miniaturadaimagem|387x387px|Portal de entrada Vale do Amanhecer Vale do Amanhecer é um novo movimento religioso de caráter místico-esotérico, inserido no âmbito mais amplo do movimento New age e classificado por alguns pesquisadores como religião OVNI, fundado na década de 1960 no Brasil. Com cerca de 600 templos no Brasil e no mundo, está centrado em um templo-mãe localizado em uma cidade homônima em Planaltina, Distrito Federal, Brasil.

História

Fundação e trajetória de Tia Neiva O Vale do Amanhecer surgiu no Distrito Federal, a partir das práticas religiosas de Neiva Chaves Zelaya, conhecida como Tia Neiva. Ela era sergipana e veio integrar um grupo de candangos na construção de Brasília. Levava uma vida comum até então, chegando a ser a primeira mulher caminhoneira profissional do Brasil.

Tia Neiva nasceu em Propriá-SE em outubro de 1925, primogênita de quatro filhos, em uma família católica. A família Chaves se mudou para Goiás e passou a morar na cidade de Jaguará-GO, nas proximidades de Ceres-GO. Em 1943, aos 18 anos, casou-se com Raul Alonso Zelaya, com quem teve quatro filhos: Gilberto, Carmem, Lúcia, Raul Oscar e Vera Lúcia.

Com a morte do marido, em 1949, Tia Neiva iniciou uma série de atividades laborais: abriu a Foto Neiva, um estabelecimento de materiais fotográficos, mas problemas respiratórios decorrentes dos produtos químicos do laboratório a obrigaram a fechar o negócio. Posteriormente, lavrou terras em área rural de Ceres, atividade que também não pôde manter por razões de saúde. Com a venda dessas terras, adquiriu um caminhão e obteve sua habilitação, sendo referida em diversas fontes como a primeira mulher a ser registrada como caminhoneira profissional no Brasil, afirmação que consta na bibliografia interna do Vale do Amanhecer, embora não seja comprovada em fontes externas independentes.

Aos 32 anos, Neiva alegou ter visões diversas e, a partir daí, empreendeu uma peregrinação pelo catolicismo, centros kardecistas e pela umbanda, sem encontrar respostas para seus questionamentos espirituais. Aos 33 anos, teve o primeiro contato com uma entidade que se autointitulava "Pai Seta Branca" – fato utilizado discursivamente pelos adeptos em decorrência da ideia de que 33 foi a "idade de Cristo".

Em 1957, Bernardo Sayão, um dos pioneiros da construção de Brasília e amigo do falecido marido de Tia Neiva, a convidou para trabalhar na construção da nova capital. A partir de então, ela começou a trabalhar em Brasília e no entorno, na Companhia Urbanizados da Nova Capital (NOVACAP), no transporte dos trabalhadores chamados "candangos".

Juntamente com Maria de Oliveira, "Mãe Neném", Tia Neiva fundou a União Espiritualista Seta Branca (UESB) em 1959, no Núcleo Bandeirante, DF. As práticas realizadas no templo eram de auxílio espiritual e medicinal, atendendo às muitas pessoas com problemas físicos e mentais oriundos do ambiente inóspito do canteiro de obras da nova capital.

No período em que esteve ligada à UESB (1959–1964), Neiva afirma ter sido treinada por um monge "encarnado" de nome Humahã, que residiria no mosteiro de Lhasa, no Tibet. Segundo os adeptos, durante cinco anos Neiva teria se transportado espiritualmente todos os dias para receber tal treinamento, ao final do qual teria recebido o nome de "Koatay 108".

Com o fim da UESB, Tia Neiva criou em abri de 1964, em Taguatinga-DF, as Obras Sociais da Ordem Espiritualista Cristã (OSOEC), que posteriormente foram transferidas para Planaltina-DF e se tornaram o Vale do Amanhecer. Tempos depois, agregou-se ao grupo uma figura que seria decisiva para a constituição do Vale: Mário Sassi, terceiro e último companheiro de Tia Neiva, que se tornaria o principal sistematizador da doutrina.

