Abu Abedalá ibne Alarabi (), de nome completo Abu Abedalá Maomé ibne Ziade Alcufi (; Cufa, – Samarra, ), foi um filólogo, lexicógrafo e transmissor de poesia árabe da escola de Cufa. Filho de um escravo originário de Sinde, foi criado sob a tutela de seu padrasto Almufadal Adabi, seu principal mestre e de quem transmitiu a antologia al-Mufaḍḍaliyyāt. Estudou também com alguns dos principais estudiosos de sua época e adquiriu conhecimentos particularmente extensos de poesia, genealogia, léxico e tradições dos antigos árabes.
Parte fundamental de sua atividade filológica baseou-se no contato direto com beduínos, dos quais recolheu durante anos palavras raras, poemas, provérbios, relatos e informações sobre os Dias dos Árabes. Celebrado por sua memória e pela amplitude de seus conhecimentos, tornou-se uma das principais autoridades de seu tempo sobre o léxico árabe e transmitiu seus conhecimentos a mais de uma centena de discípulos. Sua confiança no material recolhido diretamente entre os beduínos também o envolveu em controvérsias com outros filólogos, particularmente Alasmai e Abu Ubaida, cujas transmissões contestou em algumas ocasiões. Embora ele próprio tenha sido criticado por determinadas interpretações e formas gramaticais que aceitava, suas transmissões exerceram ampla influência sobre a tradição lexicográfica árabe posterior.
A Ibne Alarabi foram atribuídos mais de trinta livros e tratados sobre temas como léxico, poesia, genealogia, história tribal, animais e plantas, além de recensões dos divãs de diversos poetas. Parte de sua produção sobreviveu, incluindo obras dedicadas aos cavalos dos árabes, ao vocabulário relacionado aos poços e à literatura, enquanto numerosos outros títulos são conhecidos apenas pelas fontes. Sua atividade como transmissor, comentador e coletor da antiga poesia árabe, juntamente com a extensa utilização de suas informações por autores e lexicógrafos posteriores, consolidou sua posição entre os mais importantes representantes da tradição filológica de Cufa.
Vida e formação
Abu Abedalá ibne Alarabi, de nome completo Abu Abedalá Maomé ibne Ziade Alcufi, nasceu em Cufa em 150 A.H. (767). Seu pai, chamado Fur, era um escravo proveniente de Sinde, na Índia, que pertencera a um membro dos haxemitas, e sua mãe também não era árabe. Após a morte do pai quando ainda era jovem, sua mãe casou-se com o filólogo e transmissor de poesia Almufadal Adabi, sob cuja tutela Ibne Alarabi foi criado. Segundo Durmuş, a designação Ibne Alarabi estaria relacionada ao contato contínuo que manteve com os árabes do deserto para ouvir e registrar vocabulário, relatos, poesia e provérbios.
Sua formação esteve estreitamente ligada à tradição filológica de Cufa. Seu principal mestre foi o padrasto Almufadal Adabi, de quem ouviu e transmitiu a antologia al-Mufaḍḍaliyyāt. Estudou também com , de quem recebeu ensinamentos de gramática e lexicografia e transmitiu o al-Nawādir, além de , , , , , e Ibne Alcalbi. Com esses estudiosos adquiriu conhecimentos sobre poesia, genealogia e vocabulário raro e incomum. Pellat também menciona entre seus mestres e Ibne Aciquite, embora este último seja apresentado em outras tradições como integrante de uma geração posterior ligada ao círculo de Ibne Alarabi.
Uma parte fundamental de sua formação resultou do contato direto com os beduínos. Durante anos, recolheu vocabulário, provérbios, poemas e relatos dos grupos que vinham de Iamama e acampavam nas proximidades de Cufa, especialmente os açaditas e os ucailitas, adquirindo amplo conhecimento também dos Dias dos Árabes. Sua memória tornou-se particularmente célebre: acumulou grande quantidade de palavras raras e, segundo uma tradição registrada por Pellat, conseguia ditar de memória material suficiente para encher vários camelos sem precisar consultar livros.
Atividade filológica e ensino
Ibne Alarabi tornou-se um dos principais representantes da escola filológica de Cufa e alcançou reputação sobretudo como lexicógrafo, transmissor de poesia e conhecedor do vocabulário árabe raro. Lecionava numa mesquita a sudoeste de Baguedade, sustentando-se com o pagamento recebido por suas aulas, que atraíam grande número de estudantes. Segundo as fontes, ditava-lhes, sem consultar livros e recorrendo à memória, materiais sobre léxico, palavras raras, poesia, relatos e genealogias. Pellat afirma que teve mais de uma centena de discípulos e ressalta a amplitude de seus conhecimentos em gramática, lexicografia, genealogia e poesia. Entre seus alunos estiveram , Aljaiz, Ibne Aciquite, Ibraim Alharbi, , Maomé ibne Habibe, Albaladuri, e Almufadal ibne Salama. Talabe foi o que mais se beneficiou de seus ensinamentos e, juntamente com e Maomé ibne Habibe, transmitiu seu al-Nawādir. A tradição sobre a amplitude de sua audiência também aparece em Pellat, que relata que, quando deixou Samarra, numerosas pessoas o acompanharam para ouvir sua solução para um problema filológico, deixando a cidade aparentemente vazia.
