A batalha naval da Ericeira, em 1621, foi um encontro armado entre a nau portuguesa Nossa Senhora da Conceição e uma frota de piratas argelinos. Foi um dos casos mais mediáticos da época por ter envolvido um dos mais destacados e experientes capitães de Portugal.Godinho, Rui: "Armada da Costa" in Navegações Portuguesas, em http://cvc.instituto-camoes.pt/

Contexto

Desde a Idade Média que as costas portuguesas eram atacadas por piratas muçulmanos, sobretudo de Marrocos e Argel. Quando Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, todos os anos passaram a ir e regressar do Oriente grandes naus portuguesas com cargas valiosas mas embora fossem muito cobiçadas por piratas e corsários de todas as nacionalidades, poucas haviam sido perdidas por serem muito grandes, difíceis de tomar e bem escoltadas. Os piratas berberescos em particular dispunham apenas de galés e pequenos navios a remo, pelo que atacavam apenas a navegação costeira e as aldeias piscatórias.miniaturadaimagem|A cidade de Argel.Em 1606 fixou-se em Argel o pirata holandês Simon Danser, que ensinou os argelinos a construir navios oceânicos e a partir de então os piratas barbarescos passaram a dispor de naus e patachos, com mais autonomia e capazes de navegar em alto-mar.Monteiro, volume V, 1994, p. 311. Em 1616 atacaram a Ilha de Santa Maria nos Açores e no ano seguinte a de Porto Santo, não só contribuindo para a falta de segurança e o pânico das populações costeiras em Portugal como causando grandes estragos e prejuízos em Espanha e por todo o Mediterrâneo. A armada barbaresca era estimada neste ano em quarenta embarcações de 200 a 400 toneladas, sendo a almiranta de 500 toneladas, divididos em duas esquadras, uma que operava no Mediterrâneo e outra que operava no Atlântico, a ocidente do Estreito de Gibraltar.

Portugal instituíra três armadas de guarda-costas: a Armada do Estreito, que operava no Algarve, a Armada das Ilhas, que operava nos Açores e a Armada da Costa, que operava na costa ocidental portuguesa. Para fazer frente à crescente ameaça pirata, as naus que todos os anos regressavam da Índia com escala nos Açores foram instruídas a atingir o continente a 39º de latitude, a norte da zona onde habitualmente andavam os piratas e sensivelmente onde se situa a Ericeira. Ali encontrariam a Armada da Costa, que as escoltaria até Lisboa.

A viagem da nau Conceição Em 1621 largaram de Goa com destino a Portugal as naus Paraíso, Penha de França, Nossa Senhora da Conceição e o galeão São João Baptista. Ao dobrarem o Cabo da Boa Esperança encontraram fortes temporais que separaram os navios e após um mês a pairar em alto-mar, o capitão da Conceição, Jerónimo Correia, decidiu seguir viagem sozinho. Ao escalar na Ilha de Santa Helena, Jerónimo Correia faleceu e foi substituído por D. Luís de Sousa.Monteiro, volume V, 1994, p. 312. miniaturadaimagem|Modelo de uma nau portuguesa. A viagem da Conceição decorreu sem incidentes até aos Açores mas ao largo do Faial sofreu uma tempestade violenta que a pôs em risco de naufragar mas quando o tempo melhorou dirigiu-se para a Terceira. Ali encontraram duas caravelas chegadas havia pouco tempo de Lisboa com o aviso de que na costa portuguesa esperava-se um ataque de uma grande armada de piratas, então em preparação em Argel. Por isso devia D. Luís de Sousa atingir a costa portuguesa a 39º 30' N, a norte das Berlengas, e encontrar-se ali com a armada de guarda-costa do experiente D. António de Ataíde. Embora fosse uma nau nova, a Conceição tinha apenas 22 canhões, 14 artilheiros e 6 soldados. Os marinheiros contabilizavam 90 e entre os passageiros havia apenas 8 homens capazes de pegar em armas. Em vista disto, D. Luís de Sousa pediu ajuda ao governador da Terceira e este procurou satisfazer-lhe o pedido, mas os soldados que lhe enviou contavam com muitos jovens e veteranos já idosos. Mesmo assim a capacidade de defesa melhorou bastante.