Houve problemas judiciais que acarretaram na perda do terreno no qual o grupo estava alojado, sendo necessária nova mudança. O grupo se instalou nos arredores de Planaltina, cidade-satélite de Brasília, onde finalmente a comunidade se consolidou. Foi nesse local que a doutrina ganhou entre os adeptos o nome de Vale do Amanhecer, em referência à aura avistada daquele local.

Tia Neiva falecer em 2008, aparentemente em decorrência de tuberculose. Para os adeptos, tal doença tinha explicação espiritual, decorrente de uma "dívida cármica". Antes de sua morte, Neiva havia deixado preparada a sua sucessão, cabendo a quatro "trinos" o comando do Vale: Mário Sassi (Trino Tumuchy), Gilberto Chaves Zelaya (Trino Ajarã), Nestor Sabatovicz (Trino Arakém) e Michel Hanna (Trino Sumanã). Disputas internas pelo poder, contudo, resultaram no isolamento e posterior abandono do Vale por parte de Mário Sassi, e desde então ninguém mais foi designado para a função de profeta encarnado pelo Pai Seta Branca

Expansão e disseminação No ano da morte de Neiva havia apenas quatro templos fora de Brasília. Hoje existem mais de 600 templos, sete dos quais em outros países. Em cerca de 40 anos, o movimento ergueu mais de 600 templos no Brasil e no mundo. Segundo pesquisadores do movimento, os templos filiais possuem autonomia administrativa, mas não doutrinária

Território e ocupação urbana O Vale do Amanhecer é também o nome dado à ocupação urbana surgida a partir da doutrina no mesmo local. O terreno corresponde à antiga Fazenda Mestre D'Armas, que fora desapropriada em função da delimitação do quadrilátero do Distrito Federal. Tia Neiva adquiriu o direito de uso dessas terras, fazendo doações de lotes aos que necessitavam de moradia, embora haja relatos de moradores que informam ter comprado os lotes por meio de contratos informais.

De acordo com o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) realizado pelo IPHAN entre 2007 e 2009, a Cidade do Amanhecer - incluindo médiuns residentes e moradores sem filiação com a doutrina - contava com cerca de 22 mil habitantes, estimando-se para 2010 uma população superior a 25 mil habitantes.

A Cidade do Amanhecer fica a aproximadamente 50km de Brasília, com acesso pela DF-130. Aproximadamente quatro mil pessoas circulam pelo local em dias de trabalhos espirituais oficiais, que ocorrem três vezes por semana.

Estrutura física O ponto central da comunidade é o Templo do Vale do Amanhecer, construído em pedra, em forma de elipse, com área coberta de cerca de 2400 metros quadrados. No interior, tem-se a impressão de estar dentro de um labirinto colorido com vários espaços distintos, cada um com função ligada aos trabalhos espirituais realizados diariamente. Nos fundos do templo, encontra-se uma enorme estátua de Pai Seta Branca

O INRC do IPHAN (2010) identificou dois lugares focais como particularmente significativos para a dinâmica ritualística do Vale: a Área do Templo, que abrange o Templo-Mãe, o Turigano, a Estrela de Nerhu, a Casa Grande (atual Memorial Tia Neiva), a Cabana do Pequeno Pajé e blocos comerciais; e o Solar dos Médiuns, que compreende a Estrela Candente, a Cachoeira do Jaguar, a Cabala dos Delfos, o Oráculo de Koatay 108, os Quadrantes e a Pirâmide.

A Estrela Candente é uma construção em formato de Estrela de Davi com 79 metros de raio, composta por cascata artificial, escadarias de pedra e cabanas de palha. O Lago de Iemanjá possui uma grande imagem de Iemanjá rodeada por sete imagens de entidades espirituais denominadas Princesas Doutrinárias, uma pirâmide egípcia em sua margem e uma ponte em formato de flecha no centro.

