Emygdio Apollinário dos Passos Moraes (São João del-Rei, 24 de julho de 1876 — Belo Horizonte, 23 de fevereiro de 1958), mais conhecido como Emídio do Bengo, foi um benzedor, curandeiro, raizeiro e líder comunitário brasileiro. Destacou-se na região do Campo das Vertentes por sua atuação na medicina popular, pelo conhecimento de plantas medicinais e pela construção da Capela de Santo Antônio do Bengo, inaugurada em 1905 na comunidade rural do Bengo, em São João del-Rei.

Reconhecido como uma das figuras mais representativas da medicina popular nas Vertentes durante a primeira metade do século XX, Emídio do Bengo tornou-se conhecido pelo atendimento prestado a moradores de diversas localidades da região, conciliando práticas tradicionais de cura com intensa atuação religiosa e comunitária. Sua memória permanece associada à Capela de Santo Antônio do Bengo e às manifestações do catolicismo popular rural de São João del-Rei.

Biografia

Primeiros anos e família

Emygdio Apollinário dos Passos Moraes nasceu em 24 de julho de 1876, em São João del-Rei, filho de Severiano José Tibúrcio e Maria das Dores de Jesus. Cresceu na Colônia do Bengo, comunidade rural situada nas proximidades da estrada entre São João del-Rei e São Tiago, da qual derivou o apelido pelo qual se tornou conhecido.

Em 27 de abril de 1901 casou-se, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, com Maria Luiza Calsavara, imigrante italiana oriunda da região de Trento. O casal teve três filhos: Antônio Trindade, João Anastácio e Ana Bárbara.

Após o falecimento da esposa, passou a residir em Belo Horizonte com a filha Ana Bárbara. Morreu naquela cidade em 23 de fevereiro de 1958, aos 81 anos, sendo sepultado no Cemitério de Nossa Senhora das Mercês, em São João del-Rei.

Religiosidade e formação

Católico praticante, Emídio participou ativamente da vida religiosa de São João del-Rei, exercendo durante vários anos a função de provedor das cerimônias da Semana Santa e colaborando com as atividades da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

Segundo o livreto comemorativo do centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo, um de seus principais incentivadores foi o padre Gustavo Ernesto Coelho, posteriormente monsenhor, que lhe apresentou obras sobre plantas medicinais e medicina popular. A partir dessas leituras, Emídio aprofundou seus conhecimentos por meio do estudo da flora regional e da experiência adquirida no atendimento à população.

Sua religiosidade esteve intimamente ligada ao trabalho desenvolvido na Colônia do Bengo. Antes da construção da capela, promoveu a instalação de um cruzeiro onde diariamente reunia moradores para a oração do terço. Essa prática contribuiu para fortalecer a devoção local e antecedeu a criação do principal espaço religioso da comunidade.

Medicina popular

A partir das primeiras décadas do século XX, Emídio tornou-se uma das figuras mais conhecidas da medicina popular na região do Campo das Vertentes. Atuando como benzedor, curandeiro e profundo conhecedor de plantas medicinais, recebia moradores de São João del-Rei e de municípios vizinhos em busca de orientação, benzeduras e preparados medicinais.

Segundo o livreto Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo, Emídio desenvolveu seus conhecimentos mediante o estudo de obras especializadas, da observação da flora regional e da experiência acumulada ao longo de décadas de atendimento à população. Sua prática reunia elementos da fitoterapia, da medicina popular e da homeopatia, amplamente empregadas no interior mineiro naquele período.

Além dos atendimentos realizados na Colônia do Bengo, manteve um laboratório na Rua Paulo Freitas, em São João del-Rei, onde eram preparados medicamentos manipulados sob a responsabilidade técnica do farmacêutico diplomado Cândido Dutra. Entre os produtos mencionados pela documentação figuravam o Parietareno, o Nevroston e o Linimento de Moraes, também denominado Bálsamo de Santo Antônio, preparados conforme as necessidades de cada consulente.

Sua atuação despertou tanto reconhecimento popular quanto críticas por parte de representantes da medicina acadêmica e de setores da imprensa local, refletindo as tensões existentes entre os saberes tradicionais e a medicina científica durante a primeira metade do século XX.

