Congo-Vilão de Nossa Senhora do Rosário de São Gonçalo do Amarante, popularmente conhecido como Congo do Caburu, é uma manifestação tradicional do congado do distrito de São Gonçalo do Amarante, no município de São João del-Rei, Minas Gerais. Organizado em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário, constitui uma das principais expressões da cultura popular e da religiosidade afro-brasileira da região do Campo das Vertentes. O grupo realiza anualmente as festividades do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, reunindo cortejos, música, dança, rituais religiosos e práticas tradicionais transmitidas entre gerações.

Inventariado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João del-Rei em 2018, o Congo-Vilão é reconhecido pelo município como referência cultural do distrito, destacando-se por sua continuidade histórica, relevância comunitária e contribuição para a preservação das tradições do congado mineiro.

História As origens do Congo-Vilão de São Gonçalo do Amarante estão ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e às tradições do congado difundidas em Minas Gerais desde o período colonial. A manifestação consolidou-se no distrito como parte das festividades do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, reunindo elementos religiosos, musicais e coreográficos transmitidos entre sucessivas gerações de congadeiros.

Embora não haja documentação conhecida que permita estabelecer a data exata de sua fundação, registros fotográficos e a memória dos moradores demonstram que o grupo já se encontrava plenamente organizado na primeira metade do século XX. O inventário municipal identifica o Congo-Vilão como a principal manifestação da cultura popular do distrito de São Gonçalo do Amarante, destacando sua continuidade histórica e seu papel na preservação das tradições afro-brasileiras da comunidade.

Ao longo de sua história, a direção do grupo foi exercida por diferentes capitães, entre os quais Vicente Fagundes, Geraldo do Pedro, José Francisco Sales, José Leonardo de Paula, Leonardo José de Paula, Lourival Amâncio de Paula, Raimundo Fausto de Paula, Gonçalo Mendes, Antônio Fagundes, Waldemar Fagundes, Inácio Fagundes e Domingos Sávio dos Passos (atual) responsáveis pela transmissão dos conhecimentos musicais, coreográficos e rituais às novas gerações de congadeiros.

Além de sua participação anual na Festa de Nossa Senhora do Rosário, o Congo-Vilão também representa o distrito em celebrações religiosas e encontros de congadeiros realizados em outras localidades do município e da região, contribuindo para a difusão da tradição congadeira do Campo das Vertentes.

O Congo-Vilão no contexto do congado mineiro O Congo-Vilão é uma das modalidades tradicionais de guarda ou terno de congado encontradas em Minas Gerais. No conjunto das manifestações congadeiras, essa designação distingue determinados grupos de outras guardas, como Congo, Moçambique, Catopé, Marujo e Caboclo. Essas denominações, contudo, não seguem uma classificação uniforme em todo o estado, variando de acordo com a história e as tradições de cada comunidade.

Embora compartilhem a devoção a Nossa Senhora do Rosário e a participação nas festas do Reinado, os diferentes ternos distinguem-se pelo repertório musical, pelos instrumentos utilizados, pelas coreografias, pelas vestimentas e pela organização dos cortejos. Essas características constituem tradições locais transmitidas oralmente e continuamente recriadas pelas comunidades mantenedoras.

No distrito de São Gonçalo do Amarante, o Congo-Vilão Nossa Senhora do Rosário constitui a principal guarda responsável pelas festividades do Reinado. O inventário municipal destaca que a manifestação conserva elevada originalidade em seus ritos, organização e repertório musical, sendo considerada uma das principais referências identitárias da comunidade local.

Organização O Congo-Vilão de São Gonçalo do Amarante organiza-se segundo a estrutura tradicional dos ternos de congado mineiros. A condução do grupo cabe ao capitão, responsável pela direção dos cortejos, pela execução dos cantos, pela marcação do ritmo, pela disciplina dos dançantes e pela transmissão dos conhecimentos tradicionais às novas gerações. O capitão é auxiliado por outros oficiais e pelos integrantes mais experientes do grupo.

Além dos congadeiros, participam das festividades os reis e rainhas do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, bandeireiros, festeiros, integrantes das irmandades religiosas e membros da comunidade, que colaboram na preparação da festa, na organização das procissões e nas celebrações religiosas. A manifestação envolve não apenas os dançantes, mas também numerosas famílias do distrito, que mantêm a tradição por meio da transmissão oral dos saberes e da participação comunitária.

A chefia do Congo-Vilão foi exercida, ao longo de sua história, por diferentes capitães pertencentes à comunidade, responsáveis pela preservação do repertório musical, da coreografia e dos rituais associados ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário.

Música e indumentária miniaturadaimagem|Partitura do toque de alvorada Vamos'imbora, Vitalina! A expressão artística do Congo-Vilão resulta da integração entre música, canto, dança e indumentária, elementos que constituem a identidade visual e sonora da manifestação. O acompanhamento musical é executado predominantemente por instrumentos de percussão, como caixas e pandeiros, que sustentam o ritmo dos cortejos e das evoluções coreográficas. Os cantos são conduzidos pelo capitão, em sistema responsorial, sendo respondidos pelos demais congadeiros, característica comum aos ternos de congado mineiros.

Os instrumentos utilizados pelo grupo são, em grande parte, confeccionados, adaptados ou restaurados pelos próprios integrantes, preservando técnicas tradicionais transmitidas entre gerações. Além da execução musical, sua conservação constitui importante aspecto da continuidade da manifestação cultural.