Sua autoridade apoiava-se em grande medida na recolha direta da língua dos beduínos, circunstância que também o colocou em conflito com outros filólogos. Ibne Alarabi rejeitava como pouco confiáveis algumas transmissões de Abu Ubaida e Alasmai, dois dos principais representantes da escola de Baçorá. A propósito de uma informação transmitida por Alasmai, teria afirmado haver ouvido de mil beduínos eloquentes precisamente o contrário. Pellat igualmente observa que muitas informações recolhidas por Ibne Alarabi diretamente entre os beduínos contradiziam afirmações de Alasmai. Sua própria produção filológica, contudo, não permaneceu isenta de críticas: aceitava formas gramaticais anômalas e recorria por vezes a interpretações consideradas fantasiosas, e foram identificados erros tanto nas regras gramaticais que propunha quanto em explicações de palavras raras, área na qual era reconhecido como autoridade. Apesar dessas controvérsias, sua influência sobre a lexicografia árabe foi extensa. Durmuş observa que suas transmissões aparecem em grande número de obras lexicográficas posteriores, sendo difícil encontrar um dicionário árabe importante que não o cite. Aljaiz, que o conheceu pessoalmente em Baguedade, recorreu repetidamente às suas informações no Kitāb al-Ḥayawān, embora Pellat considere que parece ter nutrido algum ressentimento pela atitude hostil do filólogo. Abu Ubaida e Alasmai também o criticaram, mas a própria facilidade com que seus adversários apontavam erros em matérias nas quais era considerado mestre testemunha a posição de autoridade que alcançara entre os filólogos de sua época.
Ibne Alarabi desfrutou igualmente de prestígio entre califas e altos funcionários do Estado, que recorriam a ele para esclarecer palavras raras encontradas na poesia e o recompensavam com presentes. Segundo Durmuş, em uma ocasião recebeu 10 mil dirrãs do califa Aluatique e, em outra, um presente avaliado em cinco mil dirrãs de Almamune. Embora fosse hostil aos mutazilitas, sua reputação ultrapassava essas divergências doutrinais. Pellat relata que, quando morreu, Amade ibne Abi Duade, destacado representante do mutazilismo, acompanhou pessoalmente a oração fúnebre junto a seu túmulo. As fontes também preservam descrições divergentes de sua aparência física. Foi descrito como estrábico e coxo, e Pellat registra que Maomé ibne Habibe o chamava também de Alaraje ("o coxo"). Durmuş observa, porém, que, embora algumas fontes lhe atribuam essas características, Aljaiz, que foi seu aluno e amigo próximo e escreveu uma obra dedicada a pessoas com deficiências e particularidades físicas, não o menciona nela. As fontes o caracterizam ainda como homem religioso e íntegro. Morreu em Samarra em 231 A.H. (846); também são transmitidos os anos 230 (845), 232 e 233, mas Durmuş considera 231 a data correta. Pellat fornece a data mais precisa de 13 de Xabã de 231, correspondente a 14 de abril de 846.
Obras
As fontes atribuem a Ibne Alarabi mais de trinta livros e tratados, abrangendo lexicografia, poesia, genealogia, história tribal, animais, plantas e outros aspectos da cultura árabe. Entre as obras conservadas encontra-se Asmāʾ khayl al-ʿArab wa-fursānihā, dedicada aos cavalos célebres das antigas tribos árabes e a seus cavaleiros. Além dos nomes dos animais e cavaleiros, reúne relatos e poemas relacionados a eles, explicações de vocabulário raro presente nesses versos e informações sobre os Dias dos Árabes, possuindo, assim, interesse linguístico, literário e histórico. A obra foi editada por Giorgio Levi Della Vida em Leida, em 1928, e recebeu posteriormente outras edições. O Kitāb al-Biʾr reúne vocabulário e poesia relacionados à escavação de poços, suas variedades, águas e instrumentos, enquanto o Kitāb al-Fāḍil fī al-adab consiste numa coleção de fragmentos poéticos de caráter elegíaco, publicada por William Wright em Leida em 1859. O Nawādir Ibn al-Aʿrābī sobrevive em manuscritos preservados em Jerusalém e no Cairo, e parte da obra foi objeto de edição acadêmica moderna. Também lhe é atribuído um Kitāb al-Muʿjam, conservado em manuscrito em Damasco. A atribuição a Ibne Alarabi de uma coleção de elegias publicada por Wright sob o título Muqaṭṭaʿāt marāthī li-baʿḍ al-ʿArab, por outro lado, é considerada duvidosa. As fontes registram ainda numerosos títulos hoje perdidos ou conhecidos apenas parcialmente, entre eles obras sobre fenômenos meteorológicos, palmeiras, agricultura, plantas, vocabulário, tradições tribais, provérbios e palavras raras. Pellat menciona igualmente recensões preparadas por Ibne Alarabi dos divãs de diversos poetas, atividade coerente com sua posição como transmissor e estudioso da antiga poesia árabe.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Cufa Categoria:Pessoas do Califado Abássida