O IRIS-T (acrônimo para InfraRed Imaging System Tail/Thrust Vector-Controlled — Sistema de Imagem Infravermelha Controlado por Empuxo Vetorial/Cauda) é um míssil ar-ar de curto alcance com guiamento por infravermelho. Na designação oficial das Forças Armadas da Alemanha, também é chamado de AIM-2000. O míssil possui também versões para lançamento de superfície, como os sistemas antiaéreos IRIS-T SLS e IRIS-T SLM, além de suas variantes derivadas.
O míssil foi desenvolvido entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000 por meio de um consórcio multinacional liderado pela Alemanha, visando substituir o AIM-9 Sidewinder em serviço em vários países-membros da OTAN. Um dos principais requisitos do programa era garantir compatibilidade operacional direta com os trilhos lançadores padrão do Sidewinder. A variante ar-ar original entrou em operação em dezembro de 2005.
História
Contexto thumb|right|Míssil ar-ar IRIS-T pertencente à Força Aérea Alemã. Em agosto de 1980, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a França assinaram um Memorando de entendimento com o objetivo de coordenar o desenvolvimento de duas novas categorias de mísseis ar-ar. Pelos termos do acordo, a indústria norte-americana lideraria o projeto do míssil de médio alcance AMRAAM (sucessor do AIM-7 Sparrow), enquanto o consórcio europeu desenvolveria o míssil de curto alcance ASRAAM (para substituir o AIM-9 Sidewinder). Na parceria anglo-alemã inicial, os alemães ficariam responsáveis pela concepção da cabeça de busca óptica e os britânicos pelos componentes estruturais e propulsão.
Em 1987, os Estados Unidos introduziram uma exigência operacional estipulando que o novo míssil deveria ser compatível diretamente com os trilhos mecânicos existentes do Sidewinder, descartando o adaptador universal MSU que vinha sendo projetado na Europa. A alteração gerou atrasos no cronograma. Temendo a perda de mercado e a erosão de sua base industrial, o governo norte-americano sinalizou que optaria pelo desenvolvimento de uma versão modernizada do próprio Sidewinder (que daria origem ao AIM-9X) caso a participação industrial dos EUA no projeto europeu não fosse ampliada, proposta que não despertou interesse entre os parceiros europeus.
Com a Reunificação da Alemanha em 1990, a Luftwaffe herdou os estoques de caças MiG-29 da Alemanha Oriental armados com mísseis soviéticos Vympel R-73 (designação OTAN: AA-11 Archer). Ensaios e avaliações operacionais revelaram que as capacidades de combate aproximado do R-73 haviam sido subestimadas no Ocidente: associado à mira no capacete do piloto (HMS), o míssil soviético superava com folga o AIM-9L em alcance de aquisição angular fora da linha de visada (off-boresight) e capacidade de manobra. Diante dessa constatação, a Alemanha retirou-se do programa ASRAAM em 1990, optando por projetar um míssil com foco prioritário em extrema agilidade em combates aéreos visuais. O Reino Unido prosseguiu com o ASRAAM de forma independente, a França desenvolveu o MICA e os EUA continuaram com o AIM-9X, levando a Alemanha a liderar a criação de um novo consórcio em 1992 para desenvolver o IRIS-T.
Desenvolvimento Em 1995, a Alemanha oficializou o início do desenvolvimento do IRIS-T em parceria com a Grécia, Itália, Noruega, Suécia e Canadá. Em 1997, o governo alemão já havia investido mais de 500 milhões de marcos alemães (DM) no projeto, detendo 46% de participação industrial. A Itália participava com 20%, a Suécia com 18%, a Grécia com 8%, o Canadá com 4% e a Noruega com 3%. Posteriormente, o Canadá retirou-se do programa, e a Espanha ingressou no consórcio em 2003 como parceira industrial e compradora. O primeiro lote de produção em série foi entregue à Luftwaffe em dezembro de 2005.
