O Massacre da Noite de São Bartolomeu, ou a Noite de São Bartolomeu, foi um episódio da repressão ao protestantismo na França, engendrado pelos reis franceses católicos. Esses assassinatos aconteceram em 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre cinco mil a trinta mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.Armstrong, Alastair (2003), France 1500-1715, Heinemann, pp. 70-71 Perry, Sheila (1997), Aspects of Contemporary France, p. 5, Routledge, , Um grupo direcionado de assassinatos e uma onda de violência de turbas católicas dirigida contra os Huguenotes (protestantes calvinistas franceses) durante as Guerras Religiosas na França, usualmente acredita-se ter sido instigado pela Rainha Catarina de Médici, mãe do Rei Carlos IX, o massacre começou poucos dias após o casamento, em 18 de agosto, da irmã do rei, Margarida de Valois, com o rei protestante Henrique III de Navarra. Muitos dos huguenotes mais ricos e proeminentes haviam se reunido em Paris, cidade maioritariamente católica, para comparecer ao casamento.
O massacre começou na noite de 23 para 24 de agosto de 1572, véspera da Festa de São Bartolomeu, o Apóstolo, dois dias após a tentativa de assassinato do Almirante Gaspard de Coligny, o líder militar e político dos huguenotes. O Rei Carlos IX ordenou a matança de um grupo de líderes huguenotes, incluindo Coligny, e o massacre espalhou-se por toda Paris. Durando várias semanas no total, o massacre expandiu-se para o interior e outros centros urbanos. Estimativas modernas para o número de mortos em toda a França variam amplamente, de 5.000 a 30.000.
O massacre marcou um ponto de virada nas Guerras Religiosas na França. O movimento político huguenote foi paralisado pela perda de muitos de seus proeminentes líderes aristocráticos, e muitos membros comuns converteram-se subsequentemente. Aqueles que permaneceram tornaram-se cada vez mais radicalizados. Embora de forma alguma único, o derramamento de sangue "foi o pior dos massacres religiosos do século". Em toda a Europa, ele "imprimiu nas mentes protestantes a convicção indelével de que o catolicismo era uma religião sangrenta e traiçoeira".
Histórico thumb|300px|esquerda|Preparação para a noite de São BartolomeuPor Karl Fedorovich Gun As matanças foram organizadas e começaram em 24 de agosto de 1572, durando vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas. Números precisos para as vítimas nunca foram compilados, e até mesmo nos escritos de historiadores modernos há uma escala considerável de diferença,Armstrong, Alastair (2003), France 1500-1715, Heinemann, pp. 70-71 que tem variado duas mil vítimas por um apologista católico, até a afirmação de setenta mil, pelo contemporâneo apologista huguenote duque de Sully, que escapou por pouco da morte.Saint Bartholomew’s Day, Massacre of (2008) Encyclopaedia Britannia Deluxe Edition, Chicago;
Este massacre veio dez anos depois do Édito de Saint-Germain, pelo qual Catarina de Médici tinha oferecido trégua aos protestantes.
Em 1572, quatro incidentes inter-relacionados têm lugar após o casamento real de Margarida de Valois, irmã do rei da França, com Henrique III de Navarra, chefe da dinastia dos huguenotes, numa aliança que supostamente deveria acalmar as hostilidades entre protestantes e católicos romanos, e fortalecer as aspirações ao trono de Henrique III de Navarra. Em 22 de agosto, um católico chamado Maurevert e agente de Catarina de Médici, mãe do então rei da França, Carlos IX de França, que tinha apenas 22 anos e não detinha verdadeiramente o controle, invadiu de madrugada a casa do almirante Gaspar II de Coligny, líder huguenote de Paris, e o assassinou, o que enfureceu os protestantes.
Nas primeiras horas da madrugada de 24 de agosto, no dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real.Holt, Mack P. (2005). The French Wars of Religion 1562-1626, Cambridge University Press. Books
thumb|300px|Uma manhã perto dos portões do LouvrePor Édouard Debat-Ponsan
Este foi início de um massacre mais vasto, apesar de o rei ter enviado mensageiros às províncias para manter os termos do tratado de 1570.Holt (2005 ed.), p. 91 Começando em 24 de agosto e durando até outubro, houve uma onda organizada de assassínios de huguenotes em doze cidades francesas, como Toulouse, Bordéus, Lyon, Bourges, Ruão e Orleães.
Relatos da quantidade de cadáveres arremessados nos rios afirmam uma visível contaminação, de modo que ninguém comia peixe, pelas condições insalubres do local.
