Os meses sagrados () são quatro meses do calendário islâmico aos quais a tradição árabe e islâmica atribui uma condição especial de inviolabilidade: Dulcada, Dulrija, Moarrão e Rajabe. Os três primeiros são consecutivos, enquanto Rajabe ocorre isoladamente. Sua sacralidade remonta à Jailia e estava associada sobretudo à suspensão das hostilidades, proporcionando períodos de segurança para a realização do haje, o deslocamento dos peregrinos e a circulação pelas rotas da Arábia. A observância da proibição variava entre as tribos, e a violação da inviolabilidade dos meses esteve associada aos conflitos conhecidos como Guerras Sacrílegas. Os árabes pré-islâmicos também praticaram o , pelo qual alteravam a posição dos meses e dos períodos de proibição.
O islão conservou a condição especial dos quatro meses, que são mencionados no Alcorão, ao mesmo tempo que condenou o nasi e restabeleceu a ordem do calendário considerada original pela tradição islâmica. A proibição de combater durante os meses sagrados tornou-se posteriormente objeto de divergência entre os juristas: alguns sustentaram que permanecia em vigor, enquanto a posição majoritária considerou-a ab-rogada. Mesmo entre os defensores desta última interpretação, contudo, os quatro meses continuaram a ser reconhecidos como períodos dotados de especial significado religioso.
Características e origem
Os meses sagrados constituem um conjunto de quatro meses do calendário islâmico durante os quais, segundo a tradição árabe e islâmica, o combate era sujeito a proibições especiais. São eles Dulcada, o décimo primeiro mês do ano, Dulrija, o décimo segundo, Moarrão, o primeiro, e Rajabe, o sétimo. Como Dulcada, Dulrija e Moarrão ocorrem consecutivamente, eram denominados coletivamente sard ("sucessivos"), enquanto Rajabe, separado dos demais, era chamado fard ("isolado"). Os outros oito meses eram designados pelos árabes da Jailia como "meses ordinários" (al-ashhur al-iʿtiyādiyya). A expressão "meses sagrados" ocorre no Alcorão tanto no plural (al-ashhur al-ḥurum) quanto no singular (al-shahr al-ḥarām). O texto corânico afirma que o ano compreende doze meses, quatro dos quais são sagrados, e adverte contra a violação das proibições estabelecidas durante eles. Também qualifica o combate durante um mês sagrado como uma transgressão grave e associa a inviolabilidade desses meses à da Caaba. Sua denominação deriva principalmente da proibição do combate durante esse período, embora a tradição islâmica também lhes atribua uma condição religiosa particular, segundo a qual as boas e más ações praticadas nesses meses assumiriam importância acrescida. Segundo as tradições preservadas nas obras de exegese e história islâmicas, a instituição dos meses sagrados remontaria a Abraão e estaria relacionada à instituição do haje. A suspensão das hostilidades proporcionava um período de segurança durante o qual os peregrinos podiam viajar até Meca e realizar os ritos sem receio de ataques. A estabilidade das rotas também favorecia os habitantes de Meca e das regiões vizinhas, cuja subsistência dependia em parte das atividades econômicas relacionadas à peregrinação e ao movimento de caravanas.
Na Jailia
Os árabes da Jailia observavam geralmente a inviolabilidade dos quatro meses, abstendo-se de guerras e ataques quando eles começavam. Segundo os relatos tradicionais, a proibição podia estender-se inclusive às vinganças de sangue: um homem que encontrasse durante esse período o assassino do pai ou do irmão deveria abster-se de atacá-lo ou mesmo de insultá-lo. A norma também se aplicava aos grupos beduínos que habitualmente disputavam fontes de água e pastagens ou obtinham recursos mediante a cobrança de tributos sobre caravanas. A observância, contudo, não era uniforme entre todas as tribos árabes. Alguns grupos chegaram a ampliar o período de inviolabilidade. Entre eles, certas tribos consideravam outros quatro meses igualmente sagrados, elevando para oito o número total. Outras, ao contrário, não reconheciam diferença de estatuto entre os meses. Entre os grupos apontados pelas fontes como não submetidos à mesma observância estavam os catamitas, taiítas, cudaaítas e outros grupos árabes, enquanto comunidades cristãs estabelecidas entre tribos como taglibitas, xaibanitas, Abedalcaicitas, cudaaítas, gassânidas, tanuquitas, amilaítas, lacmitas, judamitas, taiítas e tamimitas também não reconheciam necessariamente a inviolabilidade dos meses sagrados.
