Resumo do Grande Prêmio da Argentina de Fórmula 1 realizado em Buenos Aires em 23 de janeiro de 1972. Primeira etapa do campeonato, foi vencido pelo britânico Jackie Stewart, da Tyrrell-Ford, com Denny Hulme em segundo pela McLaren-Ford e Jacky Ickx em terceiro pela Ferrari.

Resumo Lotus preta e dourada na pista Campeã mundial de pilotos e construtores em 1971, a Tyrrell manteve Jackie Stewart e François Cevert como pilotos, assim como a Ferrari conservou Jacky Ickx, Clay Regazzoni e Mario Andretti, embora as participações deste sejam esporádicas graças ao vultoso contrato com a Firestone, motivo pelo qual Andretti prioriza o calendário do United States Auto Club, onde foi campeão em 1969. Combalida pela morte de Jo Siffert, a BRM acertou com a Marlboro e contratou Jean-Pierre Beltoise para completar o trio ao lado de Peter Gethin e Howden Ganley, enquanto a Yardley, marca de cosméticos antes ligada à BRM, mudou para a McLaren às custas de uma ironia, pois Denny Hulme continuava no time, mas ao lado de Peter Revson, herdeiro da Revlon.

Figura em ascensão no mundo da Fórmula 1, o britânico Bernie Ecclestone manteve Graham Hill na Brabham, mas contratou o estreante argentino Carlos Reutemann para correr ao lado do bicampeão mundial graças ao aporte da YPF, forçando Tim Schenken a assumir o lugar de John Surtees, que manteve Mike Hailwood e entregou um terceiro carro a Andrea de Adamich sob um acordo com a Ceramica Pagnossin. Ao contrário da equipe Surtees, a Matra seria representada somente pelo bólido de Chris Amon, por outro lado a March recorreu à STP e trouxe Niki Lauda para medir forças com o vice-campeão mundial, Ronnie Peterson. Maior equipe britânica da atualidade, a Lotus manteve Emerson Fittipaldi e destinou seu segundo carro a Dave Walker, estreando nesta corrida sua icônica pintura em tons preto e dourado sob a insígnia John Player Special.

Fórmula 1 retorna à Argentina Primeiro autódromo sul-americano de padrão internacional, o Autódromo Municipal Cidade de Buenos Aires foi inaugurado em 9 de março de 1952, mas recebeu o nome de "Autódromo 17 de Outubro" em razão de uma mobilização popular ocorrida na Plaza de Mayo em 1945, na qual reivindicavam a libertação de Juan Domingo Perón, e quando este assumiu a presidência da República no ano seguinte, passou a apoiar o automobilismo argentino. Construído numa área pantanosa, o novo autódromo possuía doze traçados distintos, dos quais a Fórmula 1 escolheu o "Circuito Nove" para a corrida de 1972 por equilibrar distância a ser percorrida, condições de segurança e acesso ao público. Deposto Perón em 1955, mudaram o nome do local, retirando a referência ao "Dia da Lealdade Peronista". Inclusive, foi neste autódromo que Chico Landi marcou o primeiro ponto brasileiro na categoria, ao chegar em quarto lugar em 1956, dividindo a condução de uma Maserati com o italiano Gerino Gerini.

A última corrida de Fórmula 1 em solo argentino ocorreu em 1960 e foi vencido pela Cooper de Bruce McLaren. Numa época marcada por forte participação local, oito pilotos nativos buscaram uma vaga entre os habilitados a correr no domingo, cinco participaram da prova e Carlos Menditeguy terminou em quarto lugar numa Cooper inscrita pela Scuderia Centro Sud, equipe privada italiana comandada por Guglielmo Dei. Presente na corrida de 1960 pela BRM, o britânico Graham Hill foi o único a continuar no grid e retornar a Buenos Aires em 1972, agora como piloto da Brabham. Retirada do calendário da Fórmula 1 ainda em 1960 pelo Automóvel Clube da Argentina por razões financeiras, a prova tem Juan Manuel Fangio como recordista de vitórias. Campeão mundial em 1951, ele venceu em Buenos Aires em 1954, 1955, 1956 e 1957, coincidindo com os anos dos outros títulos que conquistaria.Em seus primeiros anos, a Fórmula 1 permitia que os pilotos compartilhassem a condução do mesmo bólido, dividindo os pontos em jogo pelo número de corredores. Assim, Juan Manuel Fangio dividiu a vitória na França em 1951 com Luigi Fagioli e a vitória na Argentina em 1956 com Luigi Musso, ambos italianos.