A Conceição rumou ao continente e chegou sete dias depois após uma viagem próspera, tendo as Berlengas sido avistadas ao entardecer de 8 de Outubro, após quase oito meses de viagem e a um dia do destino.

A batalha miniaturadaimagem|Almirante argelino. Segundo as ordens que recebera na Terceira, deveria D. Luís devia ter passado a norte das Berlengas mas como o vento devia estar a soprar bastante, nada pôde fazer a não ser passar a sul delas e seguir viagem para Lisboa na esperança de alcançar Cascais antes que aparecessem os piratas.

Durante toda a noite os passageiros prepararam a carga para ser desembarcada, passando-a para o convés superior. Pouco após a meia-noite, porém, começaram os tripulantes da Conceição a detectar vultos em alto-mar e ouvir vozes em torno da nau. Alguns ainda supuseram que se tratasse da armada de D. António de Ataíde ou de navios mercantes de Setúbal carregados de sal mas quando clareou a manhã e se puderam avistar as bandeiras dos navios perceberam que se tratavam dos piratas argelinos.

Animados pela proximidade a terra, os portugueses prepararam-se para o combate, passaram as malas, caixas, cestos e fardos de novo para o porão a fim de desocupar o convés principal, distribuíram armas e os homens ocuparam postos de combate.

A frota argelina era constituída por dezassete naus e patachos, variando o armamento das primeiras entre as 34 e 40 canhões.Monteiro, volume V, 1994, p. 313. Integravam-na 5000 homens, pois um dos seus objectivos era desembarcar na Galiza. O almirante argelino era Tábaco-Arrais e tinha partido de Argel havia duas semanas. Desde então capturara 19 navios ingleses ao largo do Cabo Espichel. A captura de uma nau da Índia ricamente carregada com pimenta e cargas raras do Oriente porém, era o maior prémio que um pirata podia cobiçar.

Na manhã de 9 de Outubro o vento devia estar a soprar pouco de sudoeste pois a Conceição teve de virar para terra, deslocando-se lentamente. Mais ligeiros, os navios argelinos aproximaram formados em coluna e a capitânia, que seguia na dianteira, disparou um tiro de pólvora seca intimando os portugueses a renderem-se. Estes responderam a tiro de bala e o combate começou.

Inicia-se o combate, 9 de Outubro miniaturadaimagem|Capitão argelino. À medida que os navios argelinos ultrapassavam a Conceição disparavam toda a sua artilharia e desta forma foram os seus passageiros sujeitos a um bombardeamento que durou onze horas. A nau ficou muito danificada e cheia de mortos, incluindo o condestável da artilharia. D. Luís foi gravemente ferido numa perna e obrigado a deitar-se num caixote de onde, com grande força de ânimo, continuou a dirigir a defesa.

Os argelinos, porém, também sofreram duramente com o tiroteio. Dispondo de maiores canhões e sofisticadas balas de canhão enramadas, de grilha e de picão, os artilheiros portugueses provocaram graves estragos no casco e aparelho dos navios inimigos e mataram muitos piratas. Um dos que mais sofreu foi o navio de Assam-Arrais que, vendo que estava a meter muita água e prestes a afundar-se, aferrou a Conceição pelo castelo da proa e lançou-se à abordagem com os seus homens.

Travou-se então um violento combate a tiro de mosquete entre os argelinos, que dominaram o castelo de proa, e os poucos portugueses no convés principal e no castelo de popa. Como os argelinos eram muitos num local apertado, sofreram perdas pesadas. Um argelino tentou cortar os cabos das velas da proa para tentar abrandar a nau mas por engano libertou a ostaga da vela da gávea, que caiu com fragor e matou muitos argelinos.Monteiro, volume V, 1994, p. 315. Aproveitando-se da confusão, os portugueses lançaram-se ao assalto e, apesar de terem sido repelidos duas vezes, à terceira expulsaram ou mataram todos os argelinos do castelo de proa já ao cair da noite, à excepção de um, que foi capturado. Assam Arrais contava-se entre os poucos que conseguiu salvar-se a nado e esta acção pôs termo ao combate naquele dia.

