A Casa do Dr. João Carlos Verde de Oliveira é um palacete seiscentista de arquitectura residencial barroca, situado em Leiria, Portugal. Construído na margem esquerda do Rio Lis, define-se sobretudo pela sua torre.
História A edificação deste palacete seiscentista, cuja construção original data do século XVII, sofreu diversas campanhas de obras e alterações ao longo dos séculos XVIII e XIX. Embora a estrutura mantenha o seu prospecto barroco fundamental, elementos decorativos específicos permitem datar intervenções pontuais, nomeadamente no século XVIII. É o caso do trabalho de estuque presente no tecto do salão nobre, onde se encontra uma inscrição que atribui a autoria da obra a Joaquim Puxe, datada de 1781.
Do ponto de vista do enquadramento urbano, o edifício encontra-se adossado e insere-se numa malha consolidada, situando-se nas proximidades de outros marcos arquitectónicos e locais de relevo de Leiria, tais como a Fonte das Três Bicas, o Hotel Liz, a Igreja do Espírito Santo, a Residência do Dr. Oliveira Dias e o antigo edifício do Liceu Rodrigues Lobo. A importância patrimonial do conjunto foi reconhecida no final do século XX, tendo o edifício sido proposto como Valor Concelhio no âmbito do Plano Director Municipal de Leiria, publicado em Diário da República a 4 de Setembro de 1995.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 355
Descrição
Exterior O edificado desenvolve-se numa planta longitudinal simples, composta por três corpos distintos. A volumetria é predominantemente horizontal, interrompida apenas pela verticalidade acentuada do corpo central que assume a feição de uma torre.
As coberturas são diferenciadas, apresentando telhados de duas, três e quatro águas, além de um terraço, sendo o sistema de drenagem assegurado por caleiras e tubos de queda em zinco. Os materiais construtivos predominantes incluem a alvenaria de pedra calcária e mármore, madeiras pintadas, ferro forjado, e elementos cerâmicos como a telha e o azulejo tradicional.
A fachada principal, orientada a Norte, exibe um embasamento em silhares de pedra e organiza-se em dois pisos, à excepção da torre que se eleva a três alturas. Na secção à direita da torre, o primeiro piso, cujas paredes ostentam reboco pintado a verde, albergou outrora lagares e cavalariças. Estes espaços funcionais deram lugar, na contemporaneidade, a estabelecimentos comerciais, mantendo-se apenas um portão de comunicação com o pátio interior. O piso superior desta ala caracteriza-se por uma fenestração rítmica de oito janelas de sacada, dotadas de guardas em ferro forjado e molduras em cantaria lisa rematadas por cornija.
A ala situada à esquerda da torre encontra-se num plano mais elevado, acompanhando o nível do arruamento, sendo o acesso efectuado por uma escada simples. O primeiro andar desta secção apresenta reboco bege e integra uma porta de madeira com moldura lítica, ladeada por um pequeno óculo e uma janela de vidro simples. O segundo piso, de cor branca, repete o modelo das janelas da ala oposta. Ao nível da rua, o acesso ao corpo principal faz-se através de um portão de madeira com bandeira cega, emoldurado por cantaria trabalhada com silhares almofadados e lintel em arco de asa de cesto. O remate desta fachada é constituído por uma balaustrada que delimita o terraço sobre o átrio de entrada.
O elemento central, a torre, organiza-se em três registos. O primeiro possui um janelo rectangular gradeado, delimitado por molduras verticais que se estendem até ao friso separador dos pisos. O segundo piso exibe uma janela de sacada ladeada por pilastras, enquanto o terceiro piso se destaca pela maior erudição decorativa: uma janela de sacada com guarda em pedra esculpida, arco em asa de cesto e remate com volutas. A estrutura é coroada por uma balaustrada encimada por duas urnas.
Interior O acesso ao interior faz-se por um átrio com escadaria que conduz ao piso nobre. A organização espacial inclui diversas salas com funções e decorações distintas. Destaca-se uma pequena sala, actualmente utilizada como escritório, que se crê ter sido uma capela de invocação a Santa Ana, apresentando tecto abobadado com vestígios de pintura e paredes revestidas a azulejos. Contígua a esta, existe uma sala com paredes em estuque rosa e azul e silhares de azulejos com motivos florais.
O espaço de maior relevo é o Salão Nobre. As suas paredes são percorridas até meia altura por silhares de "azulejos policromos a cor de vinho, amarelo e dois tons de azul com marmoreados e figuras de anjos"SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Leiria, Lisboa, 1945, complementados por reboco amarelo e vãos de porta em mármore. O tecto, em estuque parcialmente colorido, exibe um programa iconográfico complexo: um painel central com medalhões representando o Sol (dourado) e a Lua, e quatro medalhões periféricos alusivos às quatro estações do ano, ladeados por anjos e identificados por inscrições em latim.
Numa outra sala à direita, observam-se azulejos semelhantes, mas "com ovais nos painéis, onde se figuram bustos sobre pedestais".
A zona de serviço, acessível por corredores com janelas de guilhotina voltadas para o jardim interior, inclui uma cozinha com pavimento em lajes de pedra e lareira em cantaria, bem como uma copa. A ala Oeste, de carácter utilitário, funciona como armazém e carece de elementos decorativos.
No terceiro piso do corpo principal, acessível por escadaria de madeira, encontra-se uma capela privativa de grande interesse artístico. As paredes são forradas a painéis de azulejos do Juncal, pintados em azul cobalto sobre fundo branco, com composições que incluem motivos profanos. A cobertura desta capela é "formad[a] por cintas de pedraria, as quais partem de uma sanca, firmadas ao alto por um rosetão central".
O conjunto completa-se com um pátio interior, onde a vegetação densa oculta parcialmente as construções anexas, algumas das quais, antigamente celeiros, se encontram em estado de ruína adossadas à ala da cozinha.
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