Étienne de La Boétie, eventualmente também referido como Estienne de La Boétie (Sarlat-la-Canéda, – Germignan, comuna de Taillan-Médoc, ) foi um humanista e filósofo francês,Newman; Saul. "Voluntary Servitude Reconsidered: Radical Politics and the Problem of Self-Domination" contemporâneo e amigo de Michel de MontaigneRothbard, Murray, Ending Tyranny Without Violence (este que em seu ensaio "Sobre a Amizade" faz uma homenagem a La Boétie).Zahi Anbra Zalloua, Montaigne and the Ethics of Skepticism, Página 100, Rookwood Press, 2005, ISBN 1886365563 - 191 páginas. Poucos anos antes de morrer, aos 32 anos, Étienne de La Boétie deixou em testamento seus escritos a Montaigne, o qual, mais tarde, destacou os méritos nos Ensaios e em várias cartas, apontando este autor como um importante homem daquele século. Discurso da servidão voluntaria, Sinopse, Brasiliense, 1982, ISBN 8572325557 - 239 páginas.
Traduções de obras clássicas greco-romanas eram comuns entre os studia humanitatis, Rabelo, Sebastião Augusto; Análise do DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA DE ÉTIENNE DE LA BOÉTIE, Página 5. por isso entre os trabalhos de Étienne de La Boétie estão as traduções do grego para o francês de obras de Xenofonte e PlutarcoGuillaume Debure II & Jean-Luc Nyon III, Catalogue des livres de la Bibliothèque de feu M. le duc de La Vallière, Volume 6, Página 39, chez Guillaume de Bure fils aîné, 1788. — Étienne escreveu também algumas obras originais, a sua obra mais famosa é seu Discurso da Servidão Voluntária,Ronald Hamowy, The Encyclopedia of Libertarianism, Página 315, SAGE Publications, 2008, ISBN 1452266042 - 664 páginas. escrita no século XVI, depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal. A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade? Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se à vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 4, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004. Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Páginas 6-7, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004. Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência — segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.
Discurso sobre a Servidão Voluntária O Discurso da Servidão Voluntária, escrito em 1548 quando La Boétie tinha 18 anos, é uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados por ele de “tiranos”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 3, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 La Boétie explica de que maneira os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la;Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, páginas 12 e 13, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 21, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 No entanto, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 24, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus cortesãos, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, páginas 24-25, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 26, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesão, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos ao tirano, estão afastados dessa liberdade. O autor quer levar seus leitores a refletir sobre uma questão que está na base da política: o motivo que leva as pessoas a obedecerem.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, páginas 3-4, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Concretamente, o que está por trás dessa questão é entender a causa que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade, já que, para obtê-la, o homem precisa apenas desejá-la.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página7, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Assim, a servidão voluntária, em La Boétie, se refere à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 12, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Para ele, é possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para reconquistá-la.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, páginas 5-6, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 No livro, são descritos três tipos de tiranos: os que chegam ao poder pela eleição do povo, pela força ou pela sucessão de raça.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 11, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecê-lo mesmo quando prejudicadas por ele. O autor defende ainda a igualdade de todos os homens na dimensão políticaːEtienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 1, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 “Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, páginas 8-9, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004
Razões da servidão voluntária La Boétie enumera três razões que levam o homem à servidão voluntária: A primeira é ter nascido na servidão: O autor afirma que, embora a natureza tenha uma grande força sobre nós, muito mais forte do que ela é o costume. Portanto, “os homens são o que a educação faz de cada um”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 13, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Em outras palavras, o autor descreve: “Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver como nasceram, nunca pensam ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como natural o estado que acharam à nascença”. A segunda razão é tornar-se “covarde e efeminado”Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 17, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 sob a tirania ou mistificar a figura do líder: La Boétie diz que “com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia [...]. Perdem também a energia em todo o resto, têm o coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações. Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, fazem tudo para piorá-lo”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 18, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Por isso, seduzem os povos através de jogos, de maneira que, “assim ludibriados [...], divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual [...] à das crianças [...]”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 19, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 Além disso, o povo, por não ter acesso ao soberano, cria um “mistério” em torno da sua figura que o faz respeitá-lo sem nunca tê-lo visto. Por isso, o autor acha estranho os súditos se encherem de respeito e de veneração pelos tiranos, como se estivessem sob “o efeito de um encanto ou magiaLA BOÉTIE, Étienne. Discurso sobre a servidão voluntária. Tradução de J. Cretella Jr. e Agnes Cretella. p. 68, nota 9. 2ª ed. rev. da tradução. São Paulo: Revista dos Tribunais (RT textos fundamentais; v. 8), 2009 ISBN 978-85-203-3456-0 (volume 8) ”, pois na verdade, “era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente acreditava”.Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 22, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 A última, e talvez a mais importante razão, é a própria estrutura do poder, na qual “o tirano submete uns por intermédio dos outros”:Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, página 25, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004 “Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão. Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros das suas lascívias e com ele beneficiários das rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros. Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano [...]”.