Mundialmente famosa nas pistas graças ao pentacampeão Juan Manuel Fangio, a Argentina realizou sete edições de seu Grande Prêmio, intercalando-o com o Grande Prêmio de Buenos Aires, além da corrida extraoficial de 1971, onde a denominação remetia à Fórmula 1 e realização do evento foi destinada a homologar o novo Autódromo Municipal da Cidade de Buenos Aires, contando com a participação de bólidos da Fórmula 5000. Após as reformas no traçado e área dos boxes, além de ampliar a capacidade de público, a corrida do ano passado foi vencida por Chris Amon (Matra), com Henri Pescarolo em segundo (numa March da Frank Williams Racing Cars) e Carlos Reutemann em terceiro (numa McLaren da Ecurie Bonnier), mas ficou marcada pela morte violenta de Ignazio Giunti.

Carlos Reutemann faz a pole Antes que o ronco dos motores imperasse, novas modificações recaíram sobre a relação de inscritos à corrida, a começar pela ausência de Jean-Pierre Beltoise. Oficialmente barrado por questões burocráticas, o francês ainda cumpre uma suspensão imposta pela FIA por conta do acidente fatal de Ignazio Giunti durante os 1000 Km de Buenos Aires de 1971, obrigando a BRM a substituí-lo pelo sueco Reine Wisell.Na volta 38 dos 1000 Km de Buenos Aires de 1971, Mike Parkes desviou para a esquerda ao perceber Jean-Pierre Beltoise empurrando sua Matra-Simca pela pista, afinal estava sem gasolina. Neste momento, Ignazio Giunti perseguia Parkes à curta distância e viu o gesto do rival como uma chance para ultrapassá-lo e seguiu à direita. Em poucos segundos, a Ferrari 312 PB de Giunti explodiu em chamas ao bater no carro de Beltoise. Removido dos escombros, o piloto italiano morreria logo depois. Outra novidade na equipe de Louis Stanley foi a confirmação de Alex Soler-Roig e Helmut Marko para a corrida, onde o time competiria com um quinteto, dadas as presenças de Peter Gethin e Howden Ganley. Quem não correrá no domingo é Mike Hailwood, por compromissos na Fórmula 5000, mas a falta de uma Surtees será compensada pela Frank Williams Racing Cars, que classificou uma March 721 com Henri Pescarolo.

Força dominante em 1971, a Tyrrell desembarcou em Buenos Aires como favorita, mas ao final do treino uma surpresa chamada Carlos Reutemann capturou toda a atenção para si. Estreante, ele combinou seu conhecimento sobre o novo circuito argentino e otimizou o desempenho dos pneus macios da Goodyear para impor dois décimos de segundo a Jackie Stewart e marcar a pole position, algo inédito desde Mario Andretti no Grande Prêmio dos Estados Unidos de 1968.Conseguir a pole position na corrida de estreia é um evento raro, somente seis pilotos de Fórmula 1 realizaram tal proeza: Giuseppe Farina no Grande Prêmio da Grã-Bretanha de 1950 com a Alfa Romeo, Walt Faulkner nas 500 Milhas de Indianápolis de 1950 e Duke Nalon nas 500 Milhas de Indianápolis de 1951 com a Kurtis Kraft, Mario Andretti e Carlos Reutemann nos casos acima e Jacques Villeneuve no Grande Prêmio da Austrália de 1996 com a Williams. Esta é a primeira pole position da Brabham desde o Grande Prêmio da Espanha de 1970 com o próprio Jack Brabham, e a primeira sob o comando de Bernie Ecclestone. Na segunda fila estavam Peter Revson e Denny Hulme, dupla da McLaren, com a Lotus de Emerson Fittipaldi vindo a seguir, adiante dos três carros da Ferrari e da Tyrrell de François Cevert. Quanto aos bólidos da BRM, o melhor que conseguiram foi o décimo terceiro lugar de Howden Ganley, enquanto a March ficou na última posição com Niki Lauda.

