Em agosto de 1966, os Beatles realizaram sua terceira e última turnê pela América do Norte. A turnê consistiu em 19 apresentações, 17 nos Estados Unidos e duas no Canadá. A turnê foi marcada por reações negativas devido à polêmica declaração de John Lennon de que os Beatles eram "mais populares que Jesus", ameaças de morte e a própria insatisfação da banda com os níveis de ruído e sua capacidade de se apresentar ao vivo. O posicionamento dos Beatles contra a Guerra do Vietnã adicionou ainda mais controvérsia à visita.

A banda se apresentou para grandes plateias em estádios a céu aberto durante toda a turnê, mas a venda de ingressos foi prejudicada pela controvérsia em torno de "Jesus". A imprensa americana noticiou uma resposta menos entusiasmada dos fãs do grupo e especulou sobre o fim da Beatlemania. Tendo já decidido se aposentar dos palcos no final do ano, a turnê americana de 1966 foi a última série de shows comerciais realizada pelos Beatles. Depois disso, eles continuaram como uma banda focada exclusivamente em estúdio, concentrando-se apenas na produção de discos.

Antecedentes Brian Epstein, o empresário dos Beatles, anunciou a intenção da banda de fazer uma turnê pelos Estados Unidos no início de março de 1966, enquanto estava em Nova York. Realizada em agosto, foi a terceira turnê anual de verão da banda pelos EUA. Os shows formaram a segunda etapa de uma turnê mundial, após concertos em junho e julho na Alemanha Ocidental, Japão e Filipinas.

Quando estavam em Tóquio, os Beatles receberam ameaças de morte e, além de seus compromissos profissionais, ficaram confinados à suíte do hotel. Em Manila, foram agredidos por cidadãos e militares por uma suposta ofensa à primeira-dama filipina, Imelda Marcos. Acreditando que suas turnês haviam se tornado grandes e complexas demais para Epstein administrar, a banda decidiu abandonar as turnês após os próximos shows nos EUA. Quando perguntado sobre o que o grupo planejava fazer após o ocorrido em Manila, George Harrison disse: "Vamos ter algumas semanas para nos recuperar antes de irmos apanhar dos americanos."

Escalada da controvérsia sobre "Jesus" Os planos para a turnê foram comprometidos no final de julho pela reação aos comentários de John Lennon de que os Beatles haviam se tornado "mais populares que Jesus".Fricke, David. "The Holy War". In: . Lennon fez o comentário a Maureen Cleave, do London Evening Standard, em fevereiro, durante sua entrevista para a série "Como Vive um Beatle?" do jornal. Cleave observou o interesse de Lennon pelo cristianismo e pelas religiões, ao que ele respondeu:

Seus comentários não causaram preocupação no Reino Unido nem nos EUA, inicialmente. Em 29 de julho, no entanto, a revista americana para adolescentes Datebook reproduziu o artigo de Cleave, com a observação "Não sei o que vai acabar primeiro – o rock 'n' roll ou o cristianismo!" em destaque na capa, provocando indignação entre os fundamentalistas cristãos, particularmente no sul dos EUA. Lideradas pela WAQY em Birmingham, Alabama, várias estações de rádio locais organizaram fogueiras onde os ouvintes foram convidados a queimar seus discos e produtos dos Beatles, e os programadores iniciaram uma proibição da música da banda.

Na tentativa de acalmar o furor, Epstein voou para Nova York e deu uma coletiva de imprensa em 5 de agosto. A controvérsia seguiu-se àquela em torno da capa com a imagem do açougueiro, originalmente usada em junho para o LP norte-americano dos Beatles, Yesterday and Today. Logo retirada pela Capitol Records, a capa foi considerada como uma manifestação da oposição da banda à Guerra do Vietnã. A publicação do comentário de Paul McCartney, de uma entrevista de rádio em 1º de agosto, de que os americanos eram obcecados por dinheiro, intensificou o clima de inquietação em torno dos Beatles. Em sua coletiva de imprensa, Epstein disse que estava preparado para cancelar shows se algum promotor americano quisesse desistir, mas que todos os envolvidos estavam ansiosos para que a turnê acontecesse. De acordo com o road manager dos Beatles, Neil Aspinall, nenhum dos promotores optou por cancelar seus eventos.

