Cubango é uma das 21 províncias de Angola, localizada na região leste do país. Tem como capital a cidade e município de Menongue. Até 2024 conservou o nome de "Cuando-Cubango", quando parte de seu território foi cedido para formar a província de Cuando.
Segundo as projeções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população de 601.454 habitantes e com uma dimensão de 199 049 km², sendo a província mais populosa de Angola depois de Luanda.
É constituída pelos municípios de Caiundo, Calai, Chinguanja, Cuangar, Cuchi, Cutato, Longa, Mavengue, Menongue, Nancova e Savate.
História Antes do domínio colonial Português a região ficou sob zona de influência de diversas entidades nacionais africanas, com destaque para o Império Monomotapa, que dominou o comércio e as aldeias locais até meados do século XVI, e; o Império Lunda, até o último quarto do século XVII. Com a fragmentação dos lundas e a formação do Estado Lunda-Chócue, os povos ganguelas, principalmente na figura do País dos Ganguelas, entraram em acordo de confederação com os chócues, tratado que perdurou até o início do século XIX.
Formação política dos ganguelas e guerras contra Portugal
No século XIX, o País dos Ganguelas passou a tomar mais autonomia para si, principalmente após a subida ao trono ganguela de Muene Vunongue. Durante o reinado deste houve grande prosperidade econômica.
A conferência de Berlim, entretanto, sacramentou a divisão dos territórios ao longo das bacias do Cuito Cuanavale, Cunene e Cubango entre os alemães, portugueses e britânicos, cabendo aos colonizadores a ocupação definitiva das áreas.
Esta política colocou o País dos Ganguelas em rota de colisão com as potências europeias, levando a vários combates contra os invasores portugueses, alemães e britânicos durante o século XIX.
Embora sem material bélico suficiente, os conflitos e revoltas lideradas pelo rei Muene Vunongue causaram importantes baixas aos inimigos. Em outro aspecto, o País dos Ganguelas construiu aliança militar com os reinos Cuvango e Cuanhama.
Em 1886 o rei Muene Vunongue foi ferido mortalmente em batalha contra as tropas portuguesas. O rei conseguiu fugir até Menongue, a capital, mas morreu dias depois devido infecção.
A fortificação colonial e as incursões alemãs
Portugal agiu rápido após a morte de Muene Vunongue e enviou uma missão de exploração chefiada pelo major Alexandre Serpa Pinto, que acabou construindo o Forte Muene Vunongue, marcando o fim da autonomia dos ganguelas.Cuando-Cubango: Terra de História e de Futuro. Luanda Nightlife. 15 de fevereiro de 2017.
Em 31 de outubro de 1914, durante a Campanha de Cubango-Cunene, na Campanha do Sudoeste da África, as tropas alemãs invadiram o Forte de Cuangar, no território da província, e massacraram as tropas portuguesas ali estacionadas. A batalha ficou conhecida como o Massacre do Cuangar. Em 1915 os portugueses expulsariam os alemães do Cunene e do Cuando-Cubango.
Formação administrativa Em 1920 Portugal resolve criar o distrito do Cubango, tornando, somente em 1921, a povoação de Serpa Pinto em vila, fato que permitiria que a mesma tomasse o estatuto de capital distrital. Em 1934 o distrito sofre revés administrativo, sendo extinto.Cuando Cubango: Criadas condições para as festas da cidade de Menongue. Portal Angop. 17 de outubro de 2016.
Em 21 de outubro de 1961, pelo diploma legislativo ministerial nº 51, recria-se o distrito do Cuando-Cubango, estabelecendo Serpa Pinto como sua capital, que, nesta mesma data, foi elevada à categoria da cidade.
Período das guerras
No final da década de 1960 o MPLA é o primeiro movimento a remover a presença portuguesa da região, com a formação da "Frente Leste". A vitoriosa III Região Militar consegue pressionar tanto Portugal, quanto a UNITA até 1973, quando o movimento perde o controle da região.