Jackie Stewart vence de novo Um público estimado em 80 pessoas compareceu ao autódromo para torcer por Carlos Reutemann, cujo carro largaria com pneus macios, repetindo a estratégia da classificação, embora o desgaste rápido desses compostos indique uma combatividade efêmera. Eufórico por seu representante, o público ignorou essa variável e também a má sorte de Chris Amon, impedido de participar da corrida quando a caixa de câmbio da Matra quebrou antes da largada, e por falar nisso, o bom arranque de Reutemann não impediu que Stewart assumisse a liderança alguns metros adiante ao chegar na Curva Passadore, deixando o argentino em segundo lugar ao alcance de Fittipaldi, que superou Hulme enquanto Regazzoni e Peterson completavam a zona de pontuação ao fim da primeira volta, mas o começo da prova foi ruim para a BRM: Wisell parou nos boxes com um acelerador travado, Soler-Roig bateu e abandonou, e Gethin ficou a pé devido a um rompimento no tubo de óleo.

Dave Walker também sofreu com o acelerador, mas neste caso, ele mesmo consertou a avaria na Lotus antes de voltar à pista, enquanto a vantagem de Stewart sobre Reutemann aumentava e o rendimento da Brabham caía a ponto de Fittipaldi assumir o segundo lugar situando-se a menos de um segundo do líder, quase ao mesmo tempo que Walker é desclassificado, pois recebeu auxílio externo para consertar seu carro fora da área dos boxes. Hill e Adamich abandonam por defeitos no equipamento de combustível e na décima segunda volta, Hulme sobe para terceiro graças ao desgaste prematuro nos pneus de Reutemann e chegou a aproximar-se dos líderes antes da Tyrrell recuperar o ritmo pouco antes da vigésima volta, pois o câmbio de Fittipaldi dá sinais de fadiga justo quando Stewart marca a volta mais rápida da prova, isso na vigésima quinta volta. Entre um momento e outro, Andretti para por quebra no motor da Ferrari, e ao ao final do primeiro terço da corrida, a vantagem de Stewart sobre Fittipaldi era de dez segundos.

Com sua Lotus piorando a cada instante, Fittipaldi perdeu a vice-liderança para Hulme na volta trinta e cinco, ficando a dezoito segundos de Stewart, com Reutemann ainda sofrendo em quarto lugar, mal seguindo na pista, obrigando seu chefe de equipe, Keith Greene, a chamá-lo aos boxes na volta quarenta e cinco, mas o estado dos seus pneus era tão lastimável que ele perdeu uma volta na troca e retornou em penúltimo lugar, para a decepção do público e do presidente argentino, Alejandro Lanusse, que assistia ao Grande Prêmio na tribuna de honra. Pouco depois, Peterson saiu da pista e assustou Revson, cuja McLaren foi parar na brita e alguns detritos atingiram o motor da seu carro, que mal conseguia acelerar e abandonou a seguir. O sueco da March manteve a sétima posição, enquanto Stewart liderava a vinte segundos de Hulme e este matinha nove segundos sobre Fittipaldi na volta cinquenta, com Cevert muito longe em quarto mantendo Ickx e Regazzoni atrás de si, fechando a zona de pontuação.

Exigente, a prova de abertura do campeonato seguia fazendo vítimas: Reine Wisell parou devido a um vazamento em sua mangueira de água quando já estava com várias voltas de atraso, razão pela qual o público viu François Cevert e Emerson Fittipaldi pararem antes dele, o francês da Tyrrell por defeitos no câmbio e o brasileiro da Lotus por defeitos na suspensão à altura da Horquilla, o hairpin do circuito. Enquanto isso, a vantagem de Stewart sobre Hulme subiu para vinte e cinco segundos, com Ickx a uma distância ainda maior do campeão mundial de 1967, vindo a seguir a tríade Regazzoni, Schenken e Peterson, ordem formada na sexagésima primeira volta. Nos giros seguintes, a vantagem do líder sobre o vice-líder manteve-se inalterada, assim como as demais vagas na zona de pontuação, com Reutemann ressurgindo em sétimo lugar graças aos pneus novos e às quebras dos rivais. Tranquilo, o britânico deu uma volta no sexto colocado na volta setenta e oito e passou a administrar a diferença que existia a seu favor.