Entre 1704 e 1712, Portugal teve ampla participação na Guerra da Sucessão Espanhola, despoletada pela morte do rei espanhol Carlos II sem herdeiros directos. Isto abriu uma disputa entre pretendentes rivais ao trono, nomeadamente Filipe de Bourbon, apoiado por França, e o Arquiduque Carlos de Habsburgo, apoiado por Inglaterra, Portugal, Holanda e o Sacro Império.

Destacou-se no conflito o enérgico Marquês das Minas, António Luís de Sousa, por ter liderado um exército aliado que alcançou Madrid e fez aclamar o Arquiduque Carlos como Rei de Espanha, o que ressoou por toda a Europa.

Contexto miniaturadaimagem|D. Pedro II. Em finais do séc. XVII a Espanha encontrava-se em declínio e o rei Carlos II não tinha herdeiros directos, o que levou as potências europeias antever um conflito pelo trono espanhol. Portugal embarcou numa intensa actividade diplomática junto das várias potências e negociou contingências em caso de um novo confronto militar.

Carlos II faleceu em 1700 e no seu testamento nomeara como sucessor o Duque de Anjou, que assim subiu ao trono como Filipe V de Espanha. D. Pedro II pretendia expandir a fronteira do Brasil até ao rio da Prata e adquirir as praças espanholas de Tui, Vigo, Baiona da Galiza, Guarda da Galiza, Badajoz, Albuquerque e Valença de Alcântara para reforçar as defesas de Portugal na Europa.A. H. de Oliveira Marques: História de Portugal, Palas Editores, 1983, p. 348. "Portugal proclamava os seus direitos ao Rio da Prata como fronteira meridional do Brasil (cf. Cap. IX) - coisa que a Espanha se recusava a aceitar - e desejava proteger melhor as suas fronteiras na Europa pela aquisição de várias cidades fortificadas espanholas: Vigo, Baiona, Tui Valencia de Alcântara, Albuquerque e Bedajoz. Consequentemente, Portugal resolveu-se a interferir depois da morte de Carlos II de Espanha (1700). Tendo as suas pretensões sido rejeitadas pela Inglaterra, Portugal aliou-se primeiro à França, mas hesitou depois em entrar em guerra quando verificou que os inimigos daquele país dominavam os mares." Como a Inglaterra não apoiava este projecto e o principal diplomata português, o duque de Cadaval, era pró-francês, o rei português reconheceu Filipe V contra a opinião dos seus conselheiros e Portugal alinhou com França.Monteiro, Nuno Gonçalo: "A Guerra da Sucessão de Espanha" in Barata, Manuel Themudo e Teixeira, Nuno Severiano: Nova História Militar de Portugal, Círculo de Leitores, volume II, 2004, pp. 301-306.

A sucessão Filipe V não foi aceite pelo Imperador Leopoldo, que considerava pertencer o trono espanhol ao seu filho, o Arquiduque Carlos de Habsburgo, apoiado também pela Inglaterra e os Países Baixos, a que depois se juntaram outras potências.Joaquim Veríssimo Serrão: História de Portugal, volume V, Editorial Verbo, 1982, p. 222. A guerra entre França e as potências aliadas começou um pouco por toda a Europa e no Mediterrâneo em 1701.

As derrotas dos franceses em Itália no ano seguinte e a ameaça da Marinha britânica levaram D. Pedro II a repensar a sua posição.Veríssimo Serrão, 1982, p. 223. Portugal hesitava em hostilizar a Inglaterra e Holanda, cujas marinhas eram bem mais capazes de ameaçar o Império Português, ao passo que a França falhava no envio de uma frota para ajudar a defender Portugal e as suas colónias. Filipe V, por sua vez, insistia em tratar o rei D. Pedro II injuriosamente por "duque de Bragança" apenas, o que denunciava as suas pretensões à reconquista de Portugal.A. H. de Oliveira Marques, Joel Serrão. Nova História de Portugal, volume VII, Editorial Presença, 2001, p. 177-178. Tudo isto levou Portugal a abandonar o bloco pró-Bourbon em Setembro de 1702.Marques, Serrão, 2001, p. 176.

Seguiu-se um breve período de neutralidade portuguesa. Para a evitar choques em águas portuguesas, o rei deu ordem às autoridades portuárias para que não deixassem sair navios de potências rivais senão duas marés entre eles.

