O tatu-canastra (nome científico: Priodontes maximus), também conhecido popularmente como canastra e tatuaçu, é a maior espécie viva de tatu (embora seus parentes extintos, os gliptodontes, fossem muito maiores). Vive na América do Sul cisandina, estendendo-se até o norte da Argentina. Esta espécie é considerada vulnerável à extinção, sobretudo pela caça e perda de seu habitat. Chega a medir mais de um metro de comprimento. Os tatus-canastra têm o corpo coberto por poucos pelos e patas anteriores dotadas de garras enormes, que auxiliam na escavação de buracos. Se alimentam de cupins, formigas e ocasionalmente insetos, aranhas, minhocas, larvas, cobras e carniça.

Etimologia

O nome popular "tatu" deriva do tupi ta'tu, em sentido definido. Foi registrado pela primeira vez em 1557 em alemão por Hans Staden como dattu e em francês por André Thevet como tatou. Depois, foi registrado como tatû em 1560, tatús em 1576, tactus em 1586 e finalmente tatu em 1592. "Tatuaçu", por sua vez, derivou de tatua'su, que significa "tatu grande". Foi registrado em 1587 como tatu-açu.

Descrição

O tatu-canastra é a maior espécie viva de tatu, com 11 a 13 bandas articuladas protegendo o corpo e mais três ou quatro no pescoço. Seu corpo é marrom escuro, com uma faixa amarelada mais clara correndo ao longo dos lados e uma cabeça pálida, amarelo-esbranquiçada. Tem cerca de 80 a 100 dentes, mais do que qualquer outro mamífero terrestre. Os dentes são todos semelhantes na aparência, sendo pré-molares e molares reduzidos, crescem constantemente ao longo da vida e carecem de esmalte. Também possui garras dianteiras extremamente longas, incluindo uma terceira garra em forma de foice de até 22 centímetros (8,7 polegadas) de comprimento, que são proporcionalmente as maiores de qualquer mamífero vivo. A cauda é coberta por pequenas escamas arredondadas e não possui placas ósseas pesadas que cobrem a parte superior do corpo e o topo da cabeça. O animal é quase inteiramente desprovido de pelos, com apenas alguns de cor bege projetando-se entre as escamas.

Os tatus-canastra pesam normalmente cerca de 18,7-32,5 quilos (41-72 libras) quando totalmente crescidos, no entanto, um espécime de 54 quilos (119 libras) foi pesado na natureza e os espécimes em cativeiro pesaram até 80 quilos (180 libras). Apesar de não haver medidas padrão às diferentes taxas etárias, o comprimento típico da espécie é de 75–100 centímetros (30–39 polegadas), Com a cauda adicionando outros 50 centímetros (20 polegadas). á dimorfismo sexual significativo entre machos e fêmeas, um estudo encontrou média de 44,4 quilos e 155,9 centímetros aos machos e 28 quilos e 137,74 centímetros às fêmeas, com as medidas de comprimento contando as caudas.

Distribuição e habitat

Os tatus-canastra são encontrados em grande parte do norte da América do Sul, a leste dos Andes, desde o noroeste da Venezuela e sul das Guianas (incluindo Guiana Francesa, Guiana e Suriname), até Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina, alcançando as províncias de Salta, Formosa, Chaco e Santiago del Estero. A espécie ocorre também no Brasil, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste. Houve registros no Rio Grande do Sul, mas estes foram sejam considerados enganosos, pois os três espécimes brasileiros do Museu Americano de História Natural (AMNH) não procedem desse estado.

No Brasil, a área de distribuição do tatu-canastra foi estimada em cerca de quilômetros quadrados, com base nos registros de ocorrência disponíveis, sendo ajustada conforme os limites biogeográficos, como rios e relevo, e conforme indicado por especialistas. Ocorre nos biomas da Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, com a maioria dos registros concentrados na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado. Há registros confirmados nos estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Maranhão, Tocantins, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e no oeste da Bahia. Em termos hidrográficos, está presente nas bacias do Araguaia, do Doce, da foz do Amazonas, do Gurupi, do Jequitinhonha, do litoral do Amapá, do Madeira, do Mearim, do Negro, do Paraguai 01, 02 e 03, do Paranaíba, do Paraná RH1, do Alto Parnaíba, do Paru, do Purus, do Solimões, do Alto e Médio São Francisco, do Tapajós, do Alto e Baixo Tocantins, do Trombetas e do Xingu.

A distribuição atual da espécie provavelmente é mais restrita do que sua área histórica de ocorrência. Originalmente, era encontrado em quase todo o território brasileiro, com exceção de alguns estados do Nordeste, como Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, onde não há registros confirmados. No sul do país, sua presença foi severamente reduzida, estando atualmente extinto no Paraná e restrito a poucas localidades no Sudeste. No estado de São Paulo, é considerado provavelmente extinto, e no Espírito Santo está em risco iminente de extinção. Na Mata Atlântica, sua ocorrência é rara. Registros recentes indicam sua presença apenas em grandes remanescentes florestais de Minas Gerais, como no Parque Estadual do Rio Doce, e do Espírito Santo, como na Reserva Natural da Vale. A escassez de registros, tanto históricos quanto atuais, sugere que nunca foi abundante na Mata Atlântica, embora ainda seja necessário investigar outros remanescentes que possam abrigar populações remanescentes. No Pantanal, o tatu-canastra é encontrado em regiões como a Nhecolândia, a bacia do Alto Paraguai, a bacia do Negro, o Pantanal norte e áreas mais montanhosas, como a Serra do Amolar, e no Pantanal do Paraguai.