Não foi o primeiro nem o último ataque massivo aos protestantes franceses, mas foi o pior dos massacres religiosos do século.H. G. Koenigsberger, George L. Mosse, G. Q. Bowler (1999), Europe in the Sixteenth Century, Second Edition, Longman Por toda a Europa, imprimiu-se nas mentes protestantes a indelével convicção que o catolicismo era uma religião sanguinária e traiçoeira. & Evans, G. R. (1987), Atlas of the Christian Church, Macmillian, London, hardback, p. 113
O historiador Claude Manschrek traz o relato de um contemporâneo da seguinte maneira: "As ruas estavam cobertas de corpos mortos, os rios ficaram manchados, as portas e os portões do palácio respingados com sangue. Carroças carregadas de cadáveres, homens, mulheres, garotas e até mesmo crianças eram jogadas no Sena, enquanto que torrentes de sangue corriam em muitas áreas da cidade (...) Uma menininha foi banhada no sangue de seus pais assassinados e ameaçada com o mesmo destino caso viesse um dia tornar-se huguenote”
Reações ao massacre thumb|300px|esquerda|Medalha de Gregório XIII thumb|300pxO corpo de Gaspar II de Coligny aparece no canto superior esquerdo, ao ser lançado de uma janela.Afresco de Giorgio Vasari Os políticos ficaram horrorizados, mas diversos católicos dentro e fora da França consideraram os massacres, ao menos inicialmente, o lavamento de um iminente golpe de estado huguenote. A cabeça cortada de Coligny foi aparentemente enviada ao papa Gregório XIII, apesar de não ter ido mais longe do que Lyon, e o papa Gregório XIII enviou ao rei a condecoração da Rosa de Ouro. (1969, ninth ed.), A History of Europe: Volume One, Fontana Press, London, p. 581 O papa encomendou um Te Deum para ser cantado em ação de graças (uma prática que persistiu em anos seguintes) e uma medalha foi cunhada com a frase Ugonottorum strages 1572 mostrando um anjo empunhando uma cruz e uma espada perto dos protestantes mortos.Lindberg, Carter (1996), The European Reformations Blackwell, p. 295
Surgiram importantes obras de pensadores huguenotes monarcômacos franceses, que combatiam o absolutismo monárquico, dentre essas merecem maior destaque: Franco-Gallia (1573) de François HotmanThe French Wars of Religion 1559-1598, em inglês, acesso em 24 de fevereiro de 2010. Du droit des magistrats (Direito dos Magistrados sobre seus Súditos - 1574) de Théodore de Bèze Vindiciae contra tyrannos (Protesto ou Revide contra os Tiranos - 1579) de Philippe du Plessis-Mornay e Hubert LanguetO DIREITO DE RESISTÊNCIA E O TIRANICÍDIO NO CALVINISMO, disponível na internet, acesso em 24 de fevereiro de 2020
Na literatura e na dramaturgia A história foi relatada por Alexandre Dumas em sua obra A Rainha Margot, um romance de 1845, historicamente acurado, apesar de Dumas ter inserido tons de romantismo e aventuras em seu texto. O romance de Dumas foi adaptado ao cinema em 1994, em A Rainha Margot, de Patrice Chéreau.
O massacre já tinha sido representado no cinema por D. W. Griffith no filme mudo Intolerance ("Intolerância"), de 1916.
Também contada pelo escritor Michel Zevaco (autor francês, nasceu em Ajaccio, em 1860 na mesma cidade de Napoleão Bonaparte cem anos depois, conhecedor profundo da Historia Francesa Medieval e Renascentista) no romance inicial Os Pardaillans, onde ele era mestre em ficção dentro da realidade.
Para os espíritas o massacre é relatado com destaque em três obras: A Noite de São Bartolomeu,A Noite de São Bartolomeu, romance de J. W. Rochester/Wera Krijanowsky, editora Boa Nova, . Ecos de São BartolomeuEcos de São Bartolomeu, livro biográfico de Luiz Antônio Millecco Filho, editora Lachâtre, e Nas Voragens do Pecado. Allan Kardec traz o artigo Os Gritos da Noite de São Bartolomeu na Revista Espírita de setembro de 1858 sobre o tema.
Recentemente, este massacre e outros episódios sobre as guerras entre católicos e protestantes, está ricamente narrada no romance do autor inglês Ken Follet, A Column of Fire ("Coluna de Fogo)", 2017.A Column of Fire ("Coluna de Fogo)", 2017.
O episódio do massacre também é retratado na série inglesa Doctor Who - Arco 022 - The Massacre - transmitido entre 5 e 26 de fevereiro de 1966.
Ver também Liga católica Liga Santa
Bibliografia
Butterfield, Herbert, Man on his Past, Cambridge University Press, 1955, Chapter VI, Lord Acton and the Massacre of St Bartholomew Denis Crouzet : Les Guerriers de Dieu. La violence au temps des troubles de religion vers 1525-vers 1610, Champvallon, 1990 (), La Nuit de la Saint-Barthélemy. Un rêve perdu de la Renaissance, Fayard, coll. « Chroniques », 1994 () ; Jean-Louis Bourgeon : L'assassinat de Coligny, Genève, Droz, 1992. Charles IX devant la Saint-Barthélemy, Droz, coll. Travaux d'histoire éthico-politique, 1995 () ; Janine Garrisson, 1572 : la Saint-Barthélemy, Complexe, 2000 (). (em francês) Google books Lincoln, Bruce, Discourse and the Construction of Society: Comparative Studies of Myth, Ritual, and Classification, Oxford University Press US, 1989, , Google Books
Ligações externas
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