Características técnicas Em comparação com o AIM-9M Sidewinder, o IRIS-T apresenta resistência substancialmente superior a contramedidas eletrônicas e capacidade avançada de rejeição de flares térmicos. O refinamento na discriminação de alvos proporciona um alcance de engajamento frontal (head-on) de cinco a oito vezes maior em relação ao AIM-9L e três a quatro vezes superior ao AIM-9M para aquisição de alvos. A cabeça de busca pode receber designação de alvos integrada a partir do radar da aeronave, de miras no capacete (HMD), de sensores de busca e rastreamento infravermelho (IRST), de alertas de aproximação de mísseis (MAWS) e via enlace de dados (datalink). O míssil é capaz de engajar alvos localizados atrás da própria aeronave lançadora (360 graus de cobertura), graças à combinação de manobras de até 60 g a uma taxa angular de 60°/s via empuxo vetorial no bocal e capacidade de travamento após o lançamento (LOAL).
O IRIS-T enquadra-se na 5.ª geração de mísseis guiados por calor, caracterizada pelo emprego de cabeças de busca formadoras de imagem infravermelha (IIR). Diferentemente de outros mísseis de 5.ª geração (como o AIM-9X e o ASRAAM, que empregam matrizes bidimensionais estáticas staring array), o IRIS-T utiliza um sensor bicromático de antimoneto de índio (InSb) baseado em uma matriz linear de 128×2 detectores associada a um espelho de varredura mecânica de alta velocidade. Esse conjunto constrói continuamente uma imagem térmica de 128×128 píxeis a uma taxa de 80 quadros por segundo. A fabricante Bodenseewerk Gerätetechnik (BGT, atual Diehl Defence) sustentou que essa arquitetura linear com varredura apresenta maior imunidade a sistemas de interferência a laser direcionado (DIRCM), pois o sensor recebe a energia do laser apenas durante frações de segundo a cada passada do espelho, ao passo que matrizes estáticas recebem o feixe de forma contínua.
O míssil possui eficácia demonstrada contra alvos ágeis de pequenas dimensões, tais como outros mísseis ar-ar e superfície-ar, mísseis de cruzeiro, foguetes e veículos aéreos não tripulados (drones). Para maximizar a probabilidade de destruição por fragmentação na passagem rente ao alvo, dispõe de uma espoleta de proximidade por radar ativo operando na banda Ku.
O IRIS-T possui a capacidade singular de engajar e abater outros mísseis ar-ar e superfície-ar em aproximação, funcionando como sistema de autodefesa antimíssil ativo para a aeronave. As variantes terrestres (IRIS-T SLS e SLM) expandem essas capacidades para a defesa de ponto contra caças, helicópteros de ataque, bombas guiadas e mísseis antirradiação.
A Força Aérea Real Norueguesa realizou em setembro de 2016 testes bem-sucedidos para demonstrar a capacidade de ataque ar-superfície do IRIS-T contra alvos navais rápidos a partir de caças F-16AM. Para esse perfil operacional, a estrutura física e os sensores do míssil são mantidos inalterados, exigindo apenas uma atualização de software para permitir o travamento e acompanhamento de embarcações, veículos terrestres e pequenas instalações em terra.
Variantes
Em operação IRIS-T (AAM): Variante original ar-ar de curto alcance com alcance cinético de cerca de 25 km. IRIS-T SLS: Variante superfície-ar de curto alcance com alcance de até 12 km e teto de engajamento de 8 km, utilizando os mesmos mísseis da versão ar-ar sem modificações estruturais. IRIS-T SLM: Sistema antiaéreo de médio alcance com alcance estendido para 40 km e teto de interceptação de 20 km. Utiliza um motor-foguete de maior diâmetro, cobertura aerodinâmica no nariz e guiamento por radar/datalink com fase terminal por infravermelho. IRIS-T SLX: Versão de longo alcance em desenvolvimento, projetada para atingir até 80 km de alcance e teto operacional de 30 km, incorporando uma cabeça de busca com modo duplo (radar ativo e infravermelho).
Em resposta à alta demanda decorrente da guerra na Ucrânia, a Diehl Defence expandiu sua capacidade industrial para produzir 10 sistemas antiaéreos completos em 2026 e atingir capacidade para 16 baterias anuais até 2028, além de elevar a produção de mísseis para até 2.000 unidades anuais.
Em desenvolvimento
IRIS-T AAM Block 2 Em junho de 2024, a Diehl Defence anunciou o desenvolvimento do IRIS-T Block II, que incorpora nova cabeça de busca, arquitetura eletrônica digital modernizada e capacidade de enlace de dados bidirecional. O parlamento alemão aprovou o financiamento em dezembro de 2024, e os contratos foram formalizados no início de 2025 com a adesão de Suécia, Itália e Espanha.