O início de agosto também foi marcado por tumultos raciais em Atlanta, Chicago, Minneapolis, Omaha e Filadélfia, e por notícias de uma onda de assassinatos no Texas cometida por Charles Whitman, um ex-fuzileiro naval americano. Derek Taylor, ex-assessor de imprensa da banda e publicitário musical na Califórnia, escreveu em sua coluna para a Disc and Music Echo que "a América não está muito tranquila no momento e não acho que seja hora dos Beatles estarem aqui". Reportando em Londres para o The Village Voice, Richard Goldstein afirmou que Revolver, o novo álbum dos Beatles, era onipresente na cidade, como se os londrinos estivessem se unindo em torno da banda em resposta à má imprensa vinda dos EUA. Ele disse que havia uma "ansiedade genuína" entre os fãs pela segurança do grupo e citou um nova-iorquino dizendo: "Se alguma coisa acontecer com eles, cara, é a Terceira Guerra Mundial".

Repertório e equipe de turnê Os shows nos EUA foram no formato de turnê conjunta típico dos anos 1960. Os artistas de apoio ao longo da turnê foram The Ronettes, The Cyrkle, Bobby Hebb e The Remains. Eden, Dawn. "Thanks, Goodnight". In: . Este último também serviu como grupo de apoio para as Ronettes e Hebb.

O show dos Beatles durou cerca de 30 minutos e foi quase idêntico ao apresentado em seus concertos de junho-julho. A única diferença foi que "Long Tall Sally" substituiu "I'm Down" como número de encerramento. Nenhuma das faixas de Revolver foi incluída devido à dificuldade em reproduzir seus sofisticados sons e arranjos de estúdio em um ambiente de concerto. "Paperback Writer" foi, portanto, a única gravação de 1966 representada no show. No entanto, nos cronogramas de lançamento alterados impostos pela Capitol para a América do Norte, "Nowhere Man" e a faixa "If I Needed Someone" de Yesterday and Today também foram lançadas pela primeira vez em 1966, tendo feito parte do LP Rubber Soul de dezembro de 1965 em outros mercados.

Um grupo de imprensa cuidadosamente selecionado acompanhou os Beatles, viajando com os membros da banda e enviando relatórios para suas organizações. Entre eles estavam os DJs britânicos Kenny Everett, Ron O'Quinn e Jerry Leighton; a editora da TeenSet, Judith Sims, representantes da revista Teen Life e dos jornais Hearst, e o editor da Datebook, Art Unger; e um grupo de DJs americanos que incluía Jim Stagg e George Klein.

Incidentes e novas controvérsias

Pedido de desculpas de Lennon Quando a banda chegou a Chicago em 11 de agosto para o início da turnê, Epstein e o assessor de imprensa Tony Barrow organizaram uma coletiva de imprensa no Astor Tower Hotel para abordar a controvérsia e para que Lennon se explicasse. Lennon afirmou que estava apenas comentando sobre o declínio entre os frequentadores de igrejas, que cometeu um erro ao usar o número de seguidores dos Beatles em comparação com o da religião organizada e que "nunca quis dizer isso como algo antirreligioso desprezível". Partes da coletiva de imprensa foram transmitidas por todas as principais redes de televisão dos EUA e pela ITV no Reino Unido.

Em uma reunião privada com Art Unger, Epstein pediu-lhe que entregasse seu crachá de imprensa para a turnê, para evitar acusações de que a Datebook e a equipe dos Beatles haviam orquestrado a controvérsia como uma jogada publicitária. Unger recusou e, segundo seu relato, recebeu o apoio total de Lennon quando discutiu o encontro com ele posteriormente.