Com a maior parte dos seus navios danificados, os argelinos afastaram-se para oeste sob o manto da escuridão, ao passo que a Conceição, com o aparelho desfeito e as velas rotas, continuou a navegar lentamente em direcção à costa. Os portugueses sofreram 30 mortos ou feridos graves e dos artilheiros apenas um escapou ao combate ileso. Durante toda a noite os marinheiros trabalharam sem descanso para reparar os cabos ou substituir as velas.

Tentativa de ancorar na Ericeira, 10 de Outubro miniaturadaimagem|A Ericeira e o seu Porto de Abrigo. Ao romper do dia a Conceição encontrava-se novamente em estado de velejar e pela proa avistava-se a Ericeira, ao passo que dos argelinos os portugueses não detectaram qualquer sinal. Porém naquela manhã havia pouco vento ou nenhum. D. Luís de Sousa, apesar de gravemente ferido, continuava a exercer o comando e decidiu ancorar na Ericeira. Daquela vila chegou então uma embarcação com ordens para que a Conceição se afastasse para o largo, onde encontraria a armada de António de Ataíde e de maneira nenhuma ancorasse ali pois naquela época do ano o ancoradouro não dava abrigo. D. Luís pediu que ao menos levassem para terra as mulheres, crianças e pedras preciosas mas recusaram-se os homens da embarcação, por terem ordens categóricas para não atracarem à nau (provavelmente para evitar fugas aos direitos alfandegários).

Conformando-se com as ordens, D. Luís mandou virar para noroeste, à espera que o vento soprasse de norte.

Renovação do combate, 11 de Outubro miniaturadaimagem|Patacho argelino, inspirado em linhas holandesas. Continuando o vento a soprar fracamente pela manhã de 11 de Outubro, surgiram novamente os argelinos pela alheta de bombordo, ou seja atrás à esquerda, formados em coluna com a capitânia na dianteira. Recusando-se os seus defensores a renderem-se, novamente começou o tiroteio mas apesar dos seus canhões estarem a ser manobrados por marinheiros e soldados inexperientes no seu uso, os portugueses causaram tantos estragos na capitânia argelina que os navios que lhe seguiam começaram a afastaram-se para fora do alcance de tiro.Monteiro, volume V, 1994, p. 316.

Ao segundo dia de combate, recrudescendo o ataque dos argelinos, o capitão D. Luís de Sousa mandou trazer um prisioneiro turco que tinha a bordo e mandou um polaco que tinha estado muitos anos prisioneiro dos turcos executá-lo, para que ele pagasse "o mal que os seus queriam outra vez fazer".

Recompostos os argelinos em formatura, o experiente Tábaco Arrais tentou uma abordagem diferente: ultrapassou a Conceição com a sua frota e após tomar-lhe certo avanço, virou de bordo e avançou em direcção à nau portuguesa em sentido contrário a curtíssima distância. Assim puderam os argelinos disparar a sua artilharia e mosquetaria à medida que passavam pela Conceição com mais segurança, enquanto os portugueses deixavam vários navios passar à medida que recarregavam as suas armas.

O último navio da formatura argelina passou mesmo a rasar a Conceição e lançou-lhe dentro vários artifícios de fogo, que atearam vários incêndios na nau. Acorreram imediatamente os marinheiros com baldes de água mas não conseguiram extinguir um incêndio que deflagrou com grande intensidade à popa, empurrado pelo vento. A nau argelina também se emaranhou na Conceição e alguns argelinos saltaram à abordagem. D. Luís deu ordem para arribar para melhor se desembaraçar dos argelinos mas rapidamente as chamas propagaram-se pela nau e em poucos minutos a nau ficou envolta em chamas. Os argelinos regressaram ao seu navio e os últimos portugueses seguiram-nos para se entregarem. Os argelinos conseguiram libertar-se da nau mas a Conceição ardeu totalmente e afundou-se com todas as riquezas que transportava. miniaturadaimagem|Resgate de prisioneiros em Argel pelos monges Trinitários.