IRIS-T FCAAM thumb|Modelo do míssil conceitual FCAAM na feira aeroespacial ILA de Berlim O FCAAM (Future Combat Air-to-Air Missile) é um conceito de míssil ar-ar de 6.ª geração voltado para equipar os caças do programa europeu FCAS. O projeto prevê fuselagem com seção transversal não cilíndrica de baixa detectabilidade ao radar, sensor IR multiespectral, motor de pulso duplo e processamento avançado de dados em rede.
IDAS (variante submarina)
O IDAS (Interactive Defence and Attack System for Submarines) é uma variante desenvolvida pela Diehl e pela ThyssenKrupp Marine Systems para lançamento a partir dos tubos de torpedo dos submarinos Tipo 212A e Tipo 212CD. O míssil é guiado por fibra óptica e sensor térmico, permitindo engajar helicópteros antissubmarino, aeronaves de patrulha e embarcações de superfície a partir de posição submersa.
Projetos cancelados
LFK NG
O LFK NG (Lenkflugkörper Neue Generation) foi um míssil superfície-ar ultraleve de 28 kg concebido pela Diehl e pela MBDA para o sistema de defesa aérea do Exército Alemão (SysFla), destinado a equipar veículos Ozelot e helicópteros Eurocopter Tiger. Com a dissolução das unidades de artilharia antiaérea do exército em 2012, o projeto foi cancelado.
Operadores thumb|upright=1.35|Operadores do IRIS-T
Operadores atuais
25 mísseis para caças Eurofighter Typhoon.
Mísseis IRIS-T adquiridos para equipar os caças F-39E/F Gripen da Força Aérea Brasileira.
1.250 mísseis no pedido original. Em 2023, foi firmado contrato para até 1.280 mísseis adicionais para recomposição de estoques. A primeira bateria do sistema de defesa antiaérea IRIS-T SLM foi entregue ao grupo Flugabwehrraketengruppe 61 em Todendorf em fevereiro de 2026.
350 mísseis IRIS-T para caças F-16.
444 mísseis para caças Eurofighter Typhoon e AMX.
1.400 mísseis adquiridos para caças Eurofighter Typhoon e Tornado. Lote adicional de 150 mísseis contratado em 2024. Integração homologada nos caças F-15SA em 2026.
25 mísseis entregues para caças JAS 39 Gripen.
700 mísseis para equipar caças Eurofighter Typhoon e EF-18 Hornet.
450 mísseis sob a designação militar Robot 98 (RB 98) para caças JAS 39 Gripen e sistemas antiaéreos terrestres IRIS-T SLS.
220 mísseis encomendados para equipar caças JAS 39 Gripen C/D, F-16 e modernizações do F-5T.
Baterias antiaéreas IRIS-T SLM e SLS fornecidas pela Alemanha como pacote de assistência militar a partir de 2022.https://orf.at/stories/3289828 O país foi o primeiro operador a empregar o sistema antiaéreo em combate real contra mísseis de cruzeiro e drones russos com elevada taxa de interceptação.https://defence-network.com/ukraine-erhaelt-dreifache-anzahl-iris-t-sl/https://www.n-tv.de/politik/Ukraine-Krieg-IRIS-T-soll-ballistische-Raketen-abgefangen-haben-article25930517.html
Ex-operadores
150 mísseis adquiridos para caças F-16. Retirados de serviço com a desativação da frota de F-16 em 2022 e doados à Ucrânia em agosto de 2023.
Futuros operadores
Contrato de integração aos caças JAS 39 Gripen (padrão MS20 Block II) assinado em 2021.
Selecionado em 2018 como míssil de curto alcance padrão para o caça de 4.5.ª geração KAI KF-21 Boramae, com ensaios de disparo real bem-sucedidos em 2023 e 2024.
Potenciais operadores
Testes de avaliação em andamento na aeronave de ataque e treinamento IAR-99SM.
Ver também A-Darter AAM-5 AIM-9X Sidewinder ASRAAM Bozdoğan PL-10 Python-5 R-73
Referências
Bibliografia
Ligações externas Bonds, Ray ed. The Modern US War Machine. Nova Iorque: Crown Publishers, 1989. .
Ligações externas
(em inglês)
Categoria:Mísseis ar-ar