Vale do Amanhecer possui ainda uma escola primária com mais de 200 alunos, sob controle do governo, restaurantes, uma oficina mecânica e uma livraria especializada em obras religiosas e espiritualistas. [ <span title="This claim needs references to reliable sources. (July 2025)">citação necessária</span> ]

Patrimônio cultural imaterial Em reconhecimento à importância do Vale do Amanhecer para o patrimônio e a identidade cultural de Brasília, a Superintendência do IPHAN no Distrito Federal promoveu, a partir de agosto de 2007, o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) do Vale do Amanhecer. A pesquisa etnográfica de campo, realizada em duas etapas entre fins de 2007 e março de 2009, identificou 62 referências culturais, 28 pessoas para contato, 103 indicações bibliográficas e 79 registros audiovisuais, resultando na publicação de um inventário em 2010.

O INRC fundamentou-se nos artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988 e no Decreto-Lei 3551/2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional de Patrimônio Imaterial. O documento considera o Vale do Amanhecer a concretização mais evidente e complexa da vocação da capital federal como cidade mística, reconhecendo-o como lugar sagrado imantado pela dimensão da sacralidade desde a escolha do sítio, em 1969.

Doutrina e cosmologia O Vale do Amanhecer pratica uma religião sincrética que incorpora vários elementos do Cristianismo, Espiritismo, Umbanda, crenças religiosas em OVNIs e crenças esotéricas e New Age, com referências às culturas inca, maia, asteca, egípcia, grega, indiana e judaica. O movimento rejeita a autodesignação de "religião", preferindo o termo "doutrina".

O universo de crenças do Vale constitui um complexo de símbolos e narrativas que reconstroem a história da humanidade, tendo como fio condutor a narrativa mitológica do Pai Seta Branca. Segundo a doutrina, o universo é constituído de vários planetas - como a Terra e um planeta denominado "Capela" - , habitados por Espíritos de Luz e de Trevas, encarnados e desencarnados, distintos em características e processos de evolução. Os Espíritos de Luz são mais evoluídos e servem de guias para as pessoas; os Espíritos das Trevas representam a não-evolução e a necessidade de reencarnação. Após a morte, as pessoas reencarnam em outros corpos para expiarem seus erros pela prática do bem e de rituais, a fim de evoluírem espiritualmente.

Pai Seta Branca é o líder de todos os Espíritos de Luz e a entidade de maior hierarquia na Doutrina do Amanhecer. É retratado em duas principais encarnações: a de Francisco de Assis, o santo do catolicismo, e a do Cacique da Lança Branca, líder de um povo andino inca. Sua imagem incorpora ainda elementos de povos indígenas andinos, mesoamericanos, brasileiros e norte-americanos, além de referências a seres de outros planetas, faraós e pirâmides egípcias, numa composição híbrida que pesquisadores associam ao processo de mundialização da cultura. Em abril de 1959, segundo os adeptos, o Pai Seta Branca apresentou-se em visão a Tia Neiva e lhe revelou as principais orientações para fundar o Vale.

Não podendo mais reencarnar, o Pai Seta Branca teria escolhido Tia Neiva para a missão de preparar a humanidade para o terceiro milênio - período em que não haveria nem dor nem sofrimento -, culminando com o retorno da humanidade para o planeta "Capela". A figura messiânica de Tia Neiva consolida-se ainda pelo fato de que o Pai Seta Branca realizava, por meio dela, um comunicado regular todo dia 31 de dezembro, dirigindo-se aos eleitos para falar sobre os sinais dos últimos tempos.

Organização religiosa e mediunidade No Vale do Amanhecer, todos os adeptos são tomados como médiuns. Há, porém, uma divisão do trabalho que os classifica em dois tipos principais: doutrinadores e aparás. Essa classificação baseia-se no tipo de mediunidade desenvolvido pelo adepto e está fortemente relacionada ao gênero: a maioria dos médiuns de incorporação (aparás) são mulheres, enquanto a maior parte dos doutrinadores são homens.