Habitat

miniaturadaimagem|esquerda|upright=1.1|Indivíduo avistado andando na grama

O tatu-canastra habita uma variedade de ambientes, incluindo florestas tropicais e subtropicais, áreas de cerrado, regiões mais secas e planícies de inundação. No Brasil Central, a espécie demonstra preferência pelo Cerrado, utilizando formações como matas e campos úmidos em menor proporção, especialmente para alimentação. Em determinadas regiões, como no Mato Grosso, já foi registrada sua ocorrência em cerrado stricto sensu, estando ausente de matas ciliares e florestas dominadas por palmeiras. No Parque Nacional das Emas, os indivíduos mostram forte preferência por habitats abertos, como campos, cerrados abertos, pastagens e bordas de várzeas. Já no Pantanal da Nhecolândia, escava tocas e se alimenta tanto em florestas estacionais semideciduais quanto em fragmentos naturais de savana, conhecidos localmente como murundus. Nessa mesma região, adultos utilizam uma maior variedade de formações vegetais, enquanto subadultos tendem a restringir-se a áreas florestais para descanso e forrageamento. A espécie também ocorre em ambientes menos típicos, como florestas de tabocas no sul do Amazonas, e não depende exclusivamente de habitats primários.

No entorno de áreas protegidas, como o Parque Nacional das Emas, já foi observado o uso de paisagens alteradas, incluindo plantações e pastagens, seja para deslocamento ou como parte da área de vida. No entanto, evidências como escavações e fezes são raramente encontradas a mais de 100 metros de vegetação nativa. No Pantanal, áreas de pasto e campo aberto são utilizadas principalmente por indivíduos maiores, servindo como rotas de passagem, mas não como fontes de recursos. A espécie é capaz de atravessar áreas alagadas durante a estação cheia, o que demonstra sua habilidade para nadar e tolerância a ambientes sazonalmente inundáveis. Apesar dessa adaptação, queimadas representam uma ameaça relevante. Há registros de indivíduos mortos em decorrência do fogo, incluindo casos em que a perda total da área de vida por incêndios levou à deterioração física e morte de animais monitorados. Ainda assim, há observações que indicam que o tatu-canastra pode forragear em áreas queimadas com frequência semelhante às não queimadas, o que sugere que o fogo pode não afetar diretamente a disponibilidade de presas. No entanto, são necessários estudos adicionais para uma avaliação mais precisa dos impactos do fogo sobre o uso do habitat pela espécie.

Ecologia

miniaturadaimagem|esquerda|upright=1.1|Ossos de tatu-canastra e de tatupeba no Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido

O tatu-canastra geralmente prefere se deslocar por áreas de vegetação densa. No entanto, registros de monitoramento por radiotelemetria indicam que a espécie é capaz de atravessar áreas abertas: dois indivíduos foram observados cruzando uma vazante com mais de 1 km de extensão, sendo que um deles realizou a travessia diversas vezes durante a estação de cheia. Esses dados demonstram que o tatu-canastra é capaz de nadar e que inundações não constituem uma barreira física significativa para seus deslocamentos ou para o uso de sua área de vida. Estimativas da área de vida variam conforme a região: no Cerrado brasileiro, registros indicam áreas mínimas de 726,5 hectares no Parque Nacional da Serra da Canastra e cerca de mil hectares no Parque Nacional das Emas. No Chaco boliviano, a área de vida estimada foi de hectares, enquanto no Pantanal brasileiro (Pantanal da Nhecolândia) a área de vida calculada para indivíduos monitorados por telemetria foi de aproximadamente hectares. O deslocamento diário mediano dos adultos nessa área foi de cerca de metros, sendo que a área de vida tende a aumentar em função do deslocamento diário, que por sua vez está relacionado à massa corporal do animal. A densidade mínima observada nessa localidade foi de aproximadamente 7,65 indivíduos por 100 quilômetros quadrados. A sobreposição da área de vida entre pares é baixa (4%), com fêmeas adultas apresentando áreas exclusivas, evidenciando comportamento territorial e hábito solitário da espécie. A maior parte da sobreposição ocorre devido à passagem de machos adultos por áreas ocupadas por fêmeas em baixa densidade. O percurso diário pode ultrapassar três quilômetros, com registros de machos percorrendo mais de 7 quilômetros em uma única noite, incluindo travessias por campos abertos.

O estilo de vida subterrâneo e crepuscular da espécie dificulta seu estudo tanto na natureza quanto em cativeiro, de modo que ainda se sabe pouco sobre sua ecologia natural e comportamento. Um estudo de longo prazo iniciado em 2003 na Amazônia peruana revelou que dezenas de outras espécies de mamíferos, répteis e aves utilizam as tocas do tatu-canastra no mesmo dia, incluindo o raro cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis). Essas tocas funcionam como um microbioma temporário, apresentando maior cobertura de matéria orgânica no solo, umidade elevada e menor variação térmica em comparação com o ambiente externo, além de influenciarem na dinâmica de patógenos entre os animais que as compartilham. Por essas razões, o tatu-canastra é considerado um engenheiro de habitat, cuja extinção local pode desencadear efeitos em cascata na comunidade de mamíferos ao empobrecer o habitat fossorial. Além disso, a espécie já foi considerada importante no controle de populações de cortadores de folhas, que podem comprometer plantações, embora o próprio tatu-canastra também possa causar danos ao cavar o solo.

Noturnidade

upright=1.1|miniaturadaimagem|Indivíduo avistado em câmera noturna