Portugal integra a Grande Aliança miniaturadaimagem|Fuzileiro português. 1740. Em Maio de 1703, Portugal juntou-se à Grande Aliança mediante a assinatura de dois tratados com Inglaterra, os Países Baixos e o Sacro Império. D. Pedro II comprometia-se a entrar na guerra com 12,000 homens de infantaria e 3,000 de cavalaria.Veríssimo Serrão, 1982, p. 224. Em troca, os aliados apoiariam Portugal com 12,000 soldados e pagariam também o recrutamento de mais 13,000 soldados portugueses, em prestações anuais de um milhão de patacas. Um tratado secreto foi também assinado com o arquiduque Carlos, que previa a entrega das praças fronteiriças de Tui, Vigo, Baiona da Galiza, Guarda da Galiza, Badajoz, Albuquerque e Valença de Alcântara em Espanha e todas as terras a norte do Rio da Prata, que passaria a servir de fronteira entre as duas Coroas na América do Sul. Uma proposta de casamento do herdeiro português com uma princesa austríaca e do arquiduque Carlos com uma infanta portuguesa selou a adesão do governo português à Grande Aliança. Portugal também assinou com Inglaterra o Tratado de Methuen, que mereceu pouco destaque na altura mas foi muito comentado mais tarde.

Imediatamente Portugal começou os preparativos para a guerra, nomeando vários generais para as fronteiras: o conde das Galveias Dinis de Melo e Castro para o Alentejo, o marquês das Minas António Luís de Sousa para a Beira, o conde de Alvor Francisco de Távora para Trás-os-Montes, o conde de Atalaia Luís Manuel de Távora para o Minho e o conde do Alvito para o Algarve.João Vieira Borges: Conquista de Madrid 1706: Portugal Faz Aclamar Rei de Espanha o Arquiduque Carlos de Habsburgo, Tribuna da História, 2003, p. 52. As defesas da Barra do Tejo foram reforçadas, a marinha foi posta de prevenção e em terra ensaiaram-se avisos e rebates. D. Pedro contraiu empréstimos sobre o património da Casa Real para a financiar a reconstrução de muralhas e a aquisição de equipamento bélico, ao passo que às câmaras do país pediu-lhes que mantivessem o contributo de 4,5% para a compra de armas e munições.Veríssimo Serrão, 1982, p. 225. O desembargador António Rodrigues da Costa foi instruído a compor uma Justificação em espanhol e latim das razões da intervenção de Portugal no conflito para ser divulgada no estrangeiro.

As razões do envolvimento de Portugal na guerra eram, porém, mal compreendidas pela maioria da população e poucos acreditavam no perigo. Em Agosto deste ano entrou no Tejo uma frota de 40 navios mercantes com uma grande carga de bacalhau, queijo, manteiga e embarcou os produtos nacionais em ambiente de tranquilidade. miniaturadaimagem|Chegada do arquiduque Carlos a Lisboa. A 7 de Março de 1704 o arquiduque Carlos desembarcou em Lisboa acompanhado de tropas aliadas, tal como Portugal exigira. A ocorrência traduzia-se num reconhecimento internacional sem precedentes da dinastia de Bragança e foi faustosamente celebrada. Comandava as tropas inglesas o duque de Schomberg e as holandesas François Nicolas Fagel.

Península Ibérica Espanha declarou guerra a Portugal a 30 de Abril de 1704.

A 7 de Maio as províncias da Beira e do Alentejo foram invadidas por um exército de 26,000 a 40,000 homens comandado pessoalmente por Filipe V e que incluía veteranos trazidos tanto de Itália como dos Países Baixos, bem como um destacamento de tropas francesas comandadas pelo duque de Berwick.Borges, 2003, p. 53. Salvaterra do Extremo, Segura e Zebreira foram ocupadas sem combate, ao passo que Monsanto e Idanha-a-Nova foram tomadas por assalto.Veríssimo Serrão, 1982, p. 226. A guarnição de Monsanto foi degolada e a povoação posta a saque por terem oposto alguma resistência. Por toda a parte foram perpetradas violências contra a população rural. A 20 de Maio atacaram Castelo Branco e quatro dias depois entraram na povoação, cuja ocupação foi presidida por Filipe V em pessoa. Penamacor foi atacada, seguindo um corpo de tropas até Sobreira Formosa, onde massacraram um corpo de tropas inglesas que se dirigia para Almeida. Os espanhóis construíram também uma ponte de barcas em Vila Velha de Ródão a 30 de Maio e invadiram o Alentejo. miniaturadaimagem|O marquês de Minas António Luís de Sousa. Os avanço franco-espanhol na Beira foi contido por um contra-ataque do marquês das Minas. Este saiu de Almeida a 2 de Junho com uma pequena divisão reforçada com tropas do Minho e Trás-os-Montes, reconquistou Monsanto entre 9 e 11 de Junho e ocupou Fuenteguinaldo.