Os conflitos ocorridos nesses períodos receberam o nome de Guerras Sacrílegas em razão da violação das proibições associadas aos meses. A dificuldade em manter uma suspensão prolongada das hostilidades estava relacionada às condições sociais da Arábia pré-islâmica, marcadas por conflitos tribais, vinganças de sangue, ataques e pilhagens. A mobilidade do calendário lunar criava ainda dificuldades para a realização da peregrinação, pois os meses retrocediam aproximadamente onze dias a cada ano solar e, consequentemente, o haje ocorria sucessivamente em diferentes estações. Uma das práticas desenvolvidas nesse contexto foi o (nasīʾ), mediante o qual se alterava a posição dos meses e, consequentemente, o período no qual vigoravam as proibições. Segundo a explicação apresentada por Hüseyin Algül, os árabes procuravam ajustar o calendário de modo a realizar a peregrinação em períodos considerados climaticamente e comercialmente mais favoráveis. Por meio dessas alterações, Moarrão podia ser deslocado para a posição de Sáfar, modificando-se na prática a sequência dos meses sagrados.
O Alcorão condenou o nasi, apresentando-o como uma alteração indevida da ordem dos meses e afirmando que o número destes permanecia em doze. Segundo a tradição islâmica, a peregrinação realizada por Maomé em 10 A.H. (632), posteriormente conhecida como Peregrinação de Despedida, ocorreu num ano em que os meses haviam retornado às suas posições consideradas originais. Em seu discurso em Mina, Maomé teria declarado que o tempo havia retornado à disposição que possuía quando Deus criou os céus e a terra, afirmação interpretada como a restauração definitiva da ordem do calendário e a rejeição do nasi.
No islão
A tradição islâmica manteve a condição especial dos quatro meses. O Alcorão afirma que combater durante um mês sagrado constitui uma transgressão grave, mas acrescenta que impedir as pessoas de seguir o caminho de Deus, rejeitá-lo, impedir o acesso à Mesquita Sagrada e expulsar seus habitantes constituem transgressões ainda maiores. Outro versículo estabelece uma relação de reciprocidade quanto à inviolabilidade do mês sagrado, fundamento a partir do qual se admitiu que os muçulmanos poderiam responder a ataques sofridos durante esses períodos. Segundo os relatos reunidos por Algül, Maomé evitava iniciar combates durante os meses sagrados quando não era atacado e, quando uma campanha já iniciada alcançava um desses meses, podia aguardar seu término antes de prosseguir. Ao mesmo tempo, ocorreram confrontos envolvendo os muçulmanos durante meses sagrados, particularmente em situações interpretadas pelas fontes como resposta a ataques ou continuação de operações iniciadas anteriormente. A relação entre a proibição tradicional e os conflitos ocorridos durante a vida de Maomé tornou-se posteriormente objeto de discussão entre os juristas islâmicos.
Os juristas divergiram especialmente sobre se a proibição de iniciar combates durante os meses sagrados permanecia em vigor ou havia sido ab-rogada. Atá ibne Abi Rabá e alguns dos primeiros estudiosos muçulmanos sustentaram que a proibição continuava válida. A posição majoritária entre os juristas, contudo, considerou-a ab-rogada e entendeu que os muçulmanos poderiam combater durante esses meses mesmo quando não estivessem respondendo diretamente a uma agressão. Seus defensores invocaram versículos que ordenavam o combate contra os politeístas e episódios militares da vida de Maomé, entre eles as campanhas de Hunaine e Taife. Os defensores da permanência da proibição argumentaram, por sua vez, que a inviolabilidade dos meses sagrados continuava em vigor da mesma maneira que a do recinto sagrado de Meca. Segundo essa interpretação, os versículos gerais relativos ao combate contra os politeístas não entravam em contradição com a proibição específica de iniciar hostilidades durante determinados meses na ausência de ataque ou ameaça. Os conflitos travados por Maomé nesses períodos seriam explicáveis como respostas a agressões ou como continuações de operações iniciadas anteriormente. Mesmo entre os estudiosos que consideravam ab-rogada a proibição de combater, permaneceu a ideia de que os quatro meses conservavam uma condição religiosa especial; alguns juristas chegaram a defender que a dívida de sangue decorrente de um homicídio cometido durante eles deveria ser agravada.
Bibliografia
Categoria:Xaria Categoria:Calendário islâmico