A indumentária desempenha papel simbólico na caracterização do Congo-Vilão. Os congadeiros utilizam uniformes ornamentados, faixas, bastões e capacetes decorados, cujas formas foram sendo modificadas ao longo do tempo sem descaracterizar a tradição do grupo. O inventário municipal registra fotografias históricas que evidenciam a evolução dessas vestimentas desde meados do século XX, mantendo, contudo, elementos considerados identitários pela comunidade.

Segundo a pesquisa de Luciana Mara dos Santos, a guarda dos instrumentos musicais e de parte significativa dos objetos utilizados pelo grupo permanece sob responsabilidade do capitão, funcionando também como espaço de preservação da memória material da manifestação. Esse processo de transmissão dos saberes relacionados aos instrumentos, às cantigas e às vestimentas integra os mecanismos tradicionais de continuidade do Congo-Vilão.

Festa e rituais O Congo do Caburu tem sua principal atuação durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, realizada anualmente no distrito de São Gonçalo do Amarante. O ponto culminante das celebrações ocorre tradicionalmente no segundo domingo de outubro, reunindo cerimônias religiosas, cortejos, apresentações do congado e os rituais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário.

Os preparativos iniciam-se nos dias que antecedem a festa, com ensaios do grupo, visitas da imagem de Nossa Senhora do Rosário às residências dos congadeiros, momentos de oração e o levantamento do mastro, rito que simboliza a abertura das festividades. Na véspera também são promovidas atividades recreativas destinadas às crianças da comunidade, evidenciando o caráter comunitário da celebração.

Um dos momentos mais característicos da festa é a alvorada, realizada nas primeiras horas da manhã como anúncio do início das celebrações do Reinado de Nossa Senhora do Rosário. Durante o percurso pelas ruas do distrito, o Congo-vilão executa toques e cantos tradicionais, entre os quais se destaca o toque conhecido como Vamos'imbora, Vitalina, que convoca congadeiros e moradores para o início dos festejos e marca simbolicamente o despertar da comunidade para a festa. A alvorada constitui um rito de abertura que reafirma os vínculos comunitários e religiosos da celebração, integrando música, devoção e ocupação ritual do espaço público.

No dia principal, o Congo-Vilão acompanha as celebrações litúrgicas em honra de Nossa Senhora do Rosário, participando da missa, das procissões e dos cortejos do Reinado. Durante a festa, o grupo recepciona ternos visitantes e percorre o largo da Igreja de São Gonçalo do Amarante executando seus cantos, toques e evoluções coreográficas sob a condução do capitão.

A preparação e o compartilhamento de alimentos constituem parte integrante da festa. Famílias da comunidade organizam coletivamente refeições destinadas aos congadeiros, festeiros, visitantes e demais participantes, prática que reforça os vínculos de solidariedade, hospitalidade e reciprocidade entre os moradores. Mais do que um momento de confraternização, a refeição coletiva integra o conjunto de tradições que sustentam a continuidade da celebração e a transmissão de seus valores entre as diferentes gerações.

Além de seu significado religioso, a Festa de Nossa Senhora do Rosário constitui o principal momento de afirmação da identidade cultural de São Gonçalo do Amarante. O inventário municipal destaca que os festejos mobilizam moradores da vila, habitantes de comunidades rurais vizinhas e antigos moradores que retornam ao distrito durante a celebração, fortalecendo vínculos familiares, comunitários e religiosos. O encontro entre diferentes gerações e a participação de ternos visitantes contribuem para a preservação e a renovação das tradições congadeiras do Campo das Vertentes.

Patrimônio cultural O Congo-Vilão Nossa Senhora do Rosário foi inventariado em 2018 pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João del-Rei como parte do Plano Municipal de Inventário de Proteção do Patrimônio Cultural. O inventário reconheceu a manifestação como um dos principais referenciais da cultura popular do distrito de São Gonçalo do Amarante, destacando sua relevância histórica, social, religiosa e identitária para a comunidade local.

Na avaliação técnica que fundamentou o inventário, o grupo foi caracterizado como uma manifestação de elevada originalidade, responsável pela preservação de práticas tradicionais transmitidas entre gerações e pela articulação de diferentes comunidades rurais em torno da Festa de Nossa Senhora do Rosário. O documento também ressalta sua importância para a memória coletiva do distrito e para a manutenção das tradições do congado na região do Campo das Vertentes.

À época da elaboração do inventário, o Congo do Caburu ainda não possuía registro como patrimônio cultural em âmbito municipal, estadual ou federal. Em razão de seu valor cultural e de sua continuidade histórica, a equipe técnica responsável propôs seu registro no Livro de Registro dos Bens Culturais Imateriais do Município, como medida de salvaguarda destinada a assegurar sua preservação e continuidade.

Embora o grupo ainda não dispusesse de proteção específica, a Festa de Nossa Senhora do Rosário de São Gonçalo do Amarante foi reconhecida pelo Município de São João del-Rei por meio da Lei Municipal n.º 5.443, de 20 de junho de 2018, sendo posteriormente incluída no calendário oficial das festas religiosas do município pelos Decretos n.º 7.620 e n.º 7.621, ambos de 17 de agosto de 2018.

O inventário também destaca a inserção do Congo-Vilão em um conjunto de bens culturais protegidos existentes no distrito e em seu entorno, entre os quais a Igreja de São Gonçalo do Amarante, bens ferroviários da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas e o conjunto paisagístico da Pedra Ramalhuda, evidenciando a integração entre patrimônio material, patrimônio imaterial e paisagem cultural na região.

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