O pedido de desculpas apaziguou muitos dos que se sentiram ofendidos pelo artigo do Datebook; a WAQY cancelou a fogueira dos Beatles, planejada para 19 de agosto, e algumas estações suspenderam suas proibições de transmissão. A controvérsia, no entanto, pairou sobre toda a turnê e ofuscou o lançamento nos EUA de Revolver e seu single acompanhante, "Eleanor Rigby" / "Yellow Submarine". Lennon continuou sendo questionado sobre o assunto em coletivas de imprensa subsequentes, o que frequentemente o exasperava visivelmente, assim como seus companheiros de banda.

Controle das multidões O primeiro distúrbio grave da multidão ocorreu no Estádio Municipal de Cleveland, onde os Beatles se apresentaram para quase 30.000 pessoas em 14 de agosto. Quando começaram a tocar "Day Tripper", mais de 2.000 fãs romperam as barreiras de segurança que separavam o público da área onde ficava o palco elevado, fazendo com que os Beatles interrompessem a apresentação e se refugiassem nos bastidores. Trinta minutos se passaram antes que a segurança fosse restabelecida e o show fosse retomado. Comentaristas compararam o episódio aos distúrbios raciais que haviam ocorrido no leste de Cleveland pouco antes, e danos consideráveis ​​foram causados ​​ao estádio.

Após o concerto no Dodger Stadium, em Los Angeles, no dia 28 de agosto, os Beatles ficaram impedidos de sair do local durante cerca de duas horas. Cerca de 100 seguranças privados foram designados para controlar a multidão de 45.000 fãs, dos quais 7.000 romperam a cerca e impediram a saída da banda num carro blindado. Os Beatles permaneceram presos num camarim até que, após duas tentativas frustradas de enganar a multidão com veículos falsos, conseguiram escapar com a ajuda da polícia local. Alguns fãs ficaram feridos e outros foram presos em confrontos com a polícia.

Escala em Memphis esquerda|miniaturadaimagem|Os Beatles, com o disc jockey Jim Stagg (primeira fila, segundo da esquerda), em agosto de 1966. Stagg fazia parte da equipe de imprensa ligada à turnê, reportando para a WCFL Chicago. A única parada da turnê no Cinturão Bíblico foi Memphis, Tennessee, onde dois shows estavam agendados no Mid-South Coliseum para 19 de agosto. O conselho municipal votou pelo cancelamento dos shows da tarde e da noite, em vez de permitir que "instalações municipais fossem usadas como um fórum para ridicularizar a religião de alguém". A Ku Klux Klan pregou um LP dos Beatles em uma cruz de madeira, jurando "vingança", e grupos conservadores realizaram novas queimas públicas de discos dos Beatles. Epstein, no entanto, prosseguiu com os shows, que foram precedidos por novas ameaças ao grupo. Membros da Ku Klux Klan protestaram em frente ao local em 19 de agosto, e cerca de 8.000 moradores participaram de um protesto anti-Beatles em outro local da cidade.

Embora não tenham ocorrido problemas durante o show da tarde, um membro da plateia atirou um rojão aceso no palco, que não atingiu nenhum dos integrantes, mas a banda acreditou que alguém havia tentado atirar neles. Quando o rojão explodiu, Barrow lembrou que "todo mundo, todos nós ao lado do palco, incluindo os três Beatles no palco, olhamos imediatamente para John Lennon. Não teríamos ficado surpresos naquele momento se aquele cara tivesse caído. John havia feito uma piada sem muita convicção sobre o show em Memphis em uma coletiva de imprensa anterior, e quando chegamos lá tudo parecia estar controlado e calmo, mas por baixo de alguma forma, havia uma atmosfera desagradável. Foi um dia muito tenso e sob muita pressão."

Oposição à Guerra do Vietnã Lennon e Harrison haviam alertado Epstein de que não estavam mais dispostos a permanecer em silêncio sobre questões políticas urgentes, como a Guerra do Vietnã. A controvérsia em torno dos comentários de Lennon sobre "Jesus" reforçou sua determinação de se manifestar e consolidou a posição dos Beatles na contracultura emergente. Na época, 90% dos americanos ainda apoiavam o envolvimento de seu país no conflito.