No Alentejo, os franco-espanhóis ocuparam Portalegre e Castelo de Vide a 25 de Junho, bem como boa parte do alto Alentejo. Santo Aleixo da Restauração e Aldeia Nova de São Bento foram destruídas pelos espanhóis.Marques, 1983, p. 349. As tropas do conde das Galveias entraram em espanha e ocuparam Puebla de Guzmán a 25 de Julho, o que obrigou os franco-espanhóis a retirarem-se do Alentejo. Filipe V retirou a sua pessoa de Castelo Branco e Idanha.

Os generais ingleses e portugueses escolheram a Beira como o melhor local para entrar em Espanha.Veríssimo Serrão, 1982, p. 227. O rei D. Pedro II e o arquiduque Carlos encontraram-se na Guarda e em Setembro deslocaram-se dali para Almeida, cidade na qual estavam concentradas a maioria das tropas aliadas. Cidade Rodrigo, defendida por Berwick com 8,000 homens, foi atacada a 7 de Outubro mas entretanto tinham começado as chuvas de Outono e como os espanhóis tinham fortificado eficazmente a travessia do rio Águeda, os aliados regressaram.Borges, 2004, p. 54. O pretendente austríaco partiu então para Lisboa, reembarcando ali para a Catalunha.

A permanência de tropas estrangeiras em Portugal causava mau-estar no país. Soares da Silva escreveu que a circulação de estrangeiros na Beira e no Alentejo era causa de "violência sem reparo, sem remédio e sem castigo". Em inícios de 1705 afirmava que:A situação militar em Portugal sofreu uma grande reviravolta em 1705, fruto dos preparativos do marquês das Minas na Beira e do conde das Galveias no Alentejo. Reunidas as tropas em Estremoz e Arronches, os portugueses entraram em Espanha e sitiaram Valência de Alcântara, que se rendeu ao fim de uma semana de assédio, a 8 de Maio. Albuquerque também se rendeu rapidamente a 19 do mesmo mês.Borges, 2003, p. 56. Porém, os planos de atacar Badajoz porém abandonados quando se começou a fazer sentir o calor do verão. Nas Beiras, Salvaterra do Extremo, Zebreira, Castelo Branco e Monsanto foram recuperadas pelas tropas do marquês de Minas, que depois devastaram a região de Zarza la Mayor.

A campanha de Madrid miniaturadaimagem|Filipe V foge de Madrid.

Com o apoio de tropas aliadas, o arquiduque Carlos foi aclamado em Barcelona mas em Novembro de 1705 começara o cerco a esta cidade, o que implicou um enfraquecimento das guarnições na fronteira portuguesa.Borges, 2003, p. 59. Influenciado por estes acontecimentos, o comando aliado em Portugal decidiu avançar com um golpe audacioso em direcção a Madrid.

Reunidos os aliados num único corpo sob o comando do marquês das Minas, cerca de 14,000 portugueses, 2200 ingleses e 2000 holandeses transpuseram a fronteira em Atalaia dos Sapateiros a 24 de Março e avançaram rapidamente para norte em direcção a Alcântara.Borges, 2003, p. 60. A acção resultou em baixas destacadas de entre o corpo de oficiais superiores mas as tropas franco-espanholas, comandadas pelo duque de Berwick, retiraram-se após um cerco que durou de 9 a 14 de Abril e a cidade foi ocupada.Borges, 2003, p. 61.

Acesa discussão entre o comando aliado quanto aos passos a seguir atrasou o avanço das tropas mas, chegadas as boas novas dos sucessos aliados na Catalunha, o marquês das Minas decidiu aproveitar o abandono da fronteira portuguesa pelos espanhóis para avançar sobre Madrid.