A partir de 1973, alguns municípios como Mavinga, Dirico, Cuchi e Cuito Cuanavale, serviram como bases de apoio à guerrilha da UNITA, sendo por isso esta província designada pelos apoiantes daquele movimento, como "terras livres de Angola". Durante este período, Cuando-Cubango serviu como a primeira base da UNITA, liderada por Jonas Savimbi. O movimento rebelde recebia apoio dos EUA e da África do Sul como parte da Guerra Fria contra o MPLA, que recebia apoio, principalmente, da União Soviética e de Cuba.
A província do Cuando-Cubango principalmente os municípios de Mavinga e Cuito Cuanavale, foram os principais palcos de grandes combates durante a guerra civil, de 1975 a 1991. Neste último município ocorreu a histórica batalha de Cuito Cuanavale, ponto chave da virada da guerra em favor do MPLA.Leal, Marcelo Mesquita. A campanha Militar de Cuito Cuanavale (1987-1988): uma análise baseada na Teoria da Guerra de Clausewitz. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.
A UNITA manteve sua base clandestina nas redondezas da vila de Jamba do Cuando, que era protegido por armas anti-aéreas. A UNITA só abandonou completamente estes territórios no final de 2001, quando da ofensiva das Forças Armadas Angolanas.
Pós-guerras a atualidade Até 2024 conservou o nome de "Cuando-Cubango", quando parte de seu território foi cedido para formar a província de Cuando.
Geografia A província tem um tamanho comparável ao de países como Quirguistão ou Senegal. É limitada a norte pelas províncias do Bié e Moxico, a leste pela província de Moxico Leste, a sul pela República da Namíbia e a oeste pelas províncias do Cunene e Huíla.
Clima Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger, predomina no Cuando-Cubango o clima subtropical úmido (Cwa), enquanto o clima semiárido quente (BSh) é característico do extremo sul provincial.Clima: Cuando-Cubango. Climage-data.org. 2022.
Demografia thumb|200px|esquerda|Foz do rio Cuito no rio Cubango. A margem da foz corresponde ao território da província. A população desta província é a menos estudada das populações de Angola. A sua composição étnica básica foi estabelecida, embora de maneira algo preliminar, no fim da era colonial. José Redinha, Etnias e culturas de Angola, Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1975. Compõe-se majoritariamente dos grupos ganguelas, chócues e xindongas, e minoritariamente de ovambos e coissãs.Angola ethnic groups. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973. Nos grandes centros urbanos provinciais há frações de migrantes de hereros, nhaneca-humbes, ambundos e ovimbundos, e de origens miscigenadas, como luso-angolanos.
As suas características da província incluem as de ter um peso demográfico muito fraco e de consistir de grupos relativamente pequenos e dispersos, com uma notável mobilidade geográfica (que inclui a Namíbia, o Botsuana e a Zâmbia), e a frequente junção ou divisão destes grupos. Estas características mantiveram-se desde antes da ocupação colonial e continuam depois do acesso de Angola à independência.Maria Fisch, The Mbukushu in Angola (1730-2002): A history of migration, flight and royal rainmaking, Colónia: Rüdiger Köppe, 2005, ISBN 3-89645-350-5.
Ecologia, flora e fauna Domina a maior parte da paisagem da província, isto é, o centro, o norte e o oeste cubanguense, a ecorregião das "florestas de miombo angolanas",Angola Vegetation. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973. com flora de savana de folha larga decídua úmida e floresta com domínio de miombo, além de pastagens abertas. No extremo-leste e extremo-sudeste da província, ao longo das planícies alagadiças e vales dos rios Cuando e Cubango, predominam as "pastagens inundadas da Zambézia", com flora típica de pradarias, savanas e bosques de miombo e mopane sazonalmente inundados, além de manchas de pântano com vegetação de pastagem.Zambezian flooded savannas. Terrestrial Ecoregions. World Wildlife Fund. Na faixa sul predominam as "florestas Zambezianas de Baikiaea", com matagais e pastagens numa floresta decídua seca dominada pela árvore Baikiaea plurijuga.Chevalier, M & Cheddadi, Rachid & Chase, Brian. (2014). Chevalier et al 2014 CoP 10 CREST.
