi traída".

Tedi Millward, professor de galês na Universidade de Aberystwyth, tornou-se amigo de Carlos antes da investidura, quando lhe ensinava galês. Recusou convites para a cerimónia de investidura, bem como para o casamento do Príncipe e de Diana Spencer, em 1981. O próprio Carlos disse em 2019: "Todos os dias tinha de ir à cidade onde assistia a palestras, e na maioria dos dias parecia haver uma manifestação contra mim". miniaturadaimagem|225x225px|Cofia 1282 (Lembrem-se de 1282) um protesto contra a investidura de Carlos. A investidura de Carlos como "Príncipe de Gales" foi controversa e também levou a protestos generalizados no País de Gales. O grupo "Cofia 1282" ("Lembrem-se de 1282", o ano da morte de Llywelyn, o Último) também realizou protestos contra a investidura.

A Sociedade de Língua Galesa (Cymdeithas yr Iaith) também realizou uma manifestação contra a investidura a 29 de agosto de 1969 em Cilmeri, local da morte de Llywelyn, o Último.

No dia anterior à investidura de 1969, dois membros do MAC morreram quando a sua bomba caseira explodiu prematuramente em Abergele, enquanto a plantavam num prédio do governo local. Houve falsas especulações de que pretendiam explodir o comboio real.

Dia da investidura miniaturadaimagem|225x225px|Uma parte de um protesto contra a investidura em frente ao castelo em março de 1969 No dia da investidura, foram presos alguns manifestantes pacíficos. Alguns foram escoltados por carregarem cartazes onde se lia "Cymru nid Prydain" (País de Gales, não Grã-Bretanha). Outros vaiaram e fizeram gestos obscenos para as carruagens reais. Um manifestante atirou um ovo à carruagem da Rainha quando esta passava. Outro atirou uma casca de banana aos pés da escolta militar enquanto esta passava.

No dia da cerimónia, um jovem atirou um ovo à carruagem da Rainha e foi atacado pela multidão que o rodeava. Helicópteros sobrevoaram a cidade, as tampas dos esgotos de Caernarfon foram seladas e as estações de rádio foram cercadas por arame farpado, o que tornou impossível um ataque planeado ao Castelo de Caernarfon.

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