O livreto comemorativo da Capela de Santo Antônio do Bengo reúne entre os documentos reproduzidos receituários, rótulos comerciais, anúncios e fórmulas manuscritas de medicamentos preparados por Emídio, preservados por seus descendentes. O conjunto constitui um raro testemunho documental da medicina popular praticada nas Vertentes durante a primeira metade do século XX.

Atuação comunitária

Além da medicina popular, Emídio exerceu papel de destaque na organização da vida religiosa e comunitária da Colônia do Bengo. Reconhecido como liderança local, mobilizou moradores em diversas iniciativas voltadas à prática religiosa, à convivência comunitária e à preservação das tradições católicas rurais.

Antes da construção da capela, mandou erguer um cruzeiro nas proximidades de sua residência, onde diariamente reunia familiares e moradores para a oração do terço. Segundo o Inventário de Proteção do Acervo Cultural de São João del-Rei, esse costume consolidou um espaço permanente de devoção coletiva e fortaleceu a identidade religiosa da comunidade.

Emídio organizava anualmente as festividades de Santo Antônio, Sant'Ana e São João Batista, reunindo moradores da Colônia do Bengo e de localidades vizinhas. As celebrações compreendiam procissões, missas, levantamento de mastros, apresentações musicais e confraternizações comunitárias, tornando-se uma das principais manifestações religiosas da zona rural de São João del-Rei.

Também incentivou atividades musicais na comunidade, organizando uma pequena banda composta por parentes e moradores locais. Para as cerimônias religiosas da capela, encomendou ao artesão Antônio Delfino Marciliano a construção de um harmônio de fole, posteriormente utilizado durante décadas nas celebrações litúrgicas.

Sua atuação comunitária contribuiu para consolidar a Colônia do Bengo como um importante núcleo de religiosidade popular nas Vertentes, cuja identidade permaneceu profundamente vinculada à memória de seu fundador.

Capela de Santo Antônio do Bengo

A construção da Capela de Santo Antônio do Bengo constituiu a principal realização de Emídio do Bengo. Devoto de Santo Antônio, iniciou sua edificação em 1905, mobilizando familiares, vizinhos e moradores da Colônia do Bengo, que participaram voluntariamente dos trabalhos em regime de mutirão.

Erguida originalmente em pedra e barro, a capela foi concebida como centro permanente da vida religiosa da comunidade. O Inventário de Proteção do Acervo Cultural registra que o projeto previa duas torres sineiras, embora apenas uma tenha sido concluída.

Ao longo do século XX, o edifício passou por sucessivas campanhas de conservação promovidas pela própria comunidade, destacando-se a ampla reforma realizada entre 1964 e 1972 e a reconstrução parcial após o incêndio de 1990, que destruiu o altar-mor.

Reconhecida como bem integrante do Inventário de Proteção do Acervo Cultural de São João del-Rei, a capela permanece como o principal marco material da atuação religiosa e comunitária de Emídio e como referência das tradições do catolicismo popular no Campo das Vertentes.

Legado

A memória de Emídio permanece preservada sobretudo na tradição oral do Campo das Vertentes, onde seu nome continua associado à medicina popular, à religiosidade rural e à fundação da Capela de Santo Antônio do Bengo. Sua atuação é frequentemente lembrada em estudos sobre a história local e em publicações dedicadas ao patrimônio cultural e às manifestações do catolicismo popular mineiro.

O Inventário de Proteção do Acervo Cultural de São João del-Rei considera a Capela de Santo Antônio do Bengo um bem de relevante valor histórico, artístico e religioso, destacando-a como testemunho material da atuação de seu fundador e da participação da comunidade em sua preservação ao longo de mais de um século.

Em 2005, por ocasião do centenário da capela, foi publicado o livro Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo: a fé de seu fundador, a fé de sua comunidade, reunindo documentos, fotografias, registros familiares, fórmulas de medicamentos, depoimentos e outros materiais relacionados à trajetória de Emídio e à história da comunidade do Bengo.

Ver também São João del-Rei Catolicismo popular Benzedor Capela de Santo Antônio do Bengo

Bibliografia

Ligações externas Retrato das Vertentes 1090: Seu Emídio do Bengo

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