Sua imensa rede hidrográfica atrái uma enorme diversidade de fauna, podendo aí encontrar-se a palanca-negra-gigante, a palanca-vermelha, o elefante-da-savana, o rinoceronte-negro, o hipopótamo-comum, o leão-angolano, a hiena-malhada, o lobo-da-terra (ou protelo), a onça-africana, o búfalo-africano, o gato-bravo-de-patas-negras, a avestruz-de-pescoço-preto (ou avestruz do cabo), a girafa-do-cabo, a girafa-de-angola e outras aves e répteis variados. O destaque fica para a ave endémica francolim-de-listras-cinzentas (Francolinus griseostriatus).Endemic Birds of Angola, according to various taxonomies. The Birds of Angola.
Patrimônio natural A província de Cubango têm partes do seu território preservado por parques nacionais e reservas ambientais, principalmente localizadas no leste. Destaca-se o Parque Nacional do Luengue, que é uma das componentes da Área de Conservação Transfronteiriça Cubango-Zambeze.Ministra do Ambiente destaca importância da criação de novos parques. Portal Angop. 26 de outubro de 2011.
Hidrografia Os principais cursos d'água da província correm num sentido noroeste a sudeste baseando-se em duas principais bacias: a do Calaári, que têm como principal rio o Cubango, com afluentes importantes nos rios Cuchi, Cuebe, Cueio, Cuatir, Chissombo, Dungo, Cafuma, Caquene, Cafulo e Cuito; e a pequena fração da bacia do Cuvelai-Etosha, no sudoeste cubanguense, baseado principalmente no rio Cubati-Lupangue. Outros importantes reservatórios de água são os lagos Uamba Fuca, Lupango, Chivalela, Muonga, Machive, Lituto, Chieque, Muchova, Bezi-Bezi, Dinde, Caonda e Vinjunda, além de uma miríade de menores lagos e lagoas das planícies da bacia do Zambeze, ao leste.Marks, Shula E.. "Southern Africa". Encyclopædia Britannica, 30 Sep. 2020. Accessed 19 January 2022.
Relevo A província sofre influência do Planalto Central de Angola (ou Planalto do Bié) na sua formação fisiológica. Embora o território não esteja efetivamente neste planalto, está nas extensões deste, ou seja, nos altiplanos das Areias Húmidas e das Areias Secas e nas Escarpas do Bié. Conforme segue para o sul, o terreno vai ficando mais plano formando a Planície Arenosa do Cuíto-CubangoThe World Database on Protected Areas (WDPA). UNEP-WCMC/IUCN. 2018. (ou Planície das Terras do Fim do Mundo), terreno suscetível a alagamentos nas cheias dos rios.
Economia Agropecuária e extrativismo A província cubanguense produz para subsistência e para excedente, em lavoura temporária, o milho, o massango, a massambala, o feijão, a mandioca, amendoim, a batata doce, a cana-de-açúcar, a soja, o tabaco, o trigo, o vielo e as hortícolas. Já nas lavouras permanentes, encontra-se registo do café.
A pesca artesanal é outro meio de sustento para os habitantes da província, sendo realizada largamente no rio Cubango, e nos rios Cuito, Cuanavale, Longa, Cuatir e Cuando. O excedente da pesca é vendido majoritariamente para a Namíbia. No extrativismo vegetal, a província é a grande produtora e exportadora nacional de recursos madeireiros.
Na criação de animais, para carne, leite e peles, existem consideráveis rebanhos de pecuária de bovinos e de caprinos. Há também criação de galináceos para carne e ovos. Os rebanhos são destaque no município de Longa.
Indústria e mineração O grande parque industrial provincial está concentrado nas áreas próximas da cidade de Menongue, trabalhando com o beneficiamento agroindustrial de carnes e derivados de leites, além do semi-beneficiamento de frutas, ovos, óleos e produtos da terra. Outros itens produzidos são bebidas e alimentos